E se você nunca voltar?

Giordana Medeiros 

Venho pensando em algo nestes dias nos quais a solidão se tornou normal para mim: e se você nunca voltar? Será que ainda poderei ver nas nuvens o que não tenho em vida? Quando observo o sol entre os galhos das árvores, acredito que o passado ainda persiste no hoje, mesmo que de outra forma. Saudade é lembrança que permanece. A dor diminui, mas jamais se ausenta. É assim. Ainda fico horas olhando pela janela, acreditando que sua imagem vai aparecer na esquina. (Um dia, quem sabe?) Seu sorriso ainda me assombra os sonhos. No início, chorava desesperadamente, agora as lágrimas são calmas e perenes. Sei que ainda sinto. Sentir é verbo permanente. Pode se conjugado no pretérito ou futuro. Mas sempre estará presente. Quero, como alguém que tenta vencer os fatos, esquecer. Mas sei que amor marca feito tatuagem. E você está aqui gravado em letras garrafais em meu coração. Sei que há algo em mim que ainda acredita em seu retorno. “É impossível”, minha mente me diz. Porém meu coração tenta me fazer crer do contrário. (Tonto…) Eu sigo alimentando as memórias que você deixou. São sementes, não vê? Em breve será uma bela e frondosa árvore.  Descansarei sob a sombra da solidão, em que jaz toda saudade. Ainda há tanto a se falar. Deveria ter dito o que sentia antes de você ter me deixado. (Para sempre?) Por que falhei tanto com você? Queria que pudesse responder-me se foi realmente um engano. (Foi?) E se tivesse sido, se pudesse, se houvesse e se fosse, em fim? E se você não voltar mais? O que devo fazer? Meu coração não se acostumou com sua ausência. Minhas lágrimas não são suficientes para vencer o destino que nos separou. (Como reescrever uma vida?) Quero ter em mãos a caneta que determina o amanhã. A mesma que também transforma o que foi.  E com o poder de mudar o que foi e o que será, posso trazer você para perto de mim. Posso descansar a cabeça sobre o travesseiro, mas invariavelmente é sua imagem que habita em meus pensamentos. Estou aqui, perdida sem suas palavras. Subitamente, viver se tornou tão mais difícil. Sei que há enigmas pendentes de resolução, que tenho muitos afazeres e, como se diz, “missões a cumprir”, todavia, sem seu auxílio, a palavra amiga que me confortava sempre, fica quase impossível continuar. Estou, aos poucos, cedendo à lógica. Talvez nos vejamos somente daqui a vários anos. As águas passarão incessantemente sob a ponte. O relógio vai correr veloz, muitos poentes se seguirão. Mas nem mesmo o tempo, (que se julga cura para tudo), poderá apagar o que você foi para mim. E, quando me faltarem palavras, ainda me restará o silêncio de minha dor. Você era o mais forte. Era o que sempre superava tudo. E que vivia alegre apesar de todas as circunstâncias, por que se foi tão rápido? Sem nem ao menos se despedir? Ficou no espírito uma ferida bem profunda, que vez ou outra sangra, como agora, que penso ouvir sua voz dizendo-me, com tanto amor, como eu era importante. Nunca mais me senti assim. Fico inconsolável, nego os fatos. Não foi assim. Não pode ter sido. Você era invencível! E vem a realidade desmitificar todas as nossas crenças. E se você não voltar mais? Deverei ser eu a ir procurá-lo? E, se eu for, nos encontraremos? Há possibilidade de tudo em que acreditei a vida inteira existir verdadeiramente? Queria desmontar todas as mentiras que nos contaram desde a infância, coisas que nos conferem falsas esperanças, como a possibilidade de ganhar um presente de Natal porque um “bom velhinho nunca esquece ninguém”, (mas acreditem: ele jamais se recorda). E o pior, quase sempre fui abandonada em minha fé. Minhas tolas expectativas foram transformadas em desilusões rápido demais. “Viver é melhor que sonhar.” Todavia tenho vivido de sonhos por tempo demais. Vida e morte são palavras desconhecidas para mim. Não sei nada sobre elas. A morte não me quis e a vida me abandonou. Estou um tanto perdida nesse universo. Nem sei por onde devo seguir. Fico caminhando às cegas, no breu da existência, procurando um atalho para o destino em que quero estar. Mas sempre acho que errei na última curva. (Deveria ter seguido em frente?) E com tanto medo de voltar e começar de novo, vou aceitando o que me ditam as pessoas. (Por quanto tempo?) Só queria que estivesse aqui. Ver-lhe uma única vez apenas, para ter a certeza que está bem. Gostaria de saber se pode ouvir-me.  Pode entender a falta que me faz? A minha mente volta alguns anos, para provar que era feliz. (Eu era?) O que é ser feliz? Será que poderia retornar para dizer-me? Será que fecho os olhos para a alegria? Que me desfaço dos doces momentos para alimentar os desastrosos? Queria chorar como criança, para ter aquilo que desejo. Mas quando crescemos descobrimos que nem mesmo nossas lágrimas mais sentidas podem nos conferir o que precisamos. (Sonhos são construídos de ações, não de lágrimas).

