Arquivo do mês: maio 2012

 

“Deixa, se fosse sempre assim

Quente, deita aqui perto de mim

Tem dias, que tudo está em paz

E agora os dias são iguais.”

Renato Russo, Angra dos Reis.

Tal qual chocolate

Giordana Bonifácio

Era um dia particularmente quente, quarenta graus à sombra, como se costuma dizer. Naquele quarto de hotel vagabundo, que muitas vezes era utilizado para encontros sexuais com prostitutas da Barra, o calor era multiplicado por cem. Graças a um engenheiro “meia boca” que construiu o edifício voltado para o poente, de modo que recebesse toda radiação solar da tarde. E um casal que descansava após a “hora” (prostitutas naquele tempo cobravam por hora) sofria num quarto tão quente quanto um forno ou uma sauna. A moça levantou-se da cama e seminua andou até um ventilador muito velho e meio enferrujado. Acreditava que poderia fazê-lo funcionar. Ledo engano, aquela geringonça estava tão velha que as pás não se deslocavam mais que curtos centímetros. E o barulho, que aquela máquina antiga e imprestável fez, foi tão alto que acordou o rapaz que outrora dormia.

-Deixa….  Ele resmungou.

-Está muito quente aqui. Não aguento mais. Posso até morrer se continuar nesse inferno. A moça respondeu abanando as mãos junto ao pescoço. Suava assustadoramente. Era um dia típico de verão, portanto não poderia ser muito diferente.

-Se fosse sempre assim… Quente…  O rapaz sussurrou. Havia algo de melancólico em sua voz. Ele guardava em si vários sonhos, mas a realidade não condizia com nenhum deles. O sonho é, às vezes, um segredo que guardamos no peito, como a uma flor a que dedicamos tempo e afeto. Mas, apesar de todos nossos cuidados é inevitável que a flor perca as pétalas e murche. Sonhos não são eternos. São tão perecíveis quanto o amor. E o algoz de nossos sonhos é também o remédio para amor. Na minha opinião, o tempo é como uma chave com a qual fechamos uma porta em nosso espírito. O que sentimos continua sempre conosco, apenas está trancado no calabouço de nossas desilusões.

-Deite aqui perto de mim. Falou num meio sorriso, com um meio desejo e também um meio desespero. Pensou em suas palavras proferidas em outra ocasião para outra garota, uma colega da faculdade. Ele disse na ocasião que era triste viver meio amargo. “Tal qual chocolate”. Foi o que a menina disse. E ele sem querer proferiu esta última frase.

-Tal qual chocolate, o quê? A mulher com a maquiagem borrada, com o rosto marcado pelo tempo e pelas drogas acendeu um cigarro e pigarreou. “Ela tinha a face temível da realidade. A única maneira de fantasiar a verdade é com a mentira, com a bebida também, porque nos faz acreditar que o que vivemos pode ser diferente. Nunca é.” Foi o que o rapaz pensou antes da mulher deitar-se ao seu lado.

-Nada.  Respondeu tomando o cigarro das mãos bem feitas de longas unhas pintadas de vermelho.

-É que tem dias em que tudo está em paz. Prosseguiu o rapaz, tragando o cigarro barato. A moça sorriu.

-Você não é muito normal, não é? O que você faz?

Ele estava perdido em outra história. Preso em outro momento, vivendo a ilusão, a fantasia de um passado que machucou demais e que agora ele não poderia simplesmente o ignorar.

– O quê?

Ela riu mais, ele atentou para os dentes dela, muito amarelados pelo tabaco.

-Perguntei o que você faz. É estudante? Trabalha? Deve trabalhar, senão, como poderia pagar meus serviços?

-Sou professor, ministro aulas de inglês.

-Ministro, não é o nome dos secretários do presidente?

-É também um verbo, significa dar aulas. Disse ele meio acanhado, ele sempre ficava assim quando era necessário demonstrar o conhecimento que possuía. Muitas vezes ele se perguntava se era mesmo melhor saber. Se viver na ignorância não seria o melhor remédio para o pior dos males: a solidão.

-Nossa! Falou difícil, ein?

