“Deixa, se fosse sempre assim

Quente, deita aqui perto de mim

Tem dias, que tudo está em paz

E agora os dias são iguais.”

Renato Russo, Angra dos Reis.

Tal qual chocolate

Giordana Bonifácio

Era um dia particularmente quente, quarenta graus à sombra, como se costuma dizer. Naquele quarto de hotel vagabundo, que muitas vezes era utilizado para encontros sexuais com prostitutas da Barra, o calor era multiplicado por cem. Graças a um engenheiro “meia boca” que construiu o edifício voltado para o poente, de modo que recebesse toda radiação solar da tarde. E um casal que descansava após a “hora” (prostitutas naquele tempo cobravam por hora) sofria num quarto tão quente quanto um forno ou uma sauna. A moça levantou-se da cama e seminua andou até um ventilador muito velho e meio enferrujado. Acreditava que poderia fazê-lo funcionar. Ledo engano, aquela geringonça estava tão velha que as pás não se deslocavam mais que curtos centímetros. E o barulho, que aquela máquina antiga e imprestável fez, foi tão alto que acordou o rapaz que outrora dormia.

-Deixa….  Ele resmungou.

-Está muito quente aqui. Não aguento mais. Posso até morrer se continuar nesse inferno. A moça respondeu abanando as mãos junto ao pescoço. Suava assustadoramente. Era um dia típico de verão, portanto não poderia ser muito diferente.

-Se fosse sempre assim… Quente…  O rapaz sussurrou. Havia algo de melancólico em sua voz. Ele guardava em si vários sonhos, mas a realidade não condizia com nenhum deles. O sonho é, às vezes, um segredo que guardamos no peito, como a uma flor a que dedicamos tempo e afeto. Mas, apesar de todos nossos cuidados é inevitável que a flor perca as pétalas e murche. Sonhos não são eternos. São tão perecíveis quanto o amor. E o algoz de nossos sonhos é também o remédio para amor. Na minha opinião, o tempo é como uma chave com a qual fechamos uma porta em nosso espírito. O que sentimos continua sempre conosco, apenas está trancado no calabouço de nossas desilusões.

-Deite aqui perto de mim. Falou num meio sorriso, com um meio desejo e também um meio desespero. Pensou em suas palavras proferidas em outra ocasião para outra garota, uma colega da faculdade. Ele disse na ocasião que era triste viver meio amargo. “Tal qual chocolate”. Foi o que a menina disse. E ele sem querer proferiu esta última frase.

-Tal qual chocolate, o quê? A mulher com a maquiagem borrada, com o rosto marcado pelo tempo e pelas drogas acendeu um cigarro e pigarreou. “Ela tinha a face temível da realidade. A única maneira de fantasiar a verdade é com a mentira, com a bebida também, porque nos faz acreditar que o que vivemos pode ser diferente. Nunca é.” Foi o que o rapaz pensou antes da mulher deitar-se ao seu lado.

-Nada.  Respondeu tomando o cigarro das mãos bem feitas de longas unhas pintadas de vermelho.

-É que tem dias em que tudo está em paz. Prosseguiu o rapaz, tragando o cigarro barato. A moça sorriu.

-Você não é muito normal, não é? O que você faz?

Ele estava perdido em outra história. Preso em outro momento, vivendo a ilusão, a fantasia de um passado que machucou demais e que agora ele não poderia simplesmente o ignorar.

– O quê?

Ela riu mais, ele atentou para os dentes dela, muito amarelados pelo tabaco.

-Perguntei o que você faz. É estudante? Trabalha? Deve trabalhar, senão, como poderia pagar meus serviços?

-Sou professor, ministro aulas de inglês.

-Ministro, não é o nome dos secretários do presidente?

-É também um verbo, significa dar aulas. Disse ele meio acanhado, ele sempre ficava assim quando era necessário demonstrar o conhecimento que possuía. Muitas vezes ele se perguntava se era mesmo melhor saber. Se viver na ignorância não seria o melhor remédio para o pior dos males: a solidão.

-Nossa! Falou difícil, ein?

