Arquivo do mês: fevereiro 2012

A história real

Giordana Bonifácio

Nenhuma palavra. Um som? Uma música distante ainda se ouve em meio ao barulho dos computadores e impressoras. Um dia ainda fui assim… Digo aflita sem querer fazer-me escutar. Como? Desse jeito, oras. Uma mulher que se entregava a tudo e todos de corpo e alma, mas nem se dava conta do mundo que a cerca e do seu papel nele. Hoje sou diferente, pode crer. Agora não me troco por qualquer coisa. Será que permite que eu fume? Tem um cigarro? Pode acendê-lo? Obrigado. Então, eu era um projeto mal-acabado de gente. Uma pessoa submissa e fraca. Nem sou mais assim. É, valorizo-me mais. Não sinto falta dele. Ouviu? Quando ele chegava com o corpo pegajoso de suas orgias nos puteiros e vinha me beijando com um hálito podre de cachaça eu sentia nojo dele. Asqueroso.  Um homem pútrido. As crianças ficavam envergonhadas de apresentá-lo as suas amiguinhas. Ele estava sempre bêbado, com roupas exalando a suor e cigarros. Ele nem se dava o trabalho de banhar-se. Fedia como um porco. Se sinto pena das crianças? Claro, não mereciam isso. Eu não merecia isso. Sabe, eu estudei, fiz um curso técnico em radiologia. Tenho estudo. Não sou uma qualquer.

Se quando eu o conheci ele era diferente? Era, na verdade, ele era um projeto do que viria ser. Mas, naquela época… Bem, você sabe que as mulheres têm uma predileção por cafajestes, não é? Ninguém se envolve dessa maneira por acaso. Ele era o mais assediado da cidade.  E isso me fez procurá-lo. Eu queria-o para mim, para causar inveja nas outras garotas. Afinal, ele era muito bonito. Um homem de pegada… Será que você me entende? Era tudo muito bom no início, o casamento foi simples, mas eu estava tão feliz, que nem me faria qualquer diferença uma festa estonteante ou um bailezinho mixuruca no quintal de casa. Porém, quando engravidei de nossa primeira filha os problemas foram crescendo. As ações estimuladas na adolescência não cabem na vida adulta. Beber até cair e virar a noite em festas e boates não é algo que se espere de um pai de família. Quando Letícia, (nossa filha mais velha), nasceu ele nem apareceu no hospital para ver o bebê. E fiquei enfurecida. Foi nossa primeira grande briga. Eu aguentei tudo, quietinha, na minha, mas chegou ao ponto que era insuportável permanecer calada. Foi a primeira vez que ele me bateu. Cortou-me os lábios com um soco. No hospital, inventei que tinha caído no banheiro no momento que fui suturar o corte. Quando voltamos para casa, ele chorou e, de joelhos, prometeu-me que iria mudar. Tudo seria diferente a partir de então. O problema é que eu acreditei. Não se importe com essas lágrimas. Nem me dói mais. Não mais.

E, depois, as bebedeiras tornaram-se mais frequentes. Eu já apanhava quase todos os dias. Ele quebrou-me o nariz, quando reclamei que ele havia “bebido” o dinheiro do remédio de nossa filha do meio. Ela estava queimando em febre fazia dias. E ele tinha conseguido o dinheiro necessário para o medicamento num bico naquela tarde. É, tive de usar a mesma desculpa, a que “caí” no banheiro. Nessa época ele já estava gordo e asqueroso. Quando dormia com ele me repugnava o modo que ele punha as mãos dele entre minhas coxas. Então, comecei a recusar-me. Não o desejava mais. Não queria sentir seu cheiro nojento. E ele foi à busca de prostitutas. Gastava o que não tínhamos em cabarés. Mesmo assim, me forçava a manter relações com ele. Eu chorava, ele batia-me. Eu gritava, ele sufocava-me. Eu fugia, ele me perseguia. As crianças ficavam assustadas. E tive de engolir tudo em nome delas. Assim nasceu nossa última filha. E ele passou a humilhar-me pelo fato de não haver lhe conferido um varão. Ele dizia-me que eu era uma “mulatinha sem-vergonha”. E que era meu dono. E que iria parir para ele até que pudesse ter o filho homem que ele queria. Foi então que as agressões passaram às nossas filhas. Ele espancava as pequenas sem dó. Eu nem podia fazer nada, entende? O que fazer? Ele era pai, não poderia tirar a autoridade dele. E as meninas passaram a temê-lo. Não trocava uma palavra com elas se não fosse com violência ou humilhando-as. E elas cresceram com essa mácula na vidinha delas. E eu não pude fazer nada. Se fizesse seria em mim que ele descontaria toda a fúria. Estava cansada de apanhar.

Você compreende tudo por que tive de passar? Ele violentava-me. Ele agredia-me. Eu não tinha escolha! E quando voltava bêbado, quebrava tudo, batia em mim e nas meninas. E fui me cansando. Eu queria mais. Eu merecia mais. Ele diminuiu-me muito. Quando terminei os estudos, foi extremamente pior. Ele não queria que eu trabalhasse. Dizia que se começasse a trabalhar em breve estaria o abandonando. E que isso ele não permitiria. Não se propunha nem ao menos a dizer alguma coisa agradável. Chamava-me de puta e de “negrinha nojenta”. Uma vez, ele deu-me um safanão que derrubou o jantar no chão. Ele obrigou-me a comer o frango ao molho derramado. Esfregou meu rosto na comida que tinha caído, tudo na frente das meninas. Quebrou o que estava ao alcance. E empurrou Gisele (nossa filha mais nova) com tanta força que acabou por quebrar o dedinho dela quando caiu. E novamente o piso escorregadio do banheiro foi a razão desse novo “acidente”. Gisele ficou com um gesso horrível no braço por duas semanas. O pior de tudo é que eu nem reagi. Quando ele avançou sobre as meninas, eu temi por mim. E fui omissa quando elas mais precisaram de mim. Não as defendi, permiti que o traste de meu marido as ferisse por tempo demais.

