Arquivo do mês: agosto 2012

Ainda posso?

Giordana Bonifácio

Será que me é possível amar? Ainda posso sobreviver a mim? Poderia tudo esquecer como à história de um livro que há muito tempo se leu? Serei assim tão forte? Minha alma é tão sensível: sou poeta, sou artista, escrevo um tanto assim de mim. O resto, invento. Não precisam acreditar em tudo que leem aqui. Não posso asseverar a verdade destes tristes sonhos. Pois consistem em ilusões projetadas por meu cérebro para sufragar a força de meus mais íntimos desejos. Por isso, podem creditar a estas linhas a veracidade de uma miragem, haja vista serem tão sólidas quanto. Um nevoeiro onde só se pode imaginar o que está sob a névoa, mas não há jamais a certeza do que se trata. Por esta razão, me pergunto se ainda há espaço para meu coração em mim. Estou abandonada a minha sorte. Sigo por caminhos instáveis no meio dessa densa tempestade, tateando na escuridão de um quarto em breu. Minha solidão é minha breve resposta. Mesmo que por muito tempo tenha se prolongado. Permanece assim, presente, uma ausência que não se preenche. Pode ser uma perda do passado. Aquilo que me escapou de algum modo. As sensações mais estranhas me ocorrem.  Sinto uma melancolia tomar-me o espírito. Seria medo? O que é isto que não compreendo? Dúvida atroz de ser humano quando o mundo que me cerca é inumano. Agarrando-me ao meu pensamento, pois só com ele posso me salvar. Não quero afogar-me numa dor que se perpetua. Ingressa minha alma em caminhos sem volta. Ainda posso escapar?  Quero a saída de meus labirintos mais difíceis. Os enigmas que eu mesma crio para esconder-me do mundo. Mas acabo por não poder me compreender. O que se esconde nas minhas escuras masmorras? (Um pavor de encontrar-me nessas buscas). Serei eu assim como me imagino? Ou apenas um mito que foi erigido para poder satisfazer-me? Ainda posso responder-me sem o perigo de contradizer o que pensam que sou?

Estou preparando as armadilhas para capturar os sonhos perdidos. (Uso apanhadores de sonhos os quais coloco sobre minha cama.) Não é certo que afastarão os pesadelos. A vida se conduz entre delírios. Foram muitos anos que passei sob a expectativa de um fato que não poderia se concretizar. A verdade é que a verdade é real. O restante eram apenas ilusões. Uma mentira que fui me contando, (o mais absurdo é que acreditava em mim). E agora sei o que é certo. O certo é que ainda posso sorver a vida, como uma lata de coca-cola, que é tão prejudicial quanto se embriagar. Mas viver é uma droga lícita. Estamos todos viciados nesse pulsar de nosso órgão selvagem. Coração, ainda posso viver?  (E se ele nos responder que sim?) Estamos na expectativa de uma sobrevida longa. Mas qual a vantagem de estarmos aqui? Por que tememos tanto a morte? Por que a retratamos de modo tão cruel? Será mesmo uma ossada que se apresenta ameaçadora? Acredito que seja apenas um anjo. E este, quando chega o momento, nos liberta a alma desse corpo frágil e à dor suscetível. Então, o que ele nos faz é um favor. Não há qualquer razão para temê-lo. Não estou a sua espera. Mas não me surpreenderei quando ele chegar. Ainda posso contar esta história. E se posso encontrar as respostas de minhas questões, espero que o faça antes de estar condenada a meu último suspiro. Para sempre é quase nunca. E nunca é um sempre que não gostamos. É a falta de algo que não nos ocorrerá pela eternidade. Mas já estou resignada aos “nuncas” e  “sempres”… A vida é uma eternidade muito curta. Quero que para sempre fique em mim o sentimento que não se desfaz. A certeza de estar sã, lúcida, sem o perigo de me perder em novos enigmas. É que vou construindo mistérios. Quero redigir aqui o segredo que me controlou por muitos anos. Revelo que queria um sonho inalcançável. A longínqua possibilidade de ser especial. Todavia sou uma pessoa tão comum que se desfazem de mim com extrema facilidade. É que sou dispensável. Mas isso nem me magoa mais. Ainda posso chorar? Só um pouco?