Minhas palavras se perdem na folha em branco. Ora aqui, ora ali, estou me tornando mais clara. Não quero que me compreendam. Sou uma confusão permanente. Dúvidas são como nossas sombras, sempre nos acompanham. Ao meio dia pisamos sobre elas e, próximo ao poente, elas nos precedem. Na realidade, tudo é assim também. Estamos sobre as mais intricadas questões no meio de nossas vidas, perto do fim, elas estarão à nossa frente.  E será que chegamos a resolvê-las? Será que pode responder-me? Chegaremos a terminar esse quebra-cabeça que nos desafia? Um jogo de milhares de peças, que levamos toda a nossa existência tentando montar. E se simplesmente nos desfizéssemos de tudo? Não levássemos a vida tão a sério… (Como você fazia, não é mesmo?) Tenho medo de abandonar todo este lixo que vim acumulando… Sabe, é nesse interregno entre os nadas que ocorre tudo.  Saímos do nada para lugar algum. Mas sempre queremos fazer do que se dá no caminho algo que valha a pena se ver quando chegarmos ao final. Queremos acumular dinheiro e bens que na morte não poderemos levar conosco. Queremos aproveitar a vida ao máximo, (porque a achamos muito curta), para que nos sintamos realizados. Será que o essencial não seria apenas sermos felizes? E, mais uma vez, me pergunto, de onde vem a felicidade? Quando você se foi, não tive tempo de questionar onde a havia deixado. E, nesse momento, não me culpe se não a encontrar. Sei que, perdida no meio deste oceano de possibilidades, sempre acho que sigo por rotas erradas, ou deixo levar-me pelas correntezas. E se você nunca voltar? Será que conseguirei seguir sozinha? Minhas pernas doem, depois de tanto caminhar, sinto-me ainda muito distante. (De quê? De onde?) Será que pode sibilar no meu ouvido as respostas mais difíceis? Prometo tentar encontrar as mais fáceis. (Há alguma solução fácil?) Sempre me pergunto se teve tudo que quis. Será que se sentia feliz com aquilo que conquistou? Deixou muitos sonhos para trás? Ficaram aquelas histórias que tanto nos divertiam. Ainda me ocorre de pensar nelas. Nunca esquecerei, não é mesmo?  Estou aqui, nessa estação, com as malas aos meus pés, pensando se devo realmente fazer esta viagem. Você me acompanharia? Tenho medo de estar sendo fraca em abandonar os antigos sonhos para acolher novos. Será que isto seria covardia ou coragem? Sei que sempre me apoiou em todas as minhas escolhas. Acho que amor é, antes de tudo, apoio e amizade.  Eu não posso esconder a dor. Quero realmente que esteja comigo. Porém, creio que, nesse momento, tenho de prosseguir sozinha. (Mesmo que não possa pegar minha mão agora). Serei forte como você ensinou-me a ser. Minha mala pesa. (É muita bagagem para uma vida só). Mesmo assim, creio que me esqueci de algumas coisas. São pequenas palavras que faltaram, gestos que não se concluíram. (Eu nunca tenho tempo de fazer tudo que planejo). O trem apita, tenho de embarcar. Agora sou eu que vou. (Mas não para a terceira margem do rio que lhe levou, não ainda). Creio que tenho muita coisa para fazer. (Não sei se valerá à pena, se poderá ser uma história a se contar no futuro…) Não quero rever meu passado ainda. Deixe-me construir o futuro, que o prédio ainda está pela metade.  Minha mágoa é que seu sorriso não premiará meus feitos. Eu perdi tanta coisa. Acho que a vida é feita de grandes derrotas e pequenas vitórias.  Devemos valorizar tudo o que obtivemos. Mesmo que seja muito, muito pouco. Não são baixas expectativas. É que, aprendendo a sorrir para as vitórias, as derrotas não ferirão tanto. Por que ainda olho em volta a procura de seu rosto? (É o fim?) Mas, e todas as coisas que deixei para trás? Será que é seguro abrir novas estradas nessa selva inexplorada? Sinto o coração aos saltos. (Tem mesmo de ser desse jeito?) Por que sempre vacilamos no momento derradeiro? Por que não sou tão forte quanto você? Sou frágil, tenho medo. É difícil abandonar um sonho, ainda mais quando se lutou tanto por ele. Entretanto, é o que faço neste instante. Com um aperto no coração. Sem saber se é o certo a fazer (nunca  é). Vou embarcar nessa nova viagem para lugar nenhum. (O importante é a viagem, não o destino). Tenho bilhetes só de ida. Não voltarei, ninguém voltará. Isso é o mágico da vida. Não há retorno, somente despedidas. Sei que ainda espero por você. Sabe onde me encontrar, não é? E, mesmo que ocorra de você nunca voltar, aguardarei o momento certo para ir ao seu encontro. Porque sei exatamente onde você está.  E numa ilusão mágica, (será loucura?), vejo-lhe acenar para mim de longe. “Um dia, um dia”, repito baixinho. Observando sua imagem que está tão somente em meus sonhos. E, neles, você ainda está comigo. (Você sempre esteve, não é?).

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  1. lilas666

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