E foi quando voltei a reagir. Ele me batia, eu revidava. Ele tornou-se mais violento do que nunca. Principalmente com as garotas. Ele se convertera num animal imundo. Um sapo pegajoso, um porco fedorento. Era isso que ele era. Sempre me forçando a deitar com ele. Ele tocava-me com aquelas mãos, se precipitava sobre mim com aquele corpo. E abria minhas pernas, rasgava minhas roupas. Sentia-me suja. Nem sabia que o pior ainda estava para acontecer. Tínhamos pouco e sobrevivíamos às mínguas. Lúcia, (nossa filha do meio), precisava de livros para escola; Gisele era alérgica e os remédios estavam muito além de nossas possibilidades; Letícia havia crescido muito e não havia roupas que a coubessem. Nós sempre reaproveitávamos as roupas, mas como ela era a mais velha, não tínhamos como vesti-la. Ela estava uma mocinha, já despontavam seus primeiros traços de mulher. Era muito bonita. Uma moreninha maravilhosa. Convidaram-na para fazer fotos. Mas o meu… Marido, não permitiu. Disse que não criou uma filha para ser puta. Nós estávamos precisando tanto… Não tínhamos nem mesmo o que comer. Nós procuramos um médico que lhe diagnosticou o alcoolismo. Porém meu marido recusou-se a parar de beber. Não aceitava sua condição. E prosseguimos naquele cotidiano de privações.

E o pior, como disse, acabou por ocorrer. Finalmente, ele aceitou que eu trabalhasse. Já não o contratavam nem mesmo para bicos. Estava num grau do alcoolismo que não conseguia sustentar seu próprio vício. Eu tive de trabalhar como caixa num supermercado vinte e quatro horas. Eu trabalhava por escalas, e, naquela noite, peguei o turno noturno. Não pude receber as crianças quando elas chegaram da escola. Tive de confiá-las ao meu marido. E ele agiu como o monstro que ele realmente era. Abusou da Letícia. Eu encontrei-a sangrando e chorando no quarto quando cheguei do trabalho. Você pode imaginar o que ocorreu? A minha filha tão inocente, sendo deflorada pelo próprio pai aos doze anos? Uma menina tão delicada, magrinha, e sensível, com aquele ser detestável sobre seu corpo esguio. Ele tocando os peitinhos nascentes de nossa princesinha. E empurrando para dentro do uterozinho pequeno de minha Letícia, aquele… Troço! Eu não tive como me controlar. Eu abracei minha pequena e soluçamos juntas por horas. Ele havia saído para beber. Quando voltou caiu sobre o sofá e dormiu como uma pedra. Eu tinha ódio nos olhos. Era meu dever de mãe fazer algo. E foi o que eu fiz. Fui à cozinha e peguei o álcool no armário. Derramei todo conteúdo do recipiente sobre o corpo nojento daquele troglodita. E sem mais demorar-me, ascendi o palito de fósforo e arremessei-o sobre o meu… Marido. Quando as chamas se espalharam ele gritava igual a um porco no matadouro. E foi por isso que acabei aqui. Os vizinhos chamaram a polícia e os bombeiros, nenhum dos dois chegou a tempo. O traste já havia morrido quando “os homens” apareceram. E eu fui detida pelos policiais e trazida até aqui. E no momento estou depondo sobre o assassinato do homem desprezível com quem me casei. Silêncio. Ainda ouço bem longe a música, porém o barulho dos teclados dos computadores e impressoras ainda é mais forte e contínuo. Enxugo uma derradeira lágrima e determinam que voltasse para a cela. Só consigo pensar nas meninas, como estariam agora?

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Essa crônica não é sobre solidão

Giordana Bonifácio

Sentada em frente à máquina de escrever vou perquirindo-me as razões para escrever. Ou será que tenho de fazer o contrário: evocar as razões para não escrever? Sei que aqui nessa cidade quente onde a maresia preenche-me de sonhos, não encontrei ainda respostas para nenhuma dessas duas questões. Nem sei por que escrevo e nem o que me proíbe de fazê-lo. Há tantas histórias a se contar. Às vezes se escreve apenas, sem saber o porquê. Como abrir as comportas de uma represa, de repente uma onda de sentimentos lhe assalta e leva. Já perdida nessas corredeiras perigosas, às vezes é desespero só. Solidão também, mas nem quero falar dela. Sabe quando se discute amplamente um assunto e mesmo assim não se encontra qualquer solução para ele? Então, eu acho que foi isto o que ocorreu entre mim e a solidão, estamos inconciliáveis. Não adianta, jamais nos entenderemos.

Por isso, me sentei frente à máquina sem quaisquer planos. Não quero mais me entregar à fria análise da solidão. Talvez de outros sentimentos, mas o amor é algo tão explorado que talvez não encontremos nada original a se dizer.  Poderia abrir-me ao sentimento inusitado de estar tão longe de casa e tão fora de minha zona de segurança e adentrar-me nas questões mais ilógicas que nascem do impossível. Uma desordenada fonte de adjetivos, posso simplesmente adotar um para cada substantivo, e tentar encher de mentiras um texto que não quer nem mesmo vir ao mundo. Minhas idéias colidem como se estivessem em movimento, circundando-me a cabeça. Umas e outras se encontram provocando fissuras no tecido de minha imaginação. Como se daria em uma explosão atômica. Dizem que a bomba explode minutos antes de cair no solo. Acho que, nesse curto período, já detonei boa parte do meu arsenal criativo.

