Arquivo do mês: junho 2012

O aniversário da Infanta, a beleza vista por outro ângulo.

Giordana Maria Bonifácio Medeiros

Graduanda em letras pela Universidade de Brasília – UNB

                        Resumo:

Este artigo tem por fim realizar um estudo sobre o conto de Oscar Wilde, o aniversário da Infanta, promovendo uma discussão sobre as formas de se enxergar o belo e o horrendo quando estas duas qualidades não se podem perceber tão somente com o auxílio de um espelho.  Será realizado um contraste com o mito de Narciso que figura na obra Metamorfoses de Ovídio, que se realiza de modo contrário na trama do conto de fadas ora em análise.

            Abstract:

This article realizes a study about the Oscar Wilde’s Tale, the Infanta’s Birthday,  promoting a dialog about the ways to see the beautiful and the ugly when this two qualities can’t be seen at the mirror. At this work will be realized a contrast with the Narcissus Greek myth, that occurs in a manner contrary at the fairytale in analysis.

1.Introdução

A história passa-se no castelo real do rei da Espanha, que celebrava a festa de aniversário de doze anos de sua filha, a Infanta. Num primeiro momento há um excessivo trabalho do autor de descrever os ambientes palacianos, cujo luxo resplandecia artificialidade e desperdício. As crianças emplumadas, o jardim exultava beleza e as flores eram tão esnobes quanto os homens e as crianças que corriam pelos domínios do palácio. O rei de luto há onze anos pela morte da esposa, via na filha a imagem de seu grande amor, por tal razão vivia ausente da vida de sua herdeira. Não participava sequer das festividades do aniversário da Infanta. Porém, fez questão de promover a festa em homenagem à filha que evitava. A menina irritou-se por o pai não se fazer presente em sua festa e em seu pensamento egoísta não há questão de Estado tão importante quanto sua festa de aniversário, que impeça o rei de estar com ela nesse momento tão especial. E, imaginou que seu pai tinha ido para a capela escura onde não permitia sua presença. Ela não se condói momento algum pelo luto do pai que chega a tratar como tolice tendo em vista a festa e o sol maravilhoso que brilhava no jardim.

As festividades prosseguem com uma tourada de faz de conta, um equilibrista francês e a apresentação de uma tragédia clássica em teatro de bonecos, que, arranca lágrimas dos convidados. Logo após houve o número de um mago africano e um minueto dançado pelos meninos dançarinos da igreja Nuestra Señora Del Pilar. Após aconteceu a dança de um ursinho adestrado por ciganos para então dar início ao show do anão, Dwarf, mais aplaudido de todos. As crianças riram tanto da condição grotesca do anão, sobretudo a princesa, que ele foi premiado com um rosa branca no fim do espetáculo. Tendo havido a exigência da infanta que mais uma vez interpretasse a dança que tanto lhe fez rir. Dwarf, emocionado pelo presente, procura a menina por todo castelo, enquanto fazia lindos planos de se casar com ela. Imaginava que a princesa o amava e não tinha consciência que sua aparência era tão horrível que as crianças riam de sua feia figura e não da dança que ele interpretava. Quando chega ao mais luxuoso dos ambientes do castelo, Dwarf se depara com um espelho e assusta-se com o monstro que avistou. E fica um bom tempo hipnotizado pela feia imagem que a face fria do espelho mostrava-lhe, até que se dá conta que o monstro que via era si próprio. Então definha frente a sua própria imagem, o coração dele se parte enquanto esperneia de desgosto. A Infanta, decepcionada pelo fim da apresentação, exige aos empregados que todos os enviados para lhe divertir, dali em diante, não tivessem um coração.

2. A beleza e a feiura, o monstro e a bela, qual espelho revela a verdade?

 A narrativa de Oscar Wilde nos leva a admirar a beleza física da Infanta, mas ao mesmo tempo, nos provoca repúdio em função de seu comportamento egoísta e arrogante. Enquanto ao mesmo tempo, somos obrigados a reconhecer a feiura do anão, admiramos sua bondade e humildade. A pequena princesa e seus convidados bem como o jardim e nobres que a cercavam apresentavam o mesmo comportamento, cheio de esnobismo e desprezo pelo sentimento e condição dos demais que não podiam estar na festa. As criaturas repugnantes eram mera fonte de diversão. Dwarf jamais tivera consciência de sua aparência grotesca, até estar num ambiente que a denotava. Ver-se no espelho deu-lhe consciência que era um monstro. Mas os lindos planos apaixonados que projetou para o seu futuro ao lado da princesa, confere a ciência ao leitor que o espelho que revela a fisionomia, esconde o caráter dos homens. A princesa, cuja beleza é invejável, despertando inclusive a paixão no peito do anão, tem um comportamento tão asqueroso que nos leva a pensar que os papéis estão invertidos. O monstro é a pequena de egoísmo repugnante e o anão é o belo e humilde ser que se esconde sob o aspecto aterrador.

Oscar Wilde, sob o falso manto de conto de fadas, escreve uma história que foge aos padrões deste tipo de narrativa, pois o fim é triste, o anão falece de tanto desgosto, enquanto a Infanta exige que aqueles que a divertissem não tivessem coração. Ocorre que, era à princesa que faltava coração e não a Dwarf que morreu com o choque de se descobrir monstro. É de conhecimento geral que histórias que retratam o contraste entre o feio e o belo, são comuns na literatura infantil. A bela e a fera, história clássica de Gabrielle-Suzanne Barbot , narra o castigo de um rei arrogante de ser convertido em uma fera por uma bruxa, cujo feitiço só foi quebrado quando a mais bela menina do vilarejo apaixona-se por ele , mas apenas quando o monstro se mostra um ser sensível e amável. Há inúmeros ditados populares com o mesmo significado simbólico desses contos, que se perpetuam no imaginário popular por centenas de anos. Um desses é: “quem vê cara, não vê coração”, que ressalta os perigos da beleza que tende a cegar os homens para as atitudes das pessoas. Acontece que, apesar dessa moral passada pelos contos de fadas e provérbios populares, vivemos numa sociedade que valoriza a beleza física em detrimento das demais. Não é para menos que o corpo perfeito das modelos é invejado e perseguido por jovens e adultos. Há inclusive doenças graves envolvendo a busca do corpo idealizado pela sociedade, como anorexia e bulimia.

Então o fato é: a moral resta restrita aos contos de fada. São ensinamentos inócuos, pois, ao mesmo tempo que se procura ensinar à criança a respeitar as diferenças e ver o belo pelas ações das pessoas, na mídia se endeusa a beleza física relegando aos que não estão no perfil de beleza perfeita, papéis coadjuvantes de fonte de riso e pilhéria. Por tal razão, Oscar Wilde foge do fim hipócrita de dar um destino feliz ao anão. Ao invés disso concede-lhe um coração que se parte com a dor, enquanto o órgão falta à princesinha egoísta. Não que não haja finais felizes para os feios. Porque, outro ditado, bem mais sábio que o primeiro, concede esperanças numa sociedade padronizada: “a beleza está nos olhos de quem vê.” O que nos leva a crer que o que é belo para mim, não o será para outra pessoa. Isso porque devemos ter fé que a preferência das pessoas, mesmo muito influenciada hodiernamente pelo que determina a moda, ainda se guie por razões inexplicáveis.

Como surgiu esse culto pela beleza perfeita? Em artigo a revista infoescola, Orson Camargo tenta explicar a origem dessa paranoia social.

“Contudo, foi o cinema de Hollywood que ajudou a criar novos padrões de aparência e beleza, difundindo novos valores da cultura de consumo e projetando imagens de estilos de vida glamorosos para o mundo inteiro.

