Arquivo do mês: janeiro 2013

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A tragédia de Santa Maria

Giordana Bonifácio

Quando acontecem tragédias como a de Santa Maria é que as autoridades param para repensar o que poderia ter sido feito para evitar o desastre. No fim, descobre-se que foi uma soma de erros que, com um pouco de bom senso e moral, não aconteceriam. Na boate Kiss não foi diferente: uma multidão de duas mil pessoas aglomerava-se num espaço com capacidade para apenas mil. Isso demonstra o profundo descaso dos donos da boate com as vidas postas em suas mãos. Pois, é certo que quando qualquer um se propõe a realizar um evento destes tem de compreender que as pessoas que a este comparecerão estão colocando sua segurança sob a tutela dos donos da casa de shows; outro fato escandaloso e reprovável foi os seguranças impedirem a saída da multidão enlouquecida a fim de evitar prejuízos à boate, ao invés de pensar nas vítimas aterrorizadas, levaram a lógica capitalista ao seu ponto mais terrível, quando ela desvaloriza a vida em função do dinheiro; outro erro foi de a saída ser deveras pequena para todos saírem a tempo e a salvo; e, ainda, a banda que se apresentava num local fechado não poderia ter feito um show pirotécnico sem autorização e supervisão dos bombeiros. Todos esses fatores somados provocaram a morte de 245 pessoas e outras várias feridas. Porém, a mais assombrosa foi mesmo a exigência de pagamento pelos seguranças que barrava a saída das vítimas. Em função disso uma montanha de corpos se formou próximo à entrada da boate. Os bombeiros disseram que não conseguiam chegar ao fundo da casa de shows em função dos inúmeros corpos, pessoas que foram asfixiadas pela fumaça do incêndio. Mesmo com a ação rápida dos bombeiros não foi possível dirimir a tragédia. Ocorre que se deveria, desde o início, atentar para os fatores apresentados. Pois só assim não haveria tal contingente de corpos, na maioria de jovens estudantes que não imaginava que perderia a vida de forma tão dramática. É de se imaginar o desespero das pessoas vendo a iminência da morte sem poder fazer absolutamente nada para evitar. Já que a única saída possível estava fechada por seguranças truculentos numa atitude inaceitável.

Resta aos pais somente irem recolher o corpo sem vida de seus filhos. Estudantes que sonhavam com um futuro que nunca chegará. Filas imensas se formam frente ao ginásio usado para o reconhecimento das vítimas. Enquanto isso, na imaginação de seus pais, ainda há uma esperança de seu filho não estar entre os mortos, mas provavelmente ferido em algum dos hospitais da região. Só que o destino é inexorável. Eis que avistam o corpo daquele garoto a quem viram crescer e se tornar um rapaz, sempre bonito arrumado para as gatinhas. Agora jaz ali, o que restou de seu menino. Aquele mesmo com quem o pai ralhou por ter quebrado a vidraça do vizinho, aquele mesmo que lambia a vasilha em que foi feito o bolo. E a mãe daquela bela jovem que marcou para a filha voltar às duas horas da manhã e ela não apareceu. Primeiro, ficou nervosa pela quebra da promessa da garota. Mas ao saber da tragédia, desmoronou. Não encontrou a filha em nenhum dos hospitais. Não queria procurar entre os mortos, pois tinha de alimentar uma esperança infundada que a encontraria apenas ferida. Então, vê ali o corpo da filha com a maquiagem borrada, frio, duro sem aquela aura alegre que sua menina costumava ter. E eles pensam: está tudo acabado. Não sabem como se reerguer após este evento horrível. Sentem uma dor incomensurável.  O governo disponibiliza, então, psicólogos para ajudar a mitigar a dor dos familiares. Mas é pouco. O que deveria ter sido feito, não o foi. Agora, não há como aplacar a dor do descaso, a dor da intolerância, a dor da falta de solidariedade e a dor da morte. Sentados acariciam a cabeça daqueles garoto e garota que lhe deram tantas preocupações e alegrias. Pedem desculpa por não os terem protegido como haviam prometido quando nasceram. Disseram que nada de mal lhes aconteceria. Porém, num simples momento de descuido, a morte ceifou a vida de suas crianças sem poderem ter feito nada para evitar. Agora vão recolher os cacos que não podem ser consertados. É o fim.