Sem idéias para fazer surgir a poesia em prosa. Sem dores para lamentar a perda. Sem objetivos a perseguir. Esse texto é um tanto assim de mim. Outro tanto de vocês. Os espaços em branco vocês podem preencher com qualquer coisa. Mesmo que nem combine, pois isso aqui não é moda que exija cuidado na colocação das peças. Não vou sequer sair mostrando o que escrevi e o que vocês sobrescreveram. Só um tantinho assim de som, se fosse possível, gostaria que me permitissem escolher. Uma canção do The Smiths, pedindo que ao menos uma vez fosse lhe fosse conferido o que ele (o compositor) queria. Ou a mentira alardeada pelo The Cure que garotos não choram. Se me permitissem seriam essas músicas a que faria simples referência. Vejam: nem as letras transcrevo aqui. Só queria mesmo anexar uma possibilidade, mesmo que mesquinha, de escolher a trilha sonora de minha vida.

A noite cai calma, pesada, como se o olho de Deus, a bola chamejante que nos confere vida, fechasse-se para que o olho enigmático da noite, a lua prateada, cuja luz é empréstimo das estrelas, surgisse imponente. Engana essa face poderosa e sóbria do satélite. Nem possui nada a lua. Ela é tal qual nós que, aqui na Terra, estamos sempre a perseguir bens que na verdade não serão nossos jamais. Tudo que temos em vida deixamos na morte. Nem adianta arrastar conosco o que julgamos pertencer. Não será possível disso gozarmos para onde formos. Não sei para onde vamos e se vamos realmente. Não sei se tudo finda num eterno vazio. (Lembram-se da ponte entre dois nadas? Como diria Caio Fernando Abreu?) O real é que nada do físico que possuímos nos acompanha. Nem mesmo essa máquina de carne e osso que nos é conferida em vida será mantida após a morte. E nesse ínterim, que é o espaço entre o nascimento e o desditoso falecimento, o que é necessário é gozar de uma boa saúde para que viver não nos pese de modo a lamentarmos o nascimento ou desejarmos a morte.

“E crescer intelectualmente? E buscar a satisfação de nossa ambição? E a fogueira das vaidades que alimentamos sempre com lenha nova? Isso não é importante?” Podemos satisfazer todas essas necessidades talvez nos sintamos um tanto mais felizes, mas o problema dessas vontades é que elas nos corroem como um câncer. Nunca nos contentamos com o que possuímos. Sempre queremos mais e mais. Por isso, nem queiramos para nós poderes, bens ou imortalidade. Nem vale a pena. Creio que deixo um tanto de mim gravado eternamente na história. O que farão com essas folhas rotas de sonhos? Nem sei e nem procuro sequer saber, que fiquem com esse pedaço de mim que já a muitos despojei de grande parte do que são.

Vamos assim, brincando com as palavras, sem querer nada no fim. Apenas sentir o que há para se sentir, sorver o quer há para se sorver. A água do mar tem gosto salgado de infinito. Será que posso fazer-me misteriosa como os oceanos, guardando em mim Atlântida, cidade de promessas, mito criado para entreter velhos marinheiros? Posso até ver-lhes à noite, conversando sobre as belezas de uma civilização moderna no seio do oceano. Mas em cujas praias nenhum navio jamais aportou. Esse foi um mito anterior ao do Eldorado, que ascendia a cobiça dos homens. Encontrar uma cidade de ouro, tornar-se o mais rico explorador dos Oceanos, quantos pobres navegantes sonharam com essa remota possibilidade? Mas temos de admitir: esses mitos perseveram na modernidade!

Podemos falar de todo esse universo de fantasias que cobrem o fantástico imaginário popular: de inicio os mitos eram a religião vigente. Heródoto os cantou muito melhor do que eu os posso falar. Sei que o mundo foi fruto da voracidade de um Deus que se alimentava de sua prole. Depois, vieram outras religiões que transpuseram o mito para o lugar que hoje lhes foi conferido. São apenas crendices, desprezam alguns. E novas histórias foram penetrando no terreno dos sonhos dos homens, se unindo a uma série de outras que já existiam se misturando e explicando, essa é a mágica da fantasia.

 Agora os homens, que olham para o céu, querem ver vida fora de nossa casa. Olham para as estrelas a espera que exista uma Atlântida perdida no espaço. Quando a Terra se tornou pequena para nós, fomos à busca de algo maior. Então, desbravamos o que nos foi possível alcançar do espaço, mas não temos ainda tecnologia suficiente para descobrir mais sobre o universo que nos cerca.  Por enquanto o vazio ainda nos é uma incógnita. E num misto de medo e curiosidade ficamos a esperar a visita de alguém que desconhecemos e que não chega jamais. Será possível existir vida fora desse mundo e será possível alcançar-las? Será que devemos temer-las ou elas a nós?

 Fui abrindo o campo de questões que trataria nesse texto, fui do minúsculo eu para o limitado nós e, tão logo me foi possível, caminhei para o infinito quem sabe… Nem sei se era isso mesmo que queria dizer.  As palavras foram surgindo e fui pescando-as aqui e ali. Se queria apenas fugir da solidão, não o sei, se queria uma desculpa para não falar da maresia que úmida se embrenha nos meus cabelos e adere à pele, talvez não tenha sido um grande projeto. Muito melhor falar sobre aquilo que conhecemos. O que sentimos realmente. Ou isso ou falar da dura dor da morte que nos toma tudo inclusive a vida. Talvez, bem mais fácil que seguir pelos oceanos com os piratas e marinheiros de séculos atrás, encantados com a possibilidade de riquíssimas civilizações.

