Arquivo do mês: abril 2012

Deixando o passado para trás

Giordana Bonifácio

Estou resoluta a abandonar de vez o passado. Fiquei tempo demais presa ao que se foi. Martirizando-me infinitamente pelos fracassos de ontem, esqueci-me de comemorar as vitórias do futuro. E acho que perdi inúmeras oportunidades de ser feliz. Era necessário viver mais não encontrei o caminho certo. Confundi-me no labirinto dos fatos, pois ainda me conjugava no pretérito… Imperfeito. Eu fui, numa era em que o essencial seria ser o que eu não era. Fui acometida de um grande pesar que se proliferou por todo meu interior. (Algo parecido com a alma, eu acho). E nem sabia mais nada do futuro. Ele não chegou para mim. Vivi um presente eterno acorrentado ao passado que não permitia jamais a chegada do amanhã. O sol não nasceu. A vida congelou num anoitecer sombrio de inverno. E os ecos de alegria que poderiam me alcançar nunca chegaram. Esqueci-me de ser eu e fui sendo outros. Perdi minha unidade. Era um ser dividido e falho. E nem me cria sequer merecedora de redenção. Meus pecados eram, sobretudo, contra mim, eu que profanava o mais sagrado preceito humano: a formação de uma identidade.  Fui à busca de vidas alheias em que pudesse me espelhar. Esqueci-me do que sou ou simplesmente ignorei a minha autenticidade? Não sei, em um segundo, destruí o que esperava de mim. Não me orgulhava do que havia me tornado. Foi uma união de situações que me obrigou a viver no vazio. Como suspensa por uma década, no limbo ao qual o tempo não alcança, aguardava a chegada do dia sem saber que, no lugar em quem me encontrava, as trevas eram eternas.

Porém, mesmo que esteja atrasada, (fiquei muitos anos no cárcere da espera que não se realizava), resolvi partir em busca do tempo perdido. Em meio a uma tempestade de emoções, confusa e arrastando pesados grilhões, sigo por caminhos não traçados, pois sou a espécie pioneira nas regiões mais inóspitas do meu espírito. Sei que ainda estou sujeita a toda forma de traição, que muitas decepções são esperadas. Nada é tão simples assim… A perseverança que não cultivei quando necessitava, agora tem de se fazer presente. É o único meio de trazer de volta o destino que perdi. Para isso tenho de me libertar do passado, da prisão dos anos em que estive por minha própria vontade. É que eu tinha medo. Um pavor insuportável que atrasasse o advir. E acabei por provocar o meu desgraçado penar. Construí os muros que me enclausuraram no passado. E foi sonhando com o que não me cabe que pude finalmente alçar voo.  Estou um tanto desengonçada com minhas asas de cera. Não quero, todavia, tocar o sol,contento-me com algo muito menor, tão somente o futuro pretendo capturar. L’avenir que ce n’est pas arrivé.¹ Fiquei procurando saídas num cubículo sem portas ou janelas, sem olhar para o alto, quando poderia constatar que não havia o que me impedisse de voar. Então construí como Dédalus, meu meio de fuga. E, sem temer a queda, bati asas, um construto feito tão somente de palavras, que unidas tornaram-se frases, que por sua vez viraram orações, períodos e por fim um texto completo. Não é essencial que tenha início ou fim. Esperei muito para me preocupar tão cedo com o final. Basta um ponto para encerrar essa jornada.

Acontece que não chegou ainda o término dessa sentença. Não veem: o dia nasceu! Eu que por tanto tempo vivi nas trevas, tenho acesso à luz. Agora os dias nascem e findam. Não se vive no breu dos sonhos esquecidos, mudos, num mundo sem a escrita. Agora posso contar abertamente o que me aflige, sem temer que meus pesares sejam mal interpretados. Não me creio escritora. Tão somente gosto de transcrever para o papel meu mundo de sentimentos imprevisíveis. Inicio minhas aflições pela seguinte sentença: “estou resoluta a abandonar de vez passado.” Mas nem escrevi como tenciono fazê-lo. Disse apenas a minha pretensão. É hora de explicar-me: explorando imensamente o que tenho em mãos, ainda que seja muito pouco, é que construirei o futuro que esqueci em algum lugar que não me recordo. É tempo de deixar para trás o que foi, mas não foi, está aqui e continuamente me machuca. Devo apenas dizer adeus… Mas, é tão difícil se despedir do que um dia nos foi essencial. Sei que agora é tempo de libertar-se de um estado que não é mais admissível. E vou conseguir, é esse o único modo de deixar o meu espírito, continuamente ocupado, livre para receber o que está por vir. Guardo muita coisa de que deveria me libertar. Tudo que preciso desfazer-me por não mais possuir qualquer sentido. Recordações que não têm espaço no armário. Fotografias em que um rosto jovem faz-me duvidar que seja eu naquele retrato. E não posso mais sofrer, não há mais lágrimas para regar essa árvore de desilusões. Ela se fixou no solo fértil de meu coração. Agora tenho de cortá-la e arrancar as raízes para que nunca mais venha a florescer. Essas são as medidas mais viáveis para deixar definitivamente de viver o que já foi vivido. Como se as lembranças mais sofridas continuamente retornassem e ferissem da mesma maneira que fizeram antes. Meu castigo é ser Sísifo e penar eternamente, levando, para o alto da montanha, a pesada pedra do meu passado esperando apenas ela rolar de novo para a origem e, como acontece ao condenado , ser obrigada a fazer o mesmo trajeto para todo sempre.

Entretanto, vejo que uma esperança, mesmo que fugidia, como uma miragem que enlouquece os homens sedentos no deserto, se aproxima. É claro que ela envolve um tanto de percalços. Nada é tão fácil quanto parece. Transformar-se é difícil. E acreditem: nem sempre é possível. Estamos presos às idiossincrasias que acumulamos na juventude. Fugir de certos hábitos é uma tarefa inglória. A verdade é que nosso caráter é formado no início de nossa educação. Nem sempre os adultos tem o devido cuidado com as crianças que devem educar. Alguns comportamentos que adotamos é fruto de certos complexos que desenvolvemos na infância. Tenho um tanto de histórias para justificar minhas atitudes. A falta de maturidade em agir é resultado de uma criação superprotetora, a baixa autoestima, uma reação ao mundo que me subestimava e subestima a todo o momento. Mas não culpo meus pais. Não, eu que perdi a coragem quando vi que a vida adulta era um pesadelo de que não se acorda. E meus lamentáveis desenganos, são o produto mais cruel de meus temores. Eu nem sempre fui tão covarde. Costumavam chamar-me destemida. O problema é que fui me entregando às derrotas. Uma sequência delas. E sem coragem para mudar o rumo do navio, permaneci na mais revoltosa tormenta. Todavia, não é hora de lamentar. É necessário partir deste porto em que atraquei minha nau e dele não pude sair. Estou há muito tempo nesse mar. Sou Odisseu em uma busca infinita por Ítaca. Devo prosseguir, deixando para trás as feridas que fiz em Ílion. As marcas e perdas incalculáveis da batalha podem ser substituídas pelo regozijo do retorno.

