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O homem no labirinto

Giordana Bonifácio

 Eu não estou louco, acreditem em mim! Sou apenas um homem solitário caminhando por estas ruas sem destino. Sei que a cada passo, estou acompanhado. É a presença dela que estará sempre comigo. Nas esquinas, sinto que posso cruzar com ela. Mas apenas encontro com um senhor passeando com seu cão. O cachorro faz festa, quer lamber-me a mão. Então, me dou conta tratar-se do vizinho. Ele diz algumas palavras sobre os preços: “estão uma calamidade”, sobre o tempo “parece que vai chover”. Não dou muita atenção à conversa. Despeço-me dos dois, afago a cabeça do pequeno filhote de Golden e prossigo. Para onde? Não sei. Vou por onde estas ruas me levarem. Ela estará comigo. Na loja de eletrodomésticos vejo-a nas telas das televisões. É ela, eu sei. Assombra-me a vida, pois não posso estar sem essa imagem. Posso vê-la em todos os cantos. A moça que me oferece um perfume na loja seguinte faz-me, da mulher que um dia amei, lembrar. Será que ainda a amo? Será loucura sentir que o perfume dela está impregnado em minhas narinas? Será um delírio procurá-la onde eu sei que não irei jamais encontrá-la? Pensava que era a presença dela que me perseguia. Mas sou eu que necessito deste paliativo para acalmar-me o coração. Estou sozinho. Estarei por muito tempo, pois não posso substituir o insubstituível.  É essa minha pequena maldição. Sou eu a alma penada, não ela.  Sou um homem que vaga sem espírito. Porque, o que existia de bom em mim, também se foi.  Eu não sou nada mais que uma velha carcaça. Um navio à deriva que vaga ao sabor das ondas. Há muito tempo não sei o que é viver. Estou morto. Tenho certeza. Não posso estar sem ela. Ela era minha vida. E agora o que restou de mim? Posso oferecer-me em sacrifício? A única coisa que desejo é um reencontro. Ver aqueles olhos, que não eram verdes, mas de um castanho quase verde e éramos um casal quase feliz. E tudo terminou num quase. E não pude fazer nada. Não pude. Queria ter feito. Mas fui fraco. Implorei e não fui ouvido. É esse o pesadelo que tenho todos os dias. E neste momento, a solidão me desposou para a eternidade.

Um homem passa com uma placa onde se sobressaem os dizeres: compro ouro. Eu, ao contrário, vendo desilusões. Na verdade as doo, ainda ofereço de brinde um tanto assim de desespero. E, de troco, centavos dessa vã solidão. Algo mais? Que tal essa dor que me embriaga todas as vezes que penso nela? Sei que não posso estar comigo, quando não estou com ela. Minha presença fadiga-me, sou um homem preso a mim mesmo. Não posso fugir de mim, de minha covardia, dessa loucura que foi tudo que dela restou-me. Pego o metrô, os túneis iluminados ofuscam meus olhos. Fecho-os e chego a sonhar com o passado. Se pudesse parar o tempo para todo sempre… Mas a vida acontece e não podemos simplesmente pará-la com o controle remoto do aparelho de DVD. Não é como nos filmes cujo fim sempre nos leva a um final feliz. É talvez como uma tragédia. É o estilo que mais se coaduna comigo. Ao menos com o que sou agora. E continuo minha busca por ela, pois minha única meta é reencontrá-la. Pode estar na próxima rua. Sei que ainda vou achar minha vida solta em algum lugar. Saio da estação e ainda há um sol lá fora. Por que não me esquenta? Por que não dá fim a esse frio dentro de mim? Volto a minha procura sem fim. “Se for possível, meu Deus, traga-a para mim”. Rezo. Porém, me parece também, que deste tolo, Deus esqueceu-se. Estou a minha própria sorte nesse mundo cheio de gente, mas aos meus olhos, completamente vazio… Sozinho na multidão que segue de um lado para o outro. Sigo o fluxo de pessoas. Já que não sei aonde quero ir. Resta-me apenas andar, mesmo que com esse passo trôpego de bêbado. Contudo, estou sóbrio. É que a falta dela embriaga-me como a mais forte bebida. Não sei se ainda choro. Não há mais lágrimas para tudo lamentar.  A dor permanece, não há como dela se livrar. É minha pena perpétua, estou ligado a ela por toda minha vida. Só queria poder desfazer tudo, como se fosse possível apagar os acontecimentos ou reescrevê-los. Há algum modo? Será isso possível? Será que posso achar a mulher que me destituiu de minha alma nesta massa que nem faz ideia de mim? Vamos de um lado para outro sem destino. Essas pessoas também sofrem como eu? Será que choram um amor perdido? Será que também cometeram erros que lhe custaram a vida? Como podemos consertar o que não pode mais se reconstruído? São dúvidas demais. O dia finda com nuvens cor de rosa. Lembro como ela dizia tratar-se de nuvens de algodão doce. E recordar disso fere-me com a força de um punhal.