Melhor seria não ter chegado a cogitar a existência de seres em outros mundos, porque aqui estamos tão, mas tão sozinhos, que necessitamos que houvesse alguém que nos explicasse porque na vida e na morte estamos abandonados frente ao desconhecido. E se esperamos que essa resposta surja do céu, numa colorida e esquisita espaçonave, talvez nos seja obrigado esperar para sempre. E se tudo for apenas um mito? Seria a solidão apenas um mito também? Será que havia um anjo assim, um tanto torto, que no nascimento nos tenha proposto: vá ser gauche na vida? E será que esse mesmo anjo bobo, que nos lançou no mundo, vem depois tomar nossa mão e acompanhar-nos na morte? No fim, navegamos por mares e universos, (que o espaço também foi feito para se navegar), para terminamos no assunto que resolvemos de início descartar. A solidão nos persegue, como se estivesse presa ao nosso ser com a força de um imã. Ela nos diz: não os abandonarei. E, como péssima companhia que é, dela queremos nos livrar a vida inteira. Eu sei que não a compreenderei jamais. O que me consola é que não sou a única a viver em embate com ela. Sei que a maior parte das fantasias que criamos é unicamente para diminuir a dor de nossa profunda solidão. Por isso olhamos para nossas dúvidas e perguntamos: será que estamos realmente sozinhos, para sempre?

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Uma sementinha de música

Giordana Bonifácio

-Muita coisa nesse mundo está errada… Disse a menina encolerizada.

A mãe nem mesmo prestou-lhe atenção, tão ocupada estava em calcular as contas do mês.

A criança repetiu mais uma vez, mas desta vez num tom mais alto para que pudesse se fazer ouvir.

-Muita coisa nesse mundo está errada!

A mãe despertada pela irritação da criança, sem muito interesse perguntou:

-O que estaria tão errado para deixá-la tão contrariada?

-As pessoas não se escutam mais, parece que estão o tempo todo tão ocupadas que não conseguem ouvir nada a sua volta. Eu queria plantar uma sementinha de música no coração de cada um para que assim, quando estiverem a discutir, pudessem sentir que o mundo não está resumido a sua raiva. Não é, mãe?

Mas a mãe já voltara a entreter-se com as contas. Simplesmente ordenou a criança que escovasse os dentes para recolher-se que amanhã era dia de escola. A menina ficou ainda mais enfurecida. Já havia discutido na escola a questão que tanto lhe afligia. Até mesmo a professora estava tão preocupada em ensinar o conteúdo didático, que nem escutava um singelo som de flauta que se elevava no perímetro da escola. A menina, curiosa e desbravadora, tentou localizar onde estaria o instrumento do qual surgia tão bela música. Mas, ao desviar a atenção da aula, foi logo repreendida pela professora que não queria saber “por que, afinal todos estavam ali para aprender.” Será possível que a docente não houvesse escutado a música? Será que o mundo está assim tão diferente do que costumava a ser, de modo que ninguém possa sequer escutar o que a arte tem a dizer? Lançam-se em danças estúpidas com barulhos ensurdecedores, (porque nem se pode chamar isso de música), mas ao som adocicado da flauta não conseguiam escutar. Será que o belo foi substituído pelo bizarro? Será que é uma doença que impede aos adultos de ouvirem o que os outros têm para dizer, tão acostumados ao ruído, estão?

Foi pensando assim que a pequena garota foi para cama “cheia de caramiolas na cabeça”. A mãe apareceu para beijar-lhe o rosto desejá-la boa noite. O pai também veio ao quarto da criança para afagá-la antes de dormir. A menina até tentou mais uma vez chamar atenção para os problemas que cogitava, mas nenhum dos pais pareceu sequer interessado. “Adultos…” Pensou. Então, tentando lembrar-se da música que ouviu tão distante naquele dia, da qual sem resultados tentou encontrar a fonte, adormeceu e sonhou. No sonho, havia uma pauta com suas linhas e notas musicais sobre as pessoas, contudo essas nem a percebiam.  Continuavam suas vidas, sua rotina estressante, sem se darem conta do que havia sobre elas.  Na rua, o engarrafamento e o som característico das buzinas parecia hipnotizar aos homens e mulheres que estavam dentro dos carros.  E, não muito distante, duas pessoas discutiam e vociferavam acusações. Elas também não enxergavam o que havia sobre si. Assim, foi caminhando, e para todos os lados, as pessoas perdiam-se do som, tão acostumadas estavam ao ruído. No radinho do moço na praça, uma canção apelativa e desprovida de beleza também se unia ao barulho ensurdecedor das ruas. E sobre tudo isso estava a pauta, repleta de notas musicais. Pareciam frutos pendentes de uma árvore. A triste realidade é que tudo indicava  que não seriam sequer colhidos.

Observava as notas caírem sobre o solo, esquecidas ou desprezadas. Essa gente toda, não dá nenhum valor para a música sobre si. A menina estava tão perplexa com a situação que resolveu agir: elas não devem ter percebido a canção porque ela não se faz ouvir. É necessário fazê-la tocar. “Mas como?” Indagou-se. Será como uma música no Ipod que para soar deve-se apertar o play? Então, sem saber muito bem o que fazer, a criança chegou à origem da pauta, onde está localizada a clave de sol e, num misto de intuição, também porque o sonho era dela, desejou que ao tocar a clave a canção iniciasse. Foi assim mesmo que ocorreu, ao tilintar o início da pauta, o som da flauta soou sobre a cidade. Mas as pessoas estavam tão entretidas com suas próprias vidas que nem assim a pareciam escutar. A menina sentiu muita tristeza de ver uma canção tão bonita ser desprezada. E sentou-se no meio-fio sem idéias do que fazer para que as pessoas também pudessem desfrutar do som que ela ouvia. “Gente burra!”. Resmungou. “Será que não conseguem observar a beleza a sua volta?” É verdade, pois ao tocarem, as notas escritas na pauta se iluminavam e ficavam douradas, mas ninguém mesmo se dava conta do espetáculo que ocorria sobre si. “Somente eu vejo isso?” Tão chateada estava que pensou: “devo ser mais enérgica”. O que faria? Nada mais que avisar as pessoas sobre o que se passava bem acima de suas cabeças. Foi até o homem no congestionamento e tentou chamar-lhe atenção para a pauta. Contudo, esse nem lhe deu crédito.

