A história real

Giordana Bonifácio

Nenhuma palavra. Um som? Uma música distante ainda se ouve em meio ao barulho dos computadores e impressoras. Um dia ainda fui assim… Digo aflita sem querer fazer-me escutar. Como? Desse jeito, oras. Uma mulher que se entregava a tudo e todos de corpo e alma, mas nem se dava conta do mundo que a cerca e do seu papel nele. Hoje sou diferente, pode crer. Agora não me troco por qualquer coisa. Será que permite que eu fume? Tem um cigarro? Pode acendê-lo? Obrigado. Então, eu era um projeto mal-acabado de gente. Uma pessoa submissa e fraca. Nem sou mais assim. É, valorizo-me mais. Não sinto falta dele. Ouviu? Quando ele chegava com o corpo pegajoso de suas orgias nos puteiros e vinha me beijando com um hálito podre de cachaça eu sentia nojo dele. Asqueroso.  Um homem pútrido. As crianças ficavam envergonhadas de apresentá-lo as suas amiguinhas. Ele estava sempre bêbado, com roupas exalando a suor e cigarros. Ele nem se dava o trabalho de banhar-se. Fedia como um porco. Se sinto pena das crianças? Claro, não mereciam isso. Eu não merecia isso. Sabe, eu estudei, fiz um curso técnico em radiologia. Tenho estudo. Não sou uma qualquer.

Se quando eu o conheci ele era diferente? Era, na verdade, ele era um projeto do que viria ser. Mas, naquela época… Bem, você sabe que as mulheres têm uma predileção por cafajestes, não é? Ninguém se envolve dessa maneira por acaso. Ele era o mais assediado da cidade.  E isso me fez procurá-lo. Eu queria-o para mim, para causar inveja nas outras garotas. Afinal, ele era muito bonito. Um homem de pegada… Será que você me entende? Era tudo muito bom no início, o casamento foi simples, mas eu estava tão feliz, que nem me faria qualquer diferença uma festa estonteante ou um bailezinho mixuruca no quintal de casa. Porém, quando engravidei de nossa primeira filha os problemas foram crescendo. As ações estimuladas na adolescência não cabem na vida adulta. Beber até cair e virar a noite em festas e boates não é algo que se espere de um pai de família. Quando Letícia, (nossa filha mais velha), nasceu ele nem apareceu no hospital para ver o bebê. E fiquei enfurecida. Foi nossa primeira grande briga. Eu aguentei tudo, quietinha, na minha, mas chegou ao ponto que era insuportável permanecer calada. Foi a primeira vez que ele me bateu. Cortou-me os lábios com um soco. No hospital, inventei que tinha caído no banheiro no momento que fui suturar o corte. Quando voltamos para casa, ele chorou e, de joelhos, prometeu-me que iria mudar. Tudo seria diferente a partir de então. O problema é que eu acreditei. Não se importe com essas lágrimas. Nem me dói mais. Não mais.

E, depois, as bebedeiras tornaram-se mais frequentes. Eu já apanhava quase todos os dias. Ele quebrou-me o nariz, quando reclamei que ele havia “bebido” o dinheiro do remédio de nossa filha do meio. Ela estava queimando em febre fazia dias. E ele tinha conseguido o dinheiro necessário para o medicamento num bico naquela tarde. É, tive de usar a mesma desculpa, a que “caí” no banheiro. Nessa época ele já estava gordo e asqueroso. Quando dormia com ele me repugnava o modo que ele punha as mãos dele entre minhas coxas. Então, comecei a recusar-me. Não o desejava mais. Não queria sentir seu cheiro nojento. E ele foi à busca de prostitutas. Gastava o que não tínhamos em cabarés. Mesmo assim, me forçava a manter relações com ele. Eu chorava, ele batia-me. Eu gritava, ele sufocava-me. Eu fugia, ele me perseguia. As crianças ficavam assustadas. E tive de engolir tudo em nome delas. Assim nasceu nossa última filha. E ele passou a humilhar-me pelo fato de não haver lhe conferido um varão. Ele dizia-me que eu era uma “mulatinha sem-vergonha”. E que era meu dono. E que iria parir para ele até que pudesse ter o filho homem que ele queria. Foi então que as agressões passaram às nossas filhas. Ele espancava as pequenas sem dó. Eu nem podia fazer nada, entende? O que fazer? Ele era pai, não poderia tirar a autoridade dele. E as meninas passaram a temê-lo. Não trocava uma palavra com elas se não fosse com violência ou humilhando-as. E elas cresceram com essa mácula na vidinha delas. E eu não pude fazer nada. Se fizesse seria em mim que ele descontaria toda a fúria. Estava cansada de apanhar.

Você compreende tudo por que tive de passar? Ele violentava-me. Ele agredia-me. Eu não tinha escolha! E quando voltava bêbado, quebrava tudo, batia em mim e nas meninas. E fui me cansando. Eu queria mais. Eu merecia mais. Ele diminuiu-me muito. Quando terminei os estudos, foi extremamente pior. Ele não queria que eu trabalhasse. Dizia que se começasse a trabalhar em breve estaria o abandonando. E que isso ele não permitiria. Não se propunha nem ao menos a dizer alguma coisa agradável. Chamava-me de puta e de “negrinha nojenta”. Uma vez, ele deu-me um safanão que derrubou o jantar no chão. Ele obrigou-me a comer o frango ao molho derramado. Esfregou meu rosto na comida que tinha caído, tudo na frente das meninas. Quebrou o que estava ao alcance. E empurrou Gisele (nossa filha mais nova) com tanta força que acabou por quebrar o dedinho dela quando caiu. E novamente o piso escorregadio do banheiro foi a razão desse novo “acidente”. Gisele ficou com um gesso horrível no braço por duas semanas. O pior de tudo é que eu nem reagi. Quando ele avançou sobre as meninas, eu temi por mim. E fui omissa quando elas mais precisaram de mim. Não as defendi, permiti que o traste de meu marido as ferisse por tempo demais.

E foi quando voltei a reagir. Ele me batia, eu revidava. Ele tornou-se mais violento do que nunca. Principalmente com as garotas. Ele se convertera num animal imundo. Um sapo pegajoso, um porco fedorento. Era isso que ele era. Sempre me forçando a deitar com ele. Ele tocava-me com aquelas mãos, se precipitava sobre mim com aquele corpo. E abria minhas pernas, rasgava minhas roupas. Sentia-me suja. Nem sabia que o pior ainda estava para acontecer. Tínhamos pouco e sobrevivíamos às mínguas. Lúcia, (nossa filha do meio), precisava de livros para escola; Gisele era alérgica e os remédios estavam muito além de nossas possibilidades; Letícia havia crescido muito e não havia roupas que a coubessem. Nós sempre reaproveitávamos as roupas, mas como ela era a mais velha, não tínhamos como vesti-la. Ela estava uma mocinha, já despontavam seus primeiros traços de mulher. Era muito bonita. Uma moreninha maravilhosa. Convidaram-na para fazer fotos. Mas o meu… Marido, não permitiu. Disse que não criou uma filha para ser puta. Nós estávamos precisando tanto… Não tínhamos nem mesmo o que comer. Nós procuramos um médico que lhe diagnosticou o alcoolismo. Porém meu marido recusou-se a parar de beber. Não aceitava sua condição. E prosseguimos naquele cotidiano de privações.

E o pior, como disse, acabou por ocorrer. Finalmente, ele aceitou que eu trabalhasse. Já não o contratavam nem mesmo para bicos. Estava num grau do alcoolismo que não conseguia sustentar seu próprio vício. Eu tive de trabalhar como caixa num supermercado vinte e quatro horas. Eu trabalhava por escalas, e, naquela noite, peguei o turno noturno. Não pude receber as crianças quando elas chegaram da escola. Tive de confiá-las ao meu marido. E ele agiu como o monstro que ele realmente era. Abusou da Letícia. Eu encontrei-a sangrando e chorando no quarto quando cheguei do trabalho. Você pode imaginar o que ocorreu? A minha filha tão inocente, sendo deflorada pelo próprio pai aos doze anos? Uma menina tão delicada, magrinha, e sensível, com aquele ser detestável sobre seu corpo esguio. Ele tocando os peitinhos nascentes de nossa princesinha. E empurrando para dentro do uterozinho pequeno de minha Letícia, aquele… Troço! Eu não tive como me controlar. Eu abracei minha pequena e soluçamos juntas por horas. Ele havia saído para beber. Quando voltou caiu sobre o sofá e dormiu como uma pedra. Eu tinha ódio nos olhos. Era meu dever de mãe fazer algo. E foi o que eu fiz. Fui à cozinha e peguei o álcool no armário. Derramei todo conteúdo do recipiente sobre o corpo nojento daquele troglodita. E sem mais demorar-me, ascendi o palito de fósforo e arremessei-o sobre o meu… Marido. Quando as chamas se espalharam ele gritava igual a um porco no matadouro. E foi por isso que acabei aqui. Os vizinhos chamaram a polícia e os bombeiros, nenhum dos dois chegou a tempo. O traste já havia morrido quando “os homens” apareceram. E eu fui detida pelos policiais e trazida até aqui. E no momento estou depondo sobre o assassinato do homem desprezível com quem me casei. Silêncio. Ainda ouço bem longe a música, porém o barulho dos teclados dos computadores e impressoras ainda é mais forte e contínuo. Enxugo uma derradeira lágrima e determinam que voltasse para a cela. Só consigo pensar nas meninas, como estariam agora?

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