“A vida é maravilhosa se não se tem medo dela.”

Charles Chaplin

O fim sensacional para o filme de nossas vidas

Giordana Bonifácio

É incrível, gostamos tanto de cinema que poderíamos viver nossa vida como se estivéssemos num filme. Imaginem só: acordar de manhã e logo tomar nosso café, no melhor estilo da Meg Ryan! Não que me pareça com ela. Aliás, é meio absurdo isso, mas me imagino com todo estilo dessa atriz.  E após, nos despedimos de nossa família para ir ao trabalho, sentindo-nos no Show de Truman, com todo o teor da especulação midiática sobre esse filme. Somos os atores de nossa própria vida. Representamos para o mundo, que nos assiste com olhos inquisidores acima da estratosfera. Lá fora, há milhões de satélites voltados para nossas cabeças, e o que fazemos com relação a essa presença que deveria ser incomoda? Entramos no jogo. No Big Brother de nossas vidas, não ganhamos prêmio algum, além da aceitação ou rejeição das pessoas. O bom é que não podemos ser eliminados, exceto por um Diretor piadista que adora brincar com nosso destino. Mas prossigamos na nossa cena, recebamos o close e posemos para os paparazzi. “Eis aqui alguém que não mente sobre sua carreira. Estive o tempo todo treinando minha humildade, para não parecer sarcástico ou pedante” dizemos com um sorriso clareado por dentistas. Colocamos os fones de ouvido do Ipod e parece que a trilha sonora do nosso filme somos nós que escolhemos. No melhor estilo de Ryan Reynolds em Três vezes amor. Sabe naqueles dias que o schuffle parece entender você? Isso acontece com os atores nas cenas mais tocantes. Emoção é o que não falta nessa película. Há também os momentos de perigo, quando sentimos que devemos exigir o máximo de nossa atuação. (Principalmente no Brasil onde assaltos à mão armada são tão comuns que acaba se tornando um clichê cenas de roubos). Ainda temos tempo para lançar aquele olhar ameaçador dos mocinhos frente aos seus algozes. O ruim é que aqui, na vida real, se morre de verdade. A gente não usa catchup, é sangue mesmo. As balas não são de festim também. Por isso, cuidado com sua coragem, pois você pode estar gravando sua última cena.

Mas o filme continua, acrescentam-se novos atores, tomadas e cenários, mas temos consciência que estamos todos no mesmo elenco. Há os momentos emocionantes, em que a gente é piegas também, como no nascimento de um bebê, que pode ser filho, irmão, neto ou sobrinho. Todos se derretem com o ator-mirim. E ele já chega roubando a cena, mudando toda a rotina do restante do elenco. E cobram caro, damos nossa vida por eles. Sabe aquele filme Nove meses com Hugh Grant? Bem assim. Há também cerimônias, como enterros e casamentos, que não deixam de ter lugar em nossa vida. A gente se sente meio fora de órbita, como se estivéssemos deslocados, meio atrapalhados mesmo, sobretudo quando se é solteiro. Seria algo como em Quatro casamentos e um funeral, (quem não se recorda desse filme?) Nossa vida sob a lente da câmera. Eis que até no nosso trabalho alienante estamos em cena, somos como Chaplin em Tempos modernos. Meio palhaços mesmo, porque não há como não nos considerar um tanto cômicos. A vida tem seus pontos dramáticos, mas aceita também a comédia. Se não nos divertirmos, qual a razão de gravar esse filme afinal? Por isso, exploremos o nosso lado mais gaiato. Sejamos um clown e aproveitemos as tortas que levamos na cara para fazer graça. Esse é o espírito. Um chapéu coco e uma bengala tornaram um homem num mito. Imagine o que seu terno engomadinho ou seu salto alto podem fazer por você? Se você abrir a geladeira e encontrar uma pizza do fim de semana, lembre-se, que nem todos grandes artistas comem iguarias francesas nos filmes, principalmente em dramas. Se estivermos literalmente “na merda”, vamos fazer igual ao garoto de Quem quer ser um milionário, vamos concretizar nossos sonhos, não importa a turbulência que nos assalte. No nosso filme somos atores, produtores, roteiristas e, sobretudo, dublês, então cuidado com as cenas perigosas! Você não poderá processar a si próprio em caso de acidente.