É, na verdade, a volta de alguém que jamais partiu. Eu sempre estive aqui. Nos erros do passado que me subtraíram o futuro. Como construir algo que não mais existe? O destino que visualizava, fugiu de mim.  Nem sei mais para onde estou indo. Estou caminhando sem direção com um único propósito: livrar-me definitivamente da minha bagagem. Esse peso que trago comigo que me enverga o corpo. Sei que poderei de tal forma viajar com mais conforto. A vida é na realidade uma viagem sem retorno. Nós que escolhemos o que transportamos dela conosco. Levarei, de agora em diante, apenas o essencial. Vou aproveitar cada dia como se fosse o único. Quero muito mais da vida. Na verdade, como diria Victor Hurgo, “ela passou por nós sem que a pudéssemos viver”. E sei que sofri desmedidamente e que os anos não foram piedosos comigo. Sabem quando levamos muito tempo para aprender algo simples? Pois é, é o que fazemos com nossa existência. Não vivemos, sobrevivemos. Não seremos jamais felizes se não compreendermos o sentido que devemos dar ao nosso futuro. Eu queria apenas ostentar uma realização que não existia. Eu sabia para onde minha vaidade levava-me, contudo quis continuar. E foi quando percebi que traçava uma rota sem retorno para a infelicidade. Não era o que queria fazer. Desde criança fui dada a contar histórias. Era meu modo mais simples de me libertar. E sem poder voar fui enclausurando-me numa prisão que eu mesmo erigi. O meu medo foi o material dos tijolos que constituíam estes altos muros. Estava encarcerada no meu passado sem poder enxergar o futuro. Entretanto, ainda sabia como escapar, com as asas de sonho que fabriquei, composta de palavras escritas, foi-me fácil evadir dessa realidade. O que necessitava era um tantinho só de fantasia. E assim me foi possível quebrar os grilhões e fugir da abjeta masmorra em que me via prisioneira.

1.O futuro que não chegou.

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Casa grande e senzala

Giordana Bonifácio

Estava ébrio é verdade, mas não fui eu quem começou aquela briga. Quando dei por mim, cadeiras voavam, sangue e dentes quebrados respingavam por todos os lados. O som de garrafas de vinho estilhaçando acompanhavam os urros de dor e força dos homens que lutavam naquela taberna. Não demorou muito, a guarda real chegou e levou todos presos. Os que tinham “costas quentes”, ou seja, uma pessoa de renome nas altas corporações, como igreja e governo, foram logo liberados. Eu, um mulato filho bastardo do coronel Aguirre com uma de suas negras, fui lançado na prisão sem previsão de liberdade.  Fui despejado numa masmorra úmida e quente que exalava o odor pestilento de fezes e urina. Estávamos na cela, eu, um velho que murmurava algo, (como se rezasse penso eu), e um gordo comerciante acusado de matar a esposa. Éramos todos pobres, mas algo os diferenciava de mim: a cor de sua cútis, a pele que parecia gritar a minha insignificância. Os guardas os tratavam com mais respeito, tinham privilégios como uma cama em que deitar. E acho que até a ração que recebiam tinha menos vermes que a minha. Não me dirigiam, meus companheiros de prisão, sequer uma palavra, como se eu não tivesse o direito de estar no mesmo recinto que eles. Sei que se houvesse um covil para arremessar os negros que cometessem crimes, como uma grande senzala prisional, eu estaria lá. Longe dos brancos, longe do mundo. Esquecido por Deus, desprezado pela sociedade.

Murmurava, toda noite, durante o cárcere, uma canção que minha mãe cantava para mim, nas noites frias de inverno, quando, com os outros negros do engenho, ficávamos na senzala a relembrar nossa amada terra natal: a mãe África. É uma música numa língua que nunca aprendi. Sei proferi-la por tanto ter ouvido minha mãe cantar. Ela dizia que era a voz de um povo muito antigo cheio de honra e glória. Ficava imaginando que, há algum tempo atrás, os negros eram importantes. Não apenas “coisas” vendidas nos mercados como animais. Eu não sabia ainda que era filho do coronel naquela época. É verdade que era muito estranho que eu tivesse olhos verdes. Nenhum negro da senzala os possuía. Nem o bom homem que me adotou como filho. Um negro muito forte, líder não pronunciado dos escravos do coronel. Ele deu-me várias vezes sua ração quando não traziam comida o suficiente para todos os escravos comerem. Minha mãe era uma mulher muito bonita. Foi logo escolhida pelo Coronel Aguirre para frequentar sua cama. Quando ela engravidou, despejou-a na senzala, para sofrer como todas as outras negras. Eu nasci no mês de junho, uma semana depois, a Sinhá dava à luz ao coronelzinho: Benjamin. Eu fui denominado Antônio, pois meu nascimento se deu no dia dedicado ao Santo. Juntos, meu irmão e eu, tivemos vidas diversas, mas brincávamos e éramos muito unidos, quando eu não tinha ciência de sermos parentes. Dividíamos inúmeras aventuras. Porém, mesmo mais novo, ele era sempre o comandante.  Eu não poderia ser jamais superior a um branco. Carrego na pele o peso da minha maldição.

