“Habituai-vos a obedecer, para aprender a mandar.

Costumai-vos a ouvir, para alcançar a entender.

Não delireis nos vossos triunfos.

Para não arrefecerdes, imaginai que podeis vir a saber tudo;

para não presumirdes, refleti que, por muito que souberdes,

 mui pouco tereis chegado a saber”.

 Rui Barbosa, Discurso no colégio Anchieta.

Enquanto os sapos coaxam

Giordana Bonifácio

Algo que muito me irrita nos grandes doutores e mestres de hoje é justamente a falta de humildade.  Posso afirmar que há uma verdadeira fogueira das vaidades no mundo acadêmico. Todos se consideram sábios, afinal, são doutores, mas ocorre que na verdade são apenas os sapos enfunados do poema de Manoel Bandeira. Estão inatingíveis no seu pedestal de conhecimento e não descem dele para alcançar o nível dos estudantes. Preocupam-se apenas em destacar os títulos que possuem muito garbosos de sua inteligência. “Como sou culto”, devem dizer todas às vezes ao olharem-se no espelho. Acontece que estão tão apaixonados por sua imagem que não consideram belo o que não seja reflexo. As ideias que não se coadunam com o que entendem por certo, os professores descartam-nas sem chances de realizar algum estudo sobre elas. O direito à opinião não existe. Os alunos são forçados a decorar as palavras desses grandes gênios, que não sabem ouvir, que calam a democracia nas salas de aulas e exigem-na no país. Dá para entender? Caros doutores, PHDs, suprassumos da sabedoria existente, nós estudantes queremos ser ouvidos. Se apresentamos nossas ideias é para que sejam ouvidas e não somente escutadas, pois ouvir é considerar aquele entendimento proposto. É fomentar a pesquisa entre os estudantes. Não apenas apresentar um monte de conceitos que serão cobrados nas avaliações. Isto não é aprender. É tão somente decorar. Se não for colocado em discussão, o conteúdo didático não é didático, é apenas conteúdo.

Os professores merecem respeito, melhores condições de trabalho e salários dignos. Afinal, estudaram por muito tempo e conseguiram fazer prosperar seus trabalhos no meio científico. Acontece que, não estou minimizando os esforços de nossos mestres. Estou criticando a arrogância daqueles que se esqueceram das palavras de Sócrates, ou seja, “só sei que nada sei”. Quanto mais tempo dedicamos ao estudo aprofundado, mais descobrimos nossa real ignorância. Rui Barbosa cobrou humildade dos jovens no discurso que citei acima. Parece-me que tal lição não foi aprendida pelos outrora estudantes que hoje se perfizeram professores. E essa vaidade parece se proliferar entre os jovens dicentes, uns se consideram mais capazes que outros, arrotam fórmulas e respostas, com a única intenção de demonstrar seu grande conhecimento. Não gosto de gabar-me do que sou, serei ou fui. Nesse momento sou o que sou: uma pessoa, propensa a falhas como qualquer outra. Sem grandes predicados, prefiro ser apenas sujeito. Não que subestime minhas potencialidades. Apenas creio que é preferível fazer a ser. Os grandes docentes são aqueles que sabem ouvir a voz de seus alunos. Questionar: essa é a base indubitável da ciência. Não podemos nunca estar certos de nossos postulados. O mundo se modifica muito rápido. E o novo vai substituindo o antigo numa velocidade fenomenal. Por isso, é essencial estarmos dispostos a aprender. Emanuel Kant dizia que “a busca pelo conhecimento não tem fim”.  Sem a maiêutica de Sócrates, muito da filosofia da sociedade ocidental não teria evoluído. É necessário que estejamos sempre prontos a contradizer nossas opiniões. Não estaremos certos sempre. O erro é parte fundamental da aprendizagem. Minha mãe ralhava comigo quando ficava triste ao errar algo na lição que trazia para casa. Ela sempre destacava: “errar é o caminho do conhecimento”. Considero-a  o exemplo da professora que quero tornar-me. E o mais incrível que a didática que possuía não vinha de títulos, mas do amor com que ensinava.

