Arquivo do mês: novembro 2012

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Resoluções para o fim do mundo

Giordana Bonifácio

Andam falando muito sobre esse possível Fim do mundo a acontecer no próximo dia 21 de dezembro, segundo o calendário Maia. Muitas pessoas estão criando resoluções mirabolantes para aproveitar o curto tempo que nos resta. Mesmo que pense ser este mais um alarme falso, e que, como tantos outros motivos de alarde,  tais quais o bug do milênio, que provocou verdadeiro rebuliço no mundo), vão se mostrar uma grande bobagem, resolvi fazer também minha relação de ações que gostaria de realizar antes que o mundo se acabe ou eu morra, (o que vier primeiro). Não é fácil construir listas, muitas coisas devem ser deixadas de fora, já que não se deve as entupir de desejos, pois talvez não possamos sequer concretizar um terço de nossos sonhos. Existe muita coisa que sempre quis, viagens que pretendia fazer e que, mesmo hoje me parecem tão distantes que creio jamais alcançar. O problema de sonhar é que a gente não se conforma que seja tão somente imaginação. De fato, meus maiores problemas foram motivados pela necessidade de converter a fantasia em realidade. Por isso, talvez me seja um tanto arriscado apresentar, para o público em geral, minha relação de ideias para aproveitar o Fim do mundo. É perigoso que eu sinta a necessidade concreta de tornar mais palpável, o que sempre imaginei. Não quero exprimir aqui, porém, um documento sem valor, um simples amontoado de fantasias, sem qualquer propósito. Portanto, muitas coisas que serão aqui expostas, poderei, algum dia, concretizar, outras serão apenas miragens, ilusões causadas pelo árido deserto da realidade. Mas sempre que possível, temos de traçar metas, algumas serão atingidas, mas, muitas vezes, também seremos derrotados. O que se deve fazer, então, é levantar , bater a poeira e seguir em frente. O segredo de tudo é a persistência. A verdade é que, não raro, desisti quando algo se mostrou deveras difícil. Perdi inúmeras oportunidades assim. Provavelmente, é por esta razão que agora elenco as minhas principais resoluções para o resto de minha vida.

-Queria poder suplantar a barreira de meus medos, de modo poder criar de forma mais livre, sem tantos “senãos”. Eu escrevo como uma criança, cheia de inocência, sem a malícia do mundo adulto. Penso que minhas palavras surgem como as de uma adolescente que se aventura pela primeira vez frente à folha em branco e se deixa dominar por ela. Por mais que tente me fazer “descolada”, as pessoas enxergam-me como “a menininha mimada que nunca saiu das barras da saia da mãe”. Então, amadurecer minha escrita, para aperfeiçoar meu estilo é meu maior objetivo. Talvez, assim, possa amealhar mais leitores.

-Ser-me-ia excepcional se as pessoas pudessem me enxergar de uma maneira mais positiva. Julgam-me como a nerd sem graça, sempre passível de ser descartada. Não sei se esse é um desejo e não uma resolução, mas se houvesse algo que pudesse fazer para que as pessoas vissem-me de forma diversa, eu faria. Já tentei me cercar por gente moderna, festeira, pensei que já me tinham inserido em um grupo, mas fui novamente posta de e lado. Acho que sou a derradeira opção de todos.  Deste modo, queria ser percebida e não esquecida. E, gostaria de ensejar uma mudança em minhas amizades, para ser lembrada por aqueles que hoje me ignoram.

-Uma coisa bem louca que gostaria de fazer um dia, seria pegar minhas coisas, colocar numa mochila e ir conhecer a Europa. Viver pelos albergues do mundo, conhecer novas culturas, sem me preocupar com as obrigações que me encarceram em minha tediosa vida. Voltar somente quando cansar-me de estar itinerante. Sem destino certo, ora estaria na França, ora na exótica Turquia. Provando novos temperos, outros ares e costumes. Se pudesse, simplesmente, abrir mão de tudo por que até agora vim lutando, faria isso.