Acontece que o tempo passou. Benjamin foi para escola. Deixou o engenho por muitos anos. Eu permaneci com os outros escravos, cortando cana. Plantando meu sofrimento que adoçaria a boca dos brancos. Entretanto, a juventude me fez rebelde. Não aceitava como não aceitarei jamais ser denominado de sub-raça porque tenho a pele negra. Fiquei semanas na prisão, sem que houvesse quem me concedesse liberdade. (Mesmo que saiba não ser livre na realidade). Quando nem comida recebia mais dos guardas, apareceu um homem muito bem vestido, elegante, creio que é a palavra correta, que me libertou da cadeia. Ele olhou para mim com olhos inquisidores e tive vergonha dos trapos que eu usava. Logo que saímos, perguntou se eu recordava-me dele. Disse que não, ele tirou um cachimbo do bolso, preparou o fumo metodicamente e acendeu-o. Lançava baforadas compassadas e ficou em silêncio por algum tempo. Depois, sorriu e foi quando o reconheci. Não poderia me esquecer daquele sorriso jamais. Era Benjamin, o coronelzinho. E numa efusão de felicidade, quis abraçá-lo. Ele evitou que o tocasse. Então, dei-me conta de meu papel a tempo de me conter. Ele disse-me que havia se formado em Direito e agora era advogado. Soube que o pai dele tinha me dado alforria, (um gesto de grandeza quando minha mãe morreu no parto de minha irmãzinha), e que eu fora feito prisioneiro. Perguntei por que motivo o Doutor havia me libertado. Foi quando ele informou-me que o coronel morrera  e que estava precisando de um negro como eu para trabalhar nas terras que ele herdou. Eu perguntei por minha irmã. Ela já deveria estar uma mocinha àquela altura. Ele disse que sim. Tinha uns dez anos e era dama de companhia da Sinhá. Emocionado, porque não via a minha irmã por tantos anos, chorei. Benjamin ficou irritado que eu o estivesse envergonhando em público, tive de secar as lágrimas e engolir meu sentimento. Aceitei a proposta do coronelzinho, afinal, não tinha aonde viver, nem como me manter, melhor seria trabalhar, mesmo que por uma ninharia, para meu irmão.

Acontece que acabei por perceber que minha irmãzinha não estava feliz. Ela era uma menina muito tímida e chorosa. Ela não era filha do coronel, mas do bom negro que me adotou como filho, que já havia morrido, pois um escravo não possui uma vida lá muito longa. As doenças chegam devastadoras. E nem sempre os senhores de engenho querem gastar com a saúde de seus escravos. Minha irmã se chamava Rebeca e havia herdado a beleza de minha mãe. Pedi para que ela viesse morar comigo na senzala, para ficarmos juntos, mas Benjamin não permitiu.  Ele não sabia que eu também era filho do coronel. Minha mãe contara para mim somente, me fazendo prometer que jamais contaria a ninguém. Eu achei muito estranho a recusa de Benjamin, porque ele não costumava me negar o que pedia. Eu não pedia muita coisa. Dormia na senzala com os escravos porque não cabia a um negro dormir com os senhores na casa grande. Eu só queria minha irmãzinha perto de mim. Isso não era algo muito difícil. Com o tempo percebi que Rebeca estava cheia de hematomas. E partindo disso comecei a averiguar. Acabei por pensar que a Sinhá estava maltratando minha irmã, o que achei muito difícil, visto que ela era uma dama muito calma e solícita. Jamais houve qualquer reclamação sobre ela de nenhuma mucama. O problema era que, por mais que perguntasse à Rebeca quem estava fazendo aquilo com ela, minha irmã jamais me respondia. Dizia apenas que não era nada. Uma noite, entrei na casa grande sem ser visto, para tentar abordar a Sinhá ferindo Rebeca. Sei que poderia ser expulso do engenho, que não é lícito a um negro interferir no tratamento que os senhores dão a seus escravos, porém eu tinha de fazer algo.

Fui caminhando pela casa, aproximei-me dos aposentos da Sinhá e não havia nenhum som. Entretanto, quando estava perto do quarto de meu irmão, escutei gemidos que pude reconhecer como sendo de minha irmã. Não foi possível me conter, eu tinha sangue nos olhos. Arrombei a porta e deparei-me com uma cena terrível. À minha irmã coube o destino de minha mãe: ser a escrava sexual do coronel. Ela era apenas uma criança! Os seios não haviam sequer aflorado!  Não pensei no fato de ele ser meu irmão de sangue, no momento só queria fazê-lo parar! Empurrei-o com toda força para que abandonasse o corpo esguio de minha irmã que ele subjugava. Então começamos a nos engalfinhar. Contudo, eu era mais forte, esmurrava-o com toda a força. Não queria parar. Ele gritava pelos capitães do mato e tentava se safar de minhas mãos. Eu tinha certeza que iria matá-lo. Bati tanto em seu rosto que o sangue pingava desmedidamente. Ele conseguiu soltar-se e tomou um revólver que estava na gaveta do criado-mudo. Ele teria atirado em mim, se eu não houvesse sido mais rápido ao desarmá-lo. Continuávamos nossa disputa. Ele de ceroulas, todo sujo de sangue e eu com os punhos feridos de tanto esmurrá-lo. A essa altura, a Sinhá já tinha despertado com a confusão e corrido para o quarto do filho. Ela gritava desesperadamente pedindo para que parasse e que eu iria matá-lo. Confesso que essa era minha real intenção. Eu queria mesmo ver meu irmão, aquele ser desprezível, morto. Porém, ele não lutava justamente, os capitães do mato chegaram e seguraram-me de modo que não mais agredisse o coronelzinho. Foi tudo muito rápido. Ele se recompôs, enxugou parte do sangue do rosto com um lenço e veio em minha direção. Ele passou a esmurrar-me dizendo que eu estava tentando defender a minha irmãzinha e que ela era a “putinha” dele. E que eu era apenas um negro e que deveria saber qual era meu lugar. Ele falou que minha vida pertencia a ele. E que poderia fazer o que bem entendesse com minha irmã ou comigo. E, por fim, disse que iria me matar na frente de minha irmã. Foi quando ouvi o estampido. Benjamin caiu aos meus pés. Fiquei atordoado, demorou alguns minutos para eu perceber que minha irmã havia atirado no coronel. E quanto ao resto todos já sabem. Essa é toda história Excelência, espero que possa entender o motivo de minhas ações e de Rebeca. Eu suplico: não a condene à forca, mas a mim, que desgraçadamente nasci filho do coronel Aguirre e irmão de Benjamin. Este que se revelou o mais terrível monstro e que, com suas atitudes abjetas, selou sua própria sorte.

