Arquivo do mês: dezembro 2011

Do lixo ao luxo, reciclando ilusões

Giordana Medeiros

Um começo. Um primeiro passo. É tudo do que preciso, depois as coisas caminham praticamente sozinhas. Vou tentar, pela última vez. Tenho de fazê-lo. Nada mais me atemoriza. Vou colher ilusões aqui e ali. Os medos pulverizados em dúvidas. Mas já tenho em mãos a resposta da maioria das questões que trazia comigo. Tenho ainda muita bagagem, recordações das quais eu não quis me desfazer. É muita coisa que se acumula, entulhos na estrada. Vamos amontoar as desilusões em um canto qualquer. Não se quer mesmo lembrar delas, nem mesmo restaurar uma dor que se cria perdida. E nesses montes de lixo, em meio a urubus e ratos, encontramos gente? Por que há pessoas nesses reinos de dejetos que despejamos em qualquer lugar? Seres humanos que se alimentam do nosso lixo. Oportunidades perdidas são um prato cheio. Há quem viva de nossa dor, que reaproveite o que se pensa já terminado. Muitos fins são apenas o início. Vamos emendar com retalhos coloridos a nossa alma rasgada. O luxo que vem do lixo. Com pouco menos é possível criar milhares de fantasias. Não para cobrir-nos o rosto escondendo nossa identidade, mas para podermos sonhar. Criar devaneios com um pedaço de madeira, que, sem muito esforço, converte-se em uma espada, num átimo, eis D’artagnan, esgrimindo pelas vielas de Paris. Pode-se, também, construir histórias com um pedaço de pano que logo se transforma em capa, conferindo super força e visão de raio laser para quem a usar. E há também os heróis modernos e suas mutações fantásticas. Fator de cura seria muito útil para o vizinho que sempre reclama de artrose. Esses sonhos que, na realidade tornam-se faz de conta, fazem-me concluir que o poder não está no físico, mas no etéreo. Aproveitar o lixo para construir um mundo, mesmo que reste visível apenas aos nossos crédulos olhos. Pena que faz de conta é coisa de criança… Muita gente iria adorar ser o que não se é. Sei que o futuro não está no plausível. Quero o absurdo, o fantástico que se derrama das páginas dos quadrinhos. Mesmo que não nos tornemos mutantes, que não lancemos rajadas ópticas por nossos óculos de quartzo rubi, que não voemos com nossas asas de anjo, ou lancemos cartas de baralho energizadas. Ainda que tudo isso não esteja ao alcance, quero abrir um pedaço de minha vida para esta realidade que não é sequer realidade. Sei que é absurdo, que a genética não prevê tamanha evolução, (homo superior? Bobagem!), que são apenas histórias para entreter crianças. Porém, graças a estas pequenas obras-primas que hoje escrevo longos textos. Não posso deixar de admitir, aprendi a ler com gibis e a escrever, com estas fontes magníficas de sonhos. Depois, fui descobrindo com os livros rejeitados pela maioria, que o sonho pode prescindir de imagens. O luxo, mais uma vez, que se desenvolve a partir do lixo. Fui desbravando, mundos imateriais, que só existiam devido à literatura. A arte não imita a vida, mas a reconstrói de maneira mágica. Cem anos de solidão que se passam em alguns dias. Mitos que povoam a vida de figuras maravilhosas. Elfos, centauros, grifos, dragões, magos, bruxas, por que apagar de nossa história estes seres só pelo fato de não serem sólidos? E todas as loucas viagens que fizemos por folhas de papel impressas de sonho? Por que fechar-nos ao estritamente real? Tolkien, que hoje é celebrado, foi repudiado durante longos anos. Então, o que poucos admitiam adorar, tornou-se febre. E muita gente se aproveitou do modismo convertendo o fantástico em comércio. Coisas que fazem do luxo, lixo. Por que sempre há meios de corromper o que outrora era puro? Eis que sonhos viram matemática, contabilidade dos lucros, não é mais fantasia, mas mero senso de oportunismo. A história que foi recolhida do ouro é convertida em pirita. Obras que serão esquecidas nas estantes daqui a alguns anos, porque não têm sequer qualidade literária para sobreviver ao fim de uma moda. E após o término da febre recolher-se-ão os derradeiros exemplares do que outrora foi sinônimo de pop-art. (Por que criar uma designação para o que não tem valor literário?) Ficção científica? Queiram conceder-me o privilégio de citar um mestre: Stanislaw Lem. Não é necessário fotografar a vida para se fazer arte, às vezes ela está no que a imaginação consegue criar.