-Antes desejava encontrar a pessoa certa para mim. Mas já apaguei essa pretensão de meus sonhos. Porque, depois de tanto tempo, meu coração se tornou duro. Está rígido feito pedra. Não me apaixonei por ninguém mais, num período maior que uma década, e não me vejo capaz de amar. Não com todos os problemas envolvidos. É muita renúncia que este sentimento implica e não quero me violentar para ter perto de mim alguém que só me machuca. Mas vejo que, talvez, eu esteja errada em pensar desse modo. Não sei. Espero que o gelo do meu coração derreta, antes que não seja mais possível fazê-lo.

– Queria poder orgulhar meus pais trabalhando num emprego que me permitisse uma folga financeira e também status. Eu sei que este desejo entra em conflito com o de ser mochileira, mas não é necessário que ambos ocorram ao mesmo momento. Um pode acontecer antes do outro sem que tenham de impedir-se mutuamente. Acho que todos pensam em se livrar da dependência econômica a que estão submetidos. Além de ser horrível ter de falar aos parentes que “estou procurando algo melhor”. Ainda mais quando estes desprezam tudo quanto você faz. Então, quero que meus pais estejam vivos para assistir meu êxito. Se é que algum dia ele vai ocorrer.

– Preciso dar um basta nas doenças que vem me afetando sobremaneira. Acabar com as enxaquecas, alergias e toda sorte de moléstias que me impedem de ter uma vida normal. Nem que, para isso, tenha de alimentar-me melhor e fazer exercícios. O problema é conciliar a rotina estafante de trabalho e aulas com a necessidade de sair do sedentarismo. Tentei acordar de madrugada para me exercitar, mas acabou por me cansar ainda mais que apenas meu cotidiano corrido. Minha meta é apenas buscar a saúde já que, conforme a o item já outrora explorado, não estou muito preocupada com minha aparência física para fins de relacionamentos amorosos.

– O meu derradeiro projeto, que pretendo realizar antes da extinção da vida na Terra, é preocupar-me menos com os outros e pensar mais em mim. As pessoas se aproveitam de minha solidariedade, acabam me explorando e extorquindo-me de tudo o que possuo. Queria saber dizer não, assim ninguém se valeria de minha bondade para passar-me para trás. São falsos amigos que imaginam poder tomar vantagem sobre nossa inocência. Eu digo para meu pai que “somos amigos de todo mundo, mas ninguém é amigo da gente.” Queria poder visualizar, antes de ser enganada,o âmago das pessoas e suas reais intenções.

Bom, relacionei, em resumo, resoluções e desejos que gostaria de por em prática antes do cataclismo que dizem estar marcado para o dia 21 de dezembro, ou, na grande possibilidade que tal evento não ocorra; o mais breve possível. Não quero morrer com tantos projetos esquecidos. Eu já engavetei vários romances que estava escrevendo, bem como desisti de muitas crônicas e contos. Fiquei tendenciosa de fazer o mesmo com esta quando se tornou bastante pessoal. Não queria falar sobre minhas frustrações e sonhos. Tenho mania de deixar tudo que mais me preocupa escondido em mim. Não permito que ninguém veja. É algo meu. Se não posso resolver, vai crescendo dentro do meu peito. Chega a pesar, às vezes. E abrir-me nesse relato é algo que não costumo fazer com frequência. Fiquei um bom tempo pensando como escreveria esta crônica. Pensei na metade em desfazer-me dela. Mas ela mostrou-se mais forte que eu. Pressionei meu coração e ele permitiu-me liberar alguns sonhos guardados por muito tempo, bastante empoeirados. Bati o pó, passei um paninho para dar brilho e coloquei-os à mostra.  Não ficou tão bom quanto esperava, é certo. Não sou escritora de grande prestígio. Vou dando minhas pinceladas, um dia vai surgir alguma obra-prima. Com o Fim do mundo tão próximo, esperava estar escrevendo um texto memorável. Mas acabei por fazer-me vítima de minha literatura. Fui o tema central dessa crônica. Foram muitos “eus”. Mas, pensando bem, o eu, pode não ser apenas eu. O eu pode ser aquele que lê. Pois, ao assimilar a mensagem transmitida pelo autor, vai tomar para si os sonhos que aquele escreveu. Então meus desejos, deixam de ser só meus, passam a ser dele. Talvez este leitor, que se depare com minha lista, pense em criar a sua própria. Então, meus sonhos semeiam outros sonhos. Porque sonhos são sementes também. Deles germinam grandes árvores. Uma sociedade de sonhadores é uma grande floresta. A desilusão tenta desmatar  as densas matas de nossas fantasias. Podemos dividir os sonhos e alimentá-los. Ou, então, somente abandoná-los. Mas, mesmo assim, eles não desaparecem, apenas diminuem e sempre que pensamos neles, encontramo-los em nós. O eu do sonho é um eu coletivo. Pois, nas palavras de Raul Seixas “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é uma realidade.” Não é pelo fim do mundo que resolvi resgatar esses antigos sonhos, mas pela necessidade de disseminar as sementes que tenho em mim.

