Redescobrir

Giordana Medeiros

Procurando bem, podemos encontrar em nós tudo que perdemos. (Mas não perdemos!) Estão escondidos em nós a fé, a felicidade e o amor que julgamos haver esquecido em algum lugar. Eis que, com um tanto de esperança, as situações mais complicadas podem ser facilmente resolvidas. É só pesquisar bem. Está tudo em você, mesmo que não esteja na superfície das coisas. Para achar prata e ouro é necessário escavar. Metais preciosos não restam na superfície. Bem como petróleo e diamantes. (Seria fácil demais, não?) Tudo que vale a pena encontrar tem de ser minuciosamente rastreado. Veios de felicidade não afloram, nem mesmo todos os sentimentos que queremos usar (e abusar). É necessário cavar, afinal, tudo é fruto de trabalho e perseverança. Minha cota de solidão e desespero é muito mais fácil de acessar. Por isso pego sempre o que está à mão. Mesmo que não seja o mais aconselhável de valer-se nos momentos críticos. Quando um problema nos surpreende, desespero é nossa primeira opção. E por que não esfriamos a cabeça e procuramos profundamente em nós a solução, é uma questão que ainda me atormenta. Sei que ando com inúmeras pendências em mim. Coisas que deveria ter feito e não fiz. Amores que julgava resolvidos e não estão. (Nunca estão…) Problemas que varri para debaixo do tapete que reaparecem como fantasmas em minha vida.  Fui sempre descartando coisas que julgava difíceis demais. Não assumi minhas tolices. Ao invés disso, guardei meus esqueletos no armário e tentei esconder-me de todas as dificuldades que semeei. É minha culpa. Agora, como devo resolver? Para redescobrir a coragem que perdi, será necessário visitar o Mágico de Óz? E se ele for um embuste, uma mentira que cultivamos para esconder mais ainda a verdade em nós?  Em realidades paralelas fui traçando um mapa de lugares que não visitei. (Por quê? Talvez por medo ou por preguiça, por estarmos demasiadamente acomodados ao que somos e onde estamos.) Minha mente é o infinito em que, vez ou outra, me perco. Nem sei onde me encontro e se me encontro. Não que não me procure. Fico horas perseguindo um passado que deixou lembranças (algumas muito boas) que não consigo esquecer. Como a imagem do quintal de minha avó, que julgava imenso quando criança, e que, ao visitá-lo algum tempo atrás, redescobri-o grande apenas em memórias. Como o fato de macaquinhos que fugiam do zoológico na outra rua sempre virem brincar nos galhos das árvores de minha avó. Ainda fazem isso, contudo esses fatos presentes não preservam o gosto do passado.  (Queria ter mantido os olhos puros da infância para sentir felicidade com as acrobacias dos miquinhos nas copas das árvores, como outrora senti). A maturidade implica em falecimento. Não apenas do corpo, mas também dos sonhos. Sonhos envelhecem. Tornam-se inúteis. Coisas que queria na infância não podem mais ser possuídas por um adulto. Como fantasias de super-herói que desejava, as quais jamais ganhei. Pedia para papai-noel, porém creio que não era a boa menina que vislumbrava, pois sob a árvore encontrava tão somente sapatos, roupas e meias. Há também o fato do ursão que pedi à minha mãe, que devido às poucas posses que tínhamos na época, foi-me dado um tão pequeno quanto minha mão. E minha mãe vendo-me triste, disse-me para dar comidinha a ele que logo cresceria. Não tive estes e muitos outros brinquedos que muito queria. E agora que tenho como adquiri-los, não posso mais me divertir com eles. “Faz de conta é coisa de criança!” Dizem-me. Eu que sempre achei graça em fazer de conta que mundo existia, fiquei perplexa com o fato de ele ser realidade. E fui perdendo o jeito com as coisas. Sabia empinar pipa, jogar futebol, jogar bolinha de gude, e tantas outras coisas com as quais não tenho mais qualquer habilidade. E minha solidão foi crescendo progressivamente. A cada ano a via maior em mim. Assustada com a diminuição de meus sonhos, tive de encontrar um meio de redescobrir em meu espírito tudo que perdi. (Ou achava que havia perdido.) Escavei sob densas camadas de desilusão, dor e ressentimentos por anos a fio, sem pausas, num trabalho árduo de garimpagem. Porque tinha a resolução de buscar os sonhos que não mais sonhava. Os desejos que tinha e não satisfiz. Tanta coisa transformada em derrota e que queria converter em vitória. Meus sonhos, que apareciam brilhando como estrelas pequeninas encravadas no negro material da desesperança, fui os resgatando um a um. E agora quero ensinar a todos como buscar em nós mesmos sentimentos que julgávamos haver sido excluídos de nossa história.

