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A elegância dos destituídos 

Giordana Bonifácio

O brasileiro age com muita elegância. Não se revolta, não grita, matem-se calmo e aceita as mais terríveis atribulações com um sorriso estampado na cara. Se isso não for o máximo que se pode exigir de um gentleman, então não sei do que se trata elegância.  Nós ficamos mudos enquanto desviam o dinheiro de nossos impostos. E reclamamos pouco do descaso do governo com saúde, educação e segurança. Somos extremamente educados, no sentido da polidez que se exige em situações como esta. Quase apresentamos o nosso bolso para os corruptos saquearem com mais facilidade o fruto do nosso trabalho: “aqui senhor, ainda restam dois reais.” Mas eles como sinal de delicadeza nos deixam ficar com esta migalha para que possamos pagar o transporte público caríssimo e de condições deploráveis que os nossos governantes nos oferecem.  Não existem creches, hospitais com leitos suficientes ou saneamento básico, mas em breve aqui se dará a Copa do mundo e prometemos receber os turistas com toda nossa hospitalidade. Viu, o brasileiro é um poço de cavalheirismo. As escolas estão ruindo? Os professores são desprezados e mal-pagos? Não há problema, eis que a Olimpíada, vai trazer divisas para o Brasil, nem que seja por curtos dois meses. E depois disso, a gente bem que poderia despertar desse torpor. “Cruz-credo, parece macumba. Será que nos lançaram um encosto?” A gente não sente as agulhas encravadas no nosso corpo. É IPI, IPVA, IPTU, IR e outro tanto de impostos que são encravados na nossa pele. E nem adianta enganar a Receita. O país não tem um bom mecanismo para localizar criminosos, mas para “mal-pagadores”, nossa, encontram você até na mais remota tribo indígena do Acre! E o brasileiro já parece até boneco vodu.

Sem querer nos envolver, sem querer nos misturar, sem querer e querendo a gente aceita muita coisa. Rios de dinheiro são desviados e muitas vezes com nosso consentimento. Porque aquele político, sabe aquele, de paletó e gravata e discurso mole? Sim, ele pode ser corrupto, mas, algumas coisinhas pequenas, ele faz. Algo como inaugurar obras que demoraram décadas para ficarem “meio-prontas”. Porque têm de ficarem inacabadas, senão, como aquele homem bem apessoado e carismático que elegemos saquearia os recursos da nação? E a gente corre atrás do “trio-elétrico”  para acompanhar o showmício desse e daquele candidato que na campanha abraçam-nos e tratam-nos como iguais. Porém, só basta serem eleitos que nos lançam na mais abjeta sarjeta. Nem se recordam de qualquer promessa que tenham feito e que empenharam o fio do bigode para provar sua honestidade. E nós como gado manso, somos massa de manobra. Sem função alguma, a não ser a de dizer sim a tudo. Quem vai se revoltar? Quem vai protestar e importunar os donos do poder? Nós? Não, somos muito corteses para atos tão selvagens. A crítica ácida deixamos para nossos irmãos Argentinos que gostam de fazer paneladas. “Gente mais mal-educada!” Gostamos mesmo é de sorrir das situações, como se a piada apagasse o desgosto e amenizasse a vergonha. Uma guerra política ocupa as páginas dos jornais e poucos sabem algo mais profundo sobre a cachoeira de escândalos que entopem a mídia. Está todo mundo envolvido? Esquerda e Direita? Sigamos pelo centro então, que brasileiro não admite, mas adora ficar em cima do muro, sem opinar em nada. Quem se importa se há uma inflação mascarada e nossos salários estão se depreciando?  Besteira, ainda dá para comprar um carro popular à milhões de prestações, porque o IPI está reduzido. Reduzida também está a qualidade de nossas estradas. Buracos que se reabrem todo período de chuvas e são tampados toscamente, porque, o dinheiro para esse serviço também foi parar numa conta de laranjas num paraíso fiscal.