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O leitor

Giordana Bonifácio

O leitor, que na boa companhia de um romance,

Senta-se à sombra de uma árvore às três da tarde,

Não se trata de um parvo ou, talvez, um covarde,

Porque tem o universo infinito a seu alcance.

 

Não precisa sair à procura de aventuras.

O livro já lhe sacia o desejo por perigos

E, ainda, se faz bem mais fiel que muitos amigos.

É alimento essencial para nossa cultura.

 

Por isso, meus caros, o leitor é um privilegiado,

Tem em suas mãos as chaves dos grandes cadeados,

Com os quais a ignorância aos homens aprisiona.

 

Acreditem em mim, pois realmente funciona!

Façam do livro a porta para a liberdade.

Pois quem não lê, não sabe tal utilidade.

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O menino

Giordana Bonifácio

Cabisbaixo, o menino prepara a marmita.

Não era o almoço de seu pai, este prato que fazia.

Esse menino, embora o governo não admita,

A marca da fome em seu minguado corpo trazia.

 

Mantinha  como bóia-fria  sua mãe e seus cinco irmãos,

Mais jovens que ele não podiam, ainda, trabalhar.

Ele já possuía inúmeros calos nas mãos.

E já estava cansado de tanto batalhar.

 

Mas munido do facão, só, enfrenta a labuta

Todo dia, preparado para a mesma luta.

Era um menino apenas, que deveria sonhar.

 

Não só um número, para o Brasil se envergonhar.

Deveria estar brincando, pois ainda é uma criança.

Mas, em seus olhos já não mais se vê esperança.

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Lua de muitas faces

Giordana Bonifácio

Chamam-me lua, satélite de muitos rostos.

Ora sou cheia, da luz das estrelas sou espelho,

Ora, com uma triste face eu me assemelho.

Sou astro que se harmoniza com todos os gostos.

 

Na minha fase crescente, sou toda sorrisos.

Os homens apelidaram-me de Deusa Diana,

Muitos pensam que por tal razão sou leviana.

Enganam-se, porém, meus rumos são precisos.

 

Eu não sou tão romântica como a lua dos poetas,

Culpavam-me por lhes causar paixões secretas.

Suspiram para mim e dizem que sou cruel.

 

Outros já me elogiam: sou doce lua de mel.

Poucos sabem, mas sempre fui muito sozinha,

Minha alegria é quando uma nave se avizinha.

 

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Medo do escuro

Giordana Bonifácio

Há muitos anos que não temo mais o escuro.

É verdade, não há o que me aflija hoje, juro!

Eu abrigo-me em mim e já estou a salvo do mundo.

O medo em minha alma esconde-se deveras fundo.

 

O silêncio sibila versos para mim.

Nunca antes eu estive tão amargurada assim.

Não tenho medo, inútil é me convencer.

Não permito o cansaço a minha força vencer.

 

Não tenho medo de nada! Ao vazio repito.

Grito esta frase bem alto, assim eu acredito,

Que não me causa pavor o soprar do vento;

 

Que a certeza da dor não me é um grande tormento.

