Vagando pela noite 

Giordana Maria Bonifácio (novo nome de autora sugestionado por um amigo)

Uma chuva fina batiza a noite, as árvores dançam ao sabor dos ventos, aos poucos a claridade vai se apagando, como se a noite invadisse o dia, impondo as trevas aos seres humanos. Estes, sem protestar, parecem retornar aos seus lares, porque a noite pertence aos sonhos, não à vida. O silencio vai se disseminando na cidade, e parece que nem mesmo as aves atrevem-se a cantar. A história vai caindo, como se não houvesse do que se falar, então, faz-se necessário invadir uma dessas janelas fechadas, para que não se dê o fim antecipado do texto que ora se produz. Procurando em torno, se veem inúmeras vidas trancafiadas do outro lado dos imensos muros que nos cercam. E há tantas coisas interessantes escondidas nesses abrigos, que são denominados casas. Vidas imperceptíveis a olho nu. Não são pequenas demais, como devem suspeitar, são apenas esquecidas, encobertas pela manta do cotidiano. O mundo gira tão rápido que nem percebemos. E tudo que poderia ser vivido, fica meio que abandonado, atrás dos vitrais fechados. E quando simplesmente queremos concertar o fato de termos ignorado essas existências, somos simplesmente expulsos dos portões que  circundam suas propriedades. Por termos invadido, somos considerados criminosos que tentaram inserir-se onde não foram convidados. Por isso, teremos de nos fazer invisíveis, para poder dar continuidade a este conto. Entrar sorrateiramente, empurrar com cuidado a janela entreaberta, para podermos, desse modo, adentrar sem sermos percebidos. Assim, vamos cuidadosamente entrar na vida dessa garota que acaba de retornar do trabalho. Retirando as bijuterias que lhe adornavam o pescoço, os braços e dedos. Cabelos ruivos, pintados na cabeleireira da esquina, muito amiga de sua mãe, que lhe aconselhou a cor por condizer com a personalidade rebelde de que é detentora. Lançou o celular sobre a cama, e após uma ducha quente (para recuperar as energias depois de um árduo dia de trabalho), sentou-se frente ao computador. Ora visitando a esmo sites engraçados, ora renovando seu status em redes sociais, aproveita a mais moderna forma de lazer: a internet. O celular vibra sobre a cama indicando o recebimento de um SMS. Ela rapidamente toma o aparelho nas mãos para poder ler a mensagem. Sorri. E então volta ao computador para contar a uma amiga com quem “conversava” pelo MSN que aquele fulaninho bonitinho que a abordara no trabalho, (ela era estagiária num escritório de advocacia), acabara de convidá-la para uma festa. Ela ainda estava indecisa se deveria ir ou não. Por isso, estava questionando a amiga os pós e os contras desse programa inesperado. No quarto, alguns bichinhos de pelúcia, que ainda se conservavam da infância, dividem espaço com várias pilhas de livros da faculdade. Um guarda-roupas branco com portas abertas, (ela sempre se esquecia de fechá-las, o que deixava a mãe profundamente contrariada), mostrava um conjunto de roupas coloridas e insinuantes. “Não se vestia para si”. Como costumava dizer. “Mas para que o mundo não deixasse de percebê-la”. Porém, isto é tão comum hoje em dia, que ninguém mais consegue se fazer notar. Todos querem ser ouvidos, contudo, como se trata de uma massa imensa de pessoas nesse planeta, a balbúrdia é tão grande que não se pode sequer discernir entre as vozes. Uma sonora bagunça. Nada mais. A moça seguindo o conselho da amiga resolve telefonar para o rapaz que gentilmente convidara-a para sair. E deita-se na cama com os olhos voltados para o teto, sorrindo ao telefone, como se fosse possível ao interlocutor ver-lhe a felicidade do outro lado da linha. Mas ele não vê. A moça passa a enfeitar-se para o programa inesperado que surgiu nesta sexta-feira. (Eu lhes disse que era sexta? Perdão, devo ter me esquecido no entusiasmo de invadir a privacidade alheia.) Começa, então, uma seção de veste e tira roupas, a garota simplesmente não conseguia decidir o que deveria usar. Quando finalmente aprova um vestido, submete-se à produção da maquiagem. Ela se pinta porque a convenção social determina que as fêmeas da raça humana devam abusar de cosméticos para se fazerem mais belas para os machos. É assim. Não que eu seja contra ou a favor. É assim e ponto. Já enfeitada para seu encontro, a moça sai deixando as portas do guarda-roupa abertas. E fecha a janela por onde a espionávamos, sem se dar conta de nossa presença. Melhor assim, penso eu.

Continuemos a peregrinar por essas casas quase que silenciosas. (É possível ouvir o chiado dos aparelhos de tevê ligados na novela das nove). Caminhando por estas ruas onde apenas os cães saem do conforto de suas casinhas de cachorro. Os homens, ao contrário, escondem-se dos perigos da noite, dos predadores naturais da espécie, em suas tocas. Cavernas confortáveis que foram dotadas de janelas e portas. Onde só podem penetrar os membros do seleto grupo de amigos, família e conhecidos. Entretanto, mesmo sendo intrusos, não viemos incomodar-los. Não vamos interferir em nada nas vidas amenas dessas pessoas sentadas comodamente em suas poltronas, tomando sopa quente, enquanto assistem o cotidiano de seres inventados na televisão. (Será que não é isso o que aqui fazemos?) Todavia, a existência daqueles personagens é cuidadosamente calculada, de modo que seus trejeitos e roupas características virem moda. Depois, as pessoas comentam com grande afinco em seus trabalhos, faculdades e escolas, a realidade das novelas, que nem é realidade, apenas pura ficção. Ninguém se dá o trabalho de questionar por que fazem isso. Talvez, porque assim convém. Tudo é pura convenção. A brisa sibila segredos que os homens escondem de si mesmos. Entretanto, eu sei, nós sabemos a verdade. A resposta que se deixa dormir sob os travesseiros, a mentira que habita nos corações que mais cedo ou mais tarde se fará ouvir. Mas sigamos por essas ruas mal iluminadas. Onde a chuva cai persistente. (Aliás, faz tempo que não se conhece mais a face da lua. Esquecidas sob um denso tapete de nuvens, as estrelas piscam solitárias, longe do olhar das pessoas, longe do coração dos amantes, longe dos cálculos científicos dos astrônomos e das palavras adormecidas deste conto). Porém, demoramo-nos muito a observar o silêncio da noite. Quero novamente visitar a vida atrás das grades desses altos portões. Vamos escalar esses muros, (cuidado para não se ferirem nas cercas eletrificadas, segurança nunca é demais… Será?) Que tal invadir mais uma história? Eis que atrás dessa janela há novamente um coração a ser ouvido. Algo que não é comum nesses dias, tão atulhado de novidades. E aqui está um jovem rapaz perdido nas histórias mais inusitadas dos livros que se espalham pelo recinto. Ele nem se dá conta de nossa presença, tão entretido que está em sua leitura. No quarto, as estantes, cheias de grandes obras, reinam sobre os móveis. Mas os livros não se atêm a habitar somente a elas. Povoam a escrivaninha, a cama e o criado-mudo. E esse jovem, que se perde nas aventuras impressas no papel, nem se levanta quando a mãe berra-lhe o nome chamando-o para o jantar. Solitário, deita na cama e faz da leitura sua companheira. Quando está próximo do fim de um livro a que se dedicou a desbravar, mais circunspecto se faz. É como o fim de um romance. Não apenas “o fim do romance”, mas da história de amor que se fez presente na vida desse rapaz por algumas semanas. (Muitas vezes poucos dias ou, mesmo, apenas um). Ele conserva ao seu lado um computador ligado, em que dá vazão a sua vontade de também contar histórias. Mesmo sabendo que ninguém sequer as lê. É tanta coisa nova nessa rede de computadores ligando todo o planeta, (talvez o universo, como creem os filmes de ficção científica), que não há mais quem se preocupe com o mundo encantado das palavras escritas. As imagens são recursos visuais mais utilizados nessa teia de bites. Poucos são os que se demoram num texto de duas laudas. Querem tudo instantâneo. Na verdade, a realidade está cada vez mais rápida. Tudo tem de ser imediato. Esse jovem é um dos poucos que ainda conseguem se perder nas páginas da história bem engendrada de uma obra literária. Ao seu lado, Cervantes mantém viva a cômica história de um cavaleiro andante. Calvino, também faz referência ao mestre, e constrói sua própria imagem dos romances de cavalaria. Kawabata, conta as histórias de um Japão antigo. E ainda, Clarice, com suas obras introspectivas, faz a dor interna um pouco mais suportável. Também assim com Lygia, Caio, Saramago, Llosa, Rilque, Marquéz e tantos outros que fazem da vida desse jovem um pouco menos repugnante. E, com os olhos correndo as páginas dos livros, ainda se sente livre. Mesmo que pesados grilhões mantenham-no fixo na realidade. E assim o abandonamos. Nesse mundo de sonhos que restam completamente esquecidos nas páginas acolhedoras que nos proporcionam a literatura. Vamos para a rua, há essa hora, já completamente adormecida. Um grilo canta alegremente. A chuva persiste. E, atrás das janelas ainda há uma infinidade de histórias perdidas, esperando nossos olhos para se fazerem acontecer.


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