Da mesma forma, podemos pensar em relação à televisão, que veicula imagens de corpos perfeitos através dos mais variados formatos de programas, peças publicitárias, novelas, filmes etc. Isso nos leva a pensar que a imagem da “eterna” juventude, associada ao corpo perfeito e ideal, atravessa todas as faixas etárias e classes sociais, compondo de maneiras diferentes diversos estilos de vida. Nesse sentido, as fábricas de imagens como o cinema, televisão, publicidade, revistas etc., têm contribuído para isso.

Os programas de televisão, revistas e jornais têm dedicado espaços em suas programações cada vez maiores para apresentar novidades em setores de cosméticos, de alimentação e vestuário. Propagandas veiculadas nessas mídias estão o tempo todo tentando vender o que não está disponível nas prateleiras: sucesso e felicidade.

O consumismo desenfreado gerado pela mídia em geral foca principalmente adolescentes como alvos principais para as vendas, desenvolvendo modelos de roupas estereotipados, a indústria de cosméticos lançando a cada dia novos cremes e géis redutores para eliminar as “formas indesejáveis” do corpo e a indústria farmacêutica faturando alto com medicamentos que inibem o apetite.

Preocupados com a busca desenfreada da “beleza perfeita” e pela vaidade excessiva, sob influência dos mais variados meios de comunicação, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica apresenta uma estimativa de que cerca de 130 mil crianças e adolescentes submeteram-se no ano de 2009 a operações plásticas.

Evidentemente que a existência de cuidados com o corpo não é exclusividade das sociedades contemporâneas e que devemos ter uma especial atenção para uma boa saúde. No entanto, os cuidados com o corpo não devem ser de forma tão intensa e ditatorial como se tem apresentado nas últimas décadas. Devemos sempre respeitar os limites do nosso corpo e a nós a mesmos.”

Como explica o professor, não é objetivo deste artigo excomungar as modelos, destruir a indústria da moda, provocar uma revolução social tentando expurgar de todos os meios possíveis os padrões de beleza já instituídos. Ao contrário, admite-se que é importante preocupar-se com a saúde, mas respeitando o próprio corpo e seus limites. A busca insaciável da beleza deve ser vista como uma obsessão, uma psicopatia que deve ser tratada. Muitas pessoas estão descontentes com o corpo que possuem hoje em dia. A isso devemos creditar ao fato que estar de acordo com o padrão de beleza exaltado pela sociedade é bem difícil.  Exige tempo, dinheiro e dedicação quase que exclusiva, bem como abstinência de certos tipos de comida, como alimentos gordurosos e doces. À grande maioria, esse padrão é um sonho distante, enquanto outros se submetem a cirurgias dolorosas ou fazem exercícios físicos à exaustão. É quase uma religião este culto ao corpo, muitas vezes podendo ser comparada a uma insanidade generalizada.

O que se deve questionar é a formação psíquica das crianças submetidas a este padrão tão elevado. Como podem crescer numa sociedade extremamente discriminadora que exclui o que não se enquadra nos padrões?

Camila Cury, em artigo desenvolvido para revista eletrônica aprendendo, afirma que a anorexia e a bulimia estão sendo desenvolvidas por crianças também. A mídia explora um padrão de beleza infantil que não se aplica a maioria da população infantil brasileira. O padrão é uma criança branca, magra, de cabelos loiros e olhos claros. Ocorre que no Brasil onde a grande parte da população é parda ou negra não se enquadra nesse modelo. Bem como as crianças gordas são colocadas a parte dessa ditadura mirim. Conforme Camila Cury:

“Homens e mulheres não desistem de buscar uma perfeita definição para o ´ser belo´. No decorrer dos tempos, entretanto, tal obsessão pela beleza gerou ainda diversos problemas de saúde, dentre os quais podemos enfatizar a Anorexia Nervosa e a Bulimia.

A Anorexia Nervosa é uma grave doença psíquica que traz sérias consequências orgânicas, podendo inclusive gerar a falência múltipla de órgãos, infecção generalizada e morte. Os sintomas são proeminentes, como queda de cabelo, alteração e até interrupção do ciclo menstrual, emagrecimento mórbido, alterações hormonais, comprometimento do ritmo cardíaco e da pressão sanguínea, humor depressivo, ansiedade, autopunição, alteração da cognição, isolamento social, preocupação obsessiva com a estética, autoimagem distorcida, baixa autoestima, dificuldade de pensar antes de reagir.

A Bulimia Nervosa igualmente é um grave transtorno psíquico com repercussões físicas importantes, porém nem sempre tão intensas como as da Anorexia. Embora em diversos casos não gere um emagrecimento mórbido, pode comprometer o índice da massa muscular e gerar sintomas semelhantes aos da Anorexia. Tem como característica básica o comer compulsivo associado ao sentimento de culpa e vômitos que são provocados.

Tais doenças estão sendo percebidas e atingindo também nossas crianças e jovens que influenciados por colegas, familiares e mais ainda pela mídia, estão sendo já uma das principais vitimas da ditadura da beleza.

O momento é de mudanças com relação a estes paradigmas de beleza e de atenção por parte de pais e professores para tal situação. É necessária uma revolução inteligente e serena contra esta dramática ditadura. Cada ser humano possui uma beleza física e psíquica original e particular e isto é o que o diferencia, é o grande tempero da vida. Ninguém deve se comparar a ninguém, pois cada um de nós é um personagem único no teatro da vida.”

Portanto, evidente que também as crianças estão sendo afetadas por este alto padrão de beleza. E isso está bem evidente na obra de Oscar Wilde, as pessoas procuram cada vez mais a beleza externa e não se preocupam em cultivar a interna. As boas ações estão em extinção, a promoção da pesquisa e acréscimo de inteligência é algo raro. Parece que estão todos dentro da obra O retrato de Dorian Gray do mesmo Oscar Wilde. Enquanto a beleza externa permanece intocável, o quadro que representa o que o homem é realmente se converte num monstro horrendo. É esta a questão que pretendemos deixar nesse capítulo, quais são as belas e as feras desse mundo discriminador, seria a beleza aquela que o espelho exalta ou em contraponto a que revela o Retrato de Dorian Gray? Todos deveriam possuir um quadro desses em casa para lembrar a todo instante como degradam sua figura com ações detestáveis.

3. Narciso e Dwarf, uma visão intertextual.

Mesmo aqueles que não leram a obra de Ovídio, Metamorfoses, conhecem a história de Narciso. Segundo conta o mito, Narciso é filho de Liriope e Céfiso, um rapaz belíssimo que fomentou paixões em várias ninfas e jovens. Uma das Ninfas foi Eco, outrora muito loquaz foi castigada por Juno por impedir várias vezes que a mulher de Zeus o pegasse em patente traição com outras ninfas. O castigo foi repetir apenas as últimas palavras daqueles que com ela falassem. Eco ao encontrar o belo Narciso, por ele se apaixona. O belo rapaz pergunta por seus amigos numa caçada: “Tem alguém aí?” Eco responde apenas: “aí?” Ele intrigado, pede: “venha até mim!” Eco repete o convite.  Narciso então questiona: “por que foges de mim?” Eco repete novamente a última palavra. Então o belo, convida: “vem para junto de mim, unamo-nos!” A nada Eco respondera com mais vontade: “unamo-nos!” Ajuntando o gesto a palavra corre para abraçar o formoso rapaz. Ele afasta-se e diz: “Afasta-te de mim, nada de abraços. Prefiro morrer e não me entrego a ti”. Eco responde apenas: “me entrego a ti.” Foge então para uma gruta envergonhada onde definha até a morte, mas sua voz persiste na caverna, aprisionada para sempre. Para Narciso uma grande pena o esperava por fazer sofrer tantos corações. Numa fonte virgem, jamais vista por homem algum, quando Narciso se aproxima para matar a sede em razão da caçada, avista seu reflexo e apaixona-se por si mesmo. Tentava beijar-se a imagem turvava-se, ele clamava assim pelo seu retorno. Chorava e as lágrimas também faziam a imagem fugir, ele desesperava-se apaixonado. O jovem belo morreu ante ao seu reflexo, sendo convertido na flor branca de narciso.