-Por que você me procurou? Sei que tem algo incomodando você. Sei como são esses jovens de hoje em dia. É saudade de alguma garota? A prostituta puxou a cabeça dele para seu busto e acomodou-a entre os seios, acariciando-a como a um bebezinho. O rapaz se livrou das mãos que o asfixiavam, um tanto contrariado respondeu:

-Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais. Seja como for. É uma dor que dói no peito…

-Se é uma dor, tem de doer. E ela riu novamente deixando à mostra a dentição amarelada.

-Pode rir agora… Eu estou mesmo sozinho… Só não venha me roubar, tenho muito pouco… Tirou o dinheiro que lhe restava do bolso da calça. Umas notas amarrotadas, que sobreviveram após a farra etílica da noite passada e ao encontro pseudoafetivo dessa tarde.

-Às vezes sinto o meu coração batendo à toa. Sibilou vestindo as calças.

-Você pagou por três horas… Salientou a prostituta. E achou por bem dizer algo que animasse o garoto.

-Um coração perfeito como parece ser o seu, batendo à toa? Isso é que dói.

Ele sorriu com o canto dos lábios. E resolveu tirar novamente as calças.

-Vai ver que a menina gosta de você. Basta apenas que você diga a ela. Mulher gosta mesmo é de ser cortejada.

– Não tenho coragem. Ela não demonstra sentir nada por mim além de uma simples e singela amizade.

-Vai ver que não é nada disso. Às vezes o amor é meio estranho mesmo. A gente não sabe o que sente até o momento que nos damos conta disso. Você não saberá o que ela sente por você até tentar.

-Vai ver que já nem sei quem sou e o que sinto realmente. E deitou na cama com a cabeça apoiada nos braços cruzados olhando para o teto.

-A culpa é toda sua, vai ver que nunca foi o mesmo, não sabe demonstrar o que sente. Guarda tudo dentro de si. Como alguém vai descobrir algo escondido tão fundo?

-Deite aqui perto de mim. Queria fugir do assunto, queria eximir-se da responsabilidade de ser assim. Uma pessoa um tanto incompleta. Ele era muito calado, já diziam seus amigos. Mas ele não sabia ser diferente. A culpa de ser o que ele era é realmente toda dele. E nunca foi. Ou talvez sim, como saber?

-E o calor, sem ventilador, vamos derreter!

-Já está anoitecendo, não vê as estrelas? Ele tentava convencer a mulher, para acabar com o diálogo, o objetivo era voltar para dentro de si.

-É como se as estrelas estivessem aqui conosco. Resmunga a prostituta contrafeita.

-Mesmo se as estrelas começassem a cair e a luz queimasse tudo ao redor. E fosse o fim chegando cedo. E você visse nosso corpo em chamas, deixa prá lá. Ele disse brincando e atuando para a dama que lhe servia de plateia.

A moça se divertiu muito com a representação do imprevisível bufão.

-E quando as estrelas começarem mesmo a cair, me diz para onde é que a gente vai fugir? Ela provocou o rapaz.

Ele não respondeu mais a mulher, trouxe-a para a cama. Era muito cedo para sucumbir à desilusão e muito tarde para tentar outra vez. A única saída possível é esconder-se, de si mesmo, do mundo, do amor que insiste em comparecer de tempos em tempos. Como se fosse possível ser feliz… O estranho é que tentam convencer as pessoas que isso está ao seu alcance. Mas a verdade é que essa dádiva não é acessível a todo mundo. Muitas vezes nem se sabe que se é feliz. Alegria é algo estranho. Talvez só saibamos ser tristes. Felicidade talvez fosse uma palavra que não existisse no vocabulário desse solitário rapaz. Nessa noite, ele estava particularmente triste, mas a prostituta não tinha consciência disso. E ele nem queria revelá-lo. Era próprio dele, guardar os sentimentos tão somente para si. Há coisas que só cabe a nós saber. Ou não saber. Deixa prá lá. Por que se explicar se não existe perigo? O amor deste rapaz era um sentimento inócuo para o mundo e martirizante apenas para si mesmo. Tinha de ser assim. Não há como ser diferente.

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“A literatura não permite caminhar, mas permite respirar.”