-Menininha, não vê como estou ocupado?

Porém, nem com essa primeira tentativa infrutífera ela se deu por vencida. Foi até o homem do radinho, às pessoas que discutiam e ao dono da loja, àqueles que liam jornais na banca de revista e também à dona de casa que varria a calçada. Mas sabem como são os adultos, não? Eles não dão qualquer crédito às palavras das crianças. Nem sabem do grande discernimento de realidade que possuem. Na verdade, julgam-nas como pessoinhas sem qualquer razão, que devem somente brincar e não se meterem em assuntos de adultos. “Gente esquisita!” A menininha pensou consigo. Todavia, nem assim se deu por vencida. “Deve haver um modo…” Murmurou. E sentou-se novamente no meio-fio para tentar “desanuviar as idéias” como se diz. Então uma nota musical se desprendeu da pauta e caiu ao seu lado. A menina teve uma surpresa ao perceber que mesmo distante daquela, a nota iluminava-se ao chegar sua posição na música. E teve uma idéia brilhante, em todos os sentidos. Subindo nas árvores, nos muros, nos bancos, foi colhendo todas as notas da pauta sobre a cidade. “Agora quero ver não me darem mais atenção… Esses adultos perceberão que não são os senhores-sabem-tudo. Não conseguem, na verdade, ver um palmo diante do nariz.” A menina foi distribuindo as notas entre as pessoas que seguravam o presente meio sem saber do que se tratava.  Mas para não contrariar a criança, guardavam no bolso ou ficavam com aquilo na mão sem saber como empregariam aquele estranho objeto.

A menina teve um trabalhão para distribuir as notas. Tinha gente que queria mesmo era amassá-las e jogá-las no chão. “Gente mais mal-educada!”. Sussurrou, e pegando a nota amassada no chão reconduzia-a a mão do homem que tão energicamente a havia descartado. E falava-lhe:

-Não a desperdice, verá que é muito útil.

E foi disseminando a música entre as pessoas como quem distribui emoções por onde passa. Cada um, segurando um pedaço de sonho. Ela exultava de alegria. Estava dormindo e tudo isto era pura fantasia, tinha certeza, mas se sentia tão bem, como se na verdade pudesse se fazer perceber, mesmo que se tratasse só de uma criança. Ninguém dá crédito a invenções infantis. E quando alguém age mal, logo o discriminam: é muito criança ainda… Por que essa gente não consegue conceber que é na infância que se constrói o adulto? E se não conseguem compreender uma simples menininha, como o farão quando ela se tornar uma mulher? É isso que ela não entendia ainda dos adultos. Sempre ocupados e atrasados, tão entretidos com os afazeres que não podem sentir a música a sua volta. A menina, com a clave de sol na mão, tocou ao objeto brilhante e de consistência assemelhada ao metal com um graveto de modo que ao ressoná-lo, espalhasse música pelas notas que as pessoas seguravam. E foi espantoso, parecia que todos finalmente ouviam a música da flauta doce, chegando em ondas concêntricas à vizinhança, às lojas e prédios. Cada um transportava consigo a mais solitária das emoções. É mesmo fantástica a intensidade dramática de uma flauta, sempre melancólica como o sopro de um marinheiro no meio do oceano. A menina, feliz que o ruído do cotidiano tivesse sido finalmente substituído pelo som maravilhoso da verdadeira música, nem ficou chateada quando a mãe veio despertá-la que já era hora de ir à escola. E uma surpresa maravilhosa ainda a aguardaria na sala de aula: a professora estava ao lado de um velho senhor que portava uma linda flauta de madeira. Ele estava se apresentando de sala em sala naqueles dias, afinal, abrira um curso de flauta doce e estava convocando estudantes para iniciarem-se no instrumento. Não é preciso falar o assunto que a menininha abordaria com a mãe assim que chegasse da escola, não é?

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Quando as circunstâncias mudam…

Giordana Bonifácio

Eu nem sei o que me leva a escrever sobre esse garoto. Estava aqui a pensar nele. E resolvi que estava na hora de acordá-lo. Acho que o deixei reinar tempo demais dentro de mim. Esse garoto, na verdade é quase um homem, chamo-o de pavor, pois é o produto de meus medos. Vejo-o tremer, sinto sua pulsação acelerar. E ele faz-se presente nas horas mais críticas. Eu era tão diferente no passado… Lembro de quando ele nem existia. Acho que perdi minha coragem, uma moça bonita e forte, que conhecia muito bem na infância, e que sumiu de minha vida tão abruptamente quanto o pavor entrou. E agora, vou nutrindo esse estranho conhecido, conferindo-o a força que me era necessária para mudar, para crescer, para viver enfim. Esse jovem, que se desenvolve no meu espírito, rouba meus sonhos e metas. Desfalca-me de componentes essenciais para seguir em frente, abandonando de vez o passado. Uma característica desse parasita é que ele possui uma âncora que o impede de simplesmente prosseguir e também ao organismo hospedeiro. Ficam todos os dois retidos num mundo que não existe mais. Nós dois encarcerados na memória. Ele, ao menos, me faz companhia quando a solidão se prolifera a minha volta. E com essa travo discussões imensas. Ela a todo custo quer dominar-me, fazer-se mais e mais intolerável quando tudo está ausente. Ficamos as duas tentando defender nossas perspectivas. No fim, ela sempre vence, mas tento me fazer forte. Eu que sempre fui difícil de ser domesticada, detentora um coração selvagem e franco, começo a crer que, tanto eu quanto ele, estamos sendo vencidos pelas circunstâncias. É que sinto uma verdadeira revolução em mim. Sabe, fico pensando: a rotação do mundo cria dias e noites, a translação, por sua vez, as estações do ano. Mas cada segundo faz-se totalmente diferente do outro. O pulsar do coração conta o nosso tempo na terra. E o relógio, um tempo que não existe realmente. E as mudanças inevitáveis acabam por influir no que sou.