Aí está a convergência das duas histórias, Dwarf hipnotizado pela horrenda imagem que o espelho refletia, demora a dar-se conta de ser apenas seu reflexo. A face fria do espelho assemelha-se com a face espelhada do açude que impede a Narciso de alcançar sua própria imagem. A rosa branca dedicada ao anão pela princesa faz referência à flor em que Narciso se converte ao apaixonar-se por si. Ambos, Dwarf e Narciso morrem em função de seus reflexos desgostosos, aquele por dar-se conta ser o monstro, este por não poder tocar a si mesmo.  Quando a infanta entrega a flor para o anão este pensa ser uma demonstração de amor e jamais de escárnio. E a flor de Narciso é considerada símbolo do amor.  Segundo Chevalier:“A rosa tornou‐se um símbolo  de amor e mais ainda do dom do amor,  do  amor puro… A rosa como flor de amor substitui o lótus egípcio e o narciso grego. (Chevalier apud Albertim,2004)”

Nenhum dos personagens, Narciso e Dwarf, tem consciência tratar-se de sua imagem refletida a razão de seu repúdio e encantamento. Ambos encontram a morte ao deparar-se consigo mesmo. Mas a história do anão se assemelha ainda a de Eco, porque ao apaixonarem-se, têm seu amor rejeitado. São nesses aspectos que as duas histórias se equivalem. É certo que Oscar Wilde pensou nessas semelhanças das duas obras ao criar esse conto de fadas tão triste que foge aos aspectos comuns a esse tipo de narrativa.

Narciso e Dwarf morrem em razão da beleza. Um despreza o amor de Eco, outro tem seu amor desprezado. Dorian Gray mantém seu aspecto jovem e belo enquanto a imagem na pintura se converte no monstro que o personagem se transformou, sem escrúpulos ou moral. Oscar Wilde apresenta um delicioso jogo de metáforas, que nos faz mergulhar nas histórias de Dwarf e Dorian Gray. Ambos presos pelos padrões de beleza, só que este mantém o monstro interno e o desenvolve, ao mesmo tempo em que aquele tem um físico horrendo, mas suas obras são nobres e tocantes. Esse é o espelho que nos apresenta o autor. A pintura revela a realidade. O espelho apresenta a imagem mais fácil de ser vista. O verdadeiro reflexo, aquele que a fonte não revelou a Narciso bem como o espelho não mostrou ao anão, esse é difícil de visualizar num primeiro momento. É necessário algum tempo para se enxergar e para isso, é fundamental aproximação e convivência. O amor pode não surgir à primeira vista, mas quando os olhos já podem ver aquilo que o físico não permite.

4. Conclusão

O objetivo deste artigo foi questionar os padrões de belezas vigentes num estudo sobre as obras de Oscar Wilde: o aniversário da Infanta e O retrato de Dorian Gray. Bem como fazer um estudo de intertextualidade dos livros acima com o mito de Narciso presente nas Metamorfoses de Ovídio. Num primeiro momento foi feita uma crítica à sociedade atual e aos modelos de beleza vigentes que afetam até mesmo as crianças. É lógico que a beleza está se tornando uma obsessão que provoca doenças psíquicas graves como a anorexia e a bulimia. E estes males já estão presentes até mesmo na infância. A busca desenfreada pela beleza está criando monstros, pois a figura mais fácil de ser vista, aquela que o espelho nos apresenta pode estar de acordo com que exige a sociedade, mas aquela, que traduz os homens como pessoas, definha como Narciso frente ao seu reflexo. Dwarf conscientizou-se que o amor que imaginava ter a Infanta por si era puramente escárnio. E saber-se monstro casou-lhe a morte. Sabe-se que as pessoas querem estar dentro dos padrões. Querem cinturas finas, cabelos loiros, a imagem que a mídia promove enfim. E nessa luta para ser aceito, acabam por destruir-se como Narciso e Dwarf ao deparar-se com si mesmos.

A conclusão mais clara desta trama é: não podemos nos enviesar pelo terreno da hipocrisia. É sabido que a maioria dos homens e mulheres escolhem seus parceiros em razão da atração física, mas existem aqueles ainda que se mantém originais. Pessoas que veem nos outros bem além do que pode apresentar o externo. Gente que tem em mente que a beleza é temporária e que o tempo é atroz e que a luta contra ele pode garantir alguns anos a mais de beleza. Porém, ninguém foge à velhice e decrepitude dos corpos. O que importa mesmo, no fim, é a beleza que Dwarf não pode ver em si, e que Narciso não poder perceber em Eco. Ambos se iludiram com seu reflexo. Por isso é necessário fugir dessa ditadura que dita a moda. O mundo está numa luta constante entre o que a sociedade nos exige e o que os homens são realmente. E nessa guerra interna, muitas vezes o lado que vence não é aquele que promoverá a felicidade do indivíduo. O prazer de estar em sintonia com que exige os padrões vigentes, não durará muito. E após a perda inevitável da beleza, talvez as pessoas se conscientizem que os valores mais importantes não se perdem jamais. Dwarf tinha o coração que faltava a Infanta e essa era dotada de uma beleza artificial, pois a generosidade que deveria ter aprendido de berço faltava-lhe. É fundamental compreender-se que a beleza é perecível e o que é realmente importante não poder ser visto. Porque já dizia Saint-Exupéry no seu Pequeno príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”.

5. Referências Bibliográficas

ALBERTIM, Alcione Lucen, Dwarf, um mito subversiv, in http://www.revistaaopedaletra.net/volumes/vol%206.1/Alcione_Lucena_de_Albertim–Dwarf_um_mito_subversivo.pdf, último acesso em 30 de junho de 2012.
CAMARGO, Orson, Mídia e o culto à beleza do corpo, in http://www.brasilescola.com/sociologia/a-influencia-midia-sobre-os-padroes-beleza.htm
 
CURY, Camila, A Ditadura da Beleza também atinge nossas crianças e jovens!, in http://www.escolainteligencia.com.br/blog/aprendendo/a-ditadura-da-beleza-tambem-atinge-nossas-criancas-e-jovens/ último acesso em 30 de junho de 2012.
 
OVÍDIO, Metamorfoses, Ediouro: São Paulo, 1983.
 
SAINT-EXUPÉRY, ANTOINE, O pequeno príncipe, Agir: Rio de Janeiro, 48ª Ed., 2006.
 
WILDE, Oscar, O aniversário da Infanta in Histórias para aprender a sonhar, Companhia das letrinhas:São Paulo, 2011.
 
WILDE, Oscar, O retrato de Dorian Gray, Círculo do Livro: São Paulo, 1974.
 
 
 
 
 
 
 
 
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Dizes: “Vou para outra terra, vou para outro mar.

Encontrarei cidade melhor do que esta.

Todo o meu esforço é uma condenação escrita,

E meu coração, como de um morto está enterrado.

Até quando minha alma vai permanecer neste marasmo?

Para onde olho, qualquer lugar meu olhar alcança,

Só vejo minha vida em negras ruínas,

Onde passei tantos anos, e os destruí e desperdicei.”

Não encontrarás novas terras, nem outros mares.

A cidade irá contigo. Andarás sem rumo

Pelas mesmas ruas. Vai envelhecer no mesmo bairro,

Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.

Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,

Não há bairro nem caminho para ti.

Como dissipaste tua vida aqui

Neste pequeno lugar, arruinaste-a para a vida inteira.

A cidade, 1910

Konstantinos Kaváfis

A cidade 

Giordana Bonifácio

A cidade transcende a mim e a você. Tem vida própria, não podemos contê-la. Cresce monstruosamente sob nosso olhar abismado. Estamos aqui e ficaremos sempre, com a cidade presa a nós. Ou será que somos nós que estamos presos a ela? Tentei inutilmente tirar de mim a cidade. Mas parece que ela esta marcada na nossa pele. Identifica-nos como gado. Somos propriedade dela, por isso perguntam-nos, quando tentamos fugir, de onde somos. Mentimos dizendo que somos daqui e dali. Mas somos mesmo deste monstro que é um lugar. Ou somente “o lugar”. Ele assistiu o nosso nascimento e estará presente em nosso enterro, quando faremos parte do material que o compõe. Seremos a cidade enfim. Esse é o problema que me ocorre ao tentar escapar dos limites desse mundo hostil. A questão é: o que posso fazer se os limites estão em mim? Não posso fugir do que sou o tempo inteiro. E o que sou está aqui. Estamos sempre juntas: a cidade e eu. A vida que desperdicei sob estes muros, sob a sombra destes edifícios, não posso reaver. Como é impossível também evadir do confortável abrigo que a cidade nos oferece. Uma nacionalidade. É isso que confere um país ao seu povo. A cidade oferece muito mais, concede-nos o conforto de costumes e cultura próprios. Permite-nos fazermos parte de uma sociedade.  Estamos aqui, somos parte de uma estrutura. Até que a estrutura nos incorpora e acabamos sendo a própria estrutura. Um pouco difícil de entender, não é? O que digo é que temo toda essa realidade que me contorna.  Muitos monumentos enfeitam o cenário, mas me parece que ninguém os vê. Estão parados delimitando o espaço: isto é aquilo. Mas ou isto ou aquilo.

E o que é esta multidão que caminha sem direção? É o povo que alimenta a voracidade desta terra que se nutre dos seus cidadãos. Tal qual Zeus, a cidade devora seus próprios filhos. A cada ser que por sorte ou azar nasce aqui, mais um número acresce-se aos milhões. Estamos juntos e separados, porque estaríamos juntos apenas se compartilhássemos as mesmas ideias. Contudo, só dividimos os nossos medos. Medo dessa medonha figura que se expande sem fim. E das pessoas, porque a consequência mais patente do crescimento desordenado dos centros urbanos é a violência. Como um círculo que vai se fechando sobre nós, o entorno nos amedronta. As pessoas que excluímos do coração de nossa cidade vão amontoando-se ao nosso redor. Não sabemos como evitar sua presença aqui. Eles nos atemorizam, porque tudo que lhes negamos, eles estão vindo tomar-nos.

Por isso, as ruas já não nos pertencem mais, andamos desconfiados nos terrenos em que outrora pisávamos com confiança. O nosso egoísmo, nossa vaidade de possuir o monstro disforme da cidade, agora está nos sendo cobrado. A cidade cresce sem nosso consentimento. Não há mais conforto. A comodidade deu lugar ao aperto. O metrô percorre as linhas levando nossos sonhos amontoados, não há, na verdade, mais espaço para sonhar. Os desejos se derramam pelos túneis e lá ficam por toda eternidade. Os ônibus não andam mais, os engarrafamentos desproveram-lhes da capacidade de percorrer essas avenidas largas que se mostram estreitas para tantos carros. E tudo que já fomos, aquela história de patrimônio cultural da humanidade, posso lhes garantir, não o somos mais. Na verdade, nossa cidade se tornou uma das cidades invisíveis de Calvino. É apenas uma concepção de nossa imaginação. Assim podemos entendê-la como bem nos aprouver. Podemos divagar sobre o fato de todos, de um jeito ou de outro, encontrarem-se aqui. “Estive em Londres”, “estive em Paris”, “estive em Nova York”. Eu sempre estive aqui. A cidade não nos abandona. Sentimo-nos sós do outro lado do mundo, quando tentamos desavisadamente abandonar estes limites invisíveis. E a cidade, também invisível, vai conosco para os outros países que visitamos.

Estamos todos confusos com tantos conceitos que o povo daqui vai reformulando. Acabamos por definir o que pensamos com a ajuda da televisão. Nem sabemos por que perdemos tanto tempo em procurar respostas. Deixemos que a mídia as encontre em nosso lugar. E depois, se os homens que dominam o povo desta cidade traírem seus conterrâneos, nós vamos cobrar dos meios de comunicação por que nos fizeram agir de maneira tão enviesada.  Não somos donos de nossa mente, a cidade pensa em conjunto. É isto. Estamos em silêncio porque a cidade não se define. Não sabemos se estamos conformados ou decepcionados, provavelmente os dois. Mas não temos culpa, afinal, a imprensa não se manifestou corretamente. “A gente foi na onda”. Então, estamos todos iludidos sobre o lugar onde habitamos. E sei que vamos envelhecendo aqui, com os mesmos problemas que não se resolvem. Faltam segurança, saneamento básico e condições favoráveis para a saúde do povo. Bem como, a educação pública sobrevive à duras penas em escolas em péssimo estado e com professores mal remunerados. E ainda tem governador, que pensa dominar a cidade, que diz a plenos pulmões: “se os nossos mestres quisessem dinheiro, não deveriam ser professores”.

 Então, nesta massa indefinível que é a cidade, vamos perdendo-nos de nós mesmos. Fazemos, cada vez mais, parte da paisagem. E um tanto assustados com a maldição que se abate sobre esse povo, queremos evitar passar nossa maldição a nossa prole. Desejamos que não se fixem nesse solo, que não criem raízes como nós. Obrigamos-lhes que usem as asas que ainda possuem e voem para outro lugar. Temos ciência que as nossas asas já atrofiaram. Não temos mais possibilidades de escapar, estamos fincados nesse solo vermelho. E sabemos que nosso derradeiro suspiro se ouvirá aqui. Não podemos esperar ir a outro lugar. Ainda me recordo de meus amigos dizendo onde morariam quando fossem adultos. Nenhum deles queria aqui permanecer. Ocorre que, décadas depois, estão todos usufruindo dos frutos desta cidade.  Não sei se o medo do novo os desencorajou ou, talvez, apenas o fato que a cidade não nos permite fugir. Estamos todos no mesmo lugar. Alguns no mesmo bairro. Eu sonhei alto com cidades imaginárias onde pudesse ir. Nunca fui a lugar algum. E meus cabelos estão embranquecendo sem que consiga achar uma saída para este labirinto de prédios sem fim.

 Esse é o perigo de querer sair de um lugar que está em você. A minha condenação foi a pena perpétua nesses limites que não se veem. São como esta cidade infame que não se desfaz de nós. Misturo-me à massa de cidadãos cuja covardia é a fonte de energia deste lugar. E sabemos que o monstro onde habitamos é o leviatã que tememos. O crescimento desenfreado que gera violência nos força a pedir abrigo para o Estado. Clamamos: “proteja-nos” e trancamo-nos em nossas casas para escaparmos dos nossos concidadãos. E quando procuramos auxílio, em função de grave moléstia, os hospitais não nos podem atender por serem muito poucos para tamanha população. E se queremos estar instruídos, pois se sabe que, a única maneira de impedir que nossas asas atrofiem é pela educação, o ensino que as escolas públicas nos oferecem está muito aquém do que seria ideal. E sentimo-nos desprovidos de qualquer ajuda. Não temos direito, tão somente obrigações.

