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Divagações de uma simples professora

Giordana Bonifácio

Passaram-se muitos anos. Muita coisa ocorreu desde então. Marilúcia ainda lembrava do tempo em que a TV anunciava a queda do muro de Berlin. E havia aquela primeira ministra, a Margaret Thatcher, cujo poder foi invejado por muita gente naquela época. Quando mesmo? Já fazia tanto tempo assim? Ela estava se formando no auge dos anos 80. Agora era uma professora de meia idade, cheia de memórias, pois os sonhos se convertem em doces lembranças. Sonhos são sementes de ilusão que germinam no coração da gente. Guardamos no peito vastos campos de sonhos e vez em quando temos boa colheita, mas o mais comum é perdermos a safra inteira. Sentia-se confusa. Os anos fizeram-lhe perder a direção de seu destino. É muito estranho quando perdemos o rumo de nossa vida. Quando pensamos estar no controle e a vida, de repente, muda a nossa direção. Os mares se tornam bravios, a navegação, difícil, não sabemos para onde os ventos nos levam. Ela estava justamente pensando no que já desejou, no que almejava ardentemente e que a vida não a agraciou. Coisa estranha essa de sonhar. A gente elabora mil e uma fantasias que guardamos conosco para todo sempre. Porque sonhos não envelhecem, apenas os guardamos no imenso baú de nosso espírito. Marilúcia sonhava? Sim, ainda com mais frequência do que na sua mocidade. Lembrava da universidade, dos  anos da Ditadura, da impossibilidade de possuir uma postura crítica num país amordaçado. E, naquele tempo, aprendeu a gritar: liberdade! Hoje, diante do quadro crítico de políticos, que antigamente lutaram contra ditadura e que, hoje, saqueiam o país, o grito recolhido na garganta é: honestidade! É muito difícil pensar no passado sem compará-lo ao presente. Contudo esse é um exercício fundamental para transformar o futuro para que seja como nós esperamos. Marilúcia ministrava aulas desde muito cedo. E agora seu principal intuito era tentar fomentar um senso crítico nas jovens mentes que lhe eram confiadas para ensinar.

Ela agora pensava nos perigos de uma sociedade ameaçada pelo crime organizado. A população, com medo, cercada por câmeras e grades em busca de segurança, haja vista que o governo, que espolia o povo com altos impostos, não fornece a este a contraprestação de seus tributos, que não refletem em mais saúde, educação e segurança. Ela estava revoltada com o salário miserável que ganhava como professora, mas tentava não prejudicar os alunos, que tinham acesso somente a uma escola depredada, com carteiras quebradas, paredes pichadas que não supriam os mínimos requisitos de segurança e salubridade. Mesmo assim, ela analisava sua dedicação exclusiva e estes muitos anos de estudo sendo desperdiçados apenas na dura vida docente. Já pensou inúmeras vezes deixar tudo e apenas estudar para concursos em que seu potencial rendesse mais dividendos que o que auferia como professora. Achava-se cansada e desestimulada. Por isso, faltava com frequência. É que a vida cobrava-lhe mais que o salário reduzido que recebia. Tinha filhas, casa e contas a pagar. Separara-se do marido, já havia muitos anos, e desde então acumulara as responsabilidades de pai e mãe. Ela tinha de dar conta de tudo sozinha. As meninas já estavam com 18 e 20 anos. Ambas já cursando universidade. Agora pensava nelas o tempo todo. Pois, buscava dar às filhas uma vida melhor que aquela que tinha vivido.  E, pensando nisso tudo, foi ministrar a aula daquela sexta-feira. O conteúdo daquele dia seria o Modernismo.  Particularmente, sua escola literária preferida. Já sabia que teria de citar a semana de arte moderna e todos seus poetas e escritores prediletos. Iria explanar sobre Clarice Lispector e sugerir a leitura de Água Viva, a obra prima da artista. Estranho que muita gente só se recorde da Paixão Segundo GH e da Hora de Estrela, pois o livro mais aclamado pela crítica é o poema em prosa, Água Viva. As pessoas deveriam conhecer melhor a literatura nacional, pois muitos privilegiam a literatura estrangeira em detrimento da que produzimos aqui.