E nesse momento, o mundo solidariza-se com as vítimas da tragédia. Os jornais noticiam tudo a respeito para manter todos bem informados da situação. Contudo, o que os espectadores podem fazer senão lamentar e rezar pelos que se foram? Talvez aprendam a lição para que não voltem a ocorrer casos como este, com tantos mortos e feridos. As pessoas, compadecidas, correm para os hospitais a fim de aumentar as doações de sangue para as vítimas. Faz-se o máximo possível a uma sociedade sem ação. Por quê? Porque já é muito tarde. E os mortos não ressuscitarão. Talvez por um milagre como o que ocorreu com Lázaro. Mas já não é tempo de milagres. É tempo de dor e comiseração para com os que hoje choram e precisam de apoio para superar a angústia. Já os que faltaram com a segurança, devem ser punidos. Pois a massa de mortos amontoados na saída da boate só clama por justiça. É necessário atribuir à culpa desse crime vergonhoso aos seus causadores. Imprimir sobre seu nefasto descaso o peso da lei. Para evitar que se repita a cena que hoje não sai das televisões do mundo. As pessoas enlouquecidas tentam encontrar com vida seus rebentos, que faleceram do modo mais banal: em função da ganância dos donos da boate que lhes impediram a saída rápida do local do incêndio. Gente que não é mais gente, são corpos, mas não apenas corpos, são corpos amontoados. Asfixiados pelo capital, mortos pela negligência. O que pode ser feito? Chorar por tantas vítimas inocentes, que deveriam se divertir num show e foram asfixiadas, pisoteadas e queimadas num incêndio que poderia ser evitado por ações simples de prevenção. Agora, as vozes embargadas pela dor perguntam por seus filhos. E seus filhos já não podem ouvir seus apelos. Já não podem responder às suas súplicas. Amontoam-se depois da fuga desesperada. Não havia como sair. Não havia como escapar. Então sua única alternativa foi falecer. O silêncio tomou conta do ar já impregnado de gás carbônico. Não podem mais pedir ajuda. Não gritam apavorados. Aceitaram a morte tal qual aceitaram a vida: sem escolha.

Imagina o que estas pessoas pensaram antes de morrer. Muitas devem ter pensado na dor da família, outras devem ter lamentado pelos sonhos que não concretizariam, e, ainda, há aquelas que pensaram em Deus e clamaram por sua misericórdia ao morrer. Choraram quando se deram conta que não poderiam fugir e que o ar escapava de seus pulmões intoxicados. Pediram por mais alguns minutos de vida que não lhes foram concedidos. Foram caindo, não havia mais dor em seus corpos, agora estavam livres de sua condição humana. Talvez agora estejam compadecidos da dor de suas famílias, querendo auxiliá-los, ao seu lado, sem poder nada fazer. E aquele dia que deveria ser uma data feliz, acabou se tornando o dia de uma das maiores tragédias do país. Os pais vagam sem direção, desnorteados pela dura realidade. Não poderiam mais aconselhar seus filhos a não irem para o show. Não poderiam mais impedir que eles fossem. Só restam cinzas e pó e famílias marcadas para sempre com esta dor. O que há de ser feito? Somente prevenir que outros não morram em desastres desta proporção. O maior crime é o descaso. A vida humana é muito valiosa para ser perdida em função de valores irrisórios. Devem tratar homens como homens e não como coisas. Não são apenas números numa terrível tragédia. Cada um dos que morreram tinha um nome e uma história. Muitos sonhos foram perdidos nessa madrugada de domingo. Foram sufocados pela negligência dos mais ricos. Foram amontoados sob as cinzas da esperança. Em função desses sonhos dourados que nunca mais serão reavidos, uma parte de cada ser humano também morreu hoje. Porque fomos tolerantes quanto a situações inaceitáveis. E em função disso pagamos um preço muito caro. Não são apenas as famílias das vítimas desse desastre que hoje lamentam, mas todo o mundo que nada fez para evitar essa tragédia.