A cidade onde tudo é invisível: segurança, saúde e educação, ainda nos exige o pagamento do direito de morar entre suas fronteiras. E obedientes aceitamos mais este dever. Sem reclamar do Estado que consome nossa vida tributando metade do que ganhamos no ano. Apenas suspiramos ao pensar nos sonhos infantis, quando ainda tínhamos asas e podíamos voar para onde bem quiséssemos. A cidade iria conosco, porque não se pode impedir que plante sementes em nós. Mas nos fixaríamos em outras terras. Talvez, até perto do mar. A cidade lamenta a distância do oceano. Queria que as ondas lambessem-lhe as praias e a maresia corroesse-lhe a tinta dos prédios. Mas fica apenas com a possibilidade artificial de um lago criado para manter a umidade nos períodos de seca. Ainda resta-lhe o céu, invejado por todas as demais cidades. Mas estas dizem: “grande coisa, você não pode banhar-se no céu”. Despeitadas, se soubessem como o povo desse lugar consegue flutuar nesse azul sem fim, ficariam caladas ao tentar criticar nossa cidade.

E ainda estamos a defender o monstro que nos consome! Se pudéssemos usar a influência dos políticos que elegemos para controlar este leviatã que se deforma conforme cresce sua população, mas eles estão muito ocupados comprando asas mecânicas para fugir daqui. A cidade nos transcende e nos antecipa. Não sabemos como escapar dessa teia onde estamos presos como moscas com a certeza de serem devoradas. Mas esta é nossa sina, não nos cabe saber como surgiu a cidade, mas apenas como viemos parar dentro dela. E de alguma maneira, tentar, mesmo que inutilmente, sair de suas fronteiras. Todavia, sabemos que há algo que nos liga a esta terra, sabemos que pertencemos a esse sonho infeliz de cidade.  E resta-nos tão somente a certeza que como dissipamos nossa vida aqui, neste pequeno lugar, arruinamo-la na Terra inteira.

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Vagando pela madrugada

Giordana Bonifácio

Enquanto vago só por estas ruas, aflita,

uma questão primordial, a minha alma agita:

se ainda há caminhos para alguém que se perdeu,

nesses tristes vales onde apenas reina o breu?

 

Nessas ladeiras chorosas vou sem direção,

buscando respostas que pede meu coração.

A brisa melancólica enche-me de medo,

desconheço se, para o fim, ainda é cedo,

 

e se a morte pretende ao meu espírito levar.

Vejo a noite terminar num lindo alvejar.

Quero chorar. Já não sinto pavor ou frio,

 

sou vítima de uma dor e um desejo doentio

de prosseguir até fazer o corpo cansar.

Sem piedade de mim e desse meu vil penar.

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O último reduto

Giordana Bonifácio

Esta solidão sem palavras que a tudo diz.

Esta tristeza, sem dó, que fere ao meu coração.

Esta é a tal pena hedionda, ser um só infeliz.

Esta dor cruel cujos males se enumeram,

 

está sempre comigo. Não há saídas para mim.

Está presente, ainda, esta saudade incômoda,

uma fonte de sofrimentos que não tem fim.

Imploro que não sinta esta emoção toda,

 

que tenho certeza não conseguir suportar.

Sei que a vida me precede a cada minuto,

não posso evitar esse triste navegar.

 

E comigo, somente esse sentimento bruto

ao qual, sei, não é possível vencer ou evitar.

No final: o silêncio. Meu último reduto.

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Um caminho seguro

Giordana Bonifácio

Fui tateando aqui e ali. Procurando sempre. Deve haver por onde se caminhar sem perigo. Mas e esta ponte pendente sobre o precipício? Será segura? Não quero mais seguir por estes vales. Não posso mais estar nessa agonia. Sempre em busca.  “Mas de quê?” Pergunto ao vazio. Ele responde-me em silêncio. Eu ouço o som do vento. Há dias mais aprazíveis que outros. Vivemos em uma montanha russa de sentimentos. Nem sempre se está a salvo. Acho que o mais fácil é estarmos em risco. Aqui nesse quarto onde somente tenho a companhia de meus pensamentos, teoricamente não estou em grave perigo. Teoricamente. Eu sei que nem aqui estou longe do mundo. Bem ao meu lado a sociedade pulsa. E exige-me, e obriga-me, e ameaça-me, por fim me amordaça para que não grite por socorro. Sou uma vítima do mundo que ele não enxerga. Não sei se ele ignora-me ou se apenas está indiferente a mim. Não posso exigir que me perceba, não posso obrigar que me ouça, porque é impossível impingir minha vontade a esta massa surda. O estranho é que, sempre se considerou a grande massa como facilmente manipulável. Ocorre que talvez não saiba como agir com relação a ela. Estou perdida na iminência de algo que pode vir a não ocorrer. Quero um minuto de sossego, em que esteja no conforto das certezas, mas vivo na expectativa das dúvidas. Sem alento, no ritmo que me dita o coração, (sempre urgente!), prossigo. Sem esperanças. Sem saídas. Sinto que me afogo em um mar de divagações. As guerras internas persistem. Ainda consigo enxergar uma luz muito tênue no horizonte. É um farol que ilumina o caminho dos marinheiros. Oceanos intransponíveis brotam ao meu lado. Ainda há monstros que não podemos combater. Será que terei de ouvir para sempre o soluço de meus medos?  Por que estou sempre assustada? Será que a vida pode ser vivida de uma forma mais confortável? Sem o pavor de estar viva?

Quero, sobretudo, as coisas que não posso ter: a paz é um desejo distante; o amor um luxo que não me é conferido; a realização, não está ao meu alcance. Tudo me parece longínquo, um sonho que não me é permitido sonhar. Restam-me a saudade, a solidão e o pavor. Só tenho medo. E nem sei como saciar a fome de coragem que me assalta. Como ser audaz num mundo que lhe poda? Sei que me escrevo. É isso que faço. Ponho o que sou no papel, para tentar de algum modo, compreender-me. O que acho de mim? Não sei, ainda não pude me decifrar. Escrevo em códigos que não posso decodificar. Só sei que esta mensagem se destina somente a mim. Escrevo somente para o que sou. Escrevo apenas sobre minhas dúvidas. E sei que as pessoas não estão preparadas para esta carga de adrenalina. Podem medir o grau da minha covardia? Ainda me perco em questões sem solução. Acho que me trancafio no interno. Estou aqui, no meu peito, querendo governar meu coração. Estou aqui, no meu cérebro querendo dominar minha razão. Sou um mar revolto em que os navios dos desbravadores naufragam. Não adianta, não podem me entender. Eu não posso, por que com vocês seria diferente? Minha confusão é a resposta dos dilemas mais intricados. Sem abrigo, aqueço-me na fogueira das emoções. Sou mais uma náufraga que espera o socorro vir. Porém, ninguém aparece. Os dias passam sem vestígio de qualquer pessoa. Então me recordo que o mundo não me vê. E que, se apenas eu vejo o mundo como ele é, tenho de escapar sozinha das correntes que forjei. Estou condenada a ser eu mesma. E não sei se a pena é perpétua ou de morte. Acho que vou matando-me aos poucos. Não quero sobreviver a mim. Não posso escapar do que sou. Esse é o perigo mais real e imediato. Se estou cercada de sombras, se a escuridão me assalta, como posso ser feliz? Estou em constante perigo. Porque eu cerco-me ameaçadora. Eu sou o leviatã de meu mundo. Preciso de alguém que me governe para escapar desta vil besta. Mas sou eu! Eu sei que sou eu! Eu sou o “Senhor das moscas” que apavora os meninos. Sou quem se coloca na posição de vilã desta trama. Minhas terríveis ações não devem ficar impunes. Mereço a punição mais atroz que provoque a dor mais terrível e que seja insuportável a qualquer ser humano. Não desejo sequer clemência. Quero a morte lenta e dolorida. Jamais mereci a vida. Se ma usurparem será muito mais justo.