Mas do escuro, do escuro não. Eu não tenho medo.

Mas deixe a luz acesa até de manhã cedo.

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Absolvição

Giordana Bonifácio

Vida e morte, esta o final, aquela, o começo.

A doença e a dor são da vida apenas um tropeço.

Enquanto  nosso frágil corpo enfermo pena.

A iniquidade a nosso espírito condena.

 

Em vida já iniciamos a espiar nossas faltas.

Só que o perdão e a remissão são dádivas altas.

Muito é preciso para ter nossa absolvição.

Sobretudo quando é mais fácil cair em perdição.

 

O homem é uma ilha num oceano de maldade.

E às vezes a ressaca violenta a praia invade.

A alma pura também está ao erro suscetível.

 

Sei que este meu discurso não é de todo crível.

Pois  nociva é a descrença que à razão envenena.

Contudo, tudo pode a alma que não é pequena.

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Cinderela moderna

Giordana Bonifácio

Era uma vez, num presente bem realista, uma mulher moderna que cuidava da família e trabalhava fora. Esta mulher com sua surpreendente dupla jornada, ao fim do dia restava exausta só desejando deitar em sua cama e dormir o sono dos justos. O pior é que esta mulher, que dizemos moderna, tinha dezenas de compromissos. O trabalho cobrava-lhe deveras e tinha de pensar em sua carreira. Afinal, por seus valorosos esforços conseguiu ser promovida para um cargo importante na empresa. Em casa, o marido e os filhos lhe cobravam atenção. A filha estava em recuperação na escola e o filho causava confusões entre os colegas. O marido exigia uma mulher mais presente, porque, ao chegar a sua casa queria regalar-se com um jantar maravilhoso enquanto assistia televisão. Ele também estava descontente com o serviço da empregada. Tendo em vista que suas roupas estavam sempre manchadas e mal passadas. Sem falar na casa que exigia uma limpeza mais efetiva. E, no cerne de tudo isto, estava a pobre Cinderela. A mulher que era mãe, esposa e funcionária. Chegava fatigada de um dia de trabalho árduo, sem qualquer direito de prostrar-se no sofá e assistir à novela. E nem poderia fazê-lo, haja vista que o marido convidara os amigos para ver o jogo de futebol. O destino da pobre Cinderela foi, mais uma vez, a cozinha, onde teve de preparar tira-gostos para os amigos do marido desfrutarem com cerveja gelada. Quando teve um minuto, foi ao quarto da filha tomar-lhe a lição. E, para sua surpresa, a menina estava cheia de pontos vermelhos. Tinha contraído catapora e seria necessário levar a criança enferma ao hospital. Deixando o filho mais novo com o pai, (rezando para que o marido cuidasse do rebento), encaminhou-se para o pronto-socorro com a filha. Após uma longa e tediosa fila de duas horas no hospital, mesmo sob os protestos acalorados dos pacientes que reclamavam da longa espera, a criança foi atendida. A nossa pobre Cinderela, no meio do alvoroço, descobriu que o plano de saúde da empresa não era recebido por aquele hospital, e que deveria pagar uma cara consulta. Fez as contas, e, abrindo mão daquela bolsa nova, viu que seria possível arcar com mais esta dívida.

