Muito barulho por nada

Giordana Bonifácio

Eu sei que vim cometendo uma série de falhas em minha vida, que tudo poderia ter tomado um destino diferente se apenas houvesse desistido de meu orgulho e do falso conceito que tinha sobre mim. Lutei desesperadamente contra a correnteza que me puxava a cada braçada desse rio de lamentações em que me tentava nadar, mas me afogava. Eu lutei demasiadamente. Estava em embate comigo mesma desde e o início. No limite de minhas forças, deixei-me levar, fui arrastada para dentro do que eu era. A mulher que havia me tornado não era jamais a que entendia por mim. Não sabia o que era eu, o que era meu. Era na verdade uma pintura disforme que tomou o meu lugar. O retrato de Dorian Gray havia assumido o controle e o corpo frágil que se deteriorava estava preso à tela. Então, fiz o mais difícil: desisti, juntei um tanto assim de cacos do que eu era e usei para reconstruir minha nova imagem. Sabem que, quando varremos as derrotas para debaixo do tapete, sempre sobra algo para nos lembrar daquela ferida, não é? Sei que não saí vencedora. Perdi. Sim, sofri o cheque-mate quando ainda preparava meu ataque. E não há como esquecer nossos erros, mas há como aprender com eles. Comecei a recriar um método de vida. Não lamentando o passado, mas o usando como um exemplo para o futuro. Desisti de minhas novelas passionais regadas a muito arrependimento e dor. Deixei meus sonhos enclausurados tempo demais dentro de mim, é hora de deixá-los partir.

E foi pensando em uma maneira totalmente distinta do que cria ser minha verdade que pude reerigir uma nova realidade.  Tudo que acreditava sofreu uma grande transformação.  O momento deixou de ser “apenas um momento” para ser “meu momento”.  Uma série de coisas foi acontecendo, com a força de mil turbilhões, de tal forma que virou meu mundo pelo avesso. Nem sabia quem era quando tudo terminou. Pensava que era algo e na verdade não o era. Cria possuir algo que na verdade sequer detinha.  E fui me desfazendo e me reconstruindo. Foi reformando a minha casa, tão estragada por tantos embates, que consegui chegar aonde não acreditava que chegaria. Foram muitos passos até aqui. Nem sei se estou agora no caminho correto ou se existe outro destino certo a se alcançar. Mas estou aqui. E o momento existe. A vida canta afinada quando não estamos lutando por ela ou com ela. Havia uma passagem que não pude transpor, por medo, inexperiência, por não saber se deveria ou se acaso poderia fazer isto. São dilemas morais que nos perseguem e que deles não podemos fugir. Tentei ser como queriam que eu fosse. Todavia, estava sendo excessivamente violentada na minha personalidade, minha autenticidade estava sendo demolida por milhões de opiniões que não procuravam meu bem-estar. É desconfortável estar sob a pele de cordeiro. O lobo sempre se apresenta. Creiam em mim.

E minhas dúvidas morais estavam me enlouquecendo. No final pude ser quem eu era realmente. (Será?) E se ainda fosse possível dizer que me arrependo por ter pensado que poderia ser apenas o reflexo do que entendiam que eu deveria ser, eu diria. Mas o importante é que mudei o rumo da embarcação. Deixei de lutar contra a força deste rio. Na verdade, navego numa frágil jangada, muito avariada pelo poder das correntes que enfrentei.  Por isso, agora é perigoso até mesmo seguir pelo curso que determinam essas águas. Mas estou me deixando levar. Pelos sentidos que tentei negar, pelos vales que abandonei quando estava terrivelmente seduzida por uma vida que não poderia ser minha. Fui abandonando-me em diversos lugares. Resta um tanto de mim no que construía e principalmente no que reconstruí. Fui eu quem fez todos os projetos, mesmo que não fossem condizentes com o que eu era. Fui aceitando a opinião dos outros, que me sussurravam as respostas dos dilemas que deveria responder sozinha. E agora estou aqui, nesse beco sem saída tentando voltar para o caminho que me leve à saída do labirinto da vida. O Minotauro que nos persegue é o mito de nossos medos. E sei que se abrir novamente o mapa – sim, há um planejamento prévio de nossas buscas – posso encontrar uma rota diferente que me deixe onde quero realmente chegar.  Mas nem sei ao certo para onde quero ir. Estou perdida entre tantas possibilidades. O que me entristece é que, quando quero me encontrar, percebo como as chances que perdi me modificaram. Eu fui ruindo aos poucos. Como as casas invadidas pela maré. Vesti-me de fantasias que cobriam não só meu corpo como minha alma. Não sei quem eu era. Mas, não era eu.