Estão ouvindo? Céus, terras, mares? Abro mão da única coisa que possuo. Só tenho esse corpo. Só tenho esta mísera carcaça. Sabe que “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”¹. Sou apenas eu. E recusam-se a aceitar-me? Tenho de permanecer nessa existência frágil, exposta aos males terrenos que me cercam? A vida é-me dispensável. Não a considero essencial. Pois tenho certeza que não sobreviverei aos perigos que represento. Estou suscetível, não há proteção à vista, há somente desertos até aonde posso ver. Estou em penitência, alimentando-me com os gafanhotos que posso encontrar. Não sou, contudo, santa. Penitencio-me por minhas faltas. Porque sou tão fraca que não posso vencer aos meus monstros internos. E vou lutando, por mim e contra mim. Essa é minha sina. Mas ninguém se importa. O mundo abandonou-me quando nasci. Santos e deuses não se condoem do que sou. Estou sozinha nessas trilhas que cortam densas florestas. Já cruzei mares em tormenta, já fui aprisionada numa ilha, já atravessei desertos em penitência, agora estou em meio a mais inóspita floresta, com uma mata tão fechada que a copa das árvores não permite a entrada da luz do sol. Aqui, nesse ambiente tão hostil, não sei o que devo esperar. Talvez ferozes animais ou venenosas cobras e aranhas. Pestilentos seres, como ratos, sei que me encontrarão. É que somos guiados uns para os outros por nossa repugnância. Não posso escapar do que sou. Está sempre comigo. Somente eu acompanho-me. E nessa solidão de estar sempre comigo, acabo por ter ojeriza ao que represento.

Mas não sei por que me odeio. Não sei por que não consigo apiedar-me da minha patética figura. Talvez, até me seja aprazível a dor e as temeridades que enfrento. Quero que as circunstâncias me torturem, que o medo assole o meu ser. Não há caminhos seguros. Vou sempre viver na corda bamba: com medo de cair no infinito, com medo de cair no nada.  Essa é a busca que empreendi por toda minha existência. Nada me foi concedido, nem mesmo a resignação ao fato de persistirem meus hediondos defeitos. Estou com medo. Quero apenas alguém que segure a minha mão e diga que tudo vai dar certo. Mesmo que eu saiba que assim não ocorrerá. Acho que estou a minha própria sorte: sem mapas que me auxiliem nessas jornadas, sem guias para me indicarem a direção que devo seguir. Vou em frente, contra o meu pavor. Minhas pernas tremem, minha boca está seca e temo que meus sentidos me faltem. É assim que ocorrem sempre minhas aventuras. Minha maior conquista é ganhar dos meus sentimentos internos. Sei que me desvalorizo e que talvez seja eu e não o mundo que me trate com indiferença. É que já estou tão acostumada ao meu menosprezo que acabo por sentir falta do que sou. Quando não me diferencio dos demais, eu não consigo estar comigo. É que, se não ajo como deveria agir, se não sigo minha autenticidade natural, não me reconheço. Assim, tenho de estar sempre em concordância ao que entendo por mim. Ao menos, não perco minha identidade tentando me adequar a um mundo que não faz questão de minha presença. Também não estou ansiosa pela atenção que me falta. Talvez só saiba ser sozinha e só. Pode ser isso. Não posso ser mais de um. Sei que sendo única posso ser o que bem me aprouver. O que não ocorreria caso estivesse em grupo. As pessoas exigem de nós uma atitude que não é condizente com nossos princípios. Por essa razão, enquanto estou sozinha com meus medos acho que estou a salvo dos outros. Tenho medo de mim e do mundo. Não consigo viver sem essa esquisita antítese, de ter de me esconder do mundo, quando somente quero fugir de mim. Sem caminhos seguros que me levem para casa. Onde se pode estar a salvo quando estamos com medo de nossas sombras? O único modo de estarmos protegidos é aceitar a escuridão e a estranha fera que há dentro de nós.

  1. Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas.


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A dor verdadeira

Giordana Bonifácio

A rua, a casa, o quarto, o som, a música.

Depois silêncio e lágrimas, a rima rica?

Talvez apenas este pobre sentimento.

Deste terrível mal, eu sei: não estou isento.

 

Sinto, porque sou humano, só somente.

Lá fora, cai uma chuva fina e persistente.

Não posso viver alheio ao bater do coração,

preso a estas divagações que me atormentam.

 

Queria falar sobre sonhos, queria ser feliz.

Mas a melancolia aparece sorrateira,

como num pesadelo que a tudo prediz.

 

A emoção é fugaz e acontece sem que o queira.

Sangra-me o peito e o que esse vazio me diz?

Somente o que sei sobre a dor: é verdadeira.

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Soneto da desigualdade

Giordana Bonifácio

Ainda há quem se lamente

sobre esse mal inclemente:

a desigualdade social

afeta o país em geral.

 

Sentimos que lá fora,

onde a lei não demora,

sopram novos ventos:

as minorias tem alento,

 

nos braços do governo.

Aqui se espera revolução

e que ajam os de terno

 

pois sofre a população,

deste terror eterno:

descaso e humilhação.

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Crítica social

 Giordana Bonifácio

Crítica social é, às minorias, dar lugar.

É, às mulheres e pobres, dar poder.

É, os ecos de indignação, disseminar.

É, os desejos dos atrevidos jovens, ler.

 

É, ao sopro da descontente massa, ouvir.

É, pela constante injustiça, se indignar.

É, pelas crianças, batalhar por um porvir.

É, pela muda plantada, aos campos regar.

 

Ouçamos, por esta razão, estes gemidos,

sussurros, fortes que se fazem pela oração.

O povo, os seus anseios, quer ver socorridos.

 

Não há mais vis mordaças que nos emudeçam,

ou ainda ditadores atrozes a serem temidos,

somente sonhos nos guiando à libertação.

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“A vida é maravilhosa se não se tem medo dela.”

Charles Chaplin

O fim sensacional para o filme de nossas vidas

Giordana Bonifácio

É incrível, gostamos tanto de cinema que poderíamos viver nossa vida como se estivéssemos num filme. Imaginem só: acordar de manhã e logo tomar nosso café, no melhor estilo da Meg Ryan! Não que me pareça com ela. Aliás, é meio absurdo isso, mas me imagino com todo estilo dessa atriz.  E após, nos despedimos de nossa família para ir ao trabalho, sentindo-nos no Show de Truman, com todo o teor da especulação midiática sobre esse filme. Somos os atores de nossa própria vida. Representamos para o mundo, que nos assiste com olhos inquisidores acima da estratosfera. Lá fora, há milhões de satélites voltados para nossas cabeças, e o que fazemos com relação a essa presença que deveria ser incomoda? Entramos no jogo. No Big Brother de nossas vidas, não ganhamos prêmio algum, além da aceitação ou rejeição das pessoas. O bom é que não podemos ser eliminados, exceto por um Diretor piadista que adora brincar com nosso destino. Mas prossigamos na nossa cena, recebamos o close e posemos para os paparazzi. “Eis aqui alguém que não mente sobre sua carreira. Estive o tempo todo treinando minha humildade, para não parecer sarcástico ou pedante” dizemos com um sorriso clareado por dentistas. Colocamos os fones de ouvido do Ipod e parece que a trilha sonora do nosso filme somos nós que escolhemos. No melhor estilo de Ryan Reynolds em Três vezes amor. Sabe naqueles dias que o schuffle parece entender você? Isso acontece com os atores nas cenas mais tocantes. Emoção é o que não falta nessa película. Há também os momentos de perigo, quando sentimos que devemos exigir o máximo de nossa atuação. (Principalmente no Brasil onde assaltos à mão armada são tão comuns que acaba se tornando um clichê cenas de roubos). Ainda temos tempo para lançar aquele olhar ameaçador dos mocinhos frente aos seus algozes. O ruim é que aqui, na vida real, se morre de verdade. A gente não usa catchup, é sangue mesmo. As balas não são de festim também. Por isso, cuidado com sua coragem, pois você pode estar gravando sua última cena.