Dirigindo de volta para casa, reclamava o tempo todo com sua filha que insistia em coçar-se. Tirando, desta forma, a atenção por um mísero segundo da estrada. Desse modo, teve o carro abalroado por um veículo que ultrapassou o sinal vermelho. Depois de muita confusão, conseguiu receber a promessa de ter os amassados de seu carro consertados. Assim, após tantos problemas, só chegou em casa de madrugada, pedindo a Deus que o marido tivesse lavado a louça. Mas quando adentrou à sua residência seus piores presságios se confirmaram: a louça estava suja, a sala desarrumada e o filho, ainda acordado, jogava vídeo-game. A primeira tarefa a que se dedicou foi por os filhos na cama, obrigando-os a escovarem os dentes e rezarem antes de dormir. Então, foi limpar a bagunça que o marido e os amigos tinham feito. Depois de por toda a casa em ordem e lavar a louça, foi finalmente para a cama. O marido, embriagado e feliz por seu time ter vencido, só aguardava a esposa para saciar sua libido. Porém, já exausta por toda sua rotina estafante, a mulher solicitou ao esposo que apenas permitisse que ela dormisse, pois estava extremamente cansada. O marido intrigou-se da esposa e virou-se de lado sem lhe ouvir a razão de sua estafa. Já era mais ou menos três horas da manhã, quando a nossa pobre Cinderela pode finalmente dormir. Porém, teria de acordar às seis horas do dia seguinte para recomeçar sua penosa rotina. Ela despertou já bastante fatigada. Foi ao quarto da filha, mediu a temperatura da menina e percebeu que ela estava bastante febril. Teria de faltar ao serviço naquele dia, tendo em vista a doença que se abatia sobre sua filha mais velha. Preparou o caçula para ir à escola. Acordou o marido e foi preparar o desjejum. “Uma xícara de café bem forte. É tudo que preciso.” Pensou. Fritou ovos para o esposo e deu cereal para as crianças. Quando estavam todos à mesa, informou ao marido que não poderia trabalhar já que filha estava enferma. O marido riu: “as mulheres que têm sorte, um espirro dos filhos e já solicitam o dia de folga!” Ela preferiu não se opor ao comentário sarcástico do marido. Apenas pediu para que ele levasse o caçula para a escola. O menino resmungou e xingou que tivesse de ir à aula, quando a irmã teria de faltar. Mas resolvidos esses pequenos conflitos partiram os homens da casa para suas ocupações.

Nossa Cinderela ainda seria surpreendida pela ligação da empregada informando que não poderia trabalhar, pois o seu filho também havia contraído catapora. Então nossa rainha do lar, teve de se submeter às tarefas domésticas enquanto cuidava da filha doente. Enfrentou a limpeza dos banheiros e irritou-se que o marido e o filho não levantassem o assento da privada. Depois, foi arrumar os quartos e assustou-se com a desorganização do filho caçula. Espanou os móveis da sala, passou um pano úmido no assoalho, lavou as janelas, colocou a roupa suja na máquina, lavou a louça do café e quando terminou todas essas tarefas, já era hora de preparar o almoço. Fez uma comida leve para ela e a adoentada e, para os homens, caprichou no bife com batatas fritas. Colocou a mesa e aguardou a chegada do marido e do filho. Enquanto isso, não se esquecia de medicar a filha cuja febre já havia cedido. Então, quando chegaram os machos, pode, enfim, a família almoçar. Depois de aplacar a força da fome, o marido voltou para o trabalho e o caçula correu para o vídeo-game. Deixando, mais uma vez, as obrigações domésticas para a esposa escrava. Ela lavou a louça, limpou mais uma vez o piso da cozinha. E pode, por fim, se dedicar a algumas tarefas pendentes do serviço que tinha trazido para concluir em casa. Enquanto trabalhava, foi surpreendida pela visita da vizinha que se espantou por Cinderela estar em casa àquela hora. E permaneceu por um bom tempo atrapalhando nossa heroína com conversas frívolas. Cinderela, após se despedir da vizinha, lembrou-se que os filhos ainda não haviam feito o dever de casa. Então, impôs às crianças a realização das tarefas da escola. Enquanto tentava se focar nas atividades do trabalho, auxiliava os filhos com os deveres. Já era quase dezoito horas quando pode encaminhar as crianças para o banho. Ela também queria uma boa “chuveirada”. Mas, naquele momento tinha de se preocupar em preparar o jantar.