Roland Barthes

O tema e o tabu

Giordana Bonifácio

Estou determinada a desconstituir tabus hoje… Há muitas coisas sobre as quais evito falar. Não porque fique acanhada com a possível reprovação das pessoas. É verdade que existe certos assuntos que se tornam verdadeiros tabus em minha escrita. Poucas vezes toco em temáticas delicadas, mas não por medo de cutucar a ferida. É comum que as pessoas estabeleçam certos pontos intocáveis em sua alma. Eu mesma fico em silêncio sobre várias coisas. Não porque não me permita falar. A literatura, que me salva inúmeras vezes de sufocar-me em realidade, é forte o suficiente para abrir a minha mente antiquada e conservadora. Saibam que é por pura falta de oportunidade não reflito sobre eles. Um ponto controverso é a minha veia política. Já me considerei muito ligada às transformações sociais outrora, hoje, creio-me muito avessa às mudanças porque passam o mundo e as pessoas. Acreditem: eu não era assim. Parece que o tempo foi enferrujando meu cérebro, desgastando meus parafusos, fiquei mais usada e menos tolerante. Tenho um exemplo dos efeitos do tempo implacável em alguém muito próximo: meu pai. Ele era um dos homens mais politicamente engajados que conheci, estava sempre pronto a liderar revoluções. O passar inclemente dos anos tornou-o menos corajoso; não, talvez o que tenha sumido de sua alma seja tão somente a esperança. Ele não acredita mais que o país possa melhorar, afinal, são tantos escândalos de corrupção, que fica meio difícil confiar em alguém. Lembro que havia discussões políticas em minha casa até alta madrugada. Eram pessoas que sonhavam. Acho que a época dos sonhos passou. O mundo nos deu um banho frio de desilusão. Nem recrimino meu pai. Chega um tempo que o corpo pede descanso. Ele não é mais tão jovem para se submeter às mesmas torturas sofridas no terrível e inesquecível período da ditadura militar. E eu também estou cansando, estou diminuindo minhas expectativas quanto ao futuro.  Já estou começando a acreditar que se trata apenas de uma promessa tão vazia de significado quanto os desejos de construção de um país melhor e mais justo. Não suporto mais esconder minha ideologia que duvida da mudança significativa da situação de nossa pátria. Não sou adepta de nenhum partido, filio-me apenas a minha razão. E tenho certas dúvidas que consigamos ser mais civilizados que hodiernamente somos.

Política é um ponto sensível. Não é recomendável a um autor ter preferências nem filiação partidária. Não sou Jorge Amado para ter uma fase comunista de porta-voz dos problemas sociais. Primeiro, porque, quem sou eu para ser ouvida? Uma tímida voz sibilante em meio a uma multidão exaltada! É assim que me sinto. Sem força para fazer o mundo desenvolver-se. A literatura não me permite caminhar como dizia Barthes, mas me possibilita respirar em meio a esse mar de lama em que o Brasil está naufragando. E sei que posso unir-me a outros pensamentos que se coadunam ao meu, mas sermos maioria, numa população amordaçada pelo assistencialismo e vendada pela impressa parcial e gananciosa, é impossível. Sei que criticar a política brasileira que conseguiu, da mesma maneira escusa que costuma agir na direção do país, trazer eventos como a Copa do mundo e as Olimpíadas para serem realizados em solo tupiniquim, é praticamente vedado. Creio que estes acontecimentos sejam apenas uma maneira de aumentar os índices de aprovação do governo mesmo em períodos de crise. Sou desacreditada quando tento revelar este jogo de cartas marcadas. Nessa mesa, quem distribui as fichas é sempre vencedor. Não há como insurgir-se frente a esta estrutura maléfica, somente se quiser ver-se destruído em menos de uma semana. Acabarão com seu prestígio, destruirão sua família e provavelmente, dependendo do grau e gravidade de suas denúncias, é possível que você apareça morto sem aparente motivo ou suspeitos do crime. Por isso, compreendo meu pai. Não há mais pelo que lutar. Bem como, não existem alternativas menos desgastantes para entrar em conflito com uma realidade estabelecida. O bom mesmo é tentar viver sua vida, da melhor maneira possível, mesmo tendo consciência de tudo aqui apresentado.

