Mentiras nem sempre são sinceras.

Giordana Bonifácio

“As mentiras nem sempre são sinceras.” Ele sorriu. Acendeu um cigarro e a chama brilhou na noite. Eu fiquei imaginando que se nem sempre as mentiras são sinceras, podem se tratar de verdades. Acho que é bem isso, o inverso do inverso. (Hoje estou extremamente musical). Ele fitava-me com olhos sinceros, mas eu lhe mentia os sentimentos. Penso que nunca aprendi a sentir. Algo fica meio confuso dentro de mim. Talvez ame as pessoas de um jeito estranho. Deixo-as bem distantes do que sou. Mas eu nem sei o que sou ainda. Possivelmente por isso não as permita entrar nesse meu mundo bagunçado. Nele a desorganização é a organização imposta. Meu cérebro ditador não escuta meu coração. Bem faz ele, imagina o que aconteceria se minhas ações fossem pautadas pelo que sinto? Não pode ser assim. Não me permito. E minhas mentiras são sinceras. Mas minhas promessas nem tanto. Algo aqui em meu peito dói. Não é uma dor física. É como se o tempo houvesse aberto uma ferida no meu coração. Bem estranho pensar no coração como um órgão espiritual. “Você partiu meu coração” Se houvesse partido mesmo esse indivíduo teria cometido assassinato. Mas é bem por aí. Ele pergunta em que estou pensando. Fico alguns minutos imaginando o que dizer. E falo: “Nada.” “Você esconde-se de mim”. “Mas estou bem na sua frente!” Ele sorri. Não gosto quando ele sorri. Faz-me pensar que zomba de mim. Não estou muito confortável. Ele pede para que sentemos. “Eu prefiro ficar em pé”. Ele senta no meio-fio. Eu digo que ele irá manchar a calça com a tinta que passaram na véspera para enfeitar a cidade para o sete de setembro. “Pode deixar, é jeans.“ Ele pergunta por que me privo de tantas coisas. Isso me assusta. Sempre pensei abusar do que gosto. Pois escuto minhas músicas favoritas até enjoar delas… Para essa pergunta tem resposta? “Eu nunca me privei de nada.” Ele me diz que me fecho como uma concha. “É que tenho pérolas dentro de mim”. Sorrio. “É possível”. Ele joga o cigarro no chão e esmaga a chama com o tênis.

Eu não gosto disso: jogar o lixo na rua. Acho uma falta de educação horrível. Eu peço para ele pegar o toco de cigarro e jogar no lugar certo. Ele fica contrariado, até um pouco envergonhado, mas faz o que pedi. Tenho essa mania estranha de julgar as pessoas por mim.  Penso que devem ter o comportamento que tenho, pensar como penso e até mesmo serem movidas pelos mesmos sonhos que eu. “Não posso ser como você espera todo tempo”. Ele diz. Eu respondo que também conheço essa música. “Eu sei”. Algo nele me irrita sobremaneira.  Não sei se é a presunção que sempre foi algo que repudiei. Talvez seja porque ele não se condoa de ninguém. Contou-me histórias terríveis do que fazia com os amigos na escola. Não gosto disso. Não gosto dele. A verdade é que não sei amar. Ou talvez não consiga amar ninguém, ou, mesmo, as duas coisas. Por que não lhe digo apenas para que se vá? Para sempre? Ele diz: “Você tem medo.” Eu digo: “quem tem medo é você.” A vida se resume a algumas canções que a gente não esquece. Eu vivo entre notas musicais que flutuam ao meu redor. E meus sentimentos foram ou serão musicados. O que falo não é o reflexo do que sinto. Eu sinto outra coisa. Não sei o quê. Penso que não tenho muitas oportunidades. Só isso. Se pudesse estar mais tempo com ele, poderia entender o que ele significa para mim. Mesmo que sua presença me repugne certas vezes. “Ainda sonhando?” “Não consigo fugir de meus pensamentos.” “Eu sei e você sabe que a distância não existe…” “Impressiona-me seu bom gosto musical”. Eu digo meio desligada. “Eu queria saber por que você é tão distante.” E ele tem de sempre me fazer perguntas que não posso ou não quero responder? “Às vezes sou assim mesmo. Estou presente só em corpo. Meu espírito flutua por esse mundo a fora”. Ele pergunta-me se estou com fome. Eu digo que seria melhor comer em casa, a comida é mais saudável. Não consigo me acostumar com comida de restaurante. “Você é muito fresca!” Ele explode numa gargalhada. Sorrio meio de lado. Não gosto que me rotulem. É como se não ousasse passar um milímetro além do meu círculo de segurança.