-Por que você me procurou? Sei que tem algo incomodando você. Sei como são esses jovens de hoje em dia. É saudade de alguma garota? A prostituta puxou a cabeça dele para seu busto e acomodou-a entre os seios, acariciando-a como a um bebezinho. O rapaz se livrou das mãos que o asfixiavam, um tanto contrariado respondeu:

-Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais. Seja como for. É uma dor que dói no peito…

-Se é uma dor, tem de doer. E ela riu novamente deixando à mostra a dentição amarelada.

-Pode rir agora… Eu estou mesmo sozinho… Só não venha me roubar, tenho muito pouco… Tirou o dinheiro que lhe restava do bolso da calça. Umas notas amarrotadas, que sobreviveram após a farra etílica da noite passada e ao encontro pseudoafetivo dessa tarde.

-Às vezes sinto o meu coração batendo à toa. Sibilou vestindo as calças.

-Você pagou por três horas… Salientou a prostituta. E achou por bem dizer algo que animasse o garoto.

-Um coração perfeito como parece ser o seu, batendo à toa? Isso é que dói.

Ele sorriu com o canto dos lábios. E resolveu tirar novamente as calças.

-Vai ver que a menina gosta de você. Basta apenas que você diga a ela. Mulher gosta mesmo é de ser cortejada.

– Não tenho coragem. Ela não demonstra sentir nada por mim além de uma simples e singela amizade.

-Vai ver que não é nada disso. Às vezes o amor é meio estranho mesmo. A gente não sabe o que sente até o momento que nos damos conta disso. Você não saberá o que ela sente por você até tentar.

-Vai ver que já nem sei quem sou e o que sinto realmente. E deitou na cama com a cabeça apoiada nos braços cruzados olhando para o teto.

-A culpa é toda sua, vai ver que nunca foi o mesmo, não sabe demonstrar o que sente. Guarda tudo dentro de si. Como alguém vai descobrir algo escondido tão fundo?

-Deite aqui perto de mim. Queria fugir do assunto, queria eximir-se da responsabilidade de ser assim. Uma pessoa um tanto incompleta. Ele era muito calado, já diziam seus amigos. Mas ele não sabia ser diferente. A culpa de ser o que ele era é realmente toda dele. E nunca foi. Ou talvez sim, como saber?

-E o calor, sem ventilador, vamos derreter!

-Já está anoitecendo, não vê as estrelas? Ele tentava convencer a mulher, para acabar com o diálogo, o objetivo era voltar para dentro de si.

-É como se as estrelas estivessem aqui conosco. Resmunga a prostituta contrafeita.

-Mesmo se as estrelas começassem a cair e a luz queimasse tudo ao redor. E fosse o fim chegando cedo. E você visse nosso corpo em chamas, deixa prá lá. Ele disse brincando e atuando para a dama que lhe servia de plateia.

A moça se divertiu muito com a representação do imprevisível bufão.

-E quando as estrelas começarem mesmo a cair, me diz para onde é que a gente vai fugir? Ela provocou o rapaz.

Ele não respondeu mais a mulher, trouxe-a para a cama. Era muito cedo para sucumbir à desilusão e muito tarde para tentar outra vez. A única saída possível é esconder-se, de si mesmo, do mundo, do amor que insiste em comparecer de tempos em tempos. Como se fosse possível ser feliz… O estranho é que tentam convencer as pessoas que isso está ao seu alcance. Mas a verdade é que essa dádiva não é acessível a todo mundo. Muitas vezes nem se sabe que se é feliz. Alegria é algo estranho. Talvez só saibamos ser tristes. Felicidade talvez fosse uma palavra que não existisse no vocabulário desse solitário rapaz. Nessa noite, ele estava particularmente triste, mas a prostituta não tinha consciência disso. E ele nem queria revelá-lo. Era próprio dele, guardar os sentimentos tão somente para si. Há coisas que só cabe a nós saber. Ou não saber. Deixa prá lá. Por que se explicar se não existe perigo? O amor deste rapaz era um sentimento inócuo para o mundo e martirizante apenas para si mesmo. Tinha de ser assim. Não há como ser diferente.

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