Esses assuntos sobre os quais evitamos falar, em razão da polêmica resultante de nossas declarações, não podem simplesmente ser varridos para debaixo do tapete. Aqui estou querendo desfazer o erro em que incidi de negar-me a escrever sobre temas delicados. O sexo também fica meio esquecido, disseminado em meus textos sob a bandeira feminista e o amor de que muitas vezes, (não em todas), é consequência. Não tenho muito que explanar a respeito desse tópico. Porque a maioria das pessoas conhece sobremaneira e, bem melhor que eu, tudo que envolve a cópula de espécie humana. Não evito falar sobre isso, como muitos que conheço creem. Sei muito e pormenorizadamente sobre como se dá e o efeito do coito. É-me estranho apenas que as pessoas tendam a achar que sou uma donzela imaculada sem qualquer conhecimento sobre o ato sexual em si. Tenho até certa pena desses indivíduos. Não são tão sabidos quando dizem, apenas querem se fazer crer descolados e modernosos. E para tanto, tem de escolher alguém a quem discriminar como seu oposto. Eu tento pronunciar-me sobre esta questão, mas não querem ouvir-me, eles estão tão fechados em sua ideia, essa sim, verdadeiramente antiquada, sobre sexo que não permitem que eu expresse minha opinião. Nesse momento, resolvi subir a tenda do circo, vou “tocar fogo no picadeiro” como se diz. Veem como me saio bem tratando sobre estas questões estigmatizadas? Não sou tão ingênua e infantil quando acreditam que eu seja. Na verdade, sou muito bem informada, posso conversar sobre tudo da mesma maneira descontraída que aqui escrevo. Não temo ser ridicularizada, pois foi esse o procedimento padrão dos grupos pertencentes aos ambientes que frequento e outrora, frequentei. Não é constrangimento algum, para mim, ser submetida à sabatina dos que se pensam especialistas para provar o meu conhecimento. Talvez somente assim, possam entender que a mente fechada e intolerante é a deles e não a minha. Sou conservadora sim, mas não ignorante. Estou descrente das instituições políticas sim, mas ainda tenho uma ideologia. É isso o que gostaria de deixar claro. Se bem que, como se recusam a me ouvir, provavelmente também essa explicação pormenorizada será desprezada sem qualquer crédito. O que se há de fazer, não?

Estou cansada de ter de justificar meus atos e a razão dos tabus em minha literatura. E quero deixar claro, que existem assuntos sensíveis sim, mas não pelo fato de temer estender-me sobre terreno desconhecido ou pelo medo do escárnio dos que se acham doutorados com conhecimento patente e indiscutível sobre qualquer assunto, mas apenas para não incidir em mal-entendidos. Como estudo letras, é comum que me questionem a grafia certa desta ou daquela palavra, também concordância e regência escorreita em certos casos. Mas quando expresso o conhecimento amealhado, duvidam de minhas palavras. E fazem o possível para corrigir-me. Tanto assim, em temas jurídicos que demandam a minha opinião. Mesmo sendo formada em Direito, possuindo título de pós-graduação e tendo me sagrado advogada, é comum discordarem e refutarem minhas palavras. Já estou acostumada, entretanto, com esse comportamento. Além de porem em xeque minha formação, tentam zombar dos anos de dedicação e estudo a que me submeti. Calo-me e recolho-me ao meu campo de certeza. Fiquem os outros com sua venda, que eu já livrei, há muito, meus olhos dela. Foi por esta razão que resolvi atentar para pontos que raramente abordo. Pois queria deixar claro que, mesmo que minhas articulações estejam enferrujando e que minha memória, (já nem tão boa no passado), esteja falhando, não é por constrangimento que não uso tais tópicos frequentemente para compor meus contos e crônicas, mas tão somente porque nem sempre quero justificar meus textos, onde expresso tão abertamente minhas opiniões. Um autor pode dar-se ao luxo de escolher seus temas, eu escolhi os meus.