“E por que você está comigo?” Eu reclamo. Ele tenta se desculpar. A resposta está estampada para nós dois. Não temos escolha. E é isso. Juntos por falta de opção. Ainda tem a possibilidade de estarmos sozinhos. Mas a solidão dói. Tentamos escapar da dor de estar sozinho na companhia de alguém. Mesmo que este alguém não se coadune ao que você é. “Estou muito sozinha com você”. Poderia lhe dizer. Mas ele responderia: “é melhor ficar sozinho, sozinho?” Ainda não sei bem. Estou avaliando as circunstâncias. Algo me diz que devo tão somente restar comigo. É que somente eu me compreendo. Ninguém mais se encaixa nesse quebra-cabeça de um “zilhão” de peças que eu sou. “Eu poderia lhe desvendar, mas…” “Eu sei que tomaria muito tempo”. Tempo que não temos. O fim é inevitável. Mesmo porque, somos tão diferentes quanto água e vinho. É que demanda muito esforço tentar entender-me. O que acontece dentro de minha alma? Não sei. Acho que há em meu espírito um vazio infinito. É como se um universo crescesse dentro de mim, repleto de nada. “Você poetiza muito as coisas.” “É que minha arte é tornar os pensamentos em algo belo.” “E se você não fosse uma artista, o que você seria?” “Seria eu” Ele sorri: “você tem bom humor”. Mas eu estava falando sério! O problema é que estamos em órbitas diferentes. Não tenho luas a minha volta. A noite brilha sem luar. É um breu absoluto onde estrelas pequeninas brilham promessas. É na minha solidão que me compreendo mais. Como consertar o que já nasceu errado? Há fissuras nas fundações desta relação. Temos uma relação? O problema é que ele não sou eu. Eu sempre pedi alguém igualzinho a mim para um Deus que jamais me ouviu. Aparecem-me, então, tais figuras. “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. E já vou compreendendo-me mais: estou à espera do eu que nunca chega.

“Um centavo por seus pensamentos”. Ele abraça-me. “Eles valem muito mais”. Desvencilho-me de seus braços. “Eu não mordo”. Ele diz. “Mas eu sim”. Respondo. “Você é muito engraçada”. Ele ainda a zombar de mim. Não sou engraçada, sou estranha mesmo. Ninguém consegue se inserir no meu mundo de avessos. E quando se aproximam excessivamente, já os afasto. Não por medo. É que consigo ver as pessoas muito além do que sua imagem me diz. E suas ações tornam-lhes insuportáveis para mim.  “O que há?”. O problema é que não há nada.  Como dizem: “o problema sou eu”. E não posso forçar-me a uma situação que para mim é insuportável. Poderia mentir-me, enganar-me que tal situação é superável. Ou isto, ou restar sozinha. Para sempre? Sempre e Nunca. Poxa, por que generalizo tanto as coisas? Determino meu destino com palavras que impedem qualquer possibilidade. “Poderia ser, talvez, quem sabe?”. Tenho de treinar estas expressões. Não são não e nem são sim.  Melhor deixar as coisas em aberto. “Um dia, quem sabe?” Ele pergunta-me se quero terminar. O problema é que já terminou. Ou nunca chegou a começar. Ainda estávamos nos conhecendo. E quando finalmente o conheci, percebi que éramos muito díspares para estarmos juntos. “É melhor assim”. “Tudo bem. Amigos, então?” Respondo que sim. Ele brinca com o isqueiro algum tempo. “Quer que eu lhe deixe em casa?” “Não, obrigada. Tenho outras coisas a fazer. Não posso voltar para casa agora”. Então ele se vai. Para sempre. É que para mim as mentiras são sinceras. A verdade era que nunca mais nos veríamos. Mas naquele momento, só cabia mentirmo-nos, como se a realidade pudesse se esconder igual as crianças que se acham invisíveis ao cobrir o rosto com as mãos. Como se diz: “tampar o sol com uma peneira”. Não funciona de jeito nenhum. Contudo a gente tenta. Em meus sonhos, há abismos profundos em que caio vez em quando. Penso que sou eu mergulhando em mim. Eu sou o vazio mais complexo que existe.

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3 opiniões sobre “

  1. Juliana

    – o que significa ” mon coeur” ?

    • A escritora

      Meu coração, o nome do Blog é Meu coração selvagem. Uma homenagem ao livro Perto do coração selvagem da Clarice Lispector.

  2. lilas666

    Republicou isso em Cosmopolitan Girl.

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