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Muito barulho por nada

Giordana Bonifácio

Eu sei que vim cometendo uma série de falhas em minha vida, que tudo poderia ter tomado um destino diferente se apenas houvesse desistido de meu orgulho e do falso conceito que tinha sobre mim. Lutei desesperadamente contra a correnteza que me puxava a cada braçada desse rio de lamentações em que me tentava nadar, mas me afogava. Eu lutei demasiadamente. Estava em embate comigo mesma desde e o início. No limite de minhas forças, deixei-me levar, fui arrastada para dentro do que eu era. A mulher que havia me tornado não era jamais a que entendia por mim. Não sabia o que era eu, o que era meu. Era na verdade uma pintura disforme que tomou o meu lugar. O retrato de Dorian Gray havia assumido o controle e o corpo frágil que se deteriorava estava preso à tela. Então, fiz o mais difícil: desisti, juntei um tanto assim de cacos do que eu era e usei para reconstruir minha nova imagem. Sabem que, quando varremos as derrotas para debaixo do tapete, sempre sobra algo para nos lembrar daquela ferida, não é? Sei que não saí vencedora. Perdi. Sim, sofri o cheque-mate quando ainda preparava meu ataque. E não há como esquecer nossos erros, mas há como aprender com eles. Comecei a recriar um método de vida. Não lamentando o passado, mas o usando como um exemplo para o futuro. Desisti de minhas novelas passionais regadas a muito arrependimento e dor. Deixei meus sonhos enclausurados tempo demais dentro de mim, é hora de deixá-los partir.

E foi pensando em uma maneira totalmente distinta do que cria ser minha verdade que pude reerigir uma nova realidade.  Tudo que acreditava sofreu uma grande transformação.  O momento deixou de ser “apenas um momento” para ser “meu momento”.  Uma série de coisas foi acontecendo, com a força de mil turbilhões, de tal forma que virou meu mundo pelo avesso. Nem sabia quem era quando tudo terminou. Pensava que era algo e na verdade não o era. Cria possuir algo que na verdade sequer detinha.  E fui me desfazendo e me reconstruindo. Foi reformando a minha casa, tão estragada por tantos embates, que consegui chegar aonde não acreditava que chegaria. Foram muitos passos até aqui. Nem sei se estou agora no caminho correto ou se existe outro destino certo a se alcançar. Mas estou aqui. E o momento existe. A vida canta afinada quando não estamos lutando por ela ou com ela. Havia uma passagem que não pude transpor, por medo, inexperiência, por não saber se deveria ou se acaso poderia fazer isto. São dilemas morais que nos perseguem e que deles não podemos fugir. Tentei ser como queriam que eu fosse. Todavia, estava sendo excessivamente violentada na minha personalidade, minha autenticidade estava sendo demolida por milhões de opiniões que não procuravam meu bem-estar. É desconfortável estar sob a pele de cordeiro. O lobo sempre se apresenta. Creiam em mim.

E minhas dúvidas morais estavam me enlouquecendo. No final pude ser quem eu era realmente. (Será?) E se ainda fosse possível dizer que me arrependo por ter pensado que poderia ser apenas o reflexo do que entendiam que eu deveria ser, eu diria. Mas o importante é que mudei o rumo da embarcação. Deixei de lutar contra a força deste rio. Na verdade, navego numa frágil jangada, muito avariada pelo poder das correntes que enfrentei.  Por isso, agora é perigoso até mesmo seguir pelo curso que determinam essas águas. Mas estou me deixando levar. Pelos sentidos que tentei negar, pelos vales que abandonei quando estava terrivelmente seduzida por uma vida que não poderia ser minha. Fui abandonando-me em diversos lugares. Resta um tanto de mim no que construía e principalmente no que reconstruí. Fui eu quem fez todos os projetos, mesmo que não fossem condizentes com o que eu era. Fui aceitando a opinião dos outros, que me sussurravam as respostas dos dilemas que deveria responder sozinha. E agora estou aqui, nesse beco sem saída tentando voltar para o caminho que me leve à saída do labirinto da vida. O Minotauro que nos persegue é o mito de nossos medos. E sei que se abrir novamente o mapa – sim, há um planejamento prévio de nossas buscas – posso encontrar uma rota diferente que me deixe onde quero realmente chegar.  Mas nem sei ao certo para onde quero ir. Estou perdida entre tantas possibilidades. O que me entristece é que, quando quero me encontrar, percebo como as chances que perdi me modificaram. Eu fui ruindo aos poucos. Como as casas invadidas pela maré. Vesti-me de fantasias que cobriam não só meu corpo como minha alma. Não sei quem eu era. Mas, não era eu.

Quando percebi que a pintura me dominava, libertei-me das correntes que me aprisionavam. Rebelei-me contra a força que exauria minha autenticidade. Tive medo, como é comum. Ninguém desiste sem um tanto considerável de feridas marcadas eternamente em si. Mas me segurei no que me restava de coragem, (uma quantidade mínima devo ressaltar), e assumi a responsabilidade de meus atos. Esvaziei os bolsos, despi-me de meus pertences e escolhi viver como não imaginava que poderia. Contudo, há ainda os que me desanimam a prosseguir, que me desacreditam frente ao sonho. Dizem que não sou capaz e que minhas buscas apontam para mais uma quimera. Não sei se estão certos, se estou mais uma vez a combater moinhos de vento. Se é loucura e só. Se estou, novamente, em busca de aventuras que inexistem montada sobre meu magro e velho Rocinante. Sei apenas que quero tentar. Mais uma vez somente. Porque não me senti realizada anteriormente e agora me creio completa. Como se minha busca fosse o reconhecimento que só vim alcançar quando não mais o procurava. E denominam minhas lutas de “quixotianas”. Sei que sou guiada pelas forças dominadoras da minha imaginação e que não vale a pena confrontá-las. Se vejo um elmo mágico numa simples bacia de barbeiro que assim o seja. Os homens não conseguem mais viver no “faz-de-conta” quando a força dos anos os obrigam a crescer. Envelhecer poderia ser muito menos devastador se pudéssemos levar a nossa imaginação conosco. Mas a sociedade não nos permite. Somos taxados de excêntricos e loucos. E o mundo torna-se cinza e sem graça.