Sentimentos. Esses são os males do mundo, não há como escapar de sentir. Sobretudo, quando tudo que de uma relação sobrou é somente o remorso. Eu poderia ter agido de forma diferente. Eu errei. Confesso. A culpa é toda, toda minha. Como trazê-la de volta para mim? Não posso mais dormir sem os pés que me chutavam a noite toda, sem a luta pelo cobertor na noite fria de inverno. Tenho a cama toda para mim, mas isso não é, nunca foi, suficiente. A dor é minha companheira. E o pior: a ela sou fiel. Não consigo me ocupar com nada mais. Não trabalho há muito tempo. Não durmo, pouco como, não faço a barba, ando como um maltrapilho. Não tenho nada mais que nosso apartamento. E algumas fotografias das quais não pude livrar-me. Isso foi minha herança. Essa mágoa no meu peito, que não vai mais me abandonar, é tudo o que tenho. Pensar nos olhos dela, que quando choravam, pareciam duas esmeraldas, é o que me resta. Viver o que já foi vivido, como uma forma de ter ela comigo, é tudo o que hoje sei fazer. Não tenho mais futuro. Ele se foi quando ela se foi. Quando me lembro do omelete que ela fazia pela manhã, a fome escapa-me. Como posso prosseguir? Não há mais saídas para esse labirinto. Quero permanecer aqui, perdido no amor que eu perdi. Meu chefe, que estava sentado num restaurante, reconhece-me e vem falar comigo. Diz “precisamos de você”, “você é meu melhor funcionário”, e termina a conversa com a frase clichê: “já é hora de superar.” Eu resmungo algo, nem sei bem o que. Ele dá-me um tapinha nas costas e sussurra: “coragem homem!” Eu não posso, eu não quero, eu não consigo simplesmente superar. Por que as pessoas acreditam que é tudo tão fácil assim?  Minha vida acabou. Eu não posso sobreviver com esse fantasma. Eu não posso tomar os remédios que o médico receitou-me. Como posso engolir pílulas para tornar a dor menor? Quero sentir todo o sofrimento como penitência de minha fraqueza.

O que ocorreu está gravado em minha mente. Não há como esquecer aquele dia. Estávamos saindo do restaurante, era dia de nosso aniversário de namoro. Tinha pedido a mão dela finalmente. Já estávamos fazendo planos para o casamento. Quando um homem se aproximou de nós. Ele pediu um trocado de esmola. Não tínhamos nada. Então, ele tirou uma arma da cintura e anunciou o assalto. Saltei sobre ele e gritei para Anna correr. Eu e o ladrão lutamos. Eu implorei para que ele deixasse-nos. Todavia, ele continuou a briga. Eu tentava tomar o revólver quando a arma disparou. Ouvi um gemido: era Anna. A bala tinha atingido-a. O ladrão correu. Eu não sabia o que fazer. Liguei para o socorro. Tentei inutilmente estancar o sangramento. Ela foi morrendo aos poucos nos meus braços. Quando a ambulância chegou, meu amor já tinha partido. Tentaram reanimá-la. Foi inútil. Ela se foi e levou-me junto consigo. Por isso, ando por estas largas avenidas à procura dela, mas não a encontro. Eu tenho de achá-la para continuar vivendo. Ela deve estar em algum lugar. Não pode ter meramente me deixado. Há ainda esperança, nem que seja mínima, de seu espírito estar em algum lugar. Queria ter sido eu no lugar dela. Queria ter entregado minha vida por ela. Sei que fui a razão de sua morte. Não deveria ter reagido. Se pudesse fazer tudo diferente… Agora que ela deixou-me, vago sem destino. Pois, quem morreu não foi ela, ela permanece dentro de mim, mas eu, que perdi a vida quando ela faleceu. Tínhamos feito tantos planos… E num ato de estúpido heroísmo, eu estraguei tudo. Como posso continuar? Eu perdi tudo que tinha e o que tinha era apenas ela. Anna, a mulher que escolhi para passar a vida ao meu lado. De alguma maneira, ela vai estar sempre comigo, porque a dor de perdê-la não vai abandonar-me nunca mais. Eu vou percorrer essa cidade inteira se for preciso. Eu tenho de achar o que foi perdido. Nem que leve a vida inteira, eu sei que vou reencontrá-la. Eu não estou louco, acreditem em mim! Sou apenas um homem sem destino caminhando solitário pela rua. Um homem que se perdeu e não consegue prosseguir neste imenso labirinto.

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