Um caminho seguro

Giordana Bonifácio

Fui tateando aqui e ali. Procurando sempre. Deve haver por onde se caminhar sem perigo. Mas e esta ponte pendente sobre o precipício? Será segura? Não quero mais seguir por estes vales. Não posso mais estar nessa agonia. Sempre em busca.  “Mas de quê?” Pergunto ao vazio. Ele responde-me em silêncio. Eu ouço o som do vento. Há dias mais aprazíveis que outros. Vivemos em uma montanha russa de sentimentos. Nem sempre se está a salvo. Acho que o mais fácil é estarmos em risco. Aqui nesse quarto onde somente tenho a companhia de meus pensamentos, teoricamente não estou em grave perigo. Teoricamente. Eu sei que nem aqui estou longe do mundo. Bem ao meu lado a sociedade pulsa. E exige-me, e obriga-me, e ameaça-me, por fim me amordaça para que não grite por socorro. Sou uma vítima do mundo que ele não enxerga. Não sei se ele ignora-me ou se apenas está indiferente a mim. Não posso exigir que me perceba, não posso obrigar que me ouça, porque é impossível impingir minha vontade a esta massa surda. O estranho é que, sempre se considerou a grande massa como facilmente manipulável. Ocorre que talvez não saiba como agir com relação a ela. Estou perdida na iminência de algo que pode vir a não ocorrer. Quero um minuto de sossego, em que esteja no conforto das certezas, mas vivo na expectativa das dúvidas. Sem alento, no ritmo que me dita o coração, (sempre urgente!), prossigo. Sem esperanças. Sem saídas. Sinto que me afogo em um mar de divagações. As guerras internas persistem. Ainda consigo enxergar uma luz muito tênue no horizonte. É um farol que ilumina o caminho dos marinheiros. Oceanos intransponíveis brotam ao meu lado. Ainda há monstros que não podemos combater. Será que terei de ouvir para sempre o soluço de meus medos?  Por que estou sempre assustada? Será que a vida pode ser vivida de uma forma mais confortável? Sem o pavor de estar viva?

Quero, sobretudo, as coisas que não posso ter: a paz é um desejo distante; o amor um luxo que não me é conferido; a realização, não está ao meu alcance. Tudo me parece longínquo, um sonho que não me é permitido sonhar. Restam-me a saudade, a solidão e o pavor. Só tenho medo. E nem sei como saciar a fome de coragem que me assalta. Como ser audaz num mundo que lhe poda? Sei que me escrevo. É isso que faço. Ponho o que sou no papel, para tentar de algum modo, compreender-me. O que acho de mim? Não sei, ainda não pude me decifrar. Escrevo em códigos que não posso decodificar. Só sei que esta mensagem se destina somente a mim. Escrevo somente para o que sou. Escrevo apenas sobre minhas dúvidas. E sei que as pessoas não estão preparadas para esta carga de adrenalina. Podem medir o grau da minha covardia? Ainda me perco em questões sem solução. Acho que me trancafio no interno. Estou aqui, no meu peito, querendo governar meu coração. Estou aqui, no meu cérebro querendo dominar minha razão. Sou um mar revolto em que os navios dos desbravadores naufragam. Não adianta, não podem me entender. Eu não posso, por que com vocês seria diferente? Minha confusão é a resposta dos dilemas mais intricados. Sem abrigo, aqueço-me na fogueira das emoções. Sou mais uma náufraga que espera o socorro vir. Porém, ninguém aparece. Os dias passam sem vestígio de qualquer pessoa. Então me recordo que o mundo não me vê. E que, se apenas eu vejo o mundo como ele é, tenho de escapar sozinha das correntes que forjei. Estou condenada a ser eu mesma. E não sei se a pena é perpétua ou de morte. Acho que vou matando-me aos poucos. Não quero sobreviver a mim. Não posso escapar do que sou. Esse é o perigo mais real e imediato. Se estou cercada de sombras, se a escuridão me assalta, como posso ser feliz? Estou em constante perigo. Porque eu cerco-me ameaçadora. Eu sou o leviatã de meu mundo. Preciso de alguém que me governe para escapar desta vil besta. Mas sou eu! Eu sei que sou eu! Eu sou o “Senhor das moscas” que apavora os meninos. Sou quem se coloca na posição de vilã desta trama. Minhas terríveis ações não devem ficar impunes. Mereço a punição mais atroz que provoque a dor mais terrível e que seja insuportável a qualquer ser humano. Não desejo sequer clemência. Quero a morte lenta e dolorida. Jamais mereci a vida. Se ma usurparem será muito mais justo.

