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Resoluções para o fim do mundo

Giordana Bonifácio

Andam falando muito sobre esse possível Fim do mundo a acontecer no próximo dia 21 de dezembro, segundo o calendário Maia. Muitas pessoas estão criando resoluções mirabolantes para aproveitar o curto tempo que nos resta. Mesmo que pense ser este mais um alarme falso, e que, como tantos outros motivos de alarde,  tais quais o bug do milênio, que provocou verdadeiro rebuliço no mundo), vão se mostrar uma grande bobagem, resolvi fazer também minha relação de ações que gostaria de realizar antes que o mundo se acabe ou eu morra, (o que vier primeiro). Não é fácil construir listas, muitas coisas devem ser deixadas de fora, já que não se deve as entupir de desejos, pois talvez não possamos sequer concretizar um terço de nossos sonhos. Existe muita coisa que sempre quis, viagens que pretendia fazer e que, mesmo hoje me parecem tão distantes que creio jamais alcançar. O problema de sonhar é que a gente não se conforma que seja tão somente imaginação. De fato, meus maiores problemas foram motivados pela necessidade de converter a fantasia em realidade. Por isso, talvez me seja um tanto arriscado apresentar, para o público em geral, minha relação de ideias para aproveitar o Fim do mundo. É perigoso que eu sinta a necessidade concreta de tornar mais palpável, o que sempre imaginei. Não quero exprimir aqui, porém, um documento sem valor, um simples amontoado de fantasias, sem qualquer propósito. Portanto, muitas coisas que serão aqui expostas, poderei, algum dia, concretizar, outras serão apenas miragens, ilusões causadas pelo árido deserto da realidade. Mas sempre que possível, temos de traçar metas, algumas serão atingidas, mas, muitas vezes, também seremos derrotados. O que se deve fazer, então, é levantar , bater a poeira e seguir em frente. O segredo de tudo é a persistência. A verdade é que, não raro, desisti quando algo se mostrou deveras difícil. Perdi inúmeras oportunidades assim. Provavelmente, é por esta razão que agora elenco as minhas principais resoluções para o resto de minha vida.

-Queria poder suplantar a barreira de meus medos, de modo poder criar de forma mais livre, sem tantos “senãos”. Eu escrevo como uma criança, cheia de inocência, sem a malícia do mundo adulto. Penso que minhas palavras surgem como as de uma adolescente que se aventura pela primeira vez frente à folha em branco e se deixa dominar por ela. Por mais que tente me fazer “descolada”, as pessoas enxergam-me como “a menininha mimada que nunca saiu das barras da saia da mãe”. Então, amadurecer minha escrita, para aperfeiçoar meu estilo é meu maior objetivo. Talvez, assim, possa amealhar mais leitores.

-Ser-me-ia excepcional se as pessoas pudessem me enxergar de uma maneira mais positiva. Julgam-me como a nerd sem graça, sempre passível de ser descartada. Não sei se esse é um desejo e não uma resolução, mas se houvesse algo que pudesse fazer para que as pessoas vissem-me de forma diversa, eu faria. Já tentei me cercar por gente moderna, festeira, pensei que já me tinham inserido em um grupo, mas fui novamente posta de e lado. Acho que sou a derradeira opção de todos.  Deste modo, queria ser percebida e não esquecida. E, gostaria de ensejar uma mudança em minhas amizades, para ser lembrada por aqueles que hoje me ignoram.

-Uma coisa bem louca que gostaria de fazer um dia, seria pegar minhas coisas, colocar numa mochila e ir conhecer a Europa. Viver pelos albergues do mundo, conhecer novas culturas, sem me preocupar com as obrigações que me encarceram em minha tediosa vida. Voltar somente quando cansar-me de estar itinerante. Sem destino certo, ora estaria na França, ora na exótica Turquia. Provando novos temperos, outros ares e costumes. Se pudesse, simplesmente, abrir mão de tudo por que até agora vim lutando, faria isso.

-Antes desejava encontrar a pessoa certa para mim. Mas já apaguei essa pretensão de meus sonhos. Porque, depois de tanto tempo, meu coração se tornou duro. Está rígido feito pedra. Não me apaixonei por ninguém mais, num período maior que uma década, e não me vejo capaz de amar. Não com todos os problemas envolvidos. É muita renúncia que este sentimento implica e não quero me violentar para ter perto de mim alguém que só me machuca. Mas vejo que, talvez, eu esteja errada em pensar desse modo. Não sei. Espero que o gelo do meu coração derreta, antes que não seja mais possível fazê-lo.