Contudo, o marido telefonou, informou que havia contratado uma babá para as crianças e pediu para que a esposa se aprontasse: teriam um jantar de negócios com os sócios da empresa em que ele era o maior acionista. Ela, então, pediu pizza para as crianças (que ficaram eufóricas). E foi se preparar para o jantar. Sem fada madrinha que a ajudasse, pintou-se e vestiu-se com muito esmero. Era uma Cinderela que não possuía sapatinho de cristal, mas sim, salto quinze. Quando o esposo chegou, abraçou-a dizendo que a beleza dela sempre o cativou. A babá chegou alguns minutos depois. Cinderela deu-lhe as instruções mais importantes, tais como: crianças na cama às 22 horas, o horário de medicar a menina doente e não esquecer de colocar todos para escovar os dentes antes de dormir. Dessa forma, sem temer o badalar da meia noite saiu na companhia do marido para o grande jantar. Foi a esposa perfeita. Linda, ela ornou a companhia do marido. Num jantar majestoso, comeu pouco. Estava extremamente fatigada, porém sorriu das piadas dos sócios do seu esposo. Também foi extremamente gentil com as esposas daqueles. E suportou corajosamente o calo que o sapato tinha-lhe feito no calcanhar. Até dançou na companhia do marido. Voltando para casa, retirou os sapatos gemendo de dor e reclamando de cansaço. O seu marido, ora príncipe, ora sapo, perguntou-lhe como estava tão fatigada se tinha passado o dia inteiro em casa. Ela, então, numa explosão de fúria, contou-lhe sobre o seu dia. E ressaltou que nada tinha de conto de fadas. Aliás, como toda a sua vida. O marido calou-se. Intrigados continuaram a viagem de volta para casa em silêncio. A mulher foi logo para o quarto, tinha de desfazer o penteado, limpar a maquiagem, mas, antes de tudo, tinha de verificar se estava tudo bem com os meninos. Então, certa de a filha estar melhorando e de o filho estar dormindo, descalça, lanço-se no sofá. O encanto tinha acabado. Sua carruagem virara abóbora. E ela estava furiosa com o marido. Mas este lhe fez finalmente um agrado. Pegou as sandálias da esposa e pôs-se de joelhos para calçar os pés de sua princesa. E para seu espanto, as sandálias tinham servido perfeitamente nos pés daquela bela mulher. Ela sorriu como quando eles dois se conheceram e se abraçaram. Não foram felizes para sempre, pois a vida em que só há felicidade é muito chata. Foram uma família comum, cheia de altos e baixos, problemas e discussões, que, no fim, sabia-se feliz.

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É bela a chuva

Giordana Bonifácio

É bela a chuva. Penso num suspiro breve.

Sou dona de um espírito que não se atreve,

Cruzar os muros altos de seu próprio medo.

E sempre é tarde quando me parece cedo.

 

A difícil jornada ainda espera por mim,

Para levar-me pelos caminhos sem fim.

Contudo, apavorada, escondo-me do mundo.

E recordo-me agora, num suspiro profundo,

 

Das imperdoáveis faltas que me pesam na alma.

Também me paralisa a dor de um grande trauma.

Cerco-me de altos muros para não me ferir.

 

E não deixo ninguém no meu mundo se inserir.

Temo este infinito que me rodeia: uma imensidão.

Porém, será possível vida na solidão?