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O tempo e a vida

Giordana Bonifácio

O que podemos fazer desta nossa vida?

Ou deste exíguo tempo que ela nos concede?

Ser-nos-ia melhor se ela fosse bem comprida?

Para aplacar de vida toda nossa sede?

 

Ou seria melhor que ela fosse bem cumprida?

Satisfazendo nossos sonhos e ainda metas?

Pois ninguém quer uma existência sofrida.

Nem viver condenado a condições abjetas.

 

É melhor ter a vida dura, mas bem longa,

Ou vida curta em anos, mas bastante feliz?

Melhor é a dor que muito se prolonga,

 

Ou uma alegre, porém bem efêmera viagem?

Convém ouvir o que minha velha mãe diz:

O que importa não é o tempo, mas a aprendizagem.

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Seguindo sem direção

Giordana Bonifácio

Homens seguindo sem direção,

Não sabem aonde vão.

Sem caminho traçado,

Seguem amordaçados.

Recebem a vida como esmola.

E pouca educação receberam na escola.

Pobre gente pela tevê escravizada.

Tem sua sina há muito profetizada:

Serão sempre uma massa alienada,

Fácil de ser manipulada.

Enquanto os poderosos imperam,

Os pequenos por uma chance esperam

Sem força para a revolução.

Aceitam tudo sem comoção.

Sobrevivendo.

Como animais.

Manso gado indo para o abate.

E quem a esta maledicência combate?

Onde estão os heróis?
Nossa embarcação precisa da luz dos faróis.

Estamos à deriva num mar de iniquidades.

E nada recebemos na verdade.

Orfeu, resgate-nos deste inferno.

Pois estamos sem governo.

Somos uma gente pelo mundo esquecida.

Nunca se viu população mais sofrida.

Empunhamos nossa vida com espada.

Lâmina para nossa carne voltada.

Em silêncio, aceitamos.

Por que?

Onde está nossa humanidade?

Servimos a um poder que nos escraviza.

E não são só conjecturas desta poetisa.

Precisamos de sonhos.

E não de dias tristonhos.

Sem voz, sem sentimento.

Vamos dançar nesse doce momento.

Ao vencedor as batatas.

E nessas condições ingratas,

Seguramos firme o que nos resta.

Enquanto a mentira a casa infesta.

Há muito sangue sobre o chão.

Não sabem aonde vão.

Sem caminho traçado.

Seguem desnorteados.

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O silêncio dos inocentes

Giordana Bonifácio

Por que esta gente sua fome não mais reclama?

Por que aceita calada sua horrível miséria?

Onde estão aqueles que queimavam como chama?

Como não se revoltar com tais vis pilhérias?

 

Por que aceitar a fria marmita do descaso?

Por que esta gente com o pouco se contenta?

Onde estão os que lutavam contra o nosso atraso?

Como ficar parado enquanto a dor aumenta?

 

Pobre gente do meu país, nunca vou lhe trair.

Vamos que já hora de armarmos a grande revolta

A esperança que atiço não poderei subtrair.

 

É este o momento por todos sempre esperado.

A chance é um navio que se vai e nunca mais volta.

Vamos com fé, consertar o que hoje está errado.

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Sem meus versos

Giordana Bonifácio

O que eu faria sem meus valiosos versos?

Sem estes sonhos em que estou submerso?

O que eu faria se não pudesse cantar?

Sem poder, com a voz, alegrias plantar?

 

O que eu faria se não pudesse sonhar?

Sem escapar do mal a me envergonhar?

O que eu faria sem meus loucos mistérios?

Sem me permitir ser às vezes sério?

