Noite e dia

Giordana Bonifácio

 Quero a alegria das noites calmas, quando sentimentos se acomodam serenos em mim. Deito-me em minha cama, acolhida por sua maciez, e sonho. Tão reconfortante estar segura, entre lençóis e cobertores, sem me preocupar com o futuro. O dia de amanhã chegará, mas nem espero por ele. Nasce o sol e ele ilumina o quarto, invade minhas pálpebras, então, desperto.  E sem saber ou precaver-me, o hoje virou ontem e o amanhã é real. Penso no futuro como uma mera possibilidade. Mas sem avisos, na corrida do presente, alcanço o futuro. Meio difícil de acreditar na fuga do passado. Ele afasta-se de mim de modo que depois de alguns anos, nem me recordo mais do que se foi. O ontem é o que realizo num hoje que já passou. O passado e o presente nos são reais, mas o futuro é “uma astronave que tentamos pilotar, não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar…” O problema é: ele chega. O futuro é inevitável. Mas por enquanto estou aproveitando a comodidade de meu leito, do calor que me envolve, das sensações mornas que me ocorrem. E assim, durmo, sem culpas, sem receios e sonho. Mas não quero sonhar, pois o sonho machuca-me tanto quanto a vida. Não quero lembrar certas coisas que os pesadelos trazem consigo. “Noites de ondas verdes ou azuis e espuma branca que me levam para mundos estranhos. Não quero navegar nesse mar, pois sei que há hidras esperando por minha embarcação e ainda sereias que me usurparão o segredo que trago comigo. E tudo é diferente no sonho. Tudo que escondi de mim mesma está guardado num único pen drive. (Considerava-me mais complexa do que isto.) E anjos me visitam com promessas que não se podem cumprir.” Não admito que me sinta tão desconfortável quando estou sonhando. É como se o tempo todo soubesse que as madrugadas são horas perdidas em alucinações vãs de desejos submersos no mar. E nesses oceanos imprevisíveis não desejo navegar. Quero caminhos sólidos, sentir-me segura nas minhas viagens. Sem o perigo iminente de tudo se revelar uma terrível mentira. Os meus temores são somente meus. Não quero os dividir com ninguém. O perigo das noites insones é a possibilidade do sonho invadir a realidade. Custa-me sobremaneira conviver com ele nas noites em que desejo somente dormir, descansar dos meus pensamentos e de tudo que me fere. Mas Morfeu traz a condição do sonho junto ao sono. É venda casada mesmo, não adianta reclamar no PROCON, pois nosso sonho não é um bem de consumo.

Meu quarto, no silêncio, é calmo como uma lagoa, sem ventos para turvar-lhe a superfície, refletindo como um espelho as estrelas do céu. Se não tenho sono, Virgínia ou Clarice substituem a docilidade do repouso. Posso ler horas a fio, sem fatigar a visão ou a mente. Os sonhos são literatura. Entretanto, prefiro somente estar sob o manto da noite, pontilhado de estrelas longínquas que não poderei jamais alcançar. Noites escuras de nuvens são como um cobertor que se estende sobre nós. Estamos certos dos astros mesmo que não possamos vê-los. A lua mente sua luz para nós. Não reluz, reflete. É como um espelho no céu. “Pede a cada estrela fria um brilho de aluguel.” E enquanto aproveito o conforto desses travesseiros em que recosto sem pesares minha cabeça, espero o sandman depositar a areia do sono em meus olhos. A morte é um sono do qual não despertamos. E se fechar os olhos com força não durmo. Tudo tem de ser feito com suavidade. Dormir é a prática das coisas leves.  Eu gosto de deitar-me em redes, balançar-me o corpo, enquanto a sonolência ocorre aos poucos. Algumas vezes escuto música, é relaxante, mas há dias que me proporciona pesadelos. É que quero deixar o real nesse plano. O sonho é um reino sem as agruras desse mundo. Não quero sentir as dores que me acompanham na vida. Quero que nesse reino encantado apenas seja acompanhada pelas sensações boas, coisas que desejo estarem comigo. Estranho é que jamais sonhei com algo que realmente quisesse. Não queria ver a imagem de meus medos quando estou dormindo. Porém, são as que mais me ocorrem. Não quero a companhia de quem me machucou, mas essas pessoas se inserem no meu sono para produzirem-me pesadelos. Então durmo mal, não descanso. Fico tão alerta quanto estou desperta.