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Arritmia

Giordana Bonifácio

Ainda me perguntam por que meu blog se chama Meu coração selvagem. Primeiramente, o meu intuito foi somente prestar uma singela homenagem à Clarice Lispector, mas pude perceber, depois, que tal título condiz perfeitamente comigo. Meu coração vive em eterna arritmia. Indomável, sofre as influências do mundo e reage a elas. São provações, testes em minha grande jornada. Será que sobreviverei a tudo? Meu coração está aos saltos, muitos perigos rondam-me. Não sei como proteger-me, meus escudos se perderam no campo de batalha. Estou numa corrida desesperada pela vida. Sou um soldado que deserta da guerra. Sei que minha dor é deveras pungente. Tenho de resistir, mesmo que as condições se mostrem bastante adversas. Peço que meu coração mostre-se mais forte do que é, que enfrente tudo com armas em punho. É a minha derradeira fortaleza nessa imensa contenda. Eu solicito que tal músculo involuntário seja a minha força que surge não sei de onde. Pois, é ele que me resgata do risco mortal. Meu coração é um cavalo jovem que a tudo enfrenta. Ele se ergue invencível, sustenta um corpo todo com seu espírito guerreiro. Tal qual Peri, é forte selvagem, índio herói que sobrevive dentro de mim. Meu cérebro ordena, mas meu coração age. Seu bater pungente diz-me: viva! E, obediente, prossigo. Enquanto minha cabeça é toda razão, no meu peito, o órgão insano é todo emoção. Confrontam-se, constantemente, razão e sensibilidade. Na maioria das vezes quem vence é o sentimento. Não importa o momento. Faz-me uma pobre louca, esse músculo indomesticado. Não se mostra a melhor escolha. Seria mais acertado seguir o que me dizem os neurônios em sinapses. Mas ignoro a tudo. Ouço apenas meu coração. Em meio ao silêncio, meus ouvidos perscrutam o campo de batalha. Nada se move a não ser uma leve brisa que levanta as folhas caídas. Eu sou invencível. Quer me fazer acreditar o mestre que o sangue bombeia por meu corpo. Contudo, sei-me frágil. Conheço meus limites.

Estou frente a mais difícil de todas as minhas lutas. Não acredito que meu corpo possa a ela sobreviver. Creio que pereceremos. Pois não existe qualquer salvação. Somos culpados. O coração é meu cúmplice. Cometemos juntos todas as faltas. E agora? Por ser indomável, ele me faz escolher as vias mais estranhas. Nem sempre são as mais acertadas. Na maioria das vezes, não o são. Por que ainda ouço os maus conselhos que tal selvagem dá-me, ainda não sei. Já que sempre me levam para as vias mais adversas. Mesmo assim, homenageio meu coração. Todo sentimento, conduz-me por onde não devo ir. Vamos juntos. Eis o perigo. Neste labirinto da vida, a razão deveria prevalecer. Mas não consegue vencer a arritmia do tirano de meu corpo. Este último, que deveria viver em saudável democracia, foi sobrepujado pela força do ditador fonte dos sentimentos. Nada segue o curso correto. Tudo corre aos borbotões. Como um rio que leva em seu leito todas as coisas. É assim que me sinto. Levada pelas correntezas da vida. Sem poder escolher o melhor curso de minha nau. Estou à deriva neste imenso oceano. Apavorada frente ao desconhecido. Cerca-me um infinito que ainda não foi desbravado. E por todo lado há medo. Quero ter em mãos alguma carta náutica ou mesmo um astrolábio, talvez um sextante. Porque aqui, estou suscetível aos perigos do mar. Os monstros marinhos que vivem nessas águas podem, a qualquer momento, me surpreender.  Eis o instante certo para reagir. Tenho de arriscar. Concentro as forças no peito. A arritmia conduz ao medo. Somos um só. Pois, o coração é-me interno e ele governa-me. Poderoso ditador numa terra sem lei. Todavia, agora estamos encurralados. Não há escapatória. Resta-nos o cérebro, ignorado durante todo este tempo, e que pode achar uma saída razoável. Mas ele também está confuso. Aturdido diante de tamanhas dificuldades. Sem escapatória, temos somente de rendermo-nos ao exército inimigo.

