Quando as circunstâncias mudam…

Giordana Bonifácio

Eu nem sei o que me leva a escrever sobre esse garoto. Estava aqui a pensar nele. E resolvi que estava na hora de acordá-lo. Acho que o deixei reinar tempo demais dentro de mim. Esse garoto, na verdade é quase um homem, chamo-o de pavor, pois é o produto de meus medos. Vejo-o tremer, sinto sua pulsação acelerar. E ele faz-se presente nas horas mais críticas. Eu era tão diferente no passado… Lembro de quando ele nem existia. Acho que perdi minha coragem, uma moça bonita e forte, que conhecia muito bem na infância, e que sumiu de minha vida tão abruptamente quanto o pavor entrou. E agora, vou nutrindo esse estranho conhecido, conferindo-o a força que me era necessária para mudar, para crescer, para viver enfim. Esse jovem, que se desenvolve no meu espírito, rouba meus sonhos e metas. Desfalca-me de componentes essenciais para seguir em frente, abandonando de vez o passado. Uma característica desse parasita é que ele possui uma âncora que o impede de simplesmente prosseguir e também ao organismo hospedeiro. Ficam todos os dois retidos num mundo que não existe mais. Nós dois encarcerados na memória. Ele, ao menos, me faz companhia quando a solidão se prolifera a minha volta. E com essa travo discussões imensas. Ela a todo custo quer dominar-me, fazer-se mais e mais intolerável quando tudo está ausente. Ficamos as duas tentando defender nossas perspectivas. No fim, ela sempre vence, mas tento me fazer forte. Eu que sempre fui difícil de ser domesticada, detentora um coração selvagem e franco, começo a crer que, tanto eu quanto ele, estamos sendo vencidos pelas circunstâncias. É que sinto uma verdadeira revolução em mim. Sabe, fico pensando: a rotação do mundo cria dias e noites, a translação, por sua vez, as estações do ano. Mas cada segundo faz-se totalmente diferente do outro. O pulsar do coração conta o nosso tempo na terra. E o relógio, um tempo que não existe realmente. E as mudanças inevitáveis acabam por influir no que sou.

Sei que não ficou muito claro. É que meu coração. Esse animal indócil que trago no peito agora está se acostumando a ser bajulado, a alimentar-se nas mãos das pessoas que se aproximam. Estaria até balançando o rabinho, como um filhote, caso tivesse um. E, assim, está desaprendendo a caçar sua liberdade, a esconder-se dos terrores do mundo. Se acostumando a ver nas pessoas não o inimigo, o predador perigoso a quem deve evitar, mas seres de quem pode receber algum afago. E o pavor, o pré-adolescente que cultiva minhas plantações de medo, ajuda-o a fixar-se no confortável presente. O que há muito deveria já ter sido abandonado, ainda está preso a minha vida. E a coragem, a quem deveria resgatar, permanece desaparecida. Assim, convivendo com um coração cada vez mais domesticado, e com um rapaz intransigente e fraco, sinto que estou a perder um tempo que não possuo. As pessoas já não confiam no meu futuro. Eu, a quem antes costumavam invejar a dedicação, estou sendo alvo de chacotas e desprezo. Olham-me de cima como se fosse tão minúscula que não me pudessem observar de frente. Sabe, fico andando em círculos, sem saber para onde ir. Se deveria mesmo ir ou se ficar seria a decisão mais sábia. O pavor fica tão eriçado nos momentos que tenho de tomar uma decisão difícil. Acabo por fugir das dúvidas. Assim, mantenho-o calmo e meu coração adormecido. Este último costumava a pulsar freneticamente, era a emoção que o comandava, sabe, aquela prima-irmã da coragem?A adrenalina, a filha do perigo e contraditoriamente irmã do pavor, ajudava-me nas questões mais intricadas. Mas com a coragem, foram embora a emoção e a adrenalina, só restaram o perigo e o pavor. A esperança foi abandonada lá no fundo. Quietinha, fica lançando desejos que o pavor rechaça violentamente. Esses meninos, não se dão mesmo… Não adianta nem tentar fazê-los conviver pacificamente. Estão sempre brigando entre si. Querem mais atenção, mais dedicação, mais isto, mais aquilo… Contudo, devo abandonar esses sentimentos e não quero sequer alimentá-los. Sinto falta da coragem, mas parece que não há como trazê-la de volta para casa. Está muito melhor sem mim e todos esses seres que me habitam.