O trânsito estava caótico. O número de carros aumentava desordenadamente, mas como não se construíam novas rodovias, implicava diretamente em grandes engarrafamentos. São tantos problemas que só nos faz pensar em um tremendo fiasco da Copa do Mundo e Olimpíadas que aqui se realizarão. Os hospitais estão lotados e faltam remédios, suturas, luvas e itens indispensáveis ao atendimento de pacientes graves. Como uma nação cujos problemas são tão patentes, aventura-se a assumir a responsabilidade de promover eventos deste porte? Principalmente, diante do problema basilar da corrupção. É lógico que muito dos milhões destinados à construção de estádios e outras obras ligadas à Copa do Mundo, foi desviado para os bolsos da massa corrupta que governa o país. Contudo, o povo aceita, sob a fraca desculpa do “rouba mais faz”. Na verdade, a população se deixa enganar. Porque prefere se submeter ao assistencialismo, sendo agraciada com esmolas, enquanto os larápios eleitos por nosso voto roubam descaradamente o dinheiro público. Isso cansava Marilúcia muito mais que a sua jornada de 40 horas semanais. Sem contar o expediente fora de sala de aula usado para preparar aulas e corrigir provas e trabalhos. Enquanto perdia minutos preciosos no engarrafamento, resolveu ouvir música. Ligou o rádio do carro, que chiou até sintonizar uma emissora. Foi estranho mais a primeira estação que o rádio sintonizou foi a CBN. Como a reportagem parecia interessante resolveu escutá-la até o fim. A notícia anunciava mais um escândalo de corrupção no governo. Negociatas, tráfico de influência, tornaram-se palavras comuns no vocabulário do brasileiro. O mais absurdo é que o ex-presidente não sabia de nada e a atual, tão pouco. Dá para acreditar na inocência destes canalhas? Enquanto isso, Marilúcia estava ali, presa no engarrafamento tentando chegar à escola em que ministra aulas. O que poderia fazer se sua indignação não chegava aos ouvidos dos poderosos? Ao contrário, estes preferiam manter o status quo com pequenas mesadas, que se convencionou denominar de bolsas, que servem unicamente para calar os mais pobres. Marilúcia resmungou: “o povo se contenta com muito pouco.”

Quando chegou à escola já estava em cima da hora da aula. Tinha de correr para a sala. Rapidamente, conseguiu conter o alvoroço dos alunos e conduzir a aula como planejou. Enquanto ensinava, foi ficando melancólica. Estava com pena daqueles jovens que logo teriam de enfrentar o mundo adulto e suas dificuldades. Queria preparar os alunos para a vida, não somente para o vestibular. Sabia que era uma prova importante, que dela dependia o futuro daquelas crianças, mas algo mais pungente a mobilizava. Era preciso formar um espírito crítico e não apenas um depósito de informações com o único fim de obter sucesso no vestibular. Ocorre que se deve ter ciência dos mecanismos de dominação que mantém as massas coesas e quietas. O homem deve saber como e quando deve se insurgir. Nada mais triste que uma mente perdida e alienada. Pena que haja tantos brasileiros que procurem fugir de assuntos políticos. Uma nação que desconhece seus deveres e direitos no cenário político brasileiro. Um povo que não sabe escolher seus representantes, que se esconde sob o manto da indiferença, para não se envolver na construção de seu próprio país. Essa massa conformada deve despertar. Porque, só quando isso ocorrer, tomará ciência do seu imenso poder. Esses alunos reunidos nas escolas em busca de saber, serão os próximos a defender os interesses desta grande nação.  Por isso, ao explicar o Modernismo, Marilúcia sempre enfocava o cenário político do Brasil, para que, assim, as crianças pudesssem situar a Semana de Arte Moderna dentro da história do país. Essas pequenas sementes de transformação podem não ser muito. Mas do micro atinge-se o macro. Pois, é com a junção de várias vozes que se faz um coro. O Brasil necessita da união de todos para mudar. E só se inicia uma grande caminhada com um primeiro passo. Pode ser um universo bem reduzido para iniciar-se uma revolução, mas cada mente contagia a outra, dentro em breve haverá milhões de mentes pensantes exigindo seus direitos. E era só isso que consolava Marilúcia: o salário era ruim, o trabalho excessivo, mas as crianças, estas eram excelentes!

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