Divagações

Giordana Bonifácio

Sento-me em frente ao computador. Não temos nada a dizer um para o outro. Ele olha-me interrogativamente. Eu nada respondo. Ele continua a me fitar. Até que resolvo escrever algo. Para quê? Não sei, talvez para quebrar o silêncio que se perfaz entre nós dois. E quando as palavras surgem no papel (que não é o papel realmente, mas uma simples representação), parece-me que a máquina se alegra. Bobinha, mal sabe que em poucos segundos vou apagar tudo. Com o backspace vou destruir a história que teimou em começar. E decepcionada, ela voltará a questionar-me. Não sabe que hoje as ideias me faltam. Não tenho sobre o que falar, nada me instiga a escrever além dessa ausência que se faz presente em meu peito. Agora algumas linhas já governam a tela. Penso se devo “deletar” esse início de crônica, releio o que até agora escrevi. Desisto de desistir. Estranho não é? Ter todos os meios para abandonar uma ideia e conservar-se nela… Acho que faço as coisas dessa maneira. Insisto sobremaneira em todas as situações. Creio que temo abandonar os sonhos, mesmo quando eles já tenham perecido. É um erro, confesso, não devemos temer mudar de caminho. Ainda mais quando as vias que escolhemos não nos representam por completo. Sempre pensei que poderia ser uma boa advogada, mas quando percebi que até o ambiente do fórum era-me desconfortável, deveria ter deixado de lado esse objetivo que se tornou um terrível pesadelo. Persisti procurando um destino que não me pertencia. Estudei sobremaneira para descobrir o que gostava realmente de fazer. Não sei ao certo se será a via mais rentável economicamente, mas é bom quando estamos felizes com o que realmente sabemos fazer. Gosto de escrever. É o que faço melhor.

 Quando o computador encara-me friamente esperando respostas, despejo em sua tela uma quantidade imensa de perguntas. Eu não tenho mais que isso para oferecer-lhe. É tudo que possuo e posso conferir-lhe. Não é a verdade mais agradável, os outros acreditam que os escritores podem fornecer a saída para os mais intricados dilemas. Não sabem que também estamos à procura das soluções para nossos problemas internos. Nunca prometi as respostas que não possuía. Nem para esta máquina que devora meus sonhos, nem para o leitor ávido de resoluções. Querem que lhe revelemos o segredo da vida. O problema que também estamos à procura, talvez de nós mesmos, dos segundos que se esvaem sem que consigamos retê-los. Estamos em busca do tempo perdido de Proust, das mil e uma noites de histórias de Sherazade, da ilha de Robson Crusoé e seu companheiro Sexta-feira, das obras mais inusitadas de Saramago e do mundo fantástico de Garcia Márquez. Alguma coisa para esquecer que estamos vivos e que fora dessas linhas há uma vida a nossa espera. Queremos mesmo é fugir para dentro de nós. Alguma coisa como escapar para si mesmo. Estar em contato com nosso próprio espírito que, há tanto tempo, abandonamos.

A fantasia que guardamos em nós é menos ameaçadora que a realidade que desmitifica a ficção. Quando a leitura do romance termina e somos obrigados a retornar ao mundo. Fechamos o livro, o guardamos na estante e estamos de volta do sonho. Às vezes esse retorno é traumático, não estamos preparados para o choque de realidade. É preciso estar em condições de sair da história, de forma gradual para não incidir em mudanças de comportamento e humor. São os efeitos colaterais de uma boa leitura. Queremos tanto que a narrativa continue que, sem que percebamos, estamos agindo estranhamente e muitas vezes adotamos o humor e as atitudes do personagem do romance que estávamos lendo. É quando a história silencia que procuramos uma nova fantasia para onde possamos escapar. Voltamos à estante, escolhemos algum livro que nos agrade, que na verdade é a chave para nossa imaginação. Há uma porta em nós que não ousamos atravessar quando somos adultos. É a da sala em que guardamos nossa imaginação. Mantemo-la trancada como também àquela que aprisiona nossos sonhos. Os artistas simplesmente tem o poder (e a coragem) de deixar estas duas portas abertas. Libertamos nossa criatividade das amarras de uma realidade limitadora. E apresentamos tudo que pensamos nessa folha em branco tão exigente e voraz.

