Através do espelho

Giordana Bonifácio

Fico pensando em todos os grandes escritores que escreveram sobre a forma misteriosa que o espelho nos reflete. Creio que veem este objeto com a mesma visão que lhe dedico. Eu penso que o que vemos é o nosso avesso. É aquilo que somos negativo. Não somos nós, mas nosso contrário. Não é por menos, que quando acenamos com a mão direita, ele nos responde com a esquerda. O que acho mais chato nessa face vítrea é que ela não nos mente. Está sempre a dizer o que somos: feios, belos ou, ainda, monstros. Não gosto da sinceridade deste pedaço de vidro reluzente. Não o deixo guiar minha vida, mas vez em quando fico triste com que ele me diz. Não sou daquelas que fica perguntando: “existe alguém mais bela do que eu?” (Também, se o fizesse, ele não pararia de falar por um ano). Mas acontece, que, em certos momentos, nós queremos gostar do que vemos. Um pouco estranho isso, não é? Mas o espelho não dá folga. Mostra uma barriguinha aqui, outra ruguinha ali. E já percebo que aquela imagem que vejo não sou eu. Eu não tenho esse rosto! Eu não era assim! Então, o espelho, irônico, me diz: “falou bem, não ERA!” Então me define como bem entende quando quero de volta o rosto que eu tinha. (Acho que ele roubou-me de alguma forma. Meu reflexo está em algum lugar e me foi subtraído pelo maléfico espelho). Por isso que, de vez em quando, ou “de vez em sempre” dá vontade de quebrá-lo em milhares de pedacinhos: “isso é por me furtar o rosto e deixá-lo preso ao passado!” Porém, espelhos se multiplicam rapidamente e quase sempre nós cruzamos com eles por aí. Ainda mais agora que os decoradores valem-se deles para dar profundidade a ambientes apertados. Quando a última coisa que você quer ver é seu reflexo, pode ter certeza: você cruzará com um espelho. Os índios acreditavam que este objeto insensível furtava o espírito dos homens. (Ainda não estou certa que não faça isso mesmo.) Talvez seja essa a razão que o espelho mexa tanto com a imaginação dos escritores.

Narciso, a imagem suprassumo da vaidade, apaixonou-se por seu reflexo. E padeceu por muito amar a si mesmo. (Devo abrir um parêntese aqui para azucrinar aqueles defensores do amor próprio acima de tudo? Acho que não, porque até mesmo eu gostaria de ver o que quero no espelho…) Lewis Carroll levou Alice para o mundo dos espelhos num sonho onde o tempo corria ao contrário. Mas de tão absurdo, não sabia Alice no fim, se era ela que sonhava ou o Rei Vermelho. E ainda Oscar Wilde forçou ao próprio Dwarf reconhecer-se mostro nesse pedaço de vidro insensível. Sabino escreveu sobre o menino do espelho, um amigo com quem o pequeno Fernando viveu grandes aventuras. E quem não se lembra da Rainha má que, querendo ser a mais bela eternamente, tentou assassinar Branca de Neve com uma maçã envenenada? E também do espelho mágico que lhe informava se continuava a mais bela do reino? Espelhos, na verdade, guardam nossos mais recônditos segredos. A verdade que não queremos contar. Lá está, guardada por nosso avesso, a desconcertante mentira. E se ele pudesse revelar nossos segredos, não hesitaria em fazê-lo. Pois ele é nosso avesso. No mundo dele a mentira é a verdade e nossa verdade é a mentira. (Não confie em que escreve com a mão esquerda, já diziam os romanos).

E penso no que faz nosso contrário, quando não estamos a exigi-lo frente a nossa face. Será que vive como nós? E que poderá a qualquer momento sair do seu mundo e invadir o nosso igual ao amiguinho de Fernando? Ou poderíamos então, invadir esse país dos espelhos tal qual Alice? Contudo, essas são obras que germinaram da criatividade dos escritores e, fisicamente, espelhos são superfícies muito lisas com alto índice de reflexão da luz. (Vamos falar a verdade, cientistas destroem a fantasia embutida nos objetos!) O nosso inimigo espelho não guarda países mágicos ou mundos diversos, ou nos furta o espírito como acreditavam os índios.  São, na verdade, pura física. Mas pensar como estes cientistas é muitíssimo chato. E ainda pode ser perigoso. O grande físico e astrônomo  Arquimedes conseguiu, na Segunda Guerra Púnica, incendiar um navio com um jogo de espelhos somente. E Leonardo da Vinci codificava de tal maneira seus escritos que só poderiam ser lidos mediante a ajuda de um espelho. Por que pensar com tal exatidão se é possível pensar com arte?

