A travessia do Aqueronte

Giordana Medeiros

A balsa segue, não se sabe bem para onde, apenas vai, navegando no ritmo do coração pulsante do rio.  E observando estas águas um tanto tortuosas, surge-me a dúvida:  o que pensa o barqueiro que exige sempre uma moeda de ouro para permitir o ingresso nessa viagem? Será que queremos mesmo viajar no leito de morte deste rio? E será que poderíamos evitar o ingresso nessa barca? Muitas perguntas permaneceram sem respostas. Mas nem há mais como procurá-las. Chegou a hora. Hora em que devemos nos tornar passageiros. Não mais dirigimos. Não podemos sequer conduzir a barca que nos transportará. É o fim dos tempos. Uma multidão se acotovela nas margens desse rio. Todos devem ir para o mesmo lugar. A conclusão de nossa história chegou quando menos esperávamos. Não pudemos sequer nos preparar. E foi trágico, mas um tanto romântico também. Um cataclismo. Fim da vida na Terra que muitos prometeram, mas não acreditamos. E tudo ocorreu como foi previsto. Ao barqueiro, só resta ouvir o lamento dos mortos. Não nos damos conta do peso da eternidade. Almas não perecem. Permanecerão aflitas no Mundo Inferior, sem descanso. Não são nossos pecados que devemos purgar, mas nossos medos. Temos de aprender a superar tudo que nos foi impossível em vida. E agora, quando o sempre se faz tão real quanto o nunca, ser-nos-á menos pesada a terra que nos cobre? Túmulos que não existem, corpos espalhados sem alguém que lhes recomende as almas.  É esse o futuro que se fez presente. Não há mais saídas, o labirinto da vida foi superado. E nesse mundo devastado, qual será a nova espécie dominante? “Muito trabalho para você, Caronte?” Questiono ao barqueiro. Ele me sorri mostrando a dentição podre. E faz as moedas de ouro tilintarem dentro de um imundo saco de pele de carneiro. Vai-se nas margens do Aqueronte, a única riqueza que levamos conosco. Porém, no reino dos mortos, ela não é sequer necessária. Desse local, onde nos são infligidas as piores penas, apenas Orfeu conseguiu escapar. Sob o som da música doce da lira do herói, até Sísifo descansou de seu castigo. Eis que o mistério da morte se revela. A realidade que evitávamos chegou. O rio se estende sem fim. E para lhe cruzar as margens, Caronte nos leva. Desfazemo-nos das riquezas da terra, e mais humildes, seremos submetidos às penas que acumulamos em vida.  É a consequência de nossas infinitas faltas. Observo as faces dos demais passageiros. Temerosos, choram. Contudo, não é mais nos dada à possibilidade de arrependimento. Chegou a hora de pagar. E a morte nos cobra com juros. A usura de que nos valemos em vida, será utilizada para calcular nossos castigos na morada de Hades. E, na superfície deste mundo, uma terra inóspita se apresenta. Não há mais o verde acolhedor de um planeta vivo. O azul transformou-se em vermelho e a Terra, Gaya que era, agora sofre com o silêncio absoluto de seus domínios. Não mais se escutam o cantar das aves, nem mesmo o riso inocente das crianças. O homem causou o seu próprio fim. E nesse ano após a derrocada da civilização, Eólo sopra vigorosamente a areia de um solo sem vida. Formam-se nuvens de poeira, de vermelho vivo. (Corrigindo, vivo não, morto). Os rios secaram e o planeta água, nem mais oceanos possui. São desertos imensos que se estendem a perder de vista. Mas não há mais quem possa ver essa imagem. Acumulam-se nas margens do Aqueronte, as almas dos homens que destruíram o mundo. Os que ordenaram o lançamento das bombas atômicas são acusados pelos mortos de causarem o fim do planeta. Eles mesmos não conseguem suportar o peso da devastação de nossa casa sobre si. E pergunto-me qual será a pena que lhes será infligida? Provavelmente serão condenados a uma eternidade sem sossego. Almas penadas. Contudo, não há sequer a quem assombrar agora. Vão vagar sem abrigo por cem anos às margens do Aqueronte. O barqueiro parece não se importar com os gemidos dos espíritos. É insensível ao sofrimento daqueles que não mais são matéria. Eu não reclamo do fim que me foi destinado. Paguei a Caronte minha moeda e fiz-me passageira. As águas negras do rio que banha o mundo dos mortos me distraem. A barca segue viagem cortando a superfície cor de ébano, como se não importassem as perguntas e muito menos as respostas. Em vida, não cumprimos a missão que nos foi determinada. E agora que, mortos, nada mais podemos fazer, por que lamentar nossa terrível sorte?