 

O que eu faria se não houvesse fantasias?

Sem imaginação, exceto ilusões vazias?

O que eu faria se escrever fosse errado?

 

Sem este tesouro por mim encontrado?

O que eu faria? Pois nada mais haveria.

Sem meus versos, eu sei que nada seria .

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MEDO

Por trás de todos os medos

Giordana Bonifácio

A vida se encontra aqui no meu peito.

Está por trás de todos os meus medos.

Tem neste frágil corpo, ótimo leito.

E é guardiã dos meus sonhos e segredos.

 

Desta concha  fiz uma boa morada.

Aqui estou protegido dos perigos.

Neste mundo estranho é proibida a entrada ,

De toda mágoa que trago comigo.

 

A dor não existe neste meu universo.

Nada pode me atingir sob meus sonhos.

Nenhum dos sentimentos mais perversos.

 

Aqui viverei bem longe da dor.

E serei agraciado por risonhos

Devaneios dos quais serei único senhor.

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Ser ou não ser

Giordana Bonifácio

Ser ou não ser? Esta é a difícil questão,

E, suas duras respostas, não sei onde estão.

Sou isso ou sou aquilo? Ser errado ou certo?

Estar longe de todos ou estar perto?

 

Eu sei que o certo pode ser errado.

E que temos de escolher nosso lado.

É questão de opinião, infelizmente.

E só se liga ao que o coração sente.

 

Ser ou não ser, declama o sofrido ator.

Será que toda questão está na dor?

E nada aplaca minha alma sedenta,

 

Pois não compreendo o que isto representa.

Ser ou não ser? Persiste ainda a dúvida.

Creio que me afligirá por toda a vida.

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A suavidade do forte

Giordana Bonifácio

Presenciei hoje uma cena muito vergonhosa:

Um rude homem a um pobre mendigo humilhava.

Isto porque o mendigo protegia uma rosa,

Do homem brutal que seu ódio vociferava.

 

 

Quando vejo a dor destes pobres massacrados,

Penso que no mundo há várias iniquidades.

Porém, na cena o mais forte era o maltratado,

Pois, só aos fortes é dado agir com suavidade.

 

Muito sofreu, mas protegeu sua sagrada flor.

E sob intensas vaias dos que assistiam a tudo,

O homem grosseiro partiu cheio de muito rancor.

 

Não é a posição social que o caráter define.

Mas o coração que para o corpo é um escudo.

Pois nem sempre os bons estão numa limusine.

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Estrada sem fim

Giordana Bonifácio

A vida seria como uma estrada  sem fim?

Pois não se sabe o que há após a inadiável morte.

Considera-se a vida só um golpe de sorte.

E que morrer é um fato inevitável enfim.

 

Mas não sabemos sobre o que está à nossa espera.

Nós seguimos, sem saber ao certo para onde,

Procurando a resposta que de nós se esconde.

Morte e vida são nossa estranha quimera.

 

Sei que estamos em um confuso labirinto

E com goles a mais deste bom vinho tinto,

Fica fácil explanar sobre o amargo tema.

 

Existe muita gente que à morte ainda tema.

Creio que não há razões para fomentar o medo.

Pois para ela urge nos prevenir desde cedo.

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Amaldiçoada

Giordana Bonifácio

Escreve o poeta que nenhum homem é uma ilha.

Se é assim, por que me encontro sempre solitária?

Sinto-me só até quando com minha família.

Não sei a razão de viver vida tão precária.

 

Queria saber cultivar minhas amizades.

Porém, sempre fui dada a gozar da solidão.

E as longas madrugadas são minhas confrades.

Sei que o universo ao meu redor é uma imensidão

 

E que são muitas as pessoas de nosso planeta.

Mas ainda que cercada por uma multidão.

Estou distante como os instáveis cometas.

 

Sou uma pessoa que é pouco marcante na vida.

E para estar só possuo desmedida aptidão,

Porque vítima sou da maldição de Midas.

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