Eu resolvi colorir minha história. Uso cores frias e quentes para dar vida aos meus sonhos. Não sou mais o retrato, mas o pintor. Não sou mais a imagem, mas a modelo. Vou apagar as minhas faltas, mesmo que o papel já esteja demasiadamente marcado, resta-me a possibilidade de virar a página. Vou começar a reescrever minha história, ainda que não queiram ler, que esta fique restrita às páginas esquecidas desse livro, abandonado eternamente na estante sem que suas páginas de sonhos sejam abertas, é, porém, um firme intuito que possuo. Sofro profundamente com a expectativa de as histórias que aqui escrevo, possam sair do papel, em que as marco com ferro em brasa, e tomem conta de minha vida. Não sei se seria bom ou ruim. Talvez aconteceria de selar meu rocim e munir-me de um escudeiro bonachão para seguir pelo mundo a procura de reconhecimento pelas minhas insanas desventuras. Pode acontecer de ser motivo de chacota e pedradas dos que muito auxiliei. Todavia, é a minha vida que tenho em mãos. Mais que justo que seja eu quem tenha de escolher o destino que me cabe. Mesmo que não me caiba nada nesse latifúndio. Nem mesmo a terra que vá cobrir meu corpo quando a morte chegar sem advertência. Um breve suspiro levará consigo a alma libertando-me dos grilhões que me prendiam a esse mundo. Acho que quando morremos é retirado um peso imenso que existe sobre nós. Os homens enchem-se de tanto pesar que, no momento derradeiro, quando se livra de todas as culpas, o corpo, cientificamente comprovado, fica mais leve. É desse peso que quero me livrar em vida. Não quero mais viver penando as culpas que cultivei. Não vou mais lamentar as minhas amarguras nessas páginas mudas às quais atribuo uma voz que na verdade é minha. Eu sei que tudo que escrevi aqui foi um grito de desespero, uma reação de medo comum frente ao desconhecido. Só espero que, como sempre ocorre, não se mostre que fiz muito barulho por nada. Não novamente.

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O humano e o inumano nos cavaleiros de Cervantes e Calvino: uma análise comparada.

Giordana Maria Bonifácio Medeiros

Graduanda de Letras Português

da Universidade de Brasília/UNB

O presente estudo pretende analisar as similitudes e discrepâncias das obras de Cevantes e Calvino, com enfoque especial em suas personagens singulares: Dom Quixote e Agilulfo. O caráter humano e inumano de cada um. A razão e a fantasia que se contrapõem nessas obras satíricas que levam ao riso. Os dois paladinos procuravam reconhecimento pelos seus feitos. E nessa semelhança de objetivos diversa foi sua forma de encontrá-los. É esse diálogo entre essa e aquela obra que ora se pretende fazer. A busca do inumano e do humano nas linhas destas maravilhosas obras-de-arte.

Palavras-chave: Ítalo Calvino, O cavaleiro inexistente, Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, Intertextualidade.

 A obra de Cervantes há pouco tempo foi eleita o romance de maior importância da cultura mundial. É uma crítica satírica aos romances de cavalaria. E Cervantes segue nos mínimos detalhes a fórmula consagrada deste tipo de obra. Ou seja: apresar de Dom Quixote partir em busca de aventuras essas ocorrem ao acaso, nas palavras de Bakhtin, “ele é um aventureiro, mas um aventureiro desinteressado e por sua própria natureza, ele só pode viver nesse mundo de coincidências maravilhosas e nelas conservar sua identidade”. Continua mencionando que “o próprio “código” (ao qual Dom Quixote se refere várias vezes no decorrer da história), pelo qual se mede a identidade do cavaleiro, é concebido justamente para esse mundo de coincidências maravilhosas.” (BAKHTIN, 2010, p. 269).

A história de um cômico cavaleiro que roda a Espanha em busca de aventuras e de ser reconhecido por seus feitos, além de divertir é uma arma de crítica social. O simples retrato antagônico do cavaleiro, Dom Quixote, um fidalgo como bem diz, com seu escudeiro, Sancho Pança, um homem sem instrução e pobre, já salienta as condições de desigualdades que já existem desde tempos imemoriais. Sancho era a ponte de seu amo com a realidade. Dom Quixote, que detém a fidelidade de seu escudeiro com promessas de presenteá-lo com uma ínsula, era o sonhador. Romântico, tornou-se símbolo do amor platônico e sua história é amplamente estudada e parodiada. Nesse seu mundo fantasioso, que é aquele que ele aprendeu nos livros, pretende realizar fatos heroicos que lhe glorifiquem “e pelos quais ele glorifique também os outros (os suseranos, a dama)” (BAKHTIN, 2010, p. 269). Não é por menos que destina aos que salva a prestar glórias a Dulcinéia Del Tolboso. E também por isso, que promete riquezas e amplo reconhecimento ao seu ingênuo escudeiro, Sancho Pança.

Dom Quixote, ao contrário de Agilulfo é o homem sob a armadura. Ser imperfeito e dotado de sentimentos e cheio de sonhos, como alcançar a notoriedade que seus prestimosos livros de cavalaria prometiam. Agilulfo era o cavaleiro perfeito, com sua alva armadura, esgrima imponente e conhecimento técnico da ordem de cavalaria, representava a impossibilidade da perfeição humana. Enquanto o escudeiro do Cavaleiro da Triste Figura era a âncora de seu amo com a realidade, o escudeiro de Agilulfo era o louco, sem identidade certa, regido por seus instintos primevos. Era o contraponto da racionalidade do Cavaleiro inexistente. Na verdade aquele fazia o papel do bobo, tanto quanto Sancho, aos quais não devemos considerar sem importância na obra em si. Segundo Bakhtin: “não se pode entendê-los (os bobos) literalmente, eles não são o que parecem ser; a existência deles é o reflexo de alguma outra existência, reflexo indireto por sinal.” (BAKHTIN, 2010, p. 276). Não é para menos que ambos os bobos (Sancho e Gurdulu) que assumem o papel coadjuvante destas peças são tão diversos de seus amos.

 Gurdulu não tinha morada nem destino, seguia as armadas de Carlos Magno simplesmente para conseguir alimento. Foi destinado a tornar-se escudeiro de Agilulfo como uma pequena vingança dos companheiros deste último que tanto o invejavam. Sancho entra na história contratado por Dom Quixote para auxiliar-lhe em suas aventuras. Mas ambos os escudeiros assumem o mesmo comportamento na trama, o de contrapor o Cavaleiro a quem servem. Conforme Bakhtin:

“O autor utiliza da figura do bufão e do bobo (que não compreendem a convenção deplorável da ingenuidade), na luta contra o convencionalismo e da inadequação das formas de vida existentes (…) Eles se dão o direito de não compreender de confundir, de arremedar, de hiperbolizar a vida e o direito de falar parodiando, de não ser literal, de não ser o próprio indivíduo, (…) de representar a vida  como uma comédia e as pessoas como atores; o direito de arrancar as máscaras dos outros, finalmente, o direito de tornar pública a vida privada com todos os seus segredos íntimos.” (BAKHTIN, 2010, p. 278)

Não é por menos que as frases mais dignas de crítica social vêm dos lábios de Sancho e não de Dom Quixote. Ao cavaleiro, não é dado reclamar da sorte do povo. Mas eis que o escudeiro, o bobo, é livre para discursar, mesmo que indiretamente, contra a terrível estrutura social. Por tal razão os autores das obras em epígrafe não se desfizeram da possibilidade de conferir escudeiros tão singulares aos seus cavaleiros.