Eu mesma gosto da tela do cinema e acho que fico bem no foco da câmera. Sei que, quando morrer, vou fazer uma tomada bem dramática, uma cena memorável que pode conceder-me um Oscar. E nos agradecimentos, vou chorar no palco, segurando a estatueta dourada. “Foram muitos anos de dedicação quase que completa. Muitos anos fazendo o mesmo personagem, sabem como é. Não há como não ficar emotivo ao receber um reconhecimento desse garbo pelo seu trabalho”. Não sei como a Hilary Swank e a Meryl Streep conseguiram receber tantos prêmios. Pois, se um único personagem dá um trabalho fenomenal, o que dizer de tantos papéis em que é necessário viver alguém extremamente diferente do que se é realmente. E depois reclamam da choradeira dos artistas ao receber o Oscar. Se fosse eu, ao ouvir o meu nome após o “and  the winner is”,  já estaria me debulhando em lágrimas. É o momento máximo da vida deles. Deixem que digam o que quiserem e que agradeçam até a vovozinha! Ficam podando os atores e atrizes no único instante que podem ser eles mesmos! Pois é, são tantos momentos que vivemos nessa fita… E naquele segundo em que nos sentimos milionários? A gente entra na loja (com o nosso suado décimo terceiro) com o poder de comprar aquela tevê que tanto queríamos! Muitas vezes, nos sentimos tão poderosos que, como o Godfather, quase estendemos a mão para beijarem o anel em nossos dedos. A vida pode ser um suspense como nos clássicos do Hitchcock. De repente, estamos dentro do filme Psicose com aquela inesquecível “musiquinha” em nossas cabeças a procura da origem de um barulho esquisito no meio da noite. A gente desperta “com o coração na mão”: “seria um assassino serial atacando nossa casa no meio da noite? Um Anibal na vida real?” No fim, descobrimos ser apenas um gato vira-lata, mas o medo que sentimos foi incrível! É assim mesmo, a gente vai pulando entre os estilos: drama, comédia, suspense e até ficção científica. Eu, pelo menos, sinto-me transportada para os filmes de alienígenas todas as vezes que vejo algo se movimentar no céu à noite. Até tomar consciência que era mesmo um avião, imagino um “serzinho” pequenino e estranho perto de mim querendo telefonar para casa.

A atmosfera de realismo é a melhor parte da nossa fita. A gente está vivendo tudo no mesmo momento da gravação desse filme. Não tem como refazer a cena, nem mesmo filmar de outro ângulo. É assim e acabou. É por isso que às vezes gaguejo quando tenho de dizer minhas falas. É que não tive tempo hábil para decorá-las. Não há sequer com quem repassar o texto. E somos expostos todo momento ao contato com o público. As cenas são gravadas em tomadas externas. Sabem como é difícil gravar assim. A nossa história é uma biografia, estamos filmando nossa vida. Por isso, é melhor que façamos valer o dinheiro dos ingressos de nossos futuros expectadores. Não vivamos na monotonia. Uma vida de aventura é bem mais divertida. Mesmo que não possamos empunhar espadas de verdade, nem mesmo lutar contra seres mágicos, como quimeras e trols, bem como sermos elfos ou hobbits extraídos diretamente das páginas do Senhor dos Anéis, é muito mais atraente um filme que não seja rotineiro. É claro que há muitas películas que tentam demonstrar a arte extraída do cotidiano comum. Mesmo assim, ainda creio que mesmo o comum possa ser extraordinário. E eu, a Meg Ryan da vida real, ainda me proponho a explorar ao máximo o meu único e definitivo personagem. Podem não surgir os aplausos esperados na estreia de minha obra. Nem mesmo o reconhecimento da crítica. Porém, me sentirei realizada apenas pelo fato de ter dado vida ao meu papel, a minha vida, a este filme que parece uma História sem Fim. Contudo, eu sei, nós sabemos, que há de chegar nosso momento derradeiro. Quando o Diretor, que jamais apareceu nas filmagens, ou talvez apenas não conseguíssemos vê-lo, fará soar a claquete e dirá com uma voz estrondosa: corta! Eis o final que tanto esperávamos. E, antes dos letreiros, aparecerá em letra cursiva o The End que confirmará o término do sonho. Mas há outros bilhões de histórias que aguardam apenas a nossa atenção para fazer os atores e atrizes brilharem. Ah, quase ia me esquecendo: somos os protagonistas de nossa vida, o que fazemos com o filme é de nossa inteira responsabilidade, não adianta culpar o Diretor. É você que interpreta do modo que mais aprouver. Há atuações medianas e outras dignas de prêmio. Interprete sempre esperando o Oscar. Afinal, o personagem é você!

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Uma opinião sobre “

  1. Pablo Samora

    muito bom!!

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