Falando nisso, vem-me a mente a imagem de Dom Quixote, querendo fazer da literatura sua própria existência. E nisso foi apelidado louco. Porque faz de conta, meus caros, é coisa de criança. Não mais seguimos as imagens que nos povoam a mente. Limitamo-nos a sermos sãos. Não queremos abrir um mínimo milímetro de nossas vidas para a fantasia. Fazemos dejetos dos instrumentos de sonhos. E tudo assim, excessivamente coerente, acaba sendo muito chato. Perdoem-me por ser extremamente franca e direta. Mas não quero ver a vida por lentes tão cinzas. Um tanto de aventura, outro de imaginação, eis que surge uma pequena nova pérola da literatura mundial. Pode estar nas páginas coloridas de uma história em quadrinhos ou, mesmo, no mundo abstrato de C. S. Lewis. Guarda-roupas podem guardar portas para outra dimensão? Mas é lógico que sim! Não façam das idéias uma barreira para a magia! Não façam do crível uma prisão em seu dia-a-dia! A infância não retém os sonhos. Eles nos acompanham. Fechem os olhos e verão que Dom Quixote sobrevive em vocês. Não que esteja os encorajando a vestir armadura, montar um velho corcel e saírem por aí lutando contra moinhos de vento. O que quero que façam é deixarem uma pequena porçãozinha de vida para a magia. O mundo anda sólido demais? Llosa, Márquez, Lem, Tolkien e Lewis podem ajudar. Ou então, desfaçam-se dos terríveis preconceitos quanto à arte dos quadrinhos e lancem-se em maravilhosas histórias de ação e aventura. Podem ser vividas tanto com as loucuras encabeçadas pela nossa nacionalmente conhecida Turma da Mônica, quanto às intrincadas tramas dos quadrinhos dos X-men, Homem-aranha, Hulk, Thor e tantos outros que nos libertam do marasmo do possível. Eis como abrir a porta da prisão do cotidiano. E, mesmo que seja tão somente uma única fechadura, são muitas as chaves que entram em seu ferrolho. Nesse resgate de sonhos abandonados no lixo de nossas almas, acontece-me de desejar também viver com tanta ilusão. Acho que me perco no real, por isso vou escrevendo aqui e ali sobre mim. Contudo, nem quero fazê-lo. É que, quando estamos contando histórias, um tanto assim de nós nos escapa e prega nas palavras. Nosso espírito é igual criança levada. A gente ralha com ela, mas acaba invariavelmente nos desobedecendo. E, quando nos damos conta, lá está um retrato de nossa vida tatuado no papel. Tentamos apagar, mas já é tarde. Nem há mais como fazê-lo. Será possível não criar um personagem que nascendo de nós não leve consigo grande parte de nossa carga genética? Um breve exame de DNA, logo atestaria nossa paternidade (ou maternidade). Cervantes, que era um gênio, deixou um pedaço (bem grande) de si no cavaleiro da triste figura. Dante fez de si mesmo personagem. E eu nem sei o que faço de mim. De repente surge o texto. E voilà: desprega de mim a criatura. Um monstro, feito de retalhos de sonhos. E nele coloco tudo que vivi e que fui construindo: meus pedaços de ilusões. Numa grande tempestade, com as descargas elétricas, vou dar vida ao meu ser. Serei a Doutora Frankenstein, concedendo vida as desventuras que guardo em mim. Mary Shelley, a dona da história mais pavorosa que venceu as de muitos homens, nos produz a pergunta: por que não se curvar ao fascínio da criatura da autora, que causou a desgraça de Victor Frankenstein? Podemos também viajar nas histórias de fantasmas de Delfoe. Mesmo que não acreditem nos pavorosos seres e monstros que povoam a literatura, é fácil encontrar a todos eles. O segredo é começar a ler. Esse foi o primeiro passo que esperava. Uma única palavra que se torna uma única frase, que, por sua vez, se converte numa única página. Por fim, nos vemos envolvidos pela história, pelas aventuras que decorrem tão somente no mundo fantástico que se desenvolve apenas no livro. Não há como arrancar desse lar o irreal, porém podemos fazer dele uma parte de nossas existência. Vamos procurar nos entulhos que se acumulam em nossa estrada. Pode ser que um grande romance se encontre em meio a tantas desilusões. Sonhos podem ser reaproveitados! Uma nova maneira de sustentabilidade: reciclar ilusões perdidas! Podem crer, em breve se tornará mania.