  Enquanto a figura do Cavaleiro da Triste Figura era o do humano; na sobremedida das coisas, do cavaleiro atrapalhado e desajeitado a quem a sorte presenteou com pedras e desacato; Agilulfo era o inumano que procurava a perfeição do homem. O objetivo do de Dom Quixote era estar perto de figuras de sua fantasia. O de Agilulfo, a proximidade de uma condição que é inalcançável. Um é a impossibilidade outro a possibilidade cômica da representação do cavaleiro. Porém, ambos foram perseguidos, um por sua satírica personagem, outro por sua perfeição inigualável. Rimos de Dom Quixote por sua situação de alucinado, de sua busca infrutífera de reconhecimento, e de Agilulfo por sua severidade que nos induz a reafirmar sua inexistência. Quixote está mais próximo de nós. Tão suscetível quanto desajeitado e fraco como nós somos.

Alfredo Bosi considera que “o humor de Cervantes não somente nos faz rir “do Quixote que se lança aos moinhos”, mas refletir sobre “[…] o nosso riso diante deste Cavaleiro da Triste Figura, obstinado em seu sonho de justiça, em perene desencontro com a substância mesma da sociedade humana, compromisso onde ideal e loucura acabam compondo a mesma face.” Afinal, Dom Quixote não apenas desconstruiu o arquétipo tradicional do cavaleiro andante, mas revelou dele uma face desconhecida, que o mostra na fragilidade da sua loucura e da sua fantástica e extraordinária imaginação. Além disso, possuindo uma nobreza ímpar de ideias, palavras, ações e sentimentos, o Cavaleiro da Triste Figura revela a grandeza de caráter dos heroicos cavaleiros dos livros que lera, os quais não mais existem na realidade concreta do seu tempo, o que provoca a ironia e o sorriso sarcástico do narrador, criando o clima de humor da narrativa, que nos convida a refletir sobre a verdadeira natureza humana.” (BOSI apud MICALI, pag.3 )

E Agilulfo, por sua vez, nos leva ao riso em razão do exagerado rigor. É um personagem de comportamento tão nobre e escorreito que só pode provocar a pilhéria de seus companheiros. Era um paladino exemplar, que se destacava por seus feitos e também pelo fato de ser tão somente uma armadura oca e sem vida. Recusa os amores da grande guerreira Bradamante e mantém-se incólume em sua honestidade. É o cavaleiro perfeito, contudo, tem uma falta que não pode suprimir: ele não vive. Em uma parte do livro ao recolher os corpos dos vencidos em batalhas Agilulfo arrasta o morto e pensa:

“Ó morto, você tem aquilo que jamais tive nem terei: esta carcaça. Ou seja, você não tem: você é essa carcaça, isto é, aquilo que às vezes, nos momentos de melancolia, me surpreendo a invejar nos homens existentes. Grande coisa! Posso bem considerar-me privilegiado, eu que posso passar sem ela e fazer de tudo. –Tudo se entende – aquilo que me parece mais importante; e muitas coisas consigo fazer melhor que aqueles que existem, sem seus habituais defeitos de grosseria, aproximação, incoerência, fedor. É verdade que quem existe põe sempre alguma coisa de seu no que faz, um sinal particular, que não conseguirei jamais imprimir. Mas, se o segredo deles está aqui, neste saco de tripas, muito obrigado, não me faz falta. Este vale de corpos nus que se desagregam não me provoca mais arrepios que o açougue do gênero humano.”  (Calvino, 1993, p. 55-56).

A personagem de Agilulfo resta nessa contradição de invejar e ojerizar os vivos. É o cavaleiro inexistente que não pode se gabar nem da Triste Figura que tem Dom Quixote tão logo perde os dentes, (por tal razão, assim sendo nomeado por Sancho). Ocorre que o paladino de Calvino tem feitos a contar e fama dentre seus iguais. Dom Quixote quer ser reconhecido cavaleiro, numa fantasiosa ideia que necessitaria tão somente de ser nomeado e pelejar contra inimigos imaginários, como a célebre passagem dos moinhos de vento. (Gigantes em sua errônea concepção). Tem como elmo uma bacia de barbeiro, uma armadura de lata e um rocim velho e magro que foi rejeitado até pelo vilão que furta o jumento de Sancho.  O desumano herói oco recebe as glórias por seus feitos, o humano e cômico da Triste Figura é recompensado com pedradas pelos que tenta salvar das Galés.

Na paródia Quixotiana, a sátira está em fazer de fábula o real e a de Calvino está de fazer o real de fábula. A última foi escrita por uma freira (no final revelada a linda e valente guerreira Bradamante) a de Dom Quixote, por inúmeros escritores que contaram os feitos “heroicos” desse desastrado cavaleiro. Agilulfo não tinha um amor por quem suspirar, enquanto Dom Quixote criou para si uma donzela a quem dedicar seus feitos: a Dona Dulcinéia del Tolboso, informando mais tarde tratar-se de  Aldonza Lorenzo uma simples camponesa de El Toboso. O amor é um sentimento que humaniza Dom Quixote, muito embora esse venha a ser inventado. Enquanto o fato de não poder amar separa o Cavaleiro Inexistente do gênero humano. O burlesco está representado pela união de dois cavaleiros não convencionais como o são, cada um de sua maneira, Dom Quixote e Agilulfo, a escudeiros tão pitorescos como Sancho Pança e Gurdulu. Afirma Micali:

“Semelhante a D. Quixote e Sancho, Agilulfo e Gurdulu formam um par cômico (carnavalesco) na história narrada, o que se deve, em grande parte, ao contraste físico e comportamental entre um e outro. Especialmente o personagem Gurdulu, por não ter consciência da própria existência, age de maneira extravagante, uma vez que desfruta de liberdade total, não obedecendo a quaisquer regras ou convenções sociais, justamente em oposição ao seu amo, Agilulfo, que vive estritamente de acordo com os preceitos éticos da cavalaria.” (MICALI, 2008, p. 05).