Assim, feitos prisioneiros, eu e meu corpo inteiro, somos levados a julgamento por nossos crimes. Somos inocentes, mas culpados. Inocentes porque não tínhamos ciência do que fazíamos e culpados porque o fizemos. Seria uma verdadeira exculpante? Não, porque ninguém pode alegar desconhecimento da lei. A norma é clara. Porém, a ignorância sobrepuja a luz. É a noite que se abate sobre a razão dos homens. O coração ordena, obedecemos. Ao arrepio do que dita a lei. Inconscientes de nossa culpa. Não há dolo, mas persiste o crime. Precisamos do auxílio de um bom advogado para encontrar uma brecha no que dita os códigos e a Carta Magna. Será que há uma mínima chance de sermos absolvidos? Por que fui ouvir as necessidades de um coração vadio? Este tirano, que por muito tempo me governa, é famoso por sua crueldade. Não escuta o que diz os clamores do resto do corpo. O cansaço, que consome os demais músculos, é ignorado. Obriga-nos a prosseguir. O sono, que faz pesar as pálpebras, é desprezado. Um único dever nos determina: continuem! Assim, sobra-me um físico deteriorado pelos desmandos desse órgão tirano. E o pior, eu ainda o venero. Homenageio-o em meus escritos. Disserto sobre sua devastadora arritmia. Ele controlar-me-á para todo sempre? Estou condenada a seguir pela eternidade o que me diz o coração? Será possível fugir dessa pena atroz? Não quero mais agir por impulso. Quero sondar todas as consequências de meus atos antes de praticá-los. Escapar da tolice que envenena minha alma. No breu das alucinações que me comandam, ainda existe uma tênue luz.  É uma mínima chama de esperança. Um pequeno grão que pode vir a germinar ou não. Lampejos de racionalidade ainda existem. Pequenas faíscas das sinapses persistiram em meio à escuridão da loucura. Será possível resistir? O cérebro, que diversas vezes tentou dar um golpe de Estado, mas foi eternamente sobrepujado, não desiste. O coração é sempre mais forte. Sempre?

O que farei, se o corpo não pode vencer as investidas do exército da emoção?  É, por seu tremendo poder sobre mim, que denomino meu coração de selvagem. Pois, ele que me condiciona a suas normas. Estou submetida ao seu alvedrio. Nada posso fazer. Agora que estamos detidos pela realidade, alego domínio da fantasia. Inútil tentar desembaraçar-me da culpa. Pois, as ações foram insanas, motivadas por minha inconsciência, mas foram minhas. Eu devo assumir toda a responsabilidade. E, mais uma vez, o coração é agraciado pela impunidade. Não se pode apenar um órgão, ainda mais, que não pensa ou age. Por mais que sustente o poder dele sobre mim, não me dão crédito. Julgam-no indefeso. E o cérebro sozinho assume todos os crimes. “Foi premeditado.” Dizem alguns. Outros aludem ao poder de racionalizar todos os crimes. “Como pode agir dessa maneira?” “Será que imaginou que sairia impune?” É o que a maioria interroga. E quem recebe sobre si a carga de todos os meus erros é o inocente cérebro, que sempre me tentou alertar para a consequência de todas as faltas. E o coração, continua a bater. Feliz, porque não foi considerado o mandante dos crimes. Livre, ainda me provoca arritmias. Eu queria não o ouvir mais. Assim, sairia ilesa da avalanche de realidade. Porque ele só me responde com ilusões, só me governa com fantasias. E sua força dominadora é tremenda. Ele é poderoso e invencível. Todas às vezes, se levanta ainda mais sedento de aventuras do que quando caiu. É um forte do qual protejo minhas terras. Não importa a frota de canhões apontados em minha direção. O poder bélico do coração é sobremaneira mais vigoroso. Ninguém poderá jamais o dominar. Por isso, quando mais quero fazer-me razão, sou apenas sensibilidade. Não há como desfazer-me desse tirano que me domina. Assim, admito que meu coração é selvagem, mas não há quem consiga domá-lo. E ao conferir um nome ao meu blog, tive de fazer menção a este bravio órgão que a tudo domina.

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Domando as musas

Giordana Bonifácio

Quero ver a beleza deste vasto mundo,

E num sentimento deveras profundo,

Reconhecer-me como parte desta Terra.

Um ser humano que sem destino certo erra.

 

Perdendo-me em poesias, produtos de minha arte.

Encontro-me entre versos, estão em toda parte.

O vazio da solidão, preencho com música.

A literatura é o que torna a vida rica.

 

Acreditando ter as musas sob domínio,

Pois as palavras me geram grande fascínio,

Considero-me já uma perfeita poetisa.

 

Mas logo reconheço: a arte é deveras precisa.

Não se resume a criar rimas e versos tortos.

Assim em sua obra ensinam os poetas já mortos.

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