Marcas

Giordana Bonifácio

 Um dia desses estava conversando com minha mãe e dizia-lhe que queria deixar minha marca neste mundo. Ela respondeu-me com certo desprezo, que eu queria apenas ser famosa e aparecer como estes pseudoartistas de reality shows. Fiquei algum tempo pensando sobre isto. Será que meu desejo seria tão fútil? Gastei horas analisando essa questão. Acontece que, quando mencionei que queria deixar minha marca no mundo, não se tratava de ser conhecida. Não, longe disso, minha marca é o resultado de minha obra que, já posso dizer, é bastante extensa. Quero ser uma escritora esquecida pela massa de consumo. Não quero criar bruxinhos ou mesmo, qualquer aventura que divirta os jovens e enriqueça seus autores. Não espero que criem filmes com artistas famosos interpretando meus personagens. Não quero ser objeto de biografia depois de minha morte. Eu quero somente deixar para posteridade minhas criações, que eu possa formar um publico leitor. Mas não tão numeroso, pois quero que questionem quando anunciarem minha morte no jornal das 20 horas, “- Giordana quem?” Foi o que meu irmão fez ao saber da morte de Moacyr Scliar. Perguntou se eu o conhecia. Então, fui obrigada a listar a obra genial e maravilhosa deste grande escritor. Este sim deixou sua marca, mas para a maioria dos brasileiros permanece desconhecido. Uma falta grave, para este povo, que vê na música sua única forma de expressão. Será que desconhecem que há também os livros? E que ler é uma aventura que se vive sem presenciá-la? Agora, nessa época de Facebook e Twitter, cresce o número de fãs da Clarice Lispector que jamais leram nem mesmo um conto de sua autoria, quanto mais seus livros (que devo dizer, são estupendos). Outras pessoas juram que Caio Fernando Abreu mudou suas vidas. Ocorre que nem mesmo o instigante “Morangos mofados” deste autor se deram o trabalho de ler. E citam suas palavras sem saber o universo em que se inserem.

Eu quero uma vida menos atribulada, sem a mídia atrás de mim ou paparazzis no meu encalço procurando saber o que estou fazendo. Mas então, me vem a pergunta: essas pessoas tão famosas, tão importantes com suas fortunas e limusines estão deixando sua marca neste mundo? Será que no futuro serão lembradas, por terem sido, de algum modo, importantes? Será que não serão esquecidas como o jovem assalariado que acorda cedo para ir ao trabalho, ou como a faxineira que recolhe sua diária depois de muito esforço, ou ainda, igual ao professor que perde a voz, de tempos em tempos, devido o grande volume de aulas que tem de ministrar? E eu me pergunto então: será que estas pessoas não estão deixando sua marca no mundo? Acho que aqueles que se gabam por sua fama e fortuna não são nem um pouco mais importantes do que estes homens e mulheres que citei acima. Estas pessoas comuns fazem coisas incomuns. Todos somos capazes do impossível. E somos importantes, mesmo sem sermos conhecidos pelo público. Moacyr Scliar era um escritor essencial da literatura contemporânea brasileira. Mas sua fama não alcançava a das duplas sertanejas, cujas letras são recitadas por fãs apaixonadas nos shows que reúnem milhares de pessoas. Acho que isso poderia mudar se, tal qual Clarice e Caio, ele virasse febre nas redes sociais. Para grande parte do povo brasileiro, Scliar era só um médico judeu. Ele era imortal, porém, morreu. (Claro, era membro de nossa Academia de Letras) Isso me faz recordar duas coisas. A primeira delas foi, quando um grupo de amigos se entretinha com um jogo de conhecimentos gerais, foi sorteada uma pergunta sobre como se apelidavam os membros da ABL. Pasmem: eles não sabiam a resposta! E a outra lembrança que me aconteceu, é que um ministro de STF com termos irônicos disse que aquele Tirbunal não era a Academia Brasileira de Letras. Denotando, desta forma, pensar que esta é menos importante que aquele. Até mesmo nossa elite intelectual zomba de nosso centro produtor de cultura. Eu fico bestificada com a ignorância de nosso povo. Às vezes isso me envergonha.