Os franceses denominam pesadelos de couchemal que significa sono ruim. É o que me ocorre. Meu sono é agitado, como se estivesse fugindo sempre da dor, mas até quando estou longe de seu habitat, ela me atinge. Uma flecha apontada para meu coração. Queria poder escapar de mim. Estou sempre perto do que sou. Minhas horas perdidas tentando ser quando não ser é a saída mais viável. Deve ser é o que tudo seria se o mundo não fosse imprevisível. As sementes do sonho não são feijões mágicos. Não nos aguardam tesouros no céu. Queria tão somente descansar. E esquecer, caso seja possível. Não posso esperar a força da borracha do tempo. Estou ansiosa para não recordar todo sofrimento. E quando me vêm as lembranças, as lágrimas molham meu travesseiro. As noites se tornam amargas, facas afiadas cortando-me o espírito. Se pudesse deixar o passado passar. Todavia, por algum motivo retive-o comigo. Os sentimentos represados no coração. E eu dizendo sim. Porque digo sim, mesmo àquilo que me fere. E por isso não consigo deixar o sonho longe de minha vida, nem a vida longe do sonho. Eles se misturam e tudo acaba numa bagunça sem tamanho. Eu quero trazer comigo só a leniência do leito quente, dos lençóis limpos e cobertores acolhedores. Enquanto aconchegada nesse lugar especial, sem o pavor das estradas em que o mundo obriga que eu caminhe, posso repousar. Ainda há quem reclame de sua cama, considere-a muito dura ou, de algum modo, fofa demais. A minha corresponde exatamente ao que espero dela: é confortável e segura. Afastada de sua maciez, é-me impossível dormir. Acabo lendo livros inteiros numa única noite. É que, se a cama é na verdade um ninho de espinhos, não sou uma espécie de faquir para descansar sobre ela. Engraçado é que toda minha família considera o meu leito o mais agradável de dormir. E todos querem aproveitar de minha preciosidade a custo zero. “Minha cama, meu domínio, cara-pálidas!” Mas quando acordo, tem um banho morno a minha espera. Rotaciono o registro do chuveiro e um caminho de água quente percorre-me a pele. O sabão tem um cheiro gostoso de limpeza, fricciono-o contra o corpo até surgir uma espuma branca, tal qual a do mar. As dores e maledicências da noite mal dormida são esquecidas, levadas com a espuma que me escorre pelo corpo.

Então, quando vou tomar meu desjejum, um café amargo aguarda-me sobre a mesa, ainda frutas, bolos e pães. Enquanto sorvo o café, algumas ideias me ocorrem. Fico imaginando como se daria o hoje, que já foi amanhã e que será ontem. Meu sobrinho faz bolinhas com o miolo do pão. Ele é uma criança ainda. Mas não o admite ser, pois agora há novas denominações para os garotos e garotas de treze anos: pré-adolescentes. E já se acham gente. Eu queria que o passado voltasse e pudesse ser menina de novo, sem temores e pesadelos que me acompanhem pela vida inteira. Eu molho o pão no café. Sinto o gosto agridoce da manteiga derretida pela bebida quente. Minha mãe ralha comigo, diz que não devo comer o pão dessa maneira. Meu pai reclama de dores: a coluna novamente. Mas não é suficiente para impedir que ele possa fazer sua caminhada matinal. Meu irmão acorda, vai à cozinha onde bebe leite como o faz todos os dias. Eu observo-os, mas eles não percebem que conheço suas falas diárias. Enquanto meu sobrinho faz bolinhas de pão, ele lamenta que tenha de levantar tão cedo para ir à escola. Eu me recordo dos meus tempos de estudo, algumas coisas, desse período, implicaram no que sou hoje. Atualmente, está em voga a prevenção contra o bullying, mas não é por esta razão que digo o quanto ele é ruim para as crianças. Sofri bullying durante toda minha vida escolar. Posso garantir-lhes que não é nada divertido. E creio que por tal razão tenha me tornado uma pessoa tão insegura. É que fui motivo de chacotas durante toda a infância, diante do que, acho que tudo que faço ou digo é ridículo. Minha literatura é melancólica, mas há muito tempo fui acostumada a ser uma pessoa triste. E sempre que meu sobrinho, um menino alto, forte, bonito e popular na escola, vangloria-se de suas ações deploráveis contra as crianças a quem denomina nerds, eu tento fazê-lo enxergar que as particularidades de cada pessoa é que as deixam belas. “Um mundo de pessoas que atendesse a um só padrão estético seria muito chato.” Digo-lhe. Ele continua a brincar com o miolo de pão. E ainda não são nem sete horas. O jornalista da televisão diz que não vai chover. O dia começa azul, mas faz ainda muito frio.

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