Mas o filme continua, acrescentam-se novos atores, tomadas e cenários, mas temos consciência que estamos todos no mesmo elenco. Há os momentos emocionantes, em que a gente é piegas também, como no nascimento de um bebê, que pode ser filho, irmão, neto ou sobrinho. Todos se derretem com o ator-mirim. E ele já chega roubando a cena, mudando toda a rotina do restante do elenco. E cobram caro, damos nossa vida por eles. Sabe aquele filme Nove meses com Hugh Grant? Bem assim. Há também cerimônias, como enterros e casamentos, que não deixam de ter lugar em nossa vida. A gente se sente meio fora de órbita, como se estivéssemos deslocados, meio atrapalhados mesmo, sobretudo quando se é solteiro. Seria algo como em Quatro casamentos e um funeral, (quem não se recorda desse filme?) Nossa vida sob a lente da câmera. Eis que até no nosso trabalho alienante estamos em cena, somos como Chaplin em Tempos modernos. Meio palhaços mesmo, porque não há como não nos considerar um tanto cômicos. A vida tem seus pontos dramáticos, mas aceita também a comédia. Se não nos divertirmos, qual a razão de gravar esse filme afinal? Por isso, exploremos o nosso lado mais gaiato. Sejamos um clown e aproveitemos as tortas que levamos na cara para fazer graça. Esse é o espírito. Um chapéu coco e uma bengala tornaram um homem num mito. Imagine o que seu terno engomadinho ou seu salto alto podem fazer por você? Se você abrir a geladeira e encontrar uma pizza do fim de semana, lembre-se, que nem todos grandes artistas comem iguarias francesas nos filmes, principalmente em dramas. Se estivermos literalmente “na merda”, vamos fazer igual ao garoto de Quem quer ser um milionário, vamos concretizar nossos sonhos, não importa a turbulência que nos assalte. No nosso filme somos atores, produtores, roteiristas e, sobretudo, dublês, então cuidado com as cenas perigosas! Você não poderá processar a si próprio em caso de acidente.

Eu mesma gosto da tela do cinema e acho que fico bem no foco da câmera. Sei que, quando morrer, vou fazer uma tomada bem dramática, uma cena memorável que pode conceder-me um Oscar. E nos agradecimentos, vou chorar no palco, segurando a estatueta dourada. “Foram muitos anos de dedicação quase que completa. Muitos anos fazendo o mesmo personagem, sabem como é. Não há como não ficar emotivo ao receber um reconhecimento desse garbo pelo seu trabalho”. Não sei como a Hilary Swank e a Meryl Streep conseguiram receber tantos prêmios. Pois, se um único personagem dá um trabalho fenomenal, o que dizer de tantos papéis em que é necessário viver alguém extremamente diferente do que se é realmente. E depois reclamam da choradeira dos artistas ao receber o Oscar. Se fosse eu, ao ouvir o meu nome após o “and  the winner is”,  já estaria me debulhando em lágrimas. É o momento máximo da vida deles. Deixem que digam o que quiserem e que agradeçam até a vovozinha! Ficam podando os atores e atrizes no único instante que podem ser eles mesmos! Pois é, são tantos momentos que vivemos nessa fita… E naquele segundo em que nos sentimos milionários? A gente entra na loja (com o nosso suado décimo terceiro) com o poder de comprar aquela tevê que tanto queríamos! Muitas vezes, nos sentimos tão poderosos que, como o Godfather, quase estendemos a mão para beijarem o anel em nossos dedos. A vida pode ser um suspense como nos clássicos do Hitchcock. De repente, estamos dentro do filme Psicose com aquela inesquecível “musiquinha” em nossas cabeças a procura da origem de um barulho esquisito no meio da noite. A gente desperta “com o coração na mão”: “seria um assassino serial atacando nossa casa no meio da noite? Um Anibal na vida real?” No fim, descobrimos ser apenas um gato vira-lata, mas o medo que sentimos foi incrível! É assim mesmo, a gente vai pulando entre os estilos: drama, comédia, suspense e até ficção científica. Eu, pelo menos, sinto-me transportada para os filmes de alienígenas todas as vezes que vejo algo se movimentar no céu à noite. Até tomar consciência que era mesmo um avião, imagino um “serzinho” pequenino e estranho perto de mim querendo telefonar para casa.

A atmosfera de realismo é a melhor parte da nossa fita. A gente está vivendo tudo no mesmo momento da gravação desse filme. Não tem como refazer a cena, nem mesmo filmar de outro ângulo. É assim e acabou. É por isso que às vezes gaguejo quando tenho de dizer minhas falas. É que não tive tempo hábil para decorá-las. Não há sequer com quem repassar o texto. E somos expostos todo momento ao contato com o público. As cenas são gravadas em tomadas externas. Sabem como é difícil gravar assim. A nossa história é uma biografia, estamos filmando nossa vida. Por isso, é melhor que façamos valer o dinheiro dos ingressos de nossos futuros expectadores. Não vivamos na monotonia. Uma vida de aventura é bem mais divertida. Mesmo que não possamos empunhar espadas de verdade, nem mesmo lutar contra seres mágicos, como quimeras e trols, bem como sermos elfos ou hobbits extraídos diretamente das páginas do Senhor dos Anéis, é muito mais atraente um filme que não seja rotineiro. É claro que há muitas películas que tentam demonstrar a arte extraída do cotidiano comum. Mesmo assim, ainda creio que mesmo o comum possa ser extraordinário. E eu, a Meg Ryan da vida real, ainda me proponho a explorar ao máximo o meu único e definitivo personagem. Podem não surgir os aplausos esperados na estreia de minha obra. Nem mesmo o reconhecimento da crítica. Porém, me sentirei realizada apenas pelo fato de ter dado vida ao meu papel, a minha vida, a este filme que parece uma História sem Fim. Contudo, eu sei, nós sabemos, que há de chegar nosso momento derradeiro. Quando o Diretor, que jamais apareceu nas filmagens, ou talvez apenas não conseguíssemos vê-lo, fará soar a claquete e dirá com uma voz estrondosa: corta! Eis o final que tanto esperávamos. E, antes dos letreiros, aparecerá em letra cursiva o The End que confirmará o término do sonho. Mas há outros bilhões de histórias que aguardam apenas a nossa atenção para fazer os atores e atrizes brilharem. Ah, quase ia me esquecendo: somos os protagonistas de nossa vida, o que fazemos com o filme é de nossa inteira responsabilidade, não adianta culpar o Diretor. É você que interpreta do modo que mais aprouver. Há atuações medianas e outras dignas de prêmio. Interprete sempre esperando o Oscar. Afinal, o personagem é você!