Fico pensando no que deve ter acontecido para eu ter me tornado um ser tão diferente do que era. Eu fui alguma coisa, hoje não sou nada. Eu sentia algo, hoje não sinto nada. Eu costumava sofrer, hoje a dor não mais me dói. Eu também sou o resultado de algumas condições não muito propícias para desenvolver certas características que em qualquer um seriam essenciais. O engraçado que pude me valer sem elas. Ou quase… Por exemplo, o amor próprio. Nossa, desse nunca sequer ouvi falar. Sei que existe, algumas pessoas cultivam-no com tanto afinco que chega a se tornar maior que qualquer outro sentimento que possuam. Generosidade e compaixão são expurgadas das suas vidas para dar mais espaço ao seu egoísmo. (Muitas vezes, o amor próprio em demasia converte-se em egocentrismo, então as pessoas não conseguem ver nada além de sua própria conveniência. Conheço gente assim…) Mas já me disseram que um pouco de amor próprio é muito bom também. Claro, se o pavor não houvesse crescido tanto, haveria espaço para qualquer outra coisa no meu espírito, mas sabe como são esses jovens, não é? Espaçosos, presunçosos e insaciáveis… Queria que fosse diferente, até cultivei um tanto assim de amor próprio, mas quando percebi eram apenas sementes de ilusão que havia semeado. Então, pensando bem, se fizer o medo acomodar-se num canto menor de mim, talvez sobre espaço para coisas mais significantes que me fizessem desvencilhar da âncora que me prende a essa praia. E possa, enfim, voltar a navegar por oceanos mais bravios. Estou cansada de esperar, tenho de fazer algo para sair dessa posição cômoda, de manter-me num estado de dormência que outrora não me era comum. Fui tão sagaz, viram-me lutar contra os monstros mais assustadores. A coragem acompanhava-me nos embates mais fabulosos. E agora, onde ela está?

Mas sei que alguma coisa já está diferente, pude finalmente falar desses seres parasitários que me habitam e me sugam. Eles roubam-me o vigor e desenvolvem em mim a terrível doença da covardia. Já estou bem familiarizada com os seus sintomas: taquicardia, lentidão ou a ausência total de movimento, suores e manutenção de um estado ruim por tempo indefinível. Não conheço remédio efetivo para expurgar de mim esse monstro que me corrói por dentro. Seria necessário um tratamento intensivo, com vermífugos eficazes seria até possível restaurar a coragem que se encontra, há muito, sumida. Outro medicamento muito utilizado é tentar mudar com as circunstâncias. Não fazer-se desafeto das transformações. Como se diz: “tempora mutantur nos et mutatur in illis”¹ ou “tempora mutantur et nos mutamur in illis”². As duas expressões pouco se diferenciam, cabe escolher se quero mudar nas circunstâncias ou com elas. O necessário mesmo é mudar. Não me manter nessa zona de segurança a que estou tão acostumada. Estou tão afeiçoada a minha âncora que me impede de partir e ao pavor, meu companheiro por tanto tempo, que até me esqueci das feições da coragem a quem devo resgatar. Porém, tenho de vencer de algum modo. Vencer as previsões pessimistas que me cobrem. O desprezo que as pessoas têm por mim. O desespero de não ter forças suficientes para ser mais do que sou ou fui. A vergonha de ter estado presa por minha vontade. E a realidade que dificulta o caminho que devo percorrer. No sonho, tudo segue às mil maravilhas, vai tentar falar assim para o real. Muito mais complicado, não é? A gente fica meio envergonhado de dizer o que deseja de verdade. As pessoas sempre desmerecerão o objetivo mais iluminado. O problema será persistir. É necessária perseverança, essa também meio aparentada com a mencionada coragem. Uma necessita da outra. Ou seja, é necessário ter coragem para perseverar. E é necessário perseverar para ter coragem. O mistério é que não tem mistério algum. Está tudo em você. Mesmo que soe meio piegas num primeiro momento. “Como? Estão em mim todas as soluções? Impossível!” Eu sei, é difícil de acreditar. Eu também não conseguia enxergar o enigma da Esfinge, mas perseguindo a minha coragem pela estrada de tijolos amarelos, resolvi a charada mais intricada. O desejo de vencer o medo é o primeiro passo para resgatar a coragem de que fui desfalcada.  Por isso despertei meu pavor, para encolher um pouco suas proporções, para abrir um lugarzinho onde pudesse plantar a semente de coragem que encontrei no mais árido dos ambientes: o meu próprio espírito.

  1. As circunstâncias nos mudam e mudamos nelas.
  2. As circunstâncias mudam e mudamos com elas.
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