– Queria poder orgulhar meus pais trabalhando num emprego que me permitisse uma folga financeira e também status. Eu sei que este desejo entra em conflito com o de ser mochileira, mas não é necessário que ambos ocorram ao mesmo momento. Um pode acontecer antes do outro sem que tenham de impedir-se mutuamente. Acho que todos pensam em se livrar da dependência econômica a que estão submetidos. Além de ser horrível ter de falar aos parentes que “estou procurando algo melhor”. Ainda mais quando estes desprezam tudo quanto você faz. Então, quero que meus pais estejam vivos para assistir meu êxito. Se é que algum dia ele vai ocorrer.

– Preciso dar um basta nas doenças que vem me afetando sobremaneira. Acabar com as enxaquecas, alergias e toda sorte de moléstias que me impedem de ter uma vida normal. Nem que, para isso, tenha de alimentar-me melhor e fazer exercícios. O problema é conciliar a rotina estafante de trabalho e aulas com a necessidade de sair do sedentarismo. Tentei acordar de madrugada para me exercitar, mas acabou por me cansar ainda mais que apenas meu cotidiano corrido. Minha meta é apenas buscar a saúde já que, conforme a o item já outrora explorado, não estou muito preocupada com minha aparência física para fins de relacionamentos amorosos.

– O meu derradeiro projeto, que pretendo realizar antes da extinção da vida na Terra, é preocupar-me menos com os outros e pensar mais em mim. As pessoas se aproveitam de minha solidariedade, acabam me explorando e extorquindo-me de tudo o que possuo. Queria saber dizer não, assim ninguém se valeria de minha bondade para passar-me para trás. São falsos amigos que imaginam poder tomar vantagem sobre nossa inocência. Eu digo para meu pai que “somos amigos de todo mundo, mas ninguém é amigo da gente.” Queria poder visualizar, antes de ser enganada,o âmago das pessoas e suas reais intenções.

Bom, relacionei, em resumo, resoluções e desejos que gostaria de por em prática antes do cataclismo que dizem estar marcado para o dia 21 de dezembro, ou, na grande possibilidade que tal evento não ocorra; o mais breve possível. Não quero morrer com tantos projetos esquecidos. Eu já engavetei vários romances que estava escrevendo, bem como desisti de muitas crônicas e contos. Fiquei tendenciosa de fazer o mesmo com esta quando se tornou bastante pessoal. Não queria falar sobre minhas frustrações e sonhos. Tenho mania de deixar tudo que mais me preocupa escondido em mim. Não permito que ninguém veja. É algo meu. Se não posso resolver, vai crescendo dentro do meu peito. Chega a pesar, às vezes. E abrir-me nesse relato é algo que não costumo fazer com frequência. Fiquei um bom tempo pensando como escreveria esta crônica. Pensei na metade em desfazer-me dela. Mas ela mostrou-se mais forte que eu. Pressionei meu coração e ele permitiu-me liberar alguns sonhos guardados por muito tempo, bastante empoeirados. Bati o pó, passei um paninho para dar brilho e coloquei-os à mostra.  Não ficou tão bom quanto esperava, é certo. Não sou escritora de grande prestígio. Vou dando minhas pinceladas, um dia vai surgir alguma obra-prima. Com o Fim do mundo tão próximo, esperava estar escrevendo um texto memorável. Mas acabei por fazer-me vítima de minha literatura. Fui o tema central dessa crônica. Foram muitos “eus”. Mas, pensando bem, o eu, pode não ser apenas eu. O eu pode ser aquele que lê. Pois, ao assimilar a mensagem transmitida pelo autor, vai tomar para si os sonhos que aquele escreveu. Então meus desejos, deixam de ser só meus, passam a ser dele. Talvez este leitor, que se depare com minha lista, pense em criar a sua própria. Então, meus sonhos semeiam outros sonhos. Porque sonhos são sementes também. Deles germinam grandes árvores. Uma sociedade de sonhadores é uma grande floresta. A desilusão tenta desmatar  as densas matas de nossas fantasias. Podemos dividir os sonhos e alimentá-los. Ou, então, somente abandoná-los. Mas, mesmo assim, eles não desaparecem, apenas diminuem e sempre que pensamos neles, encontramo-los em nós. O eu do sonho é um eu coletivo. Pois, nas palavras de Raul Seixas “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é uma realidade.” Não é pelo fim do mundo que resolvi resgatar esses antigos sonhos, mas pela necessidade de disseminar as sementes que tenho em mim.

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