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Uma sementinha de música

Giordana Bonifácio

-Muita coisa nesse mundo está errada… Disse a menina encolerizada.

A mãe nem mesmo prestou-lhe atenção, tão ocupada estava em calcular as contas do mês.

A criança repetiu mais uma vez, mas desta vez num tom mais alto para que pudesse se fazer ouvir.

-Muita coisa nesse mundo está errada!

A mãe despertada pela irritação da criança, sem muito interesse perguntou:

-O que estaria tão errado para deixá-la tão contrariada?

-As pessoas não se escutam mais, parece que estão o tempo todo tão ocupadas que não conseguem ouvir nada a sua volta. Eu queria plantar uma sementinha de música no coração de cada um para que assim, quando estiverem a discutir, pudessem sentir que o mundo não está resumido a sua raiva. Não é, mãe?

Mas a mãe já voltara a entreter-se com as contas. Simplesmente ordenou a criança que escovasse os dentes para recolher-se que amanhã era dia de escola. A menina ficou ainda mais enfurecida. Já havia discutido na escola a questão que tanto lhe afligia. Até mesmo a professora estava tão preocupada em ensinar o conteúdo didático, que nem escutava um singelo som de flauta que se elevava no perímetro da escola. A menina, curiosa e desbravadora, tentou localizar onde estaria o instrumento do qual surgia tão bela música. Mas, ao desviar a atenção da aula, foi logo repreendida pela professora que não queria saber “por que, afinal todos estavam ali para aprender.” Será possível que a docente não houvesse escutado a música? Será que o mundo está assim tão diferente do que costumava a ser, de modo que ninguém possa sequer escutar o que a arte tem a dizer? Lançam-se em danças estúpidas com barulhos ensurdecedores, (porque nem se pode chamar isso de música), mas ao som adocicado da flauta não conseguiam escutar. Será que o belo foi substituído pelo bizarro? Será que é uma doença que impede aos adultos de ouvirem o que os outros têm para dizer, tão acostumados ao ruído, estão?

Foi pensando assim que a pequena garota foi para cama “cheia de caramiolas na cabeça”. A mãe apareceu para beijar-lhe o rosto desejá-la boa noite. O pai também veio ao quarto da criança para afagá-la antes de dormir. A menina até tentou mais uma vez chamar atenção para os problemas que cogitava, mas nenhum dos pais pareceu sequer interessado. “Adultos…” Pensou. Então, tentando lembrar-se da música que ouviu tão distante naquele dia, da qual sem resultados tentou encontrar a fonte, adormeceu e sonhou. No sonho, havia uma pauta com suas linhas e notas musicais sobre as pessoas, contudo essas nem a percebiam.  Continuavam suas vidas, sua rotina estressante, sem se darem conta do que havia sobre elas.  Na rua, o engarrafamento e o som característico das buzinas parecia hipnotizar aos homens e mulheres que estavam dentro dos carros.  E, não muito distante, duas pessoas discutiam e vociferavam acusações. Elas também não enxergavam o que havia sobre si. Assim, foi caminhando, e para todos os lados, as pessoas perdiam-se do som, tão acostumadas estavam ao ruído. No radinho do moço na praça, uma canção apelativa e desprovida de beleza também se unia ao barulho ensurdecedor das ruas. E sobre tudo isso estava a pauta, repleta de notas musicais. Pareciam frutos pendentes de uma árvore. A triste realidade é que tudo indicava  que não seriam sequer colhidos.

Observava as notas caírem sobre o solo, esquecidas ou desprezadas. Essa gente toda, não dá nenhum valor para a música sobre si. A menina estava tão perplexa com a situação que resolveu agir: elas não devem ter percebido a canção porque ela não se faz ouvir. É necessário fazê-la tocar. “Mas como?” Indagou-se. Será como uma música no Ipod que para soar deve-se apertar o play? Então, sem saber muito bem o que fazer, a criança chegou à origem da pauta, onde está localizada a clave de sol e, num misto de intuição, também porque o sonho era dela, desejou que ao tocar a clave a canção iniciasse. Foi assim mesmo que ocorreu, ao tilintar o início da pauta, o som da flauta soou sobre a cidade. Mas as pessoas estavam tão entretidas com suas próprias vidas que nem assim a pareciam escutar. A menina sentiu muita tristeza de ver uma canção tão bonita ser desprezada. E sentou-se no meio-fio sem idéias do que fazer para que as pessoas também pudessem desfrutar do som que ela ouvia. “Gente burra!”. Resmungou. “Será que não conseguem observar a beleza a sua volta?” É verdade, pois ao tocarem, as notas escritas na pauta se iluminavam e ficavam douradas, mas ninguém mesmo se dava conta do espetáculo que ocorria sobre si. “Somente eu vejo isso?” Tão chateada estava que pensou: “devo ser mais enérgica”. O que faria? Nada mais que avisar as pessoas sobre o que se passava bem acima de suas cabeças. Foi até o homem no congestionamento e tentou chamar-lhe atenção para a pauta. Contudo, esse nem lhe deu crédito.