E essa contraposição entre personagens faz de ambas, obras satíricas que ironizam a realidade e as histórias de cavalaria em que se baseiam. Mas há sempre o contraponto, a âncora com a realidade que surge dos personagens do padre e do barbeiro que tentam trazer lucidez para o desvairado Cavaleiro da Triste Figura, e também de Torrismundo que duvida dos feitos do Cavaleiro inexistente, conforme fica claro no seguinte trecho: “Que nada. É tudo história… Não existe ele nem as coisas que faz e nem aquelas que ele diz, nada, nada.”(CALVINO, 1993, p.66). O padre e o barbeiro promovem a queima dos livros que enlouqueceram seu amigo. Torrismundo, o fim de Agilulfo. São esses personagens que tentam subjugar a fantasia nessas duas obras. O homem que existe, se dá conta de sua sandice e o que não existe, que jamais existiu. Esse é o fim dos cavaleiros, dois paladinos da justiça destruídos pelo peso da realidade.

Micali tece uma comparação entre os dois cavaleiros realçando as divergências aqui relatadas:

“Uma comparação entre Quixote e Agilulfo revela uma oposição frontal entre ambos, uma vez que o primeiro é tido como um cavaleiro de carne e osso, i.e., “real” – mesmo considerando o fato dele, estando no plano da realidade, viver mais no mundo da imaginação, ou melhor, no “mundo da lua” –, enquanto o segundo “vive” somente no mundo das coisas concretas, exatas, palpáveis, do mundo real e histórico, embora ele próprio seja pura ficção, uma vez que não existe de fato. Mas, enquanto D. Quixote acredita em bruxas, feiticeiros e nigromantes com seus encantamentos traiçoeiros, Agilulfo é movido apenas por raciocínios lógicos, exatos e imparciais, mostrando-se um cavaleiro objetivo, preso à mais pura realidade.”(MICALI, 2008, p. 07)

O humano e o inumano se antagonizam. Um vive na fantasia e se perde no mundo das coisas impalpáveis, enquanto o outro, que não vive sequer, está preso à realidade e exatidão da razão. Também seus escudeiros se rivalizam. Um finge acreditar nas loucuras de seu amo em função da ínsula que pretende receber enquanto o outro nem sabe se está a seguir Agilulfo, tão insano o é. Muitas vezes se afasta de seu amo, pois com frequência perde o caminho, devido às distrações de sua mente inconsequente. Somente se igualam estes dois singulares escudeiros no tamanho de sua barriga e apetite. Essas discrepâncias e semelhanças contribuem para o diálogo entre as duas obras. Há uma intertextualidade veemente, é certo que uma obra reporta a outra. Talvez tão somente por culpa de Calvino, tendo em vista que Cervantes não poderia conhecer O cavaleiro inexistente do italiano.

O fato é que atualmente não há como ler um desses livros sem se reportar automaticamente a outro. A racionalidade e a loucura, a fantasia e o real. São estes os contrapontos que restam após a leitura e a reflexão dessas obras. Ocorre que não se consegue separar essas características tão discrepantes, que se fundem no decorrer dessas histórias. Não há como discernir entre elas e fica patente que essa era mesmo a intenção dos autores. Conforme a narradora do Cavaleiro inexistente inventada por Calvino ressalta: “[…] ao que relatam cronistas e contadores de histórias se sabe que é preciso fazer ressalvas […]” (CALVINO, 1993, p.74).  O inumano e o humano se contrapõem, pois um está preso à racionalidade dos fatos históricos e outro lançado ao devaneio de uma vida de fantasias. Ocorre que, muito embora se divirjam nesses aspectos, a semelhança de sua busca deixa claro o necessário exame comparado das duas obras: ambos queriam a glória por seus feitos como cavaleiros. Cada um procurava isto a sua maneira. É certo que conseguiram, como comprova o presente estudo, que debate a similitude das desventuras destes grandes heróis literários.

Bibliografia:

BAKHTIN, Mikail, Questões de literatura e de estética, São Paulo: Hucitec, 2010.

CALVINO, Ítalo, O cavaleiro inexistente, São Paulo: Companhia das letras, 1993.

CERVANTES, Miguel de, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, livro I, São Paulo: Editora 34, 2010.

MICALI, Danilo Luiz Carlos, O diálogo entre Calvino e Cervantes no romance O Cavaleiro Inexistente. Disponível em http://www.abralic.org.br/anais/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/003/DANILO_MICALI.pdf

SILVA, Flávio Alves, A metamorfose paródica dos cavaleiros: um breve estudo comparativo. Disponível em: http://flaviodasilva.blogspot.com.br/2008/03/metamorfose-pardica-dos-cavaleiros-um.html

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“Não há memória de que o tempo não dê cabo,

 e nem dor que a morte não consuma”

Miguel de Cervantes, Dom Quixote

Memórias de um futuro presente

Giordana Bonifácio

Muito me seria agradável se a memória não fosse esse mecanismo falho de registrar as impressões do mundo. Acontece que ela converte os fatos, transforma ao seu bel prazer o que sentimos. Às vezes doura a pílula, outras, intensifica a dor. Contudo, nem adianta manter as lembranças por muito tempo, tudo em breve vai se apagar, o passado resta preso ao passado, esquecido nos tempos idos que não voltam mais.  Mas é saudável esquecer. Não seria bom para nossa saúde mental gravar como uma tatuagem as recordações em nós. Tudo há de ser esquecido. A dor vai embora, mesmo a mais intensa, que deixou as marcas mais profundas, vai se esvair com a areia da ampulheta. O tempo é um cicatrizante excelente: as feridas se fecham, as lágrimas secam, o coração volta a bater- livre? Será que também nos concede as chaves que nos libertariam desses grilhões que nos acorrentam? Talvez só modifiquemos os cárceres que nos cerceiam.

Minhas lágrimas, que anteriormente jorravam caudalosas e perenes, secaram e meu coração conformou-se. Estamos menos aflitos, posso assegurar.  E nem mais me machuca um passado feito de sonhos e planos que não se concretizaram num futuro que já é presente. A vida se constrói e reconstrói. Meio apavorados com as incertezas e expectativas, somos cautelosos, andamos lentamente e não nos lançamos abruptamente nos caminhos. Diversamente do que faria Dom Quixote, que, sem pensar nas consequências de suas aventuras, investia contra os inimigos para concretizar a justiça, mesmo que submetida ao seu julgo torto pela loucura. Acho que o mundo seria menos cruel se pudéssemos vê-lo com olhos insanos. A razão retira a mágica que encobre a realidade, (vamos dar asas a nossa fantasia?) É tão difícil pensar… E doloroso existir. Se pudesse montar sobre meu Rocinante e sair da minha zona de conforto para combater moinhos de vento, estaria mais feliz?

