Deixando o passado para trás

Giordana Bonifácio

Estou resoluta a abandonar de vez o passado. Fiquei tempo demais presa ao que se foi. Martirizando-me infinitamente pelos fracassos de ontem, esqueci-me de comemorar as vitórias do futuro. E acho que perdi inúmeras oportunidades de ser feliz. Era necessário viver mais não encontrei o caminho certo. Confundi-me no labirinto dos fatos, pois ainda me conjugava no pretérito… Imperfeito. Eu fui, numa era em que o essencial seria ser o que eu não era. Fui acometida de um grande pesar que se proliferou por todo meu interior. (Algo parecido com a alma, eu acho). E nem sabia mais nada do futuro. Ele não chegou para mim. Vivi um presente eterno acorrentado ao passado que não permitia jamais a chegada do amanhã. O sol não nasceu. A vida congelou num anoitecer sombrio de inverno. E os ecos de alegria que poderiam me alcançar nunca chegaram. Esqueci-me de ser eu e fui sendo outros. Perdi minha unidade. Era um ser dividido e falho. E nem me cria sequer merecedora de redenção. Meus pecados eram, sobretudo, contra mim, eu que profanava o mais sagrado preceito humano: a formação de uma identidade.  Fui à busca de vidas alheias em que pudesse me espelhar. Esqueci-me do que sou ou simplesmente ignorei a minha autenticidade? Não sei, em um segundo, destruí o que esperava de mim. Não me orgulhava do que havia me tornado. Foi uma união de situações que me obrigou a viver no vazio. Como suspensa por uma década, no limbo ao qual o tempo não alcança, aguardava a chegada do dia sem saber que, no lugar em quem me encontrava, as trevas eram eternas.

Porém, mesmo que esteja atrasada, (fiquei muitos anos no cárcere da espera que não se realizava), resolvi partir em busca do tempo perdido. Em meio a uma tempestade de emoções, confusa e arrastando pesados grilhões, sigo por caminhos não traçados, pois sou a espécie pioneira nas regiões mais inóspitas do meu espírito. Sei que ainda estou sujeita a toda forma de traição, que muitas decepções são esperadas. Nada é tão simples assim… A perseverança que não cultivei quando necessitava, agora tem de se fazer presente. É o único meio de trazer de volta o destino que perdi. Para isso tenho de me libertar do passado, da prisão dos anos em que estive por minha própria vontade. É que eu tinha medo. Um pavor insuportável que atrasasse o advir. E acabei por provocar o meu desgraçado penar. Construí os muros que me enclausuraram no passado. E foi sonhando com o que não me cabe que pude finalmente alçar voo.  Estou um tanto desengonçada com minhas asas de cera. Não quero, todavia, tocar o sol,contento-me com algo muito menor, tão somente o futuro pretendo capturar. L’avenir que ce n’est pas arrivé.¹ Fiquei procurando saídas num cubículo sem portas ou janelas, sem olhar para o alto, quando poderia constatar que não havia o que me impedisse de voar. Então construí como Dédalus, meu meio de fuga. E, sem temer a queda, bati asas, um construto feito tão somente de palavras, que unidas tornaram-se frases, que por sua vez viraram orações, períodos e por fim um texto completo. Não é essencial que tenha início ou fim. Esperei muito para me preocupar tão cedo com o final. Basta um ponto para encerrar essa jornada.

Acontece que não chegou ainda o término dessa sentença. Não veem: o dia nasceu! Eu que por tanto tempo vivi nas trevas, tenho acesso à luz. Agora os dias nascem e findam. Não se vive no breu dos sonhos esquecidos, mudos, num mundo sem a escrita. Agora posso contar abertamente o que me aflige, sem temer que meus pesares sejam mal interpretados. Não me creio escritora. Tão somente gosto de transcrever para o papel meu mundo de sentimentos imprevisíveis. Inicio minhas aflições pela seguinte sentença: “estou resoluta a abandonar de vez passado.” Mas nem escrevi como tenciono fazê-lo. Disse apenas a minha pretensão. É hora de explicar-me: explorando imensamente o que tenho em mãos, ainda que seja muito pouco, é que construirei o futuro que esqueci em algum lugar que não me recordo. É tempo de deixar para trás o que foi, mas não foi, está aqui e continuamente me machuca. Devo apenas dizer adeus… Mas, é tão difícil se despedir do que um dia nos foi essencial. Sei que agora é tempo de libertar-se de um estado que não é mais admissível. E vou conseguir, é esse o único modo de deixar o meu espírito, continuamente ocupado, livre para receber o que está por vir. Guardo muita coisa de que deveria me libertar. Tudo que preciso desfazer-me por não mais possuir qualquer sentido. Recordações que não têm espaço no armário. Fotografias em que um rosto jovem faz-me duvidar que seja eu naquele retrato. E não posso mais sofrer, não há mais lágrimas para regar essa árvore de desilusões. Ela se fixou no solo fértil de meu coração. Agora tenho de cortá-la e arrancar as raízes para que nunca mais venha a florescer. Essas são as medidas mais viáveis para deixar definitivamente de viver o que já foi vivido. Como se as lembranças mais sofridas continuamente retornassem e ferissem da mesma maneira que fizeram antes. Meu castigo é ser Sísifo e penar eternamente, levando, para o alto da montanha, a pesada pedra do meu passado esperando apenas ela rolar de novo para a origem e, como acontece ao condenado , ser obrigada a fazer o mesmo trajeto para todo sempre.