-Menininha, não vê como estou ocupado?

Porém, nem com essa primeira tentativa infrutífera ela se deu por vencida. Foi até o homem do radinho, às pessoas que discutiam e ao dono da loja, àqueles que liam jornais na banca de revista e também à dona de casa que varria a calçada. Mas sabem como são os adultos, não? Eles não dão qualquer crédito às palavras das crianças. Nem sabem do grande discernimento de realidade que possuem. Na verdade, julgam-nas como pessoinhas sem qualquer razão, que devem somente brincar e não se meterem em assuntos de adultos. “Gente esquisita!” A menininha pensou consigo. Todavia, nem assim se deu por vencida. “Deve haver um modo…” Murmurou. E sentou-se novamente no meio-fio para tentar “desanuviar as idéias” como se diz. Então uma nota musical se desprendeu da pauta e caiu ao seu lado. A menina teve uma surpresa ao perceber que mesmo distante daquela, a nota iluminava-se ao chegar sua posição na música. E teve uma idéia brilhante, em todos os sentidos. Subindo nas árvores, nos muros, nos bancos, foi colhendo todas as notas da pauta sobre a cidade. “Agora quero ver não me darem mais atenção… Esses adultos perceberão que não são os senhores-sabem-tudo. Não conseguem, na verdade, ver um palmo diante do nariz.” A menina foi distribuindo as notas entre as pessoas que seguravam o presente meio sem saber do que se tratava.  Mas para não contrariar a criança, guardavam no bolso ou ficavam com aquilo na mão sem saber como empregariam aquele estranho objeto.

A menina teve um trabalhão para distribuir as notas. Tinha gente que queria mesmo era amassá-las e jogá-las no chão. “Gente mais mal-educada!”. Sussurrou, e pegando a nota amassada no chão reconduzia-a a mão do homem que tão energicamente a havia descartado. E falava-lhe:

-Não a desperdice, verá que é muito útil.

E foi disseminando a música entre as pessoas como quem distribui emoções por onde passa. Cada um, segurando um pedaço de sonho. Ela exultava de alegria. Estava dormindo e tudo isto era pura fantasia, tinha certeza, mas se sentia tão bem, como se na verdade pudesse se fazer perceber, mesmo que se tratasse só de uma criança. Ninguém dá crédito a invenções infantis. E quando alguém age mal, logo o discriminam: é muito criança ainda… Por que essa gente não consegue conceber que é na infância que se constrói o adulto? E se não conseguem compreender uma simples menininha, como o farão quando ela se tornar uma mulher? É isso que ela não entendia ainda dos adultos. Sempre ocupados e atrasados, tão entretidos com os afazeres que não podem sentir a música a sua volta. A menina, com a clave de sol na mão, tocou ao objeto brilhante e de consistência assemelhada ao metal com um graveto de modo que ao ressoná-lo, espalhasse música pelas notas que as pessoas seguravam. E foi espantoso, parecia que todos finalmente ouviam a música da flauta doce, chegando em ondas concêntricas à vizinhança, às lojas e prédios. Cada um transportava consigo a mais solitária das emoções. É mesmo fantástica a intensidade dramática de uma flauta, sempre melancólica como o sopro de um marinheiro no meio do oceano. A menina, feliz que o ruído do cotidiano tivesse sido finalmente substituído pelo som maravilhoso da verdadeira música, nem ficou chateada quando a mãe veio despertá-la que já era hora de ir à escola. E uma surpresa maravilhosa ainda a aguardaria na sala de aula: a professora estava ao lado de um velho senhor que portava uma linda flauta de madeira. Ele estava se apresentando de sala em sala naqueles dias, afinal, abrira um curso de flauta doce e estava convocando estudantes para iniciarem-se no instrumento. Não é preciso falar o assunto que a menininha abordaria com a mãe assim que chegasse da escola, não é?

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