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“Maiori forsan cum timore sententiam

 in me fertis quam ego accipiam.”¹

Sobre as sentenças e as penas

Giordana Bonifácio

Eu sempre fui uma crédula. Acreditava poder fugir do destino a que o mundo nos sentencia, que meus sonhos seriam alcançados unicamente em razão de meus conhecimentos, que a vida não fosse pesar sobre mim com a força de mil toneladas e que o futuro era mágico unicamente por ser a conclusão de minhas expectativas. O futuro se fez presente e nada, nada do que tanto ansiei chegou junto com ele. Apenas um tanto mais de responsabilidades e culpas. E eu aqui esperando, empreendendo meus mais firmes esforços para chegar a algum lugar. Mas creio que o que procuro está cada vez mais distante de mim. Como se as minhas ações só resultassem em mais arrependimentos. Queria poder reinventar-me para transformar tudo que sou e não queria ser. Para que não me subestimassem como o fazem tão frequentemente. Ninguém valoriza minha dedicação, concluem: “ela é inteligente”, mas a partir daí, não tenho qualquer retribuição por minha busca tão árdua pelo saber. Dizem que escrevo bem, que minhas crônicas são loquazes e meus comentários mordazes, mas a maioria destas pessoas não se preocupam nem mesmo em ler meus textos. Às vezes, chego a pensar que me sabotam, que destroem minha reputação pelas minhas costas. Só pode ser esta a mais provável causa de minha vida andar em constante révès. Sinto que não alcancei quase nada e que tudo que estudei e venho estudando não será jamais utilizado em coisa alguma. Ficarei com tudo isto, toda essa gama de sabedoria acumulada mas sem qualquer serventia. Estou encarcerada num mundo muito distante do que imaginava. Sou uma alienígena nessa terra. Não compartilho nada em comum com os que me cercam. Talvez, porque não consiga ver o mundo sem o constante crivo do meu intelecto. Não sou um grande gênio, mas a inteligência que me cabe é muito seletiva. Não consigo parar de pensar. É-me impossível divertir-me de uma forma não cultural. O mais engraçado é que os que não chegam a pensar tanto ganham salários bilionários. Será que há algo errado comigo?

Dizem, no campo científico da psicologia, que existem diversos tipos de inteligência. O problema está na valorização de umas em detrimento das outras. Alguém que não chega a concluir o ensino médio é bem melhor remunerado e bem colocado profissionalmente que um pós-doutor, esse último obtém diversos títulos que avolumam seu currículo lattes, mas nem mesmo todos estes títulos poderá reverter-se em algum ganho material. Na verdade, o saber é quase um desperdício de dinheiro. São inúmeras viagens, estudos, horas perdidas na frente do computador, pesquisa frequente e muita coragem de ouvir uma centena de “nãos”. E eis que uma pequena oportunidade  pode ser aquela que vai destacar aquele estudioso. Contudo, mesmo esse reconhecimento não será o bastante para remunerar tanto esforço. Por isso, ser cientista, escritor ou pesquisador é quase um martírio. Os grandes artistas, como Gauguin só foram reconhecidos quando mortos. Temo que eu siga por este mesmo caminho. Ou, talvez, que nada do que escrevo, seja jamais lido por ninguém além do meu círculo restrito de amigos. É certo que nem mesmo estes, são frequentes leitores de meus trabalhos. Um escritor sem leitores na verdade não é um escritor, tão somente alguém que se confessa para o computador. E essa máquina não nos diz nada além de que esta ou aquela palavra está com a grafia errada. No fim, somos mudos e persistentes. Falamos, porém nossa voz não é ouvida. Somos solenemente ignorados pelo mundo. Como se faria a uma criança birrenta. “Se continuar escrevendo assim, ficará de castigo eternamente.” Repreende a nossa fraca consciência. E sabe-se como são teimosos esses tais que gostam de contar histórias. Falamos e falamos, invadimos o ciber-espaço com nossa arte. E o que ganhamos com isso? Um elogio enivezado que na verdade significa, “pobre coitado!”