Nesse ano que sequer começou, em que Chronos resolveu apagar o tempo, aprendi com a morte que o passar das horas não era importante. Eu que vivia contando segundos inúteis, compreendi que o tempo é aquele que construímos e não o que impuseram a nós. Nem sei se olhei para trás no primeiro passo. Os que se voltaram foram transformados em estátuas de sal. Numa época sem heróis, a falta que nos fez Teseu no momento derradeiro, foi absurda. Não tínhamos quem lutasse por nós. Os que prometeram nos salvar, ao contrário do que nos diziam, dizimaram a vida na Terra. E, nesse momento, a maioria estava desarmada. E as armas de uma minoria não eram suficientes para lhes poupar a vida. Mesmo alertados previamente, fizemos pouco das previsões alarmistas. Fomos arrogantes e rimo-nos dos profetas. Sem que nos déssemos conta, o futuro chegou. E com ele, a destruição, as doenças, a fome e a guerra. Foi o Apocalipse anunciado que ignoramos solenemente. E entendemos muito rápido o real sentido da palavra destruição. Mas foi num piscar de olhos. A guerra atômica era evidente e não percebemos a tempo. Então, eis aqui o nosso destino, quando as Parcas pararam de fiar e Zeus fechou os olhos para a Terra. Fomos todos amontoados no conjunto disforme de almas, nas margens desse rio alimentado por nascentes de sofrimento humano. Alguns espíritos, muito pesados, envergam em função de sua carga, outros, muito leves, parecem flutuar. O peso que carregam é diretamente proporcional ao número de faltas que trazem consigo. Eu mesma levo uma boa bagagem nas costas. A barca, no entanto, não afunda com o pesar dos espíritos. Caronte está feliz com suas moedas, os homens descontentes com seu novo lar. O reino de Hades não é nenhum ponto turístico. Os que estão aqui jamais saem. (Não podemos levar em conta as aventuras do corajoso Orfeu). Começo a perceber que a eternidade é tempo demais. Não consigo conceber uma prisão tão terrível quanto esta. Onde espíritos vagueiam sem cessar no vazio obscuro de suas mentes (as quais nem mais possuem). E minhas sensações quanto ao lugar que nos acolherá só pioram com a proximidade de seus imensos muros. Já ouço o latir de Cérbero. O cão demoníaco, fera atroz que guarda os portões dessa prisão de medos. Não há sequer a possibilidade de Morfeu nos conferir o vislumbre do sonho nesse ambiente de dor e lágrimas, aonde caímos no abismo infinito que leva ao Mundo Inferior. Todos que aqui entram não voltam mais desse escuro penar. As pessoas abusaram do tempo. As impuras águas deste rio, poluído por nossas faltas, não animam aos que penetram nesse castelo de súplicas, na pedra gélida que lhes servirá de calabouço. E choram copiosamente, mas já não é tempo de lamentos. É chegado o momento de encarar os erros, assumir os pecados, e suportar a sentença que cairá sobre nós. Caronte nem mesmo um murmúrio profere. Vai remando, sua função é transportar as almas repletas de nódoas. Munido do capacete com poder de tornar-lhe invisível, Hades resgatava os mortos, decorrentes da última e derradeira Grande Guerra. Poderia restituir-me a vida, mas não o fez. Disse-me algo sobre destruição do homem e dos seres de nosso planeta. E lançou-me às margens do Aqueronte. Não sei se receberei a punição do Tártaro ou as delícias dos Campos Elísios. Não fui propriamente uma pessoa virtuosa. Ao contrário, creio que nem sempre agi com justiça e muitas vezes não tive comiseração quanto à dor de outras pessoas. Por isso, duvido que seja encomendada para o descanso eterno dos justos. Porém, também não acredito que cairá sobre mim a condenação ao Tártaro eterno, a masmorra das almas infiéis, a submissão dos homens a redenção de seus opróbrios. Onde devem redimir em morte o que não fizeram em vida. Se ainda houvesse uma Terra, poderia provar das águas do Letes, esquecer de uma história marcada pelo pecado e retornar à vida para recomeçar do zero, tornando-me um tanto mais generosa e com ações em conformidade com as leis humanas e de Zeus. Assim, escolheria uma nova alma que me servisse mais ou menos. Não sei se anseio pelo julgamento de Radamanto, Éaco e Minos. Sei que possuem o real senso de justiça que falta a maioria dos homens. E tenho fé que a pena que sobrevirá não será tão árdua quando a de Sísifo ou Prometeu. No vale dos mortos a barca alcança os portões do reino de Hades. Caronte desembarca os passageiros e abrem-se os portões do infinito. A vida, que nunca mais será, foi. Futuro e pretérito. Ou futuro do pretérito: a vida seria. Mas tudo acabou nessa vaga possibilidade.

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