Essa máquina faminta de pensamentos não se contenta com estas frases que nela despejei. Exige-me mais. Quer sugar de mim todas as minhas fantasias. E eu querendo apenas deixar esta crônica pela metade. Sei que é fraqueza, mas quando as palavras já não nos dizem mais nada? Será que devemos insistir numa discussão sem futuro? Persistir nas estradas sem nome da desilusão, como tantas vezes o fiz? Queriam respostas, assalto-lhes com meus problemas. Eis o que faço. Essa máquina fria que me exige também deve sofrer comigo. Nós duas companheiras e inimigas. Eu estou sempre a contar-lhe histórias, ela a ouvir-me mais que qualquer pessoa já o fez. Ninguém se ocupa muito do que escrevo. Talvez por ser chato e sem sentido. Só esse computador de sonhos binários ainda se conserva ao meu lado. Nele encontro solo fértil em que posso plantar minhas sementes de ilusões. Cultivo muitos hectares, vastos campos dourados de divagações. Sem muita serventia, porque não há quem colha os grãos, e com eles façam o pão que alimente suas mentes. Conservo o trigo de minhas memórias no mesmo local. Sem função também, porque não gosto de reviver o passado, mesmo que sinta saudades dele. É que me fere muito lembrar os meus objetivos de outrora e descobrir que, tudo o que um dia desejei, jamais se concretizará. Talvez por minha própria culpa. Sempre fui muito tola. Desperdicei oportunidades demais. Queria que esse presente fosse realmente um presente e não apenas a pena dos meus erros do passado. Quando tudo que existe hoje era apenas um futuro distante, poderia ter agido diferente para que as consequências de minhas escolhas não me afetassem mais tarde. Mas agora nada mais faz sentido. O passado se foi, o presente se fez passado e o futuro se tornou um presente de grego. Um cavalo do qual saíram Ulisses e suas tropas e destruíram minha Ílion. A cidade de fantasias que mantinha em mim, ruiu sob as forças gregas. Ainda há alguma saída possível? Talvez tenha evadido tantas vezes e das mais diversas formas para mim mesma que não saiba como sair desse calabouço em que me prendi.

Estou encarcerada em minha mente, com todos os meios de sair ao meu alcance sem que consiga usar nenhum deles. Acho que temo a vida e ela me despreza. Estamos discutindo por mais de três décadas e ainda não conseguimos nos entender. Sinto-me traída por ela. O destino subtraiu-me de minhas expectativas. E parece-me que as ideias surgiram de algum modo, ocupei quase duas páginas de minhas lamentações. Está claro que não estou muito feliz com o resultado. Sabe, gosto mais de contar histórias… Falar sobre mim dói demais. É que sou muito sincera, não floreio as palavras não represento quando tenho de falar do que sou. Sempre digo o que sinto. E muitas vezes nem me querem ouvir. Não os condeno por isso. Mas me repreendo por estar sempre a falar sobre a dor de ser eu. É que ser é mais sofrido que não ser, quando ser é o reflexo que não queremos ver no espelho. A verdade é que não queria mesmo escrever hoje. Estou muito gripada e deprimida em razão do meu aniversário na véspera. Apesar de ter sido felicitada por todos meus amigos, há uma ausência que não se ausenta de mim. É sobre ela que estava falando no início dessa crônica. Há um vazio impreenchível em minha alma. Algo que não pode ser completado. Sinto falta de alguma coisa que não conheço. Uma realidade que deveria existir, mas me escapou por completo. Passo os dias abandonada em meus próprios pensamentos, tentando descobrir, entre tudo o que não possuo, o que me faz mais falta. Será que a solidão é que me atormenta ou a escassez de perspectivas para o futuro? Será que, por não estar conformada com a vida que possuo, a melancolia faz-me mais sensível no dia do meu aniversário? O mais provável que seja apenas o efeito dessa doença que se dissemina em meu corpo. Se algo tão pequeno como um vírus pode nos deixar muito doentes, imagina o que pode causar essa terrível ausência que se prolifera no meu espírito como um buraco negro que suga tudo ao redor? Acho que já é o bastante. Contente-se com estas frases, máquina exigente, pois estou muito enferma para criar algo diverso.

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