Sei que não ficou muito claro. É que meu coração. Esse animal indócil que trago no peito agora está se acostumando a ser bajulado, a alimentar-se nas mãos das pessoas que se aproximam. Estaria até balançando o rabinho, como um filhote, caso tivesse um. E, assim, está desaprendendo a caçar sua liberdade, a esconder-se dos terrores do mundo. Se acostumando a ver nas pessoas não o inimigo, o predador perigoso a quem deve evitar, mas seres de quem pode receber algum afago. E o pavor, o pré-adolescente que cultiva minhas plantações de medo, ajuda-o a fixar-se no confortável presente. O que há muito deveria já ter sido abandonado, ainda está preso a minha vida. E a coragem, a quem deveria resgatar, permanece desaparecida. Assim, convivendo com um coração cada vez mais domesticado, e com um rapaz intransigente e fraco, sinto que estou a perder um tempo que não possuo. As pessoas já não confiam no meu futuro. Eu, a quem antes costumavam invejar a dedicação, estou sendo alvo de chacotas e desprezo. Olham-me de cima como se fosse tão minúscula que não me pudessem observar de frente. Sabe, fico andando em círculos, sem saber para onde ir. Se deveria mesmo ir ou se ficar seria a decisão mais sábia. O pavor fica tão eriçado nos momentos que tenho de tomar uma decisão difícil. Acabo por fugir das dúvidas. Assim, mantenho-o calmo e meu coração adormecido. Este último costumava a pulsar freneticamente, era a emoção que o comandava, sabe, aquela prima-irmã da coragem?A adrenalina, a filha do perigo e contraditoriamente irmã do pavor, ajudava-me nas questões mais intricadas. Mas com a coragem, foram embora a emoção e a adrenalina, só restaram o perigo e o pavor. A esperança foi abandonada lá no fundo. Quietinha, fica lançando desejos que o pavor rechaça violentamente. Esses meninos, não se dão mesmo… Não adianta nem tentar fazê-los conviver pacificamente. Estão sempre brigando entre si. Querem mais atenção, mais dedicação, mais isto, mais aquilo… Contudo, devo abandonar esses sentimentos e não quero sequer alimentá-los. Sinto falta da coragem, mas parece que não há como trazê-la de volta para casa. Está muito melhor sem mim e todos esses seres que me habitam.

Fico pensando no que deve ter acontecido para eu ter me tornado um ser tão diferente do que era. Eu fui alguma coisa, hoje não sou nada. Eu sentia algo, hoje não sinto nada. Eu costumava sofrer, hoje a dor não mais me dói. Eu também sou o resultado de algumas condições não muito propícias para desenvolver certas características que em qualquer um seriam essenciais. O engraçado que pude me valer sem elas. Ou quase… Por exemplo, o amor próprio. Nossa, desse nunca sequer ouvi falar. Sei que existe, algumas pessoas cultivam-no com tanto afinco que chega a se tornar maior que qualquer outro sentimento que possuam. Generosidade e compaixão são expurgadas das suas vidas para dar mais espaço ao seu egoísmo. (Muitas vezes, o amor próprio em demasia converte-se em egocentrismo, então as pessoas não conseguem ver nada além de sua própria conveniência. Conheço gente assim…) Mas já me disseram que um pouco de amor próprio é muito bom também. Claro, se o pavor não houvesse crescido tanto, haveria espaço para qualquer outra coisa no meu espírito, mas sabe como são esses jovens, não é? Espaçosos, presunçosos e insaciáveis… Queria que fosse diferente, até cultivei um tanto assim de amor próprio, mas quando percebi eram apenas sementes de ilusão que havia semeado. Então, pensando bem, se fizer o medo acomodar-se num canto menor de mim, talvez sobre espaço para coisas mais significantes que me fizessem desvencilhar da âncora que me prende a essa praia. E possa, enfim, voltar a navegar por oceanos mais bravios. Estou cansada de esperar, tenho de fazer algo para sair dessa posição cômoda, de manter-me num estado de dormência que outrora não me era comum. Fui tão sagaz, viram-me lutar contra os monstros mais assustadores. A coragem acompanhava-me nos embates mais fabulosos. E agora, onde ela está?

