Ainda posso?

Giordana Bonifácio

Será que me é possível amar? Ainda posso sobreviver a mim? Poderia tudo esquecer como à história de um livro que há muito tempo se leu? Serei assim tão forte? Minha alma é tão sensível: sou poeta, sou artista, escrevo um tanto assim de mim. O resto, invento. Não precisam acreditar em tudo que leem aqui. Não posso asseverar a verdade destes tristes sonhos. Pois consistem em ilusões projetadas por meu cérebro para sufragar a força de meus mais íntimos desejos. Por isso, podem creditar a estas linhas a veracidade de uma miragem, haja vista serem tão sólidas quanto. Um nevoeiro onde só se pode imaginar o que está sob a névoa, mas não há jamais a certeza do que se trata. Por esta razão, me pergunto se ainda há espaço para meu coração em mim. Estou abandonada a minha sorte. Sigo por caminhos instáveis no meio dessa densa tempestade, tateando na escuridão de um quarto em breu. Minha solidão é minha breve resposta. Mesmo que por muito tempo tenha se prolongado. Permanece assim, presente, uma ausência que não se preenche. Pode ser uma perda do passado. Aquilo que me escapou de algum modo. As sensações mais estranhas me ocorrem.  Sinto uma melancolia tomar-me o espírito. Seria medo? O que é isto que não compreendo? Dúvida atroz de ser humano quando o mundo que me cerca é inumano. Agarrando-me ao meu pensamento, pois só com ele posso me salvar. Não quero afogar-me numa dor que se perpetua. Ingressa minha alma em caminhos sem volta. Ainda posso escapar?  Quero a saída de meus labirintos mais difíceis. Os enigmas que eu mesma crio para esconder-me do mundo. Mas acabo por não poder me compreender. O que se esconde nas minhas escuras masmorras? (Um pavor de encontrar-me nessas buscas). Serei eu assim como me imagino? Ou apenas um mito que foi erigido para poder satisfazer-me? Ainda posso responder-me sem o perigo de contradizer o que pensam que sou?

Estou preparando as armadilhas para capturar os sonhos perdidos. (Uso apanhadores de sonhos os quais coloco sobre minha cama.) Não é certo que afastarão os pesadelos. A vida se conduz entre delírios. Foram muitos anos que passei sob a expectativa de um fato que não poderia se concretizar. A verdade é que a verdade é real. O restante eram apenas ilusões. Uma mentira que fui me contando, (o mais absurdo é que acreditava em mim). E agora sei o que é certo. O certo é que ainda posso sorver a vida, como uma lata de coca-cola, que é tão prejudicial quanto se embriagar. Mas viver é uma droga lícita. Estamos todos viciados nesse pulsar de nosso órgão selvagem. Coração, ainda posso viver?  (E se ele nos responder que sim?) Estamos na expectativa de uma sobrevida longa. Mas qual a vantagem de estarmos aqui? Por que tememos tanto a morte? Por que a retratamos de modo tão cruel? Será mesmo uma ossada que se apresenta ameaçadora? Acredito que seja apenas um anjo. E este, quando chega o momento, nos liberta a alma desse corpo frágil e à dor suscetível. Então, o que ele nos faz é um favor. Não há qualquer razão para temê-lo. Não estou a sua espera. Mas não me surpreenderei quando ele chegar. Ainda posso contar esta história. E se posso encontrar as respostas de minhas questões, espero que o faça antes de estar condenada a meu último suspiro. Para sempre é quase nunca. E nunca é um sempre que não gostamos. É a falta de algo que não nos ocorrerá pela eternidade. Mas já estou resignada aos “nuncas” e  “sempres”… A vida é uma eternidade muito curta. Quero que para sempre fique em mim o sentimento que não se desfaz. A certeza de estar sã, lúcida, sem o perigo de me perder em novos enigmas. É que vou construindo mistérios. Quero redigir aqui o segredo que me controlou por muitos anos. Revelo que queria um sonho inalcançável. A longínqua possibilidade de ser especial. Todavia sou uma pessoa tão comum que se desfazem de mim com extrema facilidade. É que sou dispensável. Mas isso nem me magoa mais. Ainda posso chorar? Só um pouco?