Estão ouvindo? Céus, terras, mares? Abro mão da única coisa que possuo. Só tenho esse corpo. Só tenho esta mísera carcaça. Sabe que “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”¹. Sou apenas eu. E recusam-se a aceitar-me? Tenho de permanecer nessa existência frágil, exposta aos males terrenos que me cercam? A vida é-me dispensável. Não a considero essencial. Pois tenho certeza que não sobreviverei aos perigos que represento. Estou suscetível, não há proteção à vista, há somente desertos até aonde posso ver. Estou em penitência, alimentando-me com os gafanhotos que posso encontrar. Não sou, contudo, santa. Penitencio-me por minhas faltas. Porque sou tão fraca que não posso vencer aos meus monstros internos. E vou lutando, por mim e contra mim. Essa é minha sina. Mas ninguém se importa. O mundo abandonou-me quando nasci. Santos e deuses não se condoem do que sou. Estou sozinha nessas trilhas que cortam densas florestas. Já cruzei mares em tormenta, já fui aprisionada numa ilha, já atravessei desertos em penitência, agora estou em meio a mais inóspita floresta, com uma mata tão fechada que a copa das árvores não permite a entrada da luz do sol. Aqui, nesse ambiente tão hostil, não sei o que devo esperar. Talvez ferozes animais ou venenosas cobras e aranhas. Pestilentos seres, como ratos, sei que me encontrarão. É que somos guiados uns para os outros por nossa repugnância. Não posso escapar do que sou. Está sempre comigo. Somente eu acompanho-me. E nessa solidão de estar sempre comigo, acabo por ter ojeriza ao que represento.

Mas não sei por que me odeio. Não sei por que não consigo apiedar-me da minha patética figura. Talvez, até me seja aprazível a dor e as temeridades que enfrento. Quero que as circunstâncias me torturem, que o medo assole o meu ser. Não há caminhos seguros. Vou sempre viver na corda bamba: com medo de cair no infinito, com medo de cair no nada.  Essa é a busca que empreendi por toda minha existência. Nada me foi concedido, nem mesmo a resignação ao fato de persistirem meus hediondos defeitos. Estou com medo. Quero apenas alguém que segure a minha mão e diga que tudo vai dar certo. Mesmo que eu saiba que assim não ocorrerá. Acho que estou a minha própria sorte: sem mapas que me auxiliem nessas jornadas, sem guias para me indicarem a direção que devo seguir. Vou em frente, contra o meu pavor. Minhas pernas tremem, minha boca está seca e temo que meus sentidos me faltem. É assim que ocorrem sempre minhas aventuras. Minha maior conquista é ganhar dos meus sentimentos internos. Sei que me desvalorizo e que talvez seja eu e não o mundo que me trate com indiferença. É que já estou tão acostumada ao meu menosprezo que acabo por sentir falta do que sou. Quando não me diferencio dos demais, eu não consigo estar comigo. É que, se não ajo como deveria agir, se não sigo minha autenticidade natural, não me reconheço. Assim, tenho de estar sempre em concordância ao que entendo por mim. Ao menos, não perco minha identidade tentando me adequar a um mundo que não faz questão de minha presença. Também não estou ansiosa pela atenção que me falta. Talvez só saiba ser sozinha e só. Pode ser isso. Não posso ser mais de um. Sei que sendo única posso ser o que bem me aprouver. O que não ocorreria caso estivesse em grupo. As pessoas exigem de nós uma atitude que não é condizente com nossos princípios. Por essa razão, enquanto estou sozinha com meus medos acho que estou a salvo dos outros. Tenho medo de mim e do mundo. Não consigo viver sem essa esquisita antítese, de ter de me esconder do mundo, quando somente quero fugir de mim. Sem caminhos seguros que me levem para casa. Onde se pode estar a salvo quando estamos com medo de nossas sombras? O único modo de estarmos protegidos é aceitar a escuridão e a estranha fera que há dentro de nós.

  1. Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas.


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