Meu amigo mais fiel é meu mais perigoso inimigo. Meu cérebro que me garante a inteligência é o mesmo que me ludibria quando dele mais necessito. Estou arriscando-me sobremaneira. Quando deixo as minhas memórias transformarem-se em histórias, há o perigo de perder-me num passado que não passou. Pretérito imperfeito. Mas minha infância foi mais-que-perfeita. Eu já fui tão feliz.  O que ainda há em mim daquela criança alegre e sagaz? (Ainda posso rever aquele álbum de fotografias?) Naquele tempo, o tempo não contava. Os anos eram motivo de orgulho. Ainda amargam as lembranças, coisas estúpidas que fiz e de que me envergonho. Queria retroceder e aceitar que sou uma entre milhões. Um grão de areia, uma gota d‘água em nada representativa. E minha “desimportância” se destaca na multidão. Ainda posso lamentar minha triste figura? Tal qual Dom Quixote, eu andava a enxergar gigantes em moinhos de vento. Agora estou consciente do que sou, ainda do que fui. (E isso me dói). Aguento mais um pouco. Sempre um pouco mais. Mesmo que nunca seja sempre. E o pouco é o muito que nos resta.  É tudo que ainda possuímos. Trabalhamos por uma porção de nada. E o nada é o sempre que nos guia. O tudo é a possibilidade que não se concretiza nunca. Por isso devemos ficar com o interregno entre o nunca e o sempre. O que se limita por estes dois? Será que o tempo ainda decorre quando desprezamos o nunca e buscamos o sempre? Arde-me um coração de sombras. Nas trevas ainda encontro a possibilidade concreta de enxergar a luz. Ainda há certeza que o dia nascerá, mesmo que a madrugada pareça eterna. O próximo segundo é aquele em que vou achar o sentido das coisas que nunca fizeram sentido. Mas não vou contar para mim. (Vai que eu acredito!) Sinto a dor até a última gota. Lateja a mágoa, minha alma está ressentida. O sonho desfez-se como a imagem refletida na superfície da lagoa que a chuva turva. Ainda posso sofrer? Um pouco mais?

Ainda posso dizer: nunca mais? Não vou mais me perder em mim. Não pode amar um coração tão ferido. Não pode sequer sentir, pois não mais afeita estou a sentimentos. A história que não deveria nunca ter começado, chegou ao fim. E é assim: com a alma aos pedaços que reafirmo o que sou. E o que sou não é importante. Eu sou apenas, como tu és e ele é, igual ao que nos somos e vós sois e ainda ao que eles são. Ser nunca foi tão significativo. Um verbo que se traduz na identidade que assumimos. Eu sou uma figura num papel. Abaixo dela está assinado meu nome. Isso me traduz? E se eu for muito mais que isso? E se em meu peito em que bate solidão eu guardar muito mais que o ser da sociedade representa? Eu sou, porque vivo. Eu sou, porque choro. Eu sou, porque sangro. E, a esse ser, desprezam. Não auxiliam o ser que respira com dificuldade sob a marquise, vestindo trapos e implorando esmolas. O ser, humano é. E por que está abandonado por Deus num corpo moribundo, sem alternativas de ser mais do que aparenta? Eu sou um tanto mais. Porque ser é ter. E ter é usufruir de um mundo capitalista que busca sua satisfação nas gôndolas dos supermercados. Eu não tenho muito, mas sou um pouco. Aquele que espera a morte chegar, como única saída de uma vida sofrida, não tem nada, não é nada e morre indigente, numa cova rasa, sem orações e sem despedidas. Na verdade ele é recebido com festas em outra vida. Não nesta, em que o volume de sua carteira é mais valioso do que o espírito que se carrega consigo. Eu sou o que não serei nunca mais. E já disse não ao pavor que me controla, não há mais procuras. A solução do mistério é que não havia mistério algum. A questão é que não queria soluções, mas respostas. Podem-se solucionar as dificuldades sem responder aos enigmas. Os problemas desapareceram. Mas se foram com eles os sonhos. Tudo que ficou foi realidade e só. E, depois de tudo, como nunca antes, sempre só. Ainda posso perdoar-me por minhas faltas?

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Pretérito mais-que-perfeito

Giordana Bonifácio

Aqui, nesse momento, o agora existe,

Simples razão de eu ser um homem triste.

Meu coração ainda vive no passado.

E do mundo atual eu já estou cansado.

 

Não desejo as promessas do futuro,

Não posso frear o tempo que não aturo.

Não posso ainda fazê-lo retroceder.

Não posso lutar, mais fácil é ceder.

 

Com o tempo a memória está perdida.

Cicatriza-se a ferida dolorida.

Porém o passado não voltará jamais.

 

Meu desejo á vivê-lo só um dia a mais.

Quero de volta a minha doce infância,

Não sabia antes sua vital importância.

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Simples e constante

 Giordana Bonifácio

Sou simples: à soberba e orgulho não sou afeita.

Não sou volúvel, sou a fiel devota perfeita.

Pois minha vida é feita de muitas constantes.

Não me insiro no círculo dos  importantes.

 

Não estou habituada a  luxos, requintes ou mimos.

Meus bens e preferências continuam mínimos,

Ainda porque me faltam posses para tanto.

E nem por isso há qualquer razão para pranto.

 

Sou simples e constante, não há dúvida: sou assim.

Não é por religião, ou talvez por temer por mim.

Minha humildade é fruto de boa educação.

 

Faz tempo, de meus pais,  recebi  grande lição:

O homem é o que seu bom caráter representa.

A vida de pobreza do mal não o inocenta.

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Mente indomável

 Giordana Bonifácio

Há  muito tempo me ludibria minha mente.

E isso me faz, de toda a gente, diferente.

Minha sina é pela sanidade batalhar.

E nessa luta qualquer apoio viria a calhar.

 

Sei que estou nessa guerra por anos a fio.

A mente é da memória um caudaloso rio.