Quando percebi que a pintura me dominava, libertei-me das correntes que me aprisionavam. Rebelei-me contra a força que exauria minha autenticidade. Tive medo, como é comum. Ninguém desiste sem um tanto considerável de feridas marcadas eternamente em si. Mas me segurei no que me restava de coragem, (uma quantidade mínima devo ressaltar), e assumi a responsabilidade de meus atos. Esvaziei os bolsos, despi-me de meus pertences e escolhi viver como não imaginava que poderia. Contudo, há ainda os que me desanimam a prosseguir, que me desacreditam frente ao sonho. Dizem que não sou capaz e que minhas buscas apontam para mais uma quimera. Não sei se estão certos, se estou mais uma vez a combater moinhos de vento. Se é loucura e só. Se estou, novamente, em busca de aventuras que inexistem montada sobre meu magro e velho Rocinante. Sei apenas que quero tentar. Mais uma vez somente. Porque não me senti realizada anteriormente e agora me creio completa. Como se minha busca fosse o reconhecimento que só vim alcançar quando não mais o procurava. E denominam minhas lutas de “quixotianas”. Sei que sou guiada pelas forças dominadoras da minha imaginação e que não vale a pena confrontá-las. Se vejo um elmo mágico numa simples bacia de barbeiro que assim o seja. Os homens não conseguem mais viver no “faz-de-conta” quando a força dos anos os obrigam a crescer. Envelhecer poderia ser muito menos devastador se pudéssemos levar a nossa imaginação conosco. Mas a sociedade não nos permite. Somos taxados de excêntricos e loucos. E o mundo torna-se cinza e sem graça.

Eu resolvi colorir minha história. Uso cores frias e quentes para dar vida aos meus sonhos. Não sou mais o retrato, mas o pintor. Não sou mais a imagem, mas a modelo. Vou apagar as minhas faltas, mesmo que o papel já esteja demasiadamente marcado, resta-me a possibilidade de virar a página. Vou começar a reescrever minha história, ainda que não queiram ler, que esta fique restrita às páginas esquecidas desse livro, abandonado eternamente na estante sem que suas páginas de sonhos sejam abertas, é, porém, um firme intuito que possuo. Sofro profundamente com a expectativa de as histórias que aqui escrevo, possam sair do papel, em que as marco com ferro em brasa, e tomem conta de minha vida. Não sei se seria bom ou ruim. Talvez aconteceria de selar meu rocim e munir-me de um escudeiro bonachão para seguir pelo mundo a procura de reconhecimento pelas minhas insanas desventuras. Pode acontecer de ser motivo de chacota e pedradas dos que muito auxiliei. Todavia, é a minha vida que tenho em mãos. Mais que justo que seja eu quem tenha de escolher o destino que me cabe. Mesmo que não me caiba nada nesse latifúndio. Nem mesmo a terra que vá cobrir meu corpo quando a morte chegar sem advertência. Um breve suspiro levará consigo a alma libertando-me dos grilhões que me prendiam a esse mundo. Acho que quando morremos é retirado um peso imenso que existe sobre nós. Os homens enchem-se de tanto pesar que, no momento derradeiro, quando se livra de todas as culpas, o corpo, cientificamente comprovado, fica mais leve. É desse peso que quero me livrar em vida. Não quero mais viver penando as culpas que cultivei. Não vou mais lamentar as minhas amarguras nessas páginas mudas às quais atribuo uma voz que na verdade é minha. Eu sei que tudo que escrevi aqui foi um grito de desespero, uma reação de medo comum frente ao desconhecido. Só espero que, como sempre ocorre, não se mostre que fiz muito barulho por nada. Não novamente.

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