Estou perdida nesse mundo competitivo em que a arte ocupa um espaço ínfimo na vida das pessoas. Não que me considere uma artista, sei que escrevo histórias, e que muitas delas sequer se aproveitam. Espero que alguém escute estas lamentações e condoa-se de minhas dores. Venho pesquisando, lendo e constuindo uma verdadeira bagagem literária. Literalmente, pois tenho um conjunto de mais de trezentos livros literários e outros tantos científicos. Mando originais com frequência para várias editoras, mas venho acumulando tantos “nãos” que minhas esperanças estão esmorecendo. Um pequeno passo para mim, é um grande salto para minha jornada rumo ao sucesso de minhas obras. Tenho vários contos e livros publicados, mas uma gama muito pequena de leitores. Um mínimo a quem devo muito. É composto principalmente de amigos fiéis que estão comigo nessa luta. Porém, jamais atribuem o que escrevo a minha pessoa, dizem que não conseguem conceber a mulher que escreve meus textos seja tão diferente da pessoa que costumo ser. Consideram a escritora mais madura e decidida que a pessoa insegura e ingênua que aparento ser. Mas na verdade sou ambas. É que me subvalorizam, como já disse. Não conseguem acreditar no conhecimento que amealhei por tantos anos. E há aqueles que desconfiam de minha autoria. Duvidam, mais uma vez e fazem pouco dessas frases e pensamentos que não chegam aos olhos ou ouvidos dos leitores. E acabo por também não dar muito valor ao que faço. Muitas vezes, doo meus livros no vão intuito de fazer com que, caso essas pessoas venham a ler e gostar, comprem outro. É ingenuidade, confesso. Quando vejo as vendas pífias da minha obra, sinto fraquejar as minhas estruturas. Fico sempre procurando respostas. Maldigo meu estilo, sinto desprezo pelo público que me rejeita, fico deprimida e, por fim, chego a conclusão que o peso da vida esmaga-me com toda a força. E fico cada vez mais certa que tudo que tenho, apenas esse saber tão dificilmente auferido, vai restar restrito a mim somente. Minhas palavras vão jazer comigo, no mais completo esquecimento.

A citação que abre essa crônica foi a frase dita por Giordano Bruno ao ser sentenciado à fogueira pela Santa Inquisição. Significa: “talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la”. É o que digo para mim somente, quando começo a pensar que tudo que escrevi, toda essa quantidade de sonhos que transformei em palavras, fique restrito apenas ao papel. As pessoas me condenam ao esquecimento, eu respondo que talvez essa sentença seja fruto do medo delas em ver algo de minha autoria chegar ao conhecimento do grande público. As editoras me viram as costas, mas aos grandes figurões do cenário televisivo são muito aceptivas. Uma editor a que me dirigi foi contundente em suas críticas a minha obra. Ele disse que meu estilo era chato e comum, acrescentando que jamais conseguiria publicar meus textos e que desistisse do único sonho que me restou. Outro, solicitou que lhe apresentasse um plano de vendas para meus livros e que convencesse a editora a me publicar. Confesso que não sabia nem o que dizer. Sempre pensei que o trabalho do escritor se restringisse às horas solitárias divididas entre ele e seu computador, nada mais. Sei que muitos escritores estão bem atualizados quanto ao mercado literário, como se comportam as preferências de público e todas essas coisas em que nem consigo pensar quando escrevo. Dizem que escrevo só para mim. Deve ser verdade, o maior prazer da escrita está em seu ato. Se o que escrevemos vai ser lido é apenas consequência desse prazer. Contudo, depois de tantos anos escrevendo para o vazio, começo a sentir-me um tanto solitária. Sabem como é procurar eternamente por respostas às mais difíceis questões? Aquilo que foi abordado à exaustão em minha obra, mas que pela falta de leitores nunca foi submetido a debate. Não há um diálogo com o leitor. Pelo simples motivo que não há leitores. O mundo me condenou ao silêncio. Roubaram minha voz e concederam-na para pessoas que brilham por qualquer motivo, exceto por seu intelecto. E nem sou tão inteligente assim. Como uma professora que marcou minha adolescência achou necessário alertar-me, lembro quando ela disse que eu não era inteligente, apenas muitíssimo esforçada. O problema é que vejo todo meu trabalho não obter qualquer resultado. Mesmo assim continuo pensando que a pena de queimar na fogueira do esquecimento é dura, mas não tanto quanto o medo daqueles que não permitem que eu cresça.

1.  Gaspar Schopp de Breslau, convertido ao Catolicismo e protegido d oPapa Clemente VIII; é considerado certo que o autor do relato esteve presente ao julgamento de Giordano Bruno.