Mas a gente sabe tudo sobre laranja, não foi para ela que perdemos na última Copa? A Holanda, a laranja mecânica que nos atropelou? E fomos muito gentis com nossos oponentes. Reconhecemos sua superioridade.  Mas nós, nativos desse país de poucos, não faltamos com a delicadeza. Conferimos sempre uma segunda chance para aqueles que nos enganaram. Alguma coisa como “ofereça a outra face”. E aqueles que sumiram com um milhão agem com mais destreza e evadem do país com cem milhões. “São espertos, se fosse eu, faria o mesmo!” Assumem alguns que não têm sequer a possibilidade, nessa terra excludente, de ocupar a cadeira do rei. “Somos brasileiros e não desistimos nunca”, grita o slogan. E ficamos certos que não desistimos é de sobreviver em meio a tantas dificuldades. É tanta greve, tanto descaso e impunidade que ficamos até calejados. A gente tem “casca grossa”.  E comemos o feijão com arroz que pesa cada vez mais na cesta básica do povo. Silenciosamente, sentimo-nos representados quando ouvimos o hino nacional, mesmo que muitos não saibam sequer entoá-lo por completo. “O judiciário não representa o povo.” Tenta alertar a imprensa com manchetes em destaque. A gente lê e deixa passar, pois, o que se pode fazer? A gente desaprendeu a levantar a voz.  Com muito custo a gente se rebela e fala mal do árbitro da partida de futebol. A condição dos estádios era deplorável? Aí vem uma Copa do mundo, afinal, esse problema será resolvido. Não podemos receber os visitantes com a casa “mal-arrumada”. Sabemos que os engarrafamentos serão colossais, mas vamos brincar com as nossas mazelas. Se muitos ficarão presos no trânsito, que tal fazermos uma piada sobre o brasileiro que foi assistir ao jogo e chegou aos quarenta e cinco do segundo tempo, bem na hora de ver a nossa querida seleção ser eliminada da Copa? Difundir-se-á como água na internet. É bom ressaltar, nossos provedores de internet cobram os preços mais caros de todo mundo para nos fornecer um serviço contra o qual chovem reclamações. Mas seremos socorridos em tempo por nossa emissora favorita de televisão que amenizará as dores de nossas feridas com novelas cuja função primordial é abafar nossa indignação.

E depois disso tudo, seremos ainda mais cordiais, deixando nossos gênios venderem-se para as grandes nações porque, nesse país, o saber é desprezado. Permitamos que nossas maiores invenções sejam patenteadas por empresas estrangeiras. Afinal, nós somos solidários. Doamos nossas riquezas a troco de nada. E ficamos felizes quando é alardeado que somos a sexta economia do mundo. E se não permitíssemos que nos roubassem de todas as maneiras escusas nessa crônica demonstradas? Se houvesse um investimento verdadeiro em nossa educação tão sucateada? Se nossas indústrias fossem motivadas a produzir com mais qualidade a um menor preço? E se a segurança permitisse que andássemos tranquilos em nosso próprio país? E se o serviço de saúde fosse condizente com nosso tão propagado poderio econômico? O que seríamos se não aceitássemos com tanta passividade a condição degradante a que nos submetem? Seríamos o país que tanto esperamos? A gente tem de reaprender a gritar, porque a nossa, até agora, elogiada boa-educação está nos causando muitos problemas. Vamos tirar esses óculos que não nos permitem enxergar a realidade. Se continuarmos a recitar a ladainha dos políticos, sim, aquela do “Brasil, país do futuro”, (ou de todos, como o governo não cansa de lembrar), não nos daremos conta que o futuro já chegou e não estamos nele. E que estamos num Estado de poucos para poucos que exclui a grande maioria que engole tudo em troca de quase nada. Nosso povo aceita nossa desigualdade em função da política assistencialista, que oferece bolsas miseráveis aos pobres para ter seu apoio incondicional. Insurja-se nação tupiniquim, que o seu brado heroico retumbante ressoará pelos cinco continentes! Por isso, creio que nossa gentileza está nos fazendo mansos. Melhor que sejamos ouvidos, mesmo que para tanto tenhamos de nos rebelar e acabar com o mito da nossa hospitalidade. Porque já dizia minha mãe, “quem muito se abaixa, o rabo lhe aparece”.

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