Meu amigo mais fiel é meu mais perigoso inimigo. Meu cérebro que me garante a inteligência é o mesmo que me ludibria quando dele mais necessito. Estou arriscando-me sobremaneira. Quando deixo as minhas memórias transformarem-se em histórias, há o perigo de perder-me num passado que não passou. Pretérito imperfeito. Mas minha infância foi mais-que-perfeita. Eu já fui tão feliz.  O que ainda há em mim daquela criança alegre e sagaz? (Ainda posso rever aquele álbum de fotografias?) Naquele tempo, o tempo não contava. Os anos eram motivo de orgulho. Ainda amargam as lembranças, coisas estúpidas que fiz e de que me envergonho. Queria retroceder e aceitar que sou uma entre milhões. Um grão de areia, uma gota d‘água em nada representativa. E minha “desimportância” se destaca na multidão. Ainda posso lamentar minha triste figura? Tal qual Dom Quixote, eu andava a enxergar gigantes em moinhos de vento. Agora estou consciente do que sou, ainda do que fui. (E isso me dói). Aguento mais um pouco. Sempre um pouco mais. Mesmo que nunca seja sempre. E o pouco é o muito que nos resta.  É tudo que ainda possuímos. Trabalhamos por uma porção de nada. E o nada é o sempre que nos guia. O tudo é a possibilidade que não se concretiza nunca. Por isso devemos ficar com o interregno entre o nunca e o sempre. O que se limita por estes dois? Será que o tempo ainda decorre quando desprezamos o nunca e buscamos o sempre? Arde-me um coração de sombras. Nas trevas ainda encontro a possibilidade concreta de enxergar a luz. Ainda há certeza que o dia nascerá, mesmo que a madrugada pareça eterna. O próximo segundo é aquele em que vou achar o sentido das coisas que nunca fizeram sentido. Mas não vou contar para mim. (Vai que eu acredito!) Sinto a dor até a última gota. Lateja a mágoa, minha alma está ressentida. O sonho desfez-se como a imagem refletida na superfície da lagoa que a chuva turva. Ainda posso sofrer? Um pouco mais?

Ainda posso dizer: nunca mais? Não vou mais me perder em mim. Não pode amar um coração tão ferido. Não pode sequer sentir, pois não mais afeita estou a sentimentos. A história que não deveria nunca ter começado, chegou ao fim. E é assim: com a alma aos pedaços que reafirmo o que sou. E o que sou não é importante. Eu sou apenas, como tu és e ele é, igual ao que nos somos e vós sois e ainda ao que eles são. Ser nunca foi tão significativo. Um verbo que se traduz na identidade que assumimos. Eu sou uma figura num papel. Abaixo dela está assinado meu nome. Isso me traduz? E se eu for muito mais que isso? E se em meu peito em que bate solidão eu guardar muito mais que o ser da sociedade representa? Eu sou, porque vivo. Eu sou, porque choro. Eu sou, porque sangro. E, a esse ser, desprezam. Não auxiliam o ser que respira com dificuldade sob a marquise, vestindo trapos e implorando esmolas. O ser, humano é. E por que está abandonado por Deus num corpo moribundo, sem alternativas de ser mais do que aparenta? Eu sou um tanto mais. Porque ser é ter. E ter é usufruir de um mundo capitalista que busca sua satisfação nas gôndolas dos supermercados. Eu não tenho muito, mas sou um pouco. Aquele que espera a morte chegar, como única saída de uma vida sofrida, não tem nada, não é nada e morre indigente, numa cova rasa, sem orações e sem despedidas. Na verdade ele é recebido com festas em outra vida. Não nesta, em que o volume de sua carteira é mais valioso do que o espírito que se carrega consigo. Eu sou o que não serei nunca mais. E já disse não ao pavor que me controla, não há mais procuras. A solução do mistério é que não havia mistério algum. A questão é que não queria soluções, mas respostas. Podem-se solucionar as dificuldades sem responder aos enigmas. Os problemas desapareceram. Mas se foram com eles os sonhos. Tudo que ficou foi realidade e só. E, depois de tudo, como nunca antes, sempre só. Ainda posso perdoar-me por minhas faltas?

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