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“A vida não é senão uma sucessão

de oportunidades para sobreviver.”

Gabriel Garcia Marquez

História para aprender a enxergar

Giordana Bonifácio

Um menino trêmulo de frio deitado na calçada, rente ao meio fio, faz-me pensar nas oportunidades que tive e aproveitei como naquelas que perdi. Para aquele menino, estas talvez não tenham sequer surgido. Seu destino foi escrito bem antes de seu nascimento: uma família pobre e desestruturada. O pai, alcoólatra, gastava todo salário com bebidas, a mãe, sem qualquer formação, trabalhava como diarista para sustentar a família, que conta com cinco filhos e a avó doente. Esse menino até foi matriculado em uma escola pública. Mas a constante ausência dos professores, o ensino de péssima qualidade e a comida escassa provocaram sua primeira evasão da vida. Depois, se envolveu com traficantes, afinal, a droga é dinheiro certo! E ele poderia alimentar melhor sua família… Pagar as contas… E comprar aquele tênis importado que viu na vitrine de uma loja no shopping certa vez.  O problema é: como vender drogas sem ser um usuário? Quando fumou sua primeira pedra de crack, ele evadiu da vida pela segunda vez. E fugir se tornou uma constante. Escapar da polícia, escapar da morte, escapar dos outros traficantes, escapar… Já nem voltava mais em casa. O dinheiro que ganhava com o tráfico de crack sustentava apenas o próprio vício. Depois foi usando tudo quanto era tipo de droga. Passou a viver nas ruas. Sem direção, perambulava pelas avenidas. Dormia sob as marquises.  E as oportunidades que nunca apareceram jamais apareceriam.  Seu mundo é a fome, é o frio, é o desejo interminável de saciar o apelo do corpo pela droga. Ele deitava-se em silêncio e nem sabia mais onde morava a sua família. Também não se recordava do que era uma.

Passou a roubar. Primeiro praticava pequenos furtos: correntes, carteiras, relógios. Mas eis que aparece o revólver.  É quando sente pela primeira vez o poder. Ter em mãos a prerrogativa de tirar a vida de alguém.  Sentiu-se muito mais homem quando carregou a arma na cintura. Gritava e ordenava ações aos outros meninos, tão pobres quanto ele, tão miseráveis e frágeis como ele sempre foi, mas que não tinham uma perigosa arma que tornava o menino, homem. O corpo raquítico aparentava desnutrição. Porém, não comia há dias, o crack era mais importante para ele que o alimento. Quando pedia esmolas na rua, mentia que o destino do que arrecadasse fosse um prato de comida. Na verdade, juntava os centavos para comprar outra pedra, ou seja, outra fuga. E depois? Depois ele nem se recordava do que acontecia. Estava totalmente dopado. Como se não existisse dor, ou, melhor, como se ela nunca houvesse existido. A vida lhe negou oportunidades? Olha o que ele fazia com ela: desperdiçava-a. Sem se lamentar, todavia. Não é culpa de ninguém. Talvez de Deus, mas ele nem rezava mais. Só murmurava orações quando, muito pequeno, sua mãe fazia-lhe pedir saúde e prosperidade a um Deus ausente. Ele jamais entendeu o que seria “prosperidade”, contudo, isso jamais fez qualquer diferença. Agora que era o chefe, aquele que segurava a arma, nem precisava saber todas estas palavras difíceis. Era só apontar e atirar. Os menores tremiam em sua presença. Pobre daquele que resolvesse trair o bando: pois sua morte seria lenta e dolorosa.  A crueldade foi facilmente aprendida. Nem é necessário frequentar a escola para entender as diversas maneiras de fazer alguém sofrer. É um conjunto de perversidades que só se aprende na realidade das ruas. E chorar não é comum. Para que lágrimas? Se a humanidade que ele possuía se esvaiu pelas sarjetas onde dormia. Não havia dor que o crack não consumisse. Pedrinhas que queimavam o cérebro e apagavam toda a memória. Nem sabia mais o nome da mãe. Ele se perguntava se acaso teve uma. Apenas o som compassado das ave-marias ainda era presente, todo o resto, um passado vago e distante. Ele mal sabia entoar a oração. Mas duvidava que algum dia viesse a precisar dela.