Dizem que a Academia é controlada pela Globo desde a escolha de Roberto Marinho para figurar entre seus quadros. (Em detrimento de Quintana – Admirem-se!) Não sei se a situação permanece assim depois de tantos anos. Mas estou convicta que a ABL foi e sempre será essencial para nossa literatura. Porém, poucos são os que conhecem sua existência. Estão muito mais ocupados com a nova “mulher fruta” ou com a polêmica que se produziu no capítulo da novela do dia anterior.  Eu não quero essa publicidade malévola. Eu gostaria de ser uma nobre desconhecida como Scliar e morrer no anonimato de uma chamada do Jornal. “Jordânia quem?” Diriam. Seria um feito se acertassem meu nome. (Não posso exigir demais de uma população, que prefere à leitura, ouvir canções de cunho sexual, que aludem à conjunção carnal em si.) Não quero ser famosa. Este é o ponto. O que espero é o reconhecimento de minha obra. Ou seja, que os poucos que a leiam, possam comentar a qualidade de minha literatura. A repercussão de meus livros se daria num círculo pequeno de leitores. Porque o Brasil é feito de homens e televisões. Os livros foram esquecidos em algum ponto de nossa educação. É preciso resgatá-los. Fazer com que nosso jovem leia mais, que fuja da alienação promovida por canais de reality shows e novelas. O povo deve se encontrar nas páginas de Machado ou de Amado. É que não compreendem as vantagens de criar um hábito de leitura. Para quê escrever melhor, se a fama está limitada aos “artistas” da tevê? Para quê incentivar a imaginação, se a programação tão “rica” de nossos canais de televisão faz isso pela população? As gírias da nova novela logo estarão disseminadas entre todas as classes sociais. Para quê falar bem? E isso me envergonha de tal forma que me pergunto se, nos demais países do mundo, seria do mesmo modo tão elevado grau de alienação da população. Será que isso é conveniente para os nossos governantes? Pois uma massa sem opinião é mais fácil de manipular. Acho que pensar nunca vai estar na moda. E isso, mais uma vez, me decepciona bastante.

 Então, fiquei pensando em tudo isso depois que minha mãe aludiu ao meu desejo de fazer-me famosa. Eu não quero ser famosa por ter um corpo siliconado moldado por horas de academia. Não quero ser famosa por pantomimas realizadas em reality shows de péssima qualidade. Não quero ser famosa por ser bonita e causar uma boa impressão frente às câmeras de tevê. E também não quero ser famosa por cantar músicas cuja composição peca pela falta de imaginação e densidade. Eu quero, sim, ser famosa, por minhas obras, que os demais se recordem de minhas poesias e dos prêmios recebidos pela qualidade do que criei. Eu quero deixar minha marca, na memória cultural do país e não na volátil memória midiática, que designa dezenas de minutos para um destes “pseudoartistas”, que logo voltará ao anonimato, e apenas alguns segundos para noticiar a morte de um dos grandes artistas de nosso círculo literário. Eu quero a presença de meus livros nas estantes dos leitores apaixonados e não nas festas que se desenrolam pelo Brasil a fora. Não quero milhares de fanáticos no meu encalço em busca de imagens exclusivas de meu cotidiano. Mas um lugar garantido na ABL. Quero ser uma imortal que morra sem louros. Ganhar uma chamada de segundos no jornal. Contudo, uma eternidade para ser esquecida pela cultura. É isso que espero, é essa marca que eu procuro. Não pretendo fazer-me conhecer, não desejo aparecer, não está no meu intuito ser abordada na rua em busca de autógrafos. Não está em meus planos amealhar fortunas. Longe disso, ocorre-me até a possibilidade de morrer com os poucos recursos que possuo. Eu quero somente que fique claro que meu desígnio é apenas um: deixar impresso (literalmente) nesse mundo o meu pensamento, as minhas ideias e meus sonhos. E que estes sejam conhecidos, mesmo que por uma parcela insignificante da sociedade.

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