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A elegância dos destituídos 

Giordana Bonifácio

O brasileiro age com muita elegância. Não se revolta, não grita, matem-se calmo e aceita as mais terríveis atribulações com um sorriso estampado na cara. Se isso não for o máximo que se pode exigir de um gentleman, então não sei do que se trata elegância.  Nós ficamos mudos enquanto desviam o dinheiro de nossos impostos. E reclamamos pouco do descaso do governo com saúde, educação e segurança. Somos extremamente educados, no sentido da polidez que se exige em situações como esta. Quase apresentamos o nosso bolso para os corruptos saquearem com mais facilidade o fruto do nosso trabalho: “aqui senhor, ainda restam dois reais.” Mas eles como sinal de delicadeza nos deixam ficar com esta migalha para que possamos pagar o transporte público caríssimo e de condições deploráveis que os nossos governantes nos oferecem.  Não existem creches, hospitais com leitos suficientes ou saneamento básico, mas em breve aqui se dará a Copa do mundo e prometemos receber os turistas com toda nossa hospitalidade. Viu, o brasileiro é um poço de cavalheirismo. As escolas estão ruindo? Os professores são desprezados e mal-pagos? Não há problema, eis que a Olimpíada, vai trazer divisas para o Brasil, nem que seja por curtos dois meses. E depois disso, a gente bem que poderia despertar desse torpor. “Cruz-credo, parece macumba. Será que nos lançaram um encosto?” A gente não sente as agulhas encravadas no nosso corpo. É IPI, IPVA, IPTU, IR e outro tanto de impostos que são encravados na nossa pele. E nem adianta enganar a Receita. O país não tem um bom mecanismo para localizar criminosos, mas para “mal-pagadores”, nossa, encontram você até na mais remota tribo indígena do Acre! E o brasileiro já parece até boneco vodu.

Sem querer nos envolver, sem querer nos misturar, sem querer e querendo a gente aceita muita coisa. Rios de dinheiro são desviados e muitas vezes com nosso consentimento. Porque aquele político, sabe aquele, de paletó e gravata e discurso mole? Sim, ele pode ser corrupto, mas, algumas coisinhas pequenas, ele faz. Algo como inaugurar obras que demoraram décadas para ficarem “meio-prontas”. Porque têm de ficarem inacabadas, senão, como aquele homem bem apessoado e carismático que elegemos saquearia os recursos da nação? E a gente corre atrás do “trio-elétrico”  para acompanhar o showmício desse e daquele candidato que na campanha abraçam-nos e tratam-nos como iguais. Porém, só basta serem eleitos que nos lançam na mais abjeta sarjeta. Nem se recordam de qualquer promessa que tenham feito e que empenharam o fio do bigode para provar sua honestidade. E nós como gado manso, somos massa de manobra. Sem função alguma, a não ser a de dizer sim a tudo. Quem vai se revoltar? Quem vai protestar e importunar os donos do poder? Nós? Não, somos muito corteses para atos tão selvagens. A crítica ácida deixamos para nossos irmãos Argentinos que gostam de fazer paneladas. “Gente mais mal-educada!” Gostamos mesmo é de sorrir das situações, como se a piada apagasse o desgosto e amenizasse a vergonha. Uma guerra política ocupa as páginas dos jornais e poucos sabem algo mais profundo sobre a cachoeira de escândalos que entopem a mídia. Está todo mundo envolvido? Esquerda e Direita? Sigamos pelo centro então, que brasileiro não admite, mas adora ficar em cima do muro, sem opinar em nada. Quem se importa se há uma inflação mascarada e nossos salários estão se depreciando?  Besteira, ainda dá para comprar um carro popular à milhões de prestações, porque o IPI está reduzido. Reduzida também está a qualidade de nossas estradas. Buracos que se reabrem todo período de chuvas e são tampados toscamente, porque, o dinheiro para esse serviço também foi parar numa conta de laranjas num paraíso fiscal.

Mas a gente sabe tudo sobre laranja, não foi para ela que perdemos na última Copa? A Holanda, a laranja mecânica que nos atropelou? E fomos muito gentis com nossos oponentes. Reconhecemos sua superioridade.  Mas nós, nativos desse país de poucos, não faltamos com a delicadeza. Conferimos sempre uma segunda chance para aqueles que nos enganaram. Alguma coisa como “ofereça a outra face”. E aqueles que sumiram com um milhão agem com mais destreza e evadem do país com cem milhões. “São espertos, se fosse eu, faria o mesmo!” Assumem alguns que não têm sequer a possibilidade, nessa terra excludente, de ocupar a cadeira do rei. “Somos brasileiros e não desistimos nunca”, grita o slogan. E ficamos certos que não desistimos é de sobreviver em meio a tantas dificuldades. É tanta greve, tanto descaso e impunidade que ficamos até calejados. A gente tem “casca grossa”.  E comemos o feijão com arroz que pesa cada vez mais na cesta básica do povo. Silenciosamente, sentimo-nos representados quando ouvimos o hino nacional, mesmo que muitos não saibam sequer entoá-lo por completo. “O judiciário não representa o povo.” Tenta alertar a imprensa com manchetes em destaque. A gente lê e deixa passar, pois, o que se pode fazer? A gente desaprendeu a levantar a voz.  Com muito custo a gente se rebela e fala mal do árbitro da partida de futebol. A condição dos estádios era deplorável? Aí vem uma Copa do mundo, afinal, esse problema será resolvido. Não podemos receber os visitantes com a casa “mal-arrumada”. Sabemos que os engarrafamentos serão colossais, mas vamos brincar com as nossas mazelas. Se muitos ficarão presos no trânsito, que tal fazermos uma piada sobre o brasileiro que foi assistir ao jogo e chegou aos quarenta e cinco do segundo tempo, bem na hora de ver a nossa querida seleção ser eliminada da Copa? Difundir-se-á como água na internet. É bom ressaltar, nossos provedores de internet cobram os preços mais caros de todo mundo para nos fornecer um serviço contra o qual chovem reclamações. Mas seremos socorridos em tempo por nossa emissora favorita de televisão que amenizará as dores de nossas feridas com novelas cuja função primordial é abafar nossa indignação.

E depois disso tudo, seremos ainda mais cordiais, deixando nossos gênios venderem-se para as grandes nações porque, nesse país, o saber é desprezado. Permitamos que nossas maiores invenções sejam patenteadas por empresas estrangeiras. Afinal, nós somos solidários. Doamos nossas riquezas a troco de nada. E ficamos felizes quando é alardeado que somos a sexta economia do mundo. E se não permitíssemos que nos roubassem de todas as maneiras escusas nessa crônica demonstradas? Se houvesse um investimento verdadeiro em nossa educação tão sucateada? Se nossas indústrias fossem motivadas a produzir com mais qualidade a um menor preço? E se a segurança permitisse que andássemos tranquilos em nosso próprio país? E se o serviço de saúde fosse condizente com nosso tão propagado poderio econômico? O que seríamos se não aceitássemos com tanta passividade a condição degradante a que nos submetem? Seríamos o país que tanto esperamos? A gente tem de reaprender a gritar, porque a nossa, até agora, elogiada boa-educação está nos causando muitos problemas. Vamos tirar esses óculos que não nos permitem enxergar a realidade. Se continuarmos a recitar a ladainha dos políticos, sim, aquela do “Brasil, país do futuro”, (ou de todos, como o governo não cansa de lembrar), não nos daremos conta que o futuro já chegou e não estamos nele. E que estamos num Estado de poucos para poucos que exclui a grande maioria que engole tudo em troca de quase nada. Nosso povo aceita nossa desigualdade em função da política assistencialista, que oferece bolsas miseráveis aos pobres para ter seu apoio incondicional. Insurja-se nação tupiniquim, que o seu brado heroico retumbante ressoará pelos cinco continentes! Por isso, creio que nossa gentileza está nos fazendo mansos. Melhor que sejamos ouvidos, mesmo que para tanto tenhamos de nos rebelar e acabar com o mito da nossa hospitalidade. Porque já dizia minha mãe, “quem muito se abaixa, o rabo lhe aparece”.

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