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Redescobrir

Giordana Medeiros

Procurando bem, podemos encontrar em nós tudo que perdemos. (Mas não perdemos!) Estão escondidos em nós a fé, a felicidade e o amor que julgamos haver esquecido em algum lugar. Eis que, com um tanto de esperança, as situações mais complicadas podem ser facilmente resolvidas. É só pesquisar bem. Está tudo em você, mesmo que não esteja na superfície das coisas. Para achar prata e ouro é necessário escavar. Metais preciosos não restam na superfície. Bem como petróleo e diamantes. (Seria fácil demais, não?) Tudo que vale a pena encontrar tem de ser minuciosamente rastreado. Veios de felicidade não afloram, nem mesmo todos os sentimentos que queremos usar (e abusar). É necessário cavar, afinal, tudo é fruto de trabalho e perseverança. Minha cota de solidão e desespero é muito mais fácil de acessar. Por isso pego sempre o que está à mão. Mesmo que não seja o mais aconselhável de valer-se nos momentos críticos. Quando um problema nos surpreende, desespero é nossa primeira opção. E por que não esfriamos a cabeça e procuramos profundamente em nós a solução, é uma questão que ainda me atormenta. Sei que ando com inúmeras pendências em mim. Coisas que deveria ter feito e não fiz. Amores que julgava resolvidos e não estão. (Nunca estão…) Problemas que varri para debaixo do tapete que reaparecem como fantasmas em minha vida.  Fui sempre descartando coisas que julgava difíceis demais. Não assumi minhas tolices. Ao invés disso, guardei meus esqueletos no armário e tentei esconder-me de todas as dificuldades que semeei. É minha culpa. Agora, como devo resolver? Para redescobrir a coragem que perdi, será necessário visitar o Mágico de Óz? E se ele for um embuste, uma mentira que cultivamos para esconder mais ainda a verdade em nós?  Em realidades paralelas fui traçando um mapa de lugares que não visitei. (Por quê? Talvez por medo ou por preguiça, por estarmos demasiadamente acomodados ao que somos e onde estamos.) Minha mente é o infinito em que, vez ou outra, me perco. Nem sei onde me encontro e se me encontro. Não que não me procure. Fico horas perseguindo um passado que deixou lembranças (algumas muito boas) que não consigo esquecer. Como a imagem do quintal de minha avó, que julgava imenso quando criança, e que, ao visitá-lo algum tempo atrás, redescobri-o grande apenas em memórias. Como o fato de macaquinhos que fugiam do zoológico na outra rua sempre virem brincar nos galhos das árvores de minha avó. Ainda fazem isso, contudo esses fatos presentes não preservam o gosto do passado.  (Queria ter mantido os olhos puros da infância para sentir felicidade com as acrobacias dos miquinhos nas copas das árvores, como outrora senti). A maturidade implica em falecimento. Não apenas do corpo, mas também dos sonhos. Sonhos envelhecem. Tornam-se inúteis. Coisas que queria na infância não podem mais ser possuídas por um adulto. Como fantasias de super-herói que desejava, as quais jamais ganