Estrangeira

Giordana Bonifácio

Eu já vivi aqui. Lembro de correr por estes vastos gramados, de pisar esse solo vermelho que penetrava em minha pele. Eu era dessas longas avenidas, onde muitas vezes corri, nos feriados e fim de semanas em que destituíam os carros do poder de trafegar por elas. Lembro-me de tudo, desses blocos em que caminhava levando nas costas muitos sonhos e no coração um pavor enorme. (Medo de quê, afinal?). E tudo era tão belo, ficava abismada com o futuro que parecia brilhar aos meus olhos quando o presente se fazia longo demais. Acontece que o futuro será presente, mas o presente só pode ser passado. Acabo por concluir que o futuro verdadeiro, aquele que esperava ansiosamente, nunca chegou, não para mim. E os sonhos morreram, pereceram por falta de uso. Mas continuo transportando-os nas costas. Velhos esqueletos, que trago comigo. Fantasmas que me assombram. Uma lembrança triste, do que poderia ter sido, mas não foi. Estranho, não é?

E passando pelos lugares em que a vida aconteceu para mim, vou recordando as feridas que fiz aqui e ali. Também as trago comigo. Estão todas marcadas no espírito. Já disse que apesar de não possuir quaisquer tatuagens na pele, as possuo na alma?  São marcas de algo que queria muito esquecer. Porém, queimaram-me na pele certas dores com ferro em brasa. Jamais serão apagadas de mim. E mesmo que há muito tenha deixado esses espaços, parece que ainda me vejo caminhar por essas esquinas. Como se o passado pudesse ainda estar presente, mas agora sou apenas uma forasteira. Não sou mais deste solo, estrangeira na minha terra natal. Sei que os amigos que fiz dispersaram-se por esse mundo. E vez ou outra os reencontro, mas não são os mesmos. Nunca seremos. A vida muda a gente. De repente somos outros. O tempo transforma o que somos, as lágrimas endurecem-nos o coração. E já não somos mais quem fomos um dia.

 A mentira que nos contavam era que o futuro nos libertaria, mas acho que as águas que passaram sob a ponte me perseguem. E ainda tenho saudades dos risos, dos abraços, dos olhos que faiscavam diante das inúmeras possibilidades que brilhavam tentadoras. E tudo que restou foram essas malditas lembranças. E o amor que ficou em algum lugar desse coração estilhaçado. O futuro se mostrou uma bela miragem, nesse deserto de sentimentos. A solidão ainda me acompanha, às vezes penso que só posso contar com ela. Tiro os sapatos para sentir a grama verde da primavera. E quando deixávamo-nos estar sob essas árvores frondosas, na sombra acolhedora da juventude? Jogávamos xadrez e cogitávamos realidades absurdas. E creio que meu coração foi sacrificado naquele tabuleiro. A partida foi inevitável. Algumas pessoas marcam nossas vidas. Mas são muito poucas aquelas que seguem conosco realmente. O mundo é feito de momentos. Nem sempre as amizades perduram, a maioria das vezes, elas desfazem-se nas águas límpidas do tempo.

E nesse ambiente em que me conheci tão profundamente, sinto-me estrangeira. Já não posso entrar simplesmente na escola onde amadureci. A vida deslocou-me no mundo. Nem sei se ainda pertenço a algum lugar. Estou perdida, sem saber a direção que devo tomar.  Volto ao passado tentando avistar a curva para o futuro. Mas parece que a cada vez que volto um pouco de mim fica aqui. Passo as mãos pela grama. E a imagem que era tão nítida ontem, faz-se turva hoje. Encravada na parede da memória a imagem das quimeras com as quais estive em constante embate. E ficaram comigo algumas fotografias, coisas que trouxe na bagagem e das quais já tentei muitas vezes me desfazer.  Não sei se procurava desmanchar um passado erigido sobre frágeis estruturas. Talvez, queria simplesmente me fazer outra. Ser alguém diferente do que fui. Entrar num outro ambiente e construir-me de novo.  Como se pudesse, de algum modo, apagar as marcas desse solo em mim.  Agora já sei que é impossível. Não mudamos o que fomos, nem o que nos tornamos. Construímos aos poucos nosso caráter e ele se estrutura sobre nossos erros e acertos. Posso ter errado mais que acertei. Tenho certeza disso, mas quando volto aqui, sei que faria tudo da mesma maneira novamente. A vida faz-nos tolos também.

As muitas canções que ouvi, as perguntas cujas respostas jamais achei, as pessoas que me ajudaram a crescer, os silêncios que cresciam constrangedoramente… Sim, eu abandonei muita coisa, nestes longos caminhos. Agora estou de volta ao passado que jamais se apagou em mim. A minha história na verdade está cindida em duas. Num passado que se ilumina aos olhos de um presente dolorido. E num futuro que permanece numa longínqua hipótese, (mas se…). Sabe quando sentimos saudade de tudo? Mistérios inexplicáveis da existência humana. Até mesmo as mágoas parecem menos doloridas vistas daqui. E queria voltar para aquele momento, quando imaginava que sentia a pior das decepções que poderia existir. Se pudesse colher aquelas lágrimas, para ter comigo a primeira relíquia de um coração partido… Outrora fui deste solo. Mas não sou mais daqui. “Sou uma cidadã do mundo.” Tenho muitos destinos. Não tenho mais raízes. Não mais me retenho em qualquer estação. Fico pulando de trem em trem.

 A minha vida agora é feita de inúmeras partidas. Não existem mais encontros, apenas despedidas. Meus pés voam com as sandálias aladas que me concedeu Hermes, anunciando um novo dia. Não trago comigo quaisquer armas. Desprotegida frente a um mundo infinito. Porque, mesmo sendo um dos menores do sistema solar, a Terra é, na verdade, uma imensa viagem. Temos de estar a vida inteira em trânsito para viver tudo que esse mundo nos oferece. Vou deixando minhas pegadas nesse solo que era meu. Nessas ruas numeradas em que me fiz grande, fui lançando pedaços de meu coração. Sementes de ilusão que brotaram em imensas árvores cujo tempo de floração é justamente a época mais fria do ano. Quando, outrora, com meus grossos casacos, tentava inutilmente me proteger de um frio que na verdade era interior. O mundo me foi muito mais acolhedor, quando fiz de minha história um acúmulo de milhares de despedidas.

Vou abandonando cidades no caminho. Forasteira em meu próprio país. Não trago muito mais que uma sucessão de derrotas. Mas acredito que as vitórias um dia virão. Nem que somente no derradeiro momento. Ainda há muitas lutas e muitos oponentes. Afinal, não se pode fugir para sempre! Vou embarcando, a cada dia, a cada estação, em uma nova aventura. Mesmo que não se ergam quaisquer troféus, vou deixando muitas paisagens, que correm sucessivamente do outro lado das janelas destes vagões. E vou buscando uma nova história, mesmo que as que possuo guardadas em meu peito não tenham sequer se resolvido. Não sei as horas quando me perguntam, pois o sol é meu relógio. Não quero ser mais do que livre. Mesmo que ainda se sobressaiam os fantasmas que me acompanham. Não há fronteiras que me cerceiem. Vou visitando diferentes destinos, sem me reter nas ladeiras ou nas esquinas. Fazendo da saudade o combustível de minhas viagens. Ainda quero ter de volta o passado. Contudo, já nem me dói tanto assim.

Deito-me nessa grama como muitas vezes já o fiz. Escutando a mesma canção que naquele dia ouvi. Esperando que as mesmas faces venham se juntar a mim. Mas ninguém aparece. Custo a convencer-me que o tempo passou. Todavia, já estou acostumando-me com as dores das feridas do passado. Sei que, talvez, me faça forasteira para não me sentir nunca mais pertencente a qualquer lugar. Sou ainda como aquela jovem sob as mangueiras, nas ensolaradas tardes de fevereiro. Entretanto, sei que alguma coisa mudou, mesmo que não se faça tão perceptível em um primeiro momento. Minha solidão é na verdade composta de várias solidões.

Um dia já fui deste solo. Um dia, já sentei sob essas árvores, um dia, joguei xadrez com quem costumava chamar de amigos. Hoje, são apenas retratos roídos pelo tempo. E nem me atenho mais a pensar nas mágoas que um dia se fizeram presentes. É tudo passado.  Deixo as memórias em diferentes destinos. O finito infinito particular desse mundo cheio de espaços. Não quero mais derramar lágrimas de abandono. Sou estrangeira. Faço das minhas viagens uma fuga para a partida. Antes que me abandonem e façam-me sofrer, deixo as amizades e amores no passado. Sou eu a primeira a partir. Quando volto, nem sei. Um dia talvez, quando a saudade bater mais forte que o medo. Por enquanto, faço-me viajante das memórias perdidas. Estrangeira das dores do passado. Forasteira do presente. Amante do futuro? Quem sabe…

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