Sigam direitinho a receita:  munam-se de picaretas, carrinhos de mão e pás. Escavadeiras não, que máquinas pesadas podem destruir estes sentimentos que são demasiadamente frágeis. Comecem o trabalho e não se desiludam com as primeiras camadas de rocha dura que encontrarem. Já os advirto com antecedência, não é, de maneira nenhuma, um trabalho fácil e prazeroso. Ao contrário disso: no caminho encontram-se muitos sonhos caducos. Histórias inconclusas, medos esquecidos. Um material enorme que os podem fazer desistir. Mas tão logo passem por isso, encontrarão a perseverança que há muito julgavam sumida. E não é que estava simplesmente escondida em vocês? Com o reencontro da perseverança, continuem cavando, mais forte e mais profundo. E então, redescobrirão a fé, que surge como a crença de que logo se encontrará tudo que perderam. Seguindo por dentro da mina que construíram em si, a luz começa a rarear e o ar a ficar escasso. O trabalho torna-se insalubre e perigoso. Mas já munidos de fé e perseverança nem esses percalços são suficientes para fazê-los desistir. Vão descendo, cada vez mais, para o lugar mais recôndito em seu espírito. Nas paredes da memória vocês encontrarão veios dourados de sentimentos, entre eles, a coragem e a felicidade que sempre souberam possuir, mas que não sabiam onde encontrar. E também os antigos sonhos como diamantes piscando nas rochas em que foram retidos. E somando-os com os sonhos que possuem agora, o faz de conta vira realidade. Os desejos de hoje concluem os de ontem. Os medos são vencidos, as histórias, terminadas e dá-se início a outras. Só cuidem para que, no caminho, não ocorram deslizamentos. A substância escavada é muito instável. Pode ocorrer de lhes prender eternamente no passado que guardam dentro de si mesmos. Então, lá se vão anos de trabalho incansável. Porque sem poder fugir dessa mina, jamais poderão usufruir do hoje. Verão tudo pelas lentes douradas do passado. Sem se darem conta que a vida é o aqui e agora. Por isso, não se detenham muito tempo dentro dessa mina. Procurem, tão logo redescubram tudo que julgavam perdido, fugir dela antes que desabe. Assim, de posse dos sentimentos velhos, procurem não conflitarem estes com os novos. Nem sempre o passado é compatível com o presente. E, portanto, muitos sonhos velhos deverão ser recauchutados, mesclados com os novos, para que assumam um novo aspecto.  Porque fantasias de super-herói não são recomendadas a adultos de trinta anos de idade. (Caso vocês não sejam atores de Hollywood, podem pensar que estão loucos.) Então converta esse sonho em algo novo. Por exemplo, tornem-se os heróis de sua própria história. Pode não haver lutas com vilões de collant, mas há outras batalhas, como lutar para formar-se na faculdade. Vencer num trabalho, mesmo que este não seja o mais desafiador. Ou escrever um livro, mesmo que não venha a ser o mais lido de todos os tempos. (Nem todos escrevem sobre magos mirins, bruxos e bruxas). Os presentes, que não vieram pelo Papai Noel para vocês, conceda-os aos seus filhos. É uma ótima maneira de resgatar um sorriso que se mostrava perdido. E tem ainda a vantagem, de você poder brincar com as crianças para lhes apresentar um brinquedo que sempre quis ter. Desilusões podem ser vencidas! “Quando tudo está perdido sempre existe um caminho.” Cantava Renato Russo. As ilusões não estão todas perdidas. Contradizendo Cazuza. Nessa luta que travamos com o destino, podemos sair vitoriosos. (Como não acreditávamos que pudéssemos). E mesmo que não tenha recebido o ursão que sempre quis. Posso alimentar minha alma de bons sentimentos para fazer-la crescer. Muito falei nesse texto sobre meus sonhos, sentimentos, desejos e as maneiras que criei para buscá-los. Advirto-os que tentem também criar sua própria receita. Mesmo que não venham vendê-las por aí em livros de auto-ajuda que somente ajudam aqueles que os escrevem. Nem sempre é fácil ter uma receita de sucesso. É tudo feito através de erros e tentativas, testando caminhos, batendo com a porta na cara muitas, inúmeras, vezes. (Quem disse que viver é fácil?) Frustrações ocorrerão. É inevitável.  Mas o essencial é saber começar de novo. Vai valer à pena. Acreditem. Quando, no fim de tudo puderem olhar para trás, terão certeza de jamais houveram desistido. O sucesso é um caminho, não um fim. Creiam no que lhes digo. Tudo que construíram e mesmo o que ruiu é uma pequena parte de vocês. Seguindo essa receita de sucesso garantido, não há como falhar, e se falharem, não há problema, o essencial é, levantar após a queda, bater a poeira e seguir por outra direção. A vida, no fim, não é feita de fórmulas mágicas, tão somente de sonhos, sentimentos, fé e perseverança.

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