Faltam aos nossos mestres a paixão e a vocação que devem estar presente na escolha da profissão. Não se nasce professor, nem médico, nem mesmo doutor. Gênios constroem-se. É muito raro nascerem crianças superdotadas com facilidade para o aprendizado e, em sua maioria, autodidatas. Os homens, que construirão o futuro, precisam, antes de tudo, reconhecerem suas limitações. Humildade é algo que se aprende. Não nascemos dotados de boas qualidades. A moral e o bom senso são lições que são ministradas por nossa família e escola. E o mais revoltante é que, com o comportamento presunçoso de nossos mestres, as crianças se habituam a considerarem-se mais inteligentes que as outras, mais ricas, mais bonitas ou mais fortes. Isso me remete a outra passagem do discurso de Rui Barbosa: “Onde os meninos camparem de doutores, os doutores não passarão de meninos.” Campar é vangloriar-se. Atitude comum na sociedade moderna. Os homens jactam-se de suas qualidades e não se recordam dos seus defeitos.  Os pesquisadores não saem de seus laboratórios, os advogados, de seus escritórios e os médicos, de seus consultórios. Enfurnados em sua vaidade, não estão aptos a conhecer, mais do que se reconhecer. Na verdade, o que mais me emociona, não são as palavras pomposas dos grandes escritores, mas o discurso humilde de um pai que conseguiu dar a seu filho o curso superior que não pôde fazer. E por isso acredito mais do que nunca que a maior qualidade de uma pessoa não se mede pelo grau de conhecimento, montante da riqueza ou beleza que possua. O mais importante é o espírito. O coração, que é como os poetas designam aquilo que é próprio do homem: uma boa índole.

A maior professora que tive, não possuía curso superior quando me introduziu nas letras. Minha mãe foi a mestra mais compreensiva e paciente que poderia existir. Fez de nossa casa uma escolinha para eu, meus irmãos e meus amigos estudarmos. Não me esqueço das noites, que ela passou no frio do inverno de Brasília, aguardando que terminasse o horário de aula da faculdade de Direito, para levar-me em segurança para casa. Acho que para todas as profissões é necessário vocação. Até mesmo para sermos pais e mães. E para seguir a carreira docente, deve-se estar pautado sempre que não devemos ser superficiais. Se nos mantivermos restritos a nossa terrível soberba, não seremos bons professores. Devemos entender que para ensinar é preciso ouvir. O orgulho deve ser a qualidade de sentirmo-nos realizados e não o defeito de estarmos vaidosos do que somos ou nos tornamos. O mais bonito gesto do homem é dar-se, é ser generoso, a modéstia de aprendermos sempre. Não devemos nos fechar tão somente aos nossos conceitos. Esta é a lição essencial que Rui Barbosa quis transmitir aos jovens do Colégio Anchieta. O singelo é na verdade o mais belo. Não são assim os lírios do campo? Como diz a Bíblia no Evangelho de Mateus 6, versículos 28 e 29. “E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” Por isso, mestres, não se vangloriem por suas conquistas, mas ajudem aos alunos a trilharem seus caminhos. Não corrompam a alma pura com o veneno da soberba, ao contrário façam nascer no estudante o desejo de doar-se ao mundo. Porque o importante não é o que você é, mas o que você faz. Nosso mundo perdeu certos valores que precisam ser resgatados. E o caminho dessa busca começa na escola e termina na faculdade. Se o plano é formarem-se cidadãos, vamos começar por trajarmos em sua alma a ideia dos lírios do campo. A beleza não está no mais suntuoso, mas na simples taça de madeira, o santo graal procurado desde a idade média, que não é cravejado de diamantes e nem confere a vida eterna como criam os cavaleiros medievais. É apenas mais um dos ensinamentos que Jesus Cristo quis deixar aos homens: valorize o modesto, seja simples. Creio que em breve vou começar a ministrar aulas, espero que jamais me esqueça das lições de Kant, Rui Barbosa, Jesus Cristo e, porque não dizer, minha mãe. Não sou a fonte de conhecimento, mas  apenas uma forma de aproximar os alunos desta.

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