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Uma leve brisa

Giordana Bonifácio

Sinto o vento em meu rosto. E penso que a aflição que me atinge vai passar. Mesmo que não seja hoje, mas algum dia, eu sei que devo achar uma solução para os meus problemas. O difícil é permanecer forte frente à tormenta. A leve brisa ainda me traz recordações de um passado distante que gostaria que voltasse. Mas parece que a vida é uma rua de mão única. Nada pode ser revivido senão como simples lembrança. Eu que vivo insistindo numa nota só. Não se pode criar sinfonias assim. É necessário uma série de outras notas e um tanto de inspiração também. O problema é que nada tem me inspirado nestes dias. Deve ser devido às preocupações que me assaltam. Se houver saída, meu Deus, por favor, mostre-me o caminho que devo seguir. Sinto-me num labirinto de dúvidas. Queria que alguém segurasse minha mão, pois estou com medo. Não quero parecer covarde frente à vida. Mas não posso mentir que agora estou apavorada, pois há terríveis monstros que me rondam. Eu sei que sempre fui muito corajosa. E outrora era dada a encontrar soluções para os mais intricados problemas. Ocorre que, quando adulta, perdi muitas das minhas qualidades de criança. Ficaram para trás minha coragem e esperança. Meu otimismo foi transformado em um terrível pessimismo ante aos acontecimentos. Os fatos me controlam e eu sou mais uma vítima das circunstâncias. Ainda posso chorar no travesseiro à noite, engolindo os soluços e mitigando com a fronha meu desespero. Vou expressar assim a minha dor. Esse infinito vazio, um universo dentro de mim. Mesmo vazio ele contém todas as coisas que existem. Estranho, não é? Viver dentro do nada que contém tudo. Acho bastante estranho sabermos tantas coisas e nem nos aproximarmos de entender qual a origem da nossa existência. Creditam a uma grande explosão os primórdios de nosso universo. Será verdade? O que é a verdade? Seria apenas um postulado que pela experimentação se tornou verdadeiro? Tentaram recompor as condições que presumiram existir no início de tudo. Assim, chegaram a uma partícula ínfima a qual denominaram a partícula de Deus. E se Deus não tiver nada a ver conosco? “E se Deus não existisse? Seria preciso inventá-lo?”

Não sei se devemos chegar ao início, pois a vida, como disse, é uma via de mão única. Apesar de certos cientistas pregarem ser possível a viagem no tempo, ainda não foi possível comprovar tais teorias. Mas bem que gostaria de rever o passado e, quem sabe, transformá-lo num período mais feliz. O futuro seria minha segunda opção, para ter certeza que os esforços hoje envidados, levar-me-ão ao destino que almejo. Essas são dúvidas que assaltam toda a humanidade. O passado e o futuro são grandes incógnitas para os homens. Gostaria podermos controlá-los. Mas o tiquetaquear do relógio é impossível de ser domado. Não se pode simplesmente arrastar seus ponteiros e pensar que assim se pode voltar ao ontem ou chegar ao amanhã. Seria incrível se tudo fosse tão simples. Mas nada é como desejamos. Eu sou exemplo marcante disto. Nada ocorre segundo minha vontade. Na verdade, sou eu que vivo procurando um meio de adequar-me à feia realidade. Se o real fosse bonito, não seriam necessários os sonhos para embelezá-lo. Por isso, vou imprimindo fantasias ao meu mundo. É um derradeiro esforço para que me seja mais suportável viver. Uma avalanche de ilusões vez em quando me invadem, de modo que não consigo sair do meu estranho universo. Muito perigoso este jogo de viver nas fantasias o que não se tem na realidade. Mesmo sabendo dos riscos, tomo isso por desafio. Acho que nós, homens, vivemos uma história muito doida, sem início ou fim. Só um interminável meio, cujas razões desconhecemos. Por que viver? Por que nos é essencial viver? Qual a razão de temermos um fim que desconhecemos? Se pouco sabemos também do início? Dizem estar tudo premeditado. Tudo que fazemos é por Deus esperado. O livre arbítrio é a nossa única salvaguarda. Poderíamos escolher o outro caminho, mas não o fazemos. Por quê? Sei menos de mim que do mundo. Acho que aos perigos do mundo conheço bem. É a mim que não entendo, às minhas idiossincrasias, ao meu cotidiano que construí sobre frágeis bases. Dentro em breve tudo desmoronará. Serei vítima de mim mesma.