Entretanto, vejo que uma esperança, mesmo que fugidia, como uma miragem que enlouquece os homens sedentos no deserto, se aproxima. É claro que ela envolve um tanto de percalços. Nada é tão fácil quanto parece. Transformar-se é difícil. E acreditem: nem sempre é possível. Estamos presos às idiossincrasias que acumulamos na juventude. Fugir de certos hábitos é uma tarefa inglória. A verdade é que nosso caráter é formado no início de nossa educação. Nem sempre os adultos tem o devido cuidado com as crianças que devem educar. Alguns comportamentos que adotamos é fruto de certos complexos que desenvolvemos na infância. Tenho um tanto de histórias para justificar minhas atitudes. A falta de maturidade em agir é resultado de uma criação superprotetora, a baixa autoestima, uma reação ao mundo que me subestimava e subestima a todo o momento. Mas não culpo meus pais. Não, eu que perdi a coragem quando vi que a vida adulta era um pesadelo de que não se acorda. E meus lamentáveis desenganos, são o produto mais cruel de meus temores. Eu nem sempre fui tão covarde. Costumavam chamar-me destemida. O problema é que fui me entregando às derrotas. Uma sequência delas. E sem coragem para mudar o rumo do navio, permaneci na mais revoltosa tormenta. Todavia, não é hora de lamentar. É necessário partir deste porto em que atraquei minha nau e dele não pude sair. Estou há muito tempo nesse mar. Sou Odisseu em uma busca infinita por Ítaca. Devo prosseguir, deixando para trás as feridas que fiz em Ílion. As marcas e perdas incalculáveis da batalha podem ser substituídas pelo regozijo do retorno.

É, na verdade, a volta de alguém que jamais partiu. Eu sempre estive aqui. Nos erros do passado que me subtraíram o futuro. Como construir algo que não mais existe? O destino que visualizava, fugiu de mim.  Nem sei mais para onde estou indo. Estou caminhando sem direção com um único propósito: livrar-me definitivamente da minha bagagem. Esse peso que trago comigo que me enverga o corpo. Sei que poderei de tal forma viajar com mais conforto. A vida é na realidade uma viagem sem retorno. Nós que escolhemos o que transportamos dela conosco. Levarei, de agora em diante, apenas o essencial. Vou aproveitar cada dia como se fosse o único. Quero muito mais da vida. Na verdade, como diria Victor Hurgo, “ela passou por nós sem que a pudéssemos viver”. E sei que sofri desmedidamente e que os anos não foram piedosos comigo. Sabem quando levamos muito tempo para aprender algo simples? Pois é, é o que fazemos com nossa existência. Não vivemos, sobrevivemos. Não seremos jamais felizes se não compreendermos o sentido que devemos dar ao nosso futuro. Eu queria apenas ostentar uma realização que não existia. Eu sabia para onde minha vaidade levava-me, contudo quis continuar. E foi quando percebi que traçava uma rota sem retorno para a infelicidade. Não era o que queria fazer. Desde criança fui dada a contar histórias. Era meu modo mais simples de me libertar. E sem poder voar fui enclausurando-me numa prisão que eu mesmo erigi. O meu medo foi o material dos tijolos que constituíam estes altos muros. Estava encarcerada no meu passado sem poder enxergar o futuro. Entretanto, ainda sabia como escapar, com as asas de sonho que fabriquei, composta de palavras escritas, foi-me fácil evadir dessa realidade. O que necessitava era um tantinho só de fantasia. E assim me foi possível quebrar os grilhões e fugir da abjeta masmorra em que me via prisioneira.

1.O futuro que não chegou.

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