O frio do inverno congelava os ossos. Mas ele tinha aquela jaqueta bonita que roubou do playboy que passeava com a namorada. Ele pensava como foi engraçado fazer o “carinha” implorar pela vida na frente da “patricinha”.  Ele matou-o com um único tiro na testa, com a namoradinha foi muito mais divertido. Antes de matá-la se aproveitou do corpo dela como quis. Depois, quando já estava abusado do choro dela, calou-lhe para sempre. A vida era boa. Ele sentia-se realizado como nunca o fora em vida. Compreendeu que deveria ser sempre impiedoso e implacável. O mundo o fez assim, fechando as portas para ele, ou melhor, nunca as tendo aberto. Aprendeu tudo isso na grande escola da rua. E havia um código de ética entre os bandidos que se não seguido poderia causar até morte. Se bem que ele não tinha qualquer temor da ceifadora inevitável. Se ela viesse cedo ou tarde não havia qualquer diferença. Já tinha do mundo o que desejava. E ele sempre quis muito pouco. Queria respeito, a arma semiautomática o concedeu. Queria saber, a vida o doutrinou. Queria felicidade, mas ele nunca soube o que ao certo essa palavra significava, talvez estivesse sendo feliz naquele momento, mas ele não tinha certeza. Às vezes, quando sentia uma angústia crescente no peito, pensava na mãe rezando e tinha certeza que somente naquele momento tinha sido realmente feliz. Era uma memória bonita, arrependido, ficava de joelhos e tentava se recordar da oração, gaguejava algumas palavras, pulava outras e acreditava que tinha sido perdoado. Mesmo que no outro dia enchesse sua alma de novo com os mesmos e terríveis pecados. Era “só se arrepender do fundo da alma”, sua mãe lhe dizia. Ele tentava. Entretanto, só sabia viver daquele jeito. E mesmo que a culpa viesse sorrateira, às vezes, para lhe atormentar, ele dizia ao mundo que era somente o produto malévolo de sua criação. E ele não mentia. Ele era filho da sociedade que fecha os olhos para a pobreza. Não era ele que não enxergava, mas o mundo que não o via. Estava ali, na frente das pessoas esmolando um tanto ínfimo de sua misericórdia. E elas o ignoravam solenemente.

Eu estou aprendendo a enxergar e estou dividindo um pouco do conhecimento adquirido. Naquela criança deitada na calçada, com o corpo hirto de frio, há toda uma história ligada a ela. Não é apenas um ente desprovido de humanidade que está pedindo um ínfimo instante de sua atenção. É o retrato de um problema que se agiganta e toma proporções inimagináveis, mas a sociedade está muito ocupada com suas questões banais, para dar-se conta desse terrível problema de segurança pública. Se os presidentes que assumiram o comando o país houvessem cumprido sua promessa, não persistiria essa questão comum a todas as cidades do Brasil. Porém, aqueles que prometeram diminuir a miséria, apenas maquiaram um feio retrato. Ainda perseveram, nas ruas das cidades, realidades como essa que apenas ilustra a vida de um pequeno esquecido. Por isso denomino esse texto de “uma história para aprender a enxergar”. Pois, é-me aparente que todos usam vendas para não verem o que é patente. Mas é hora de terminar esse pequeno conto. O menino, como era de se esperar, acabou preso. Na cadeia, foi afrontado por diversos inimigos. E diariamente apanhava dos adversários. Até que, em uma rebelião no presídio, foi feito refém. Era ameaçado com uma faca que ninguém sabia como chegou às mãos dos detentos. Sentia a morte chamá-lo de bem perto. E só queria que ela acontecesse de uma vez, que não protelassem sobremaneira seu destino inevitável. E ele que não tinha piedade com aqueles a quem matava, foi vítima da mesma crueldade. Amarraram seu corpo a um colchão e atearam fogo. Uma morte terrível, mas sua vida não foi, entretanto, em nada melhor. Entre os gritos de desespero deste desprezado pelo mundo, ouvia-se uma oração, rezava uma dolorosa ave-maria, como se recordava que sua mãe o fazia. Pedia perdão por suas faltas e ainda perguntava, por que em toda a vida, Deus lhe negou qualquer oportunidade.

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