Já a minha muito mais me faz lembrar o mar

É um cavalo bravio que não se pode domar.

 

Estou agarrada à razão: ela me é bem cara.

Não é assim fácil a cura de doença tão rara.

Não há quem a este terrível mal  consiga entender.

 

Vive-se com a dor num eterno reaprender.

Dessa luta sem fim não sairei derrotada.

Convalescer não é hipótese ora cogitada.

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Os sete pecados capitais

Giordana Bonifácio

São sete estes Capitais Pecados chamados.

E por eles estou dentre os pobres condenados.

A Ira já me é constante, a Gula, um erro terrível.

Sentir Inveja, não admito como possível.

 

A Luxúria é uma falta das amargas noites.

A Preguiça minha alma condena aos açoites.

Sou homem à vã Vaidade e orgulho aprisionado.

A Avareza resume o meu mundo abastado.

 

A cristã igreja aos opróbrios dos homens resumiu.

Mas quem nenhuma dessas vis faltas assumiu?

Somos almas ao tártaro já condenadas,

 

Desde vidas que há muito já foram passadas.

Qual homem pode dizer-se deste mal puro?

Temo as penas e a dor num provável futuro.

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Ainda, não…

Giordana Bonifácio

Ainda ouço o som que neste silêncio se perfaz.

Ainda me lembro do que aconteceu anos atrás.

Ainda sinto as feridas desta alma sofrida.

Ainda penso que viver é uma despedida.

 

Ainda sonho, porém, já com menor frequência.

Ainda possuo em meu peito uma grande carência.

Ainda posso respirar, mas sei que dói viver.

Ainda arde o amor, mas julgo-o um terrível padecer.

 

Não posso mentir: minha existência é um grande “ainda”.

Não consigo entender quando a mágoa finda.

Não consigo expurgar de mim esta dor.

 

Não é possível impedir que me siga aonde for.

Não posso me convencer que para tudo há um fim.

Não quando ainda existem muitas dúvidas em mim.

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Ilusão

 Giordana Bonifácio

Nesse denso nevoeiro, qualquer luz é ilusão.

Não é possível confiar na minha própria razão.

Perdido e aflito em meio a terríveis miragens.

Não confio mais em meu coração e suas bobagens.

 

 

Estou certo: amar é para os loucos somente.

Não quero mais compreender à minha estranha mente.

Estou farto da luta desses dois órgãos insanos.

Os meus desejos eram puros, não profanos.

 

A história se resume no meu sofrimento.

Tudo, até hoje, somente me causou tormento.

O que quero, ou haveria de querer, não é importante.

 

Ainda mais quando penso nisso a todo instante.

Chega de lutas, ergo já a branca bandeira.

Não quero da loucura cruzar a fronteira.

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Viver sem amar

Giordana Bonifácio

A minha cônjuge é a minha estável solidão.

Eu sei que quando juntos minhas dores findam.

Diversas vezes fui obrigado do meu peito,

Arrancar meu coração, pois foi o único jeito,

 

De sofrimentos nunca mais vir a padecer.

Mas sinto falta dele ao mirar o amanhecer.

Sobreviver sem amor cria até ser possível.

Porém, sem amor, viver, mostrou-se impossível.

 

Os dias passam somente, com terríveis penas.

Meu desejo era o de não mais sofrer apenas.

Mas tive de renunciar à doçura de amar.

 

Por isso, não suspiro ao observar o vasto mar.

Não me acontece qualquer emoção fugidia.

Sinto falta do tempo, em que sonhar eu podia.

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Sentimentos

Giordana Bonifácio

Esteja logo certo: sou poeta e sou louco.

Em minha vida a razão soma muito pouco.

Sou homem feito só de sensibilidade.

Do amor, que falta em minha alma, sinto saudade.

 

Mas outros sentimentos de mim não se cansam.

E com eles componho minha triste canção:

Há a mágoa, que me doerá .para todo sempre;

O medo que vem na porção exata que se compre;

 

A tristeza , densa alma de meus pobres versos;

A solidão onde meu corpo e alma estão submersos;

Por fim, a culpa,  minha mais terrível algoz.

 

Nesse fraco espírito não há dor mais atroz.

Dor de estar sempre em dívida, em falta, com alguém.

Porque sei que, ao meu lado, não persiste ninguém.

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Dor = Amor

 Giordana Bonifácio

Não sei por quanto tempo tenho lhe esperado.

A culpa é toda minha, creio que entendi errado.

Ou talvez não haja nada a se entender, vai saber…

Restará tudo só entre nós, no que a mim couber.

 

Pudera ser teorema bem mais compreensível,

Mas me parece não ter solução possível.

É com certeza a dúvida que ainda persiste.

Não consigo mais penar é algo que me assiste.

 

Sei que não mais me ferir não é possível jurar.

Mas tenha dó de mim, cansei de me aventurar.

De meu coração só tenho um trapo sofrido.

 

Do amor saiba que há muito tempo tenho corrido.

Porque já estou exausto de sentir tanta dor.

Mas o que fazer? Sofrer é a única razão do amor.

 

 

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