Mas sei que alguma coisa já está diferente, pude finalmente falar desses seres parasitários que me habitam e me sugam. Eles roubam-me o vigor e desenvolvem em mim a terrível doença da covardia. Já estou bem familiarizada com os seus sintomas: taquicardia, lentidão ou a ausência total de movimento, suores e manutenção de um estado ruim por tempo indefinível. Não conheço remédio efetivo para expurgar de mim esse monstro que me corrói por dentro. Seria necessário um tratamento intensivo, com vermífugos eficazes seria até possível restaurar a coragem que se encontra, há muito, sumida. Outro medicamento muito utilizado é tentar mudar com as circunstâncias. Não fazer-se desafeto das transformações. Como se diz: “tempora mutantur nos et mutatur in illis”¹ ou “tempora mutantur et nos mutamur in illis”². As duas expressões pouco se diferenciam, cabe escolher se quero mudar nas circunstâncias ou com elas. O necessário mesmo é mudar. Não me manter nessa zona de segurança a que estou tão acostumada. Estou tão afeiçoada a minha âncora que me impede de partir e ao pavor, meu companheiro por tanto tempo, que até me esqueci das feições da coragem a quem devo resgatar. Porém, tenho de vencer de algum modo. Vencer as previsões pessimistas que me cobrem. O desprezo que as pessoas têm por mim. O desespero de não ter forças suficientes para ser mais do que sou ou fui. A vergonha de ter estado presa por minha vontade. E a realidade que dificulta o caminho que devo percorrer. No sonho, tudo segue às mil maravilhas, vai tentar falar assim para o real. Muito mais complicado, não é? A gente fica meio envergonhado de dizer o que deseja de verdade. As pessoas sempre desmerecerão o objetivo mais iluminado. O problema será persistir. É necessária perseverança, essa também meio aparentada com a mencionada coragem. Uma necessita da outra. Ou seja, é necessário ter coragem para perseverar. E é necessário perseverar para ter coragem. O mistério é que não tem mistério algum. Está tudo em você. Mesmo que soe meio piegas num primeiro momento. “Como? Estão em mim todas as soluções? Impossível!” Eu sei, é difícil de acreditar. Eu também não conseguia enxergar o enigma da Esfinge, mas perseguindo a minha coragem pela estrada de tijolos amarelos, resolvi a charada mais intricada. O desejo de vencer o medo é o primeiro passo para resgatar a coragem de que fui desfalcada.  Por isso despertei meu pavor, para encolher um pouco suas proporções, para abrir um lugarzinho onde pudesse plantar a semente de coragem que encontrei no mais árido dos ambientes: o meu próprio espírito.

  1. As circunstâncias nos mudam e mudamos nelas.
  2. As circunstâncias mudam e mudamos com elas.
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Clair de lune ou um par de sapatos?

Giordana Bonifácio

As músicas são a obra mais fantástica da inteligência humana. Uma sucessão de sons numa magia que denominam arte. Quando jovem, ingressei no curso de flauta, queria controlar os instrumentos para poder criar música também. O problema que minha arte logo se revelou no papel e não com as indomáveis notas musicais. Não que as palavras não sejam por sua vez cavalos selvagens, que necessitam de doma e carinho, mas creio que minha veia musical está um tanto adormecida desde então. Há anos não toco numa flauta para sentir o sabor das notas formando-se com o meu sopro. Acho que me contentei com o ouvir. Deliciar-me com as músicas, sem que meu toque tenha as criado. E pensando nisso, resolvi sentar e escrever. Não sei bem ainda o que. Pensava que ouvindo a música correr as palavras fluiriam. Ledo engano… Sei que as palavras são escorregadias, não se pode num primeiro momento capturar seu real sentido. Ficam assim, pulando na nossa mente, esperando que fisguemos uma e lancemos no papel. E o pior que, acabamos quase sempre, por escolher as palavras erradas. Comecei essa crônica pelo título. Clair de Lune é uma de minhas sonatas prediletas, composta por Claude Debussy, logo percebi que não seria um título apropriado para este tipo de texto. Isso porque não posso fugir de certas lições aprendidas na faculdade, lá passamos um semestre inteiro estudando gêneros textuais e quando comecei a escrever queria escrever um conto romântico e tocante, mas nas primeiras frases logo percebi que seria uma crônica. Não sou ainda uma boa domadora, como podem verificar. O texto fugiu ao meu controle!

Então, devo continuar nessa louca missão que é escrever sem planos? Porque, quando tenho necessidade de escrever um conto, (sim, escrever é uma necessidade básica, como comer, dormir ou respirar), tenho objetivos traçados, tudo que escrevo é completamente programado. E aqui estou criando quase como um arroubo literário. Sem saber por que caminhos devo realmente passar. Ouvindo a canção e deixando-me levar. O som do piano demora-se em mim. Sabem, queria poder tocar piano, queria poder dedicar-me a todo e qualquer instrumento musical. Seria uma maneira de libertar a alma encarcerada pelo cotidiano. Viver numa sonata de Debussy é bem mais tentador que numa realidade sem som. Apenas com ruídos, sons desagradáveis de um mundo que não se contenta em ser. Não, ele quer nos lembrar a todo exemplo que a realidade existe. E o mais desagradável é que estamos nela. Pode soar ruim, mas a vida não é uma sinfonia, como querem fazer crer. Os ruídos são muito dissonantes. Não se igualam jamais com as belezas que produziram Beethoven, Debussy ou Mozart. Longe disso, formam uma balbúrdia infernal de instrumentos dissonantes, sempre a ressaltarem: a vida existe! Mas, e a música, meu Deus? E o fato de nos desvencilharmos do nosso ser físico para tornarmo-nos uma parte integrante desse universo tão próximo e ao mesmo tempo distante de nós que é o espírito? Como podemos entrar em contato com o que temos por dentro, essa coisa infinita que supera a morte do ser? Somente com a arte podemos ir além da derrocada da vida. Mas não é por isso que escrevo, que nem quero a imortalidade. Escrevo porque algo me dói. Uma dor que lateja sem cessar. É por tentar suportar a dor que nascem certos textos, um conto, uma crônica, um romance inteiro. Mesmo que não haja sequer leitores. Fica, no fim, essa obra incompleta. Uma música que foi composta e não a quiseram ouvir.