Nesse redemoinho de sentimentos, ainda é possível alguma razão? Resta-me algum traço de humanidade? Até agora fui guiada por meus fortes instintos. Aqueles que dominam meu coração. Talvez, não seja ele o dominado, e sim, senhor. Sou serva de um órgão selvagem e sem noção de sua força. Ele já me colocou em situações deveras constrangedoras. Mas estamos quites, pois também o cobri de profundas e dolorosas feridas. Acho que disputamos os domínios de meu corpo, a quem meus demais órgãos devem obedecer. O mais incrível é que ele está me vencendo. Saqueia minhas memórias, engana meus sentidos, assim me vence de maneira incontestável. Mas a guerra civil em meu corpo não terminou ainda. Tenho planos infalíveis para vencer esta contenda. Não vou ser derrotada sem muito lutar. O problema que sou alvo de guerras intestinas e externas. Fora de mim, a realidade ataca-me traiçoeira. Meu império não sucumbirá como o Império Romano. Não sem nunca conhecer seu apogeu. Há ainda muito a ser vivido. Mesmo que viver condene-me à dor. A vida dói em mim. Sofro a cada dia só pelo fato de estar viva. O que sou não é nada do que queria ser. Sou profundamente diferente da imagem que as pessoas têm de mim. Eu queria ser o avesso do que sou, mas não seria eu, pois há algumas imagens que se fixam em mim. Certas coisas que faço da mesma maneira todos os dias, como um transtorno obsessivo compulsivo. Tenho horários fixos para tudo e odeio infringir a rotina a que me obriguei. É um certo grau de loucura, admito, mas só me é possível viver assim. Porque de tal forma deixo os medos longe de mim. As questões que me preocupam são banidas das fronteiras da minha mente. Fico livre do mundo por poucos minutos. Nada pode atingir-me quando estou dentro deste potente escudo. Não há mágoas ferinas e pontiagudas a transpassar-me o coração, nem lembranças tristes a pesarem sobre ele.

Serei muito mais forte um dia. Espero não ter que esperar muito por isso. Talvez os sonhos sejam apenas amostras de uma vida que nunca teremos. Eu queria ser mais do que este minúsculo ser. Mas acho que nasci para ser pequenina, uma simples brisa que passa pela vida sem que ninguém note. Algo de que possam se desfazer facilmente. Sem razão para ser considerada sequer importante. Ninguém me julga mais do que eu. E creio que estou certa quando me conceituo assim. É que, com relação a mim, sei ser realista e excessivamente pessimista. Não vislumbro saída desta prisão: da minha amarga visão da vida e da patética imagem da qual me custa deveras me livrar. Queria sentir só por um segundo que não sou mais eu, este corpo, esta alma que está em mim. Quero ser diferente, tenho de ser diferente. Não posso ser assim. Não quero ser assim. Mas é impossível desfazer-se de si mesmo. Sempre guardamos um pouco do que somos, não importa as máscaras que usemos. Não podemos fugir da nossa essência, pois o lobo é sempre lobo apesar da pele de cordeiro. Nesses dias em que somente a brisa pode levar para longe toda dor, talvez entenda melhor as dúvidas que ainda perseveram em minha existência. Sei que não vivo, somente sobrevivo. A vida exige muito de mim, ou posso ser eu. Eu que quero arrancar tudo do que sou. Mesmo sem saber o que sou ainda. Posso ser um misto de pavor e inquietação, como uma alma sedenta de algo que não sabe muito bem o que é. Queria aplacar essa necessidade de ser algo e contentar-me em ser apenas o nada que agora sou. Eis o mistério da brisa do fim de tarde: fazer as divagações flutuarem indefinidas. Sem saber onde queremos chegar enfim, mesmo com tantas dificuldades, não são elas o tema de nossa dor. Na verdade, sonhamos acordados até o sol desaparecer por completo deixando para trás sua calda carmim. Foi-se o dia, chegou a noite, foram-se os sonhos e somente a dor é o que me resta.

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