O espelho é um fascínio para o homem que vê pela primeira vez sua imagem refletida e se reconhece. Quando nos damos conta que esse instrumento de reflexo é apenas um objeto, provavelmente em nossa mente infantil já tivéssemos formulado mil possibilidades do que se tratava. E poderíamos ter criado mundos inteiros a que teríamos acesso se atravessássemos à lisa e fria superfície vítrea. Talvez fizéssemos amizade com nosso avesso, com quem conversaríamos sobre todas nossas aventuras. Mas nem sempre estou tão amiga de meu espelho assim.  Ele já começa me apontando o dedo quando lhe aviso que não estou “para brincadeira”. E depois tem coragem de apresentar-me uma ruga que ainda não tinha visto. É muito “sem noção” esse pedaço de vidro, não? Vivemos assim, eu e ele em profundo embate. Ele a me confirmar a passagem dos anos e eu tentando escondê-la. Passo um cremezinho milagroso, para fazer frente à força bélica desse objeto amaldiçoado, mas ele me desafia com “fogo pesado”: “olha como eu estou gordinha!!!!” É o que a imagem me diz. Nem adianta perguntar para os homens em busca da confirmação do que o espelho projeta. Eles sempre se esquivam de dizer.

Acontece que esse pedaço de vidro insensível faz-nos perceber como Dwarf no conto de Oscar Wilde, que não somos um símbolo de beleza.  E que temos um aspecto asqueroso mesmo. E não há o que façamos que possa modificar isso. (Só uma cirurgia plástica geral). Eu sei que nós mulheres corremos para os paliativos: cremezinhos, loção reparadora, óleos e etc. Mas nada disso terá, confiem em mim, o efeito desejado. Temos de gostar do que vemos sem a comparação do rosto perfeito da artista de cinema ou da modelo internacional. Não se trata de autoajuda, é que vejo que estamos na ditadura do espelho. Se não estivermos de acordo com a beleza ambicionada, não  somos bonitas. Isso, em minha opinião, tem de mudar.

Eu sei de algo que o espelho não pode mostrar. Sabe o nosso espírito? Aquilo que determina o que você será como pessoa. Nossa gentileza, fraternidade e solicitude? Pois é, isso não é refletido pelo espelho. É a causa de chamar-lhe insensível. Não é possível ver no espelho o tamanho de nosso coração. A bondade que cada um carrega em si. Isso não é levado em consideração na ditadura do espelho. No espelho, só as formas. Nós só podemos questioná-lo sobre o grau de nossa beleza e não sobre o tamanho de nossa bondade. Não estava claro para Narciso que ele era um vaidoso orgulhoso, (como não está claro para muita gente), quando este viu sua face refletida no lago. Bem como, Dwarf não poderia ver quão valorosos eram seus sentimentos somente ao olhar-se no espelho. E por causa desse objeto frio, ambos morreram. Enquanto isso, aqueles que fizeram do espelho uma aventura, puderam viver livres da obrigação da beleza. Eu ainda temo esse grande inimigo. Vemos-nos enviesados. Quase nunca nos entendemos. Ele exige-me algo que não sou capaz. Eu cobro-lhe uma imagem que não tenho mais. Viveremos num embate eterno. Pois sou contra a sua ditadura homicida e ele, contra minha falta de zelo por meu corpo.  Não adianta, não nos entenderemos. Enquanto nos desafiamos, o tempo passa. E a cada dia mais diferente estou. Aquela criança, com quem me acostumei a brincar, nunca mais saiu do espelho. (Se Sabino permite-me tomar emprestado sua história). E agora se perdeu em algum lugar, refém do espelho que não me permite mais vê-la. Resta-me essa imagem que vai muito além do que me mostra o espelho. Através do espelho, vejo toda uma vida, que me marca o rosto. Através do espelho vejo muito mais que os outros, que não veem o que sinto.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: