Essa crônica não é sobre solidão

Giordana Bonifácio

Sentada em frente à máquina de escrever vou perquirindo-me as razões para escrever. Ou será que tenho de fazer o contrário: evocar as razões para não escrever? Sei que aqui nessa cidade quente onde a maresia preenche-me de sonhos, não encontrei ainda respostas para nenhuma dessas duas questões. Nem sei por que escrevo e nem o que me proíbe de fazê-lo. Há tantas histórias a se contar. Às vezes se escreve apenas, sem saber o porquê. Como abrir as comportas de uma represa, de repente uma onda de sentimentos lhe assalta e leva. Já perdida nessas corredeiras perigosas, às vezes é desespero só. Solidão também, mas nem quero falar dela. Sabe quando se discute amplamente um assunto e mesmo assim não se encontra qualquer solução para ele? Então, eu acho que foi isto o que ocorreu entre mim e a solidão, estamos inconciliáveis. Não adianta, jamais nos entenderemos.

Por isso, me sentei frente à máquina sem quaisquer planos. Não quero mais me entregar à fria análise da solidão. Talvez de outros sentimentos, mas o amor é algo tão explorado que talvez não encontremos nada original a se dizer.  Poderia abrir-me ao sentimento inusitado de estar tão longe de casa e tão fora de minha zona de segurança e adentrar-me nas questões mais ilógicas que nascem do impossível. Uma desordenada fonte de adjetivos, posso simplesmente adotar um para cada substantivo, e tentar encher de mentiras um texto que não quer nem mesmo vir ao mundo. Minhas idéias colidem como se estivessem em movimento, circundando-me a cabeça. Umas e outras se encontram provocando fissuras no tecido de minha imaginação. Como se daria em uma explosão atômica. Dizem que a bomba explode minutos antes de cair no solo. Acho que, nesse curto período, já detonei boa parte do meu arsenal criativo.

Sem idéias para fazer surgir a poesia em prosa. Sem dores para lamentar a perda. Sem objetivos a perseguir. Esse texto é um tanto assim de mim. Outro tanto de vocês. Os espaços em branco vocês podem preencher com qualquer coisa. Mesmo que nem combine, pois isso aqui não é moda que exija cuidado na colocação das peças. Não vou sequer sair mostrando o que escrevi e o que vocês sobrescreveram. Só um tantinho assim de som, se fosse possível, gostaria que me permitissem escolher. Uma canção do The Smiths, pedindo que ao menos uma vez fosse lhe fosse conferido o que ele (o compositor) queria. Ou a mentira alardeada pelo The Cure que garotos não choram. Se me permitissem seriam essas músicas a que faria simples referência. Vejam: nem as letras transcrevo aqui. Só queria mesmo anexar uma possibilidade, mesmo que mesquinha, de escolher a trilha sonora de minha vida.

A noite cai calma, pesada, como se o olho de Deus, a bola chamejante que nos confere vida, fechasse-se para que o olho enigmático da noite, a lua prateada, cuja luz é empréstimo das estrelas, surgisse imponente. Engana essa face poderosa e sóbria do satélite. Nem possui nada a lua. Ela é tal qual nós que, aqui na Terra, estamos sempre a perseguir bens que na verdade não serão nossos jamais. Tudo que temos em vida deixamos na morte. Nem adianta arrastar conosco o que julgamos pertencer. Não será possível disso gozarmos para onde formos. Não sei para onde vamos e se vamos realmente. Não sei se tudo finda num eterno vazio. (Lembram-se da ponte entre dois nadas? Como diria Caio Fernando Abreu?) O real é que nada do físico que possuímos nos acompanha. Nem mesmo essa máquina de carne e osso que nos é conferida em vida será mantida após a morte. E nesse ínterim, que é o espaço entre o nascimento e o desditoso falecimento, o que é necessário é gozar de uma boa saúde para que viver não nos pese de modo a lamentarmos o nascimento ou desejarmos a morte.

“E crescer intelectualmente? E buscar a satisfação de nossa ambição? E a fogueira das vaidades que alimentamos sempre com lenha nova? Isso não é importante?” Podemos satisfazer todas essas necessidades talvez nos sintamos um tanto mais felizes, mas o problema dessas vontades é que elas nos corroem como um câncer. Nunca nos contentamos com o que possuímos. Sempre queremos mais e mais. Por isso, nem queiramos para nós poderes, bens ou imortalidade. Nem vale a pena. Creio que deixo um tanto de mim gravado eternamente na história. O que farão com essas folhas rotas de sonhos? Nem sei e nem procuro sequer saber, que fiquem com esse pedaço de mim que já a muitos despojei de grande parte do que são.

Vamos assim, brincando com as palavras, sem querer nada no fim. Apenas sentir o que há para se sentir, sorver o quer há para se sorver. A água do mar tem gosto salgado de infinito. Será que posso fazer-me misteriosa como os oceanos, guardando em mim Atlântida, cidade de promessas, mito criado para entreter velhos marinheiros? Posso até ver-lhes à noite, conversando sobre as belezas de uma civilização moderna no seio do oceano. Mas em cujas praias nenhum navio jamais aportou. Esse foi um mito anterior ao do Eldorado, que ascendia a cobiça dos homens. Encontrar uma cidade de ouro, tornar-se o mais rico explorador dos Oceanos, quantos pobres navegantes sonharam com essa remota possibilidade? Mas temos de admitir: esses mitos perseveram na modernidade!

Podemos falar de todo esse universo de fantasias que cobrem o fantástico imaginário popular: de inicio os mitos eram a religião vigente. Heródoto os cantou muito melhor do que eu os posso falar. Sei que o mundo foi fruto da voracidade de um Deus que se alimentava de sua prole. Depois, vieram outras religiões que transpuseram o mito para o lugar que hoje lhes foi conferido. São apenas crendices, desprezam alguns. E novas histórias foram penetrando no terreno dos sonhos dos homens, se unindo a uma série de outras que já existiam se misturando e explicando, essa é a mágica da fantasia.

 Agora os homens, que olham para o céu, querem ver vida fora de nossa casa. Olham para as estrelas a espera que exista uma Atlântida perdida no espaço. Quando a Terra se tornou pequena para nós, fomos à busca de algo maior. Então, desbravamos o que nos foi possível alcançar do espaço, mas não temos ainda tecnologia suficiente para descobrir mais sobre o universo que nos cerca.  Por enquanto o vazio ainda nos é uma incógnita. E num misto de medo e curiosidade ficamos a esperar a visita de alguém que desconhecemos e que não chega jamais. Será possível existir vida fora desse mundo e será possível alcançar-las? Será que devemos temer-las ou elas a nós?

 Fui abrindo o campo de questões que trataria nesse texto, fui do minúsculo eu para o limitado nós e, tão logo me foi possível, caminhei para o infinito quem sabe… Nem sei se era isso mesmo que queria dizer.  As palavras foram surgindo e fui pescando-as aqui e ali. Se queria apenas fugir da solidão, não o sei, se queria uma desculpa para não falar da maresia que úmida se embrenha nos meus cabelos e adere à pele, talvez não tenha sido um grande projeto. Muito melhor falar sobre aquilo que conhecemos. O que sentimos realmente. Ou isso ou falar da dura dor da morte que nos toma tudo inclusive a vida. Talvez, bem mais fácil que seguir pelos oceanos com os piratas e marinheiros de séculos atrás, encantados com a possibilidade de riquíssimas civilizações.

Melhor seria não ter chegado a cogitar a existência de seres em outros mundos, porque aqui estamos tão, mas tão sozinhos, que necessitamos que houvesse alguém que nos explicasse porque na vida e na morte estamos abandonados frente ao desconhecido. E se esperamos que essa resposta surja do céu, numa colorida e esquisita espaçonave, talvez nos seja obrigado esperar para sempre. E se tudo for apenas um mito? Seria a solidão apenas um mito também? Será que havia um anjo assim, um tanto torto, que no nascimento nos tenha proposto: vá ser gauche na vida? E será que esse mesmo anjo bobo, que nos lançou no mundo, vem depois tomar nossa mão e acompanhar-nos na morte? No fim, navegamos por mares e universos, (que o espaço também foi feito para se navegar), para terminamos no assunto que resolvemos de início descartar. A solidão nos persegue, como se estivesse presa ao nosso ser com a força de um imã. Ela nos diz: não os abandonarei. E, como péssima companhia que é, dela queremos nos livrar a vida inteira. Eu sei que não a compreenderei jamais. O que me consola é que não sou a única a viver em embate com ela. Sei que a maior parte das fantasias que criamos é unicamente para diminuir a dor de nossa profunda solidão. Por isso olhamos para nossas dúvidas e perguntamos: será que estamos realmente sozinhos, para sempre?

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