O mundo nos esmaga a cada segundo. Doloris rem facilis memoratu est*. Porém, mesmo dela logo nos esqueceremos. O tempo é a borracha mais eficiente que existe. (O tempo existe?) A minhas lamentações são um salto para o futuro. Gravo meus sofrimentos no ciberespaço. Muito tempo depois, retomo estes textos e rio com as dores que passei, quando nem machucam mais. No futuro assistiremos ao passado, ou aquilo que nos resta dele, o que não foi ainda esquecido, e a dor parecer-nos-á menos intensa. Mesmo assim é bem mais fácil recordar das feridas que dos sorrisos. A verdade é que os anos correm acelerados e pressionam nossa mente  com a força que imprime o envelhecimento. Não vou dizer que é agradável a corrida desenfreada dos ponteiros do relógio, mas apenas que é inevitável. O problema é que o tempo nos determina seu ritmo. Estamos sempre correndo. Nunca há, para nós, momentos que possamos aproveitar com atividades prazerosas. A vida desse presente, que já foi futuro, é extremamente penosa e estressante. É o preço que pagamos pela civilização.

Nós refreamos nossos impulsos primevos para que nos tornemos mais civilizados. A grande velocidade da vida nos impede de sermos simplesmente homens. Seres que devem aproveitar de seu corpo como qualquer outro. Porém, nos desfazemos de nossos instintos animais pelo bem da sociedade. E a máquina que governa o nosso mundo é o relógio. O tique-taquear que nos obriga a seguirmos no fluxo da cidade, junto à multidão que segue pelas ruas, correndo contra o tempo e a favor deste. Sem descanso, vamos apagando nossas memórias e evoluindo – todavia, os caminhos por que seguimos não serão nunca os mais seguros – nossa busca pelo futuro faz-nos desprezar o passado. E a experiência dos mais idosos não é sequer considerada. Queremos o vigor dos jovens, a coragem e a presteza que, mesmo importantes, são acompanhadas por insipiência e arrogância. Nossa incrível tecnologia não existiria caso não se levasse em consideração o conhecimento de cientistas de séculos ou, mesmo, milênios atrás. Se tivéssemos apagado completamente nossa memória, não teríamos alcançado esse grau tão elevado de evolução. Chegamos aonde nenhum homem jamais chegou, estamos vivendo um futuro que nos foi prometido nos cinemas e que acreditávamos que jamais alcançaríamos.

O futuro é aqui e agora. E é no passado que encontramos as bases de nosso pensamento. Contra as armas fatais do tempo, construímos mecanismos para manter vivos em nós o passado. Registramos os acontecimentos. Gravamos em folhas de papel os fatos e pesquisas científicas. Agora, com as nossas máquinas brilhantes de códigos binários, as marcas e descobertas de ontem se tornaram indeléveis. São um auxílio ao nosso computador biológico programado para esquecer. É certo que é, para o cérebro, essencial apagar as lembranças. Caso assim não o fosse, seria impossível ao homem sobreviver. Seria necessário termos uma mente muitas vezes maior para registrar todos os fatos e conhecimentos que permeiam nossa vida. Impossível, asseguro-lhes. A magia é irmos mudando constantemente. Aprendendo e desaprendendo. Semeando as palavras para que delas nasçam histórias fantásticas, que logo serão também esquecidas. E isso não é em razão de qualquer intenção nossa. O tempo a tudo apaga. Logo aquela foto amarelada não mais nos significará nada.

Nosso coração é o relógio do nosso corpo. O ar que respiramos é a razão de nossa vida e causa de nossa morte. E não podemos sequer nos negarmos a envelhecer. Em breve, nossos corpos irão sentir o peso dos anos. Envergaremos como a grama sob o vento. E o passado vai conosco para o túmulo. Não temo a morte, mas estou apavorada frente ao inevitável envelhecimento. Por que me creio muito jovem ainda para sofrer os efeitos do tempo sobre mim. Todas as noites eu inquiro ao espelho se há alguma nova marca em meu rosto, mas a imagem que ele me mostra não é aquela que conhecia. De quem é este reflexo que o espelho mostra-me? Não sou eu, não sou eu! Porque as memórias teimam em desmentir-me? Fui eu quem me fez assim. Fomos nós que nos fizemos dessa maneira. Não há como lutar contra esse inimigo invisível e fatal. O tempo existe em nós. Está inserido em cada ínfima célula de nosso corpo. Estamos todos destinados a envelhecer.

A dor que, muito embora seja mais fácil de se recordar, também será esquecida. É composta de grãos de vida a areia que escorre da nossa ampulheta. O tempo que nos resta é, a cada segundo, menor. As lembranças de nossa vida estão fadadas a desaparecer. E nada do que fomos restará aqui. A história é escrita por poucos. A humanidade, em sua grande maioria, permanecerá anônima. Pessoas que passam por este mundo sem deixar qualquer sombra de sua existência. Eu estou perdida nos sonhos porque navego. Não quero ser lembrada. Mais fácil para mim é ser esquecida. Não  quero que se recordem de mim, não se apeguem ao que sou. Porque não sou nada, sou o intangível sonho que foge de nossas mentes tão logo acordarmos. Mesmo que lute contra o tempo, que queira submetê-lo ao meu desejo, eu sei que sairei deste embate vencida e jamais vencedora. A borracha do prosseguir irrefreável dos anos é a força de sua vontade. Não há como escapar. Sou um pequeno Davi enfrentando o poderoso Golias. Não há como derrotar esse gigante. Melhor seria conformar-se com nossa sorte. Não tentar limar as marcas que o tempo deixa em nossos rostos com cirurgias dolorosíssimas, não enriquecer as indústrias, comprando cremes anti-idade cujos efeitos são tão somente paliativos. E não sofrer com o passado que se foi e com as memórias de um futuro presente. A temporariedade de nossa existência é um fato da vida. Mesmo que jamais estejamos preparados para o inevitável e improrrogável fim.

*A dor é coisa fácil de ser lembrada.

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