Aqui resta um pedaço de mim. Uma foto meio desfocada do que fui. O restante, procurem nas canções, nas interpretações tocantes de Maria Callas. Assim, podem localizar algo que fui, que sou ou que serei. Se quiserem a imagem desse coração despedaçado, em Clair de Lune encontrarão os cacos de um músculo involuntário, insano e intempestivo. Não pude jamais compreendê-lo. E essa crônica está ficando muito piegas. Seria mais negócio se houvesse escrito o conto de amor e dor. Creio que nem sei como guiar esse caminhão sem freio. O volante não é suficiente para dar uma direção a essa obra de sonhos maculada de realidade. Sabe quando a gente se perde num caminho que sempre nos foi conhecido? Não era desse modo que deveria escrever esse texto. Mas, convenhamos, se tudo fosse previsível, seria muito chato de se ler! Sei que não sou a mais confiável das fontes, mas queria criar algo parecido com uma ária de ópera, como O mio babbino caro. Uma canção que traduzida, refere-se o abandono do pai para a procura de um amor distante. Essas questões de amor não resolvidas são as mais belas. O problema que estão um pouco batidas também. E não tenho o talento de Callas para transformar o previsível em inusitado. Sei que ainda sou incipiente. Uma criança em jogos de adulto, é assim que me sinto quando escrevo. Vou construindo minhas estátuas, vou pintando minha chef d’ouvre que jamais termina.  Um bom pedaço do que sou fica marcado para a posteridade. Não que fosse meu real intento. Já disse que não sou dotada da genialidade dos grandes. Na verdade, escrevo porque me é essencial. É algo que me acostumei a fazer desde criança. Lembro das minhas primeiras histórias. Uma delas inspirada pelos Três mosqueteiros de Dumas. Claro, eu também fui muito influenciada pelos livros que li (e ainda leio), continuo sendo muito suscetível as suas idéias. Lendo Joyce tomo conhecimento do grande caminho que ainda tenho de percorrer. Chato compararmo-nos a essas mentes brilhantes, não? Era o que fazia quando tocava flauta. Queria sempre ser mais do que podia. (Acho que ainda caio no mesmo erro). Sei que não tenho gabarito para poder escrever uma novela como as de Kafka, mas é sempre bom ter grandes expectativas. Cobramo-nos mais. Tentamos fazer o melhor.

Aqui acredito que fui escrevendo uma crônica sobre música, mas acabei por tocar em minhas próprias feridas. A vontade de ser algo que não está ao meu alcance. Como se a vida recolhesse a mão que me ofertava o sonho. É claro que isso machuca. Queria poder colher à canção como fruta madura. Porém, a música é um tanto mais de transpiração do que de inspiração. A literatura foi-me mais agradável. Despedi-me de minha flauta e do violão (também ensaiei tortos passos com esse instrumento) e parti para as letras. Tentei a poesia, mas sua grande proximidade com a música fez-me, também, desse campo da literatura desistir. Foi escrevendo poemas que descobri uma mínima facilidade com a prosa e fui me aventurando aqui e ali. Porém, sei que a minha Clair de Lune ainda não surgiu. Essas palavras são malandras, não se consegue extrair delas o máximo de nossa capacidade criativa. E ainda fico aqui a lutar com elas. Sou meio masoquista, sabem? Sofro horrores com minha arte, mas só assim me sinto feliz. Algo irônico e meio doido também. Como diria Ovídio em sua Metamorfoses: “Et ignotas animum dimittit em artes naturamque nouat…”¹ Quero voar como Dedalus, nem que seja apenas com asas de cera. A música me concede os instrumentos, a literatura, o sonho, e, desta forma, posso alçar voo sobre o real. O existente não me aprisiona. O presente é uma fluida sucessão de futuros, na verdade tudo é uma fase que logo será sucedida por uma outra. Tão rápido que quase não nos daremos conta. A solidão é o momento mais propício para a criação.  Uma fonte inesgotável de palavras brota em mim. Nascentes de sonhos e passados. Sou conseqüência de escolhas pouco acertadas que se tornaram parte do que sou hoje. Nem sei como viver sem elas mais. Como se guardasse uma imagem própria de mim que me é necessária. Não poderia simplesmente me desfazer dela. Como livrar-me de meus óculos e trocá-los por lentes de contato. Claro que o resultado seria esteticamente mais agradável, mas seria eu? Não! Nesse mesmo sentido, poderia mudar meu estilo, os assuntos sobre os quais escrevo, poderia criar textos de pop-art, histórias açucaradas de amor, com elementos fantásticos. Poderia lançar livros sobre bruxos e demais elementos do imaginário humano. Mas seria eu? Não! A literatura artística é na realidade meu único recanto. Onde as músicas que ouço podem se tornar prosa, uma simples conversa num bar qualquer, regadas a risadas e vinho. Essa é minha canção, onde escrevo minha solidão, em que falo sobre meus sofrimentos eternos. Aqui apresento minhas cicatrizes. É um retrato muitas vezes aterrador. Mas quem disse que toda arte deve ser bela como a Clair de Lune? Muitas vezes, o belo está no retrato da dor mais pulsante, na mais triste e trágica lembrança. É assim. Talvez não acreditem, pois não se atrevem a ir além do visível. Às vezes, a obra prima é um simples par de sapatos, como queria Van Gogh. A verdadeira música está em nós. Em nos nossos sonhos mais incríveis poderemos ouvir-la. Ela soa estranha num primeiro momento, mas logo nossa arte brota do interior numa verdadeira sinfonia. Eis então a verdadeira obra-prima que tanto procurávamos.

1. “E ele coloca a sua mente para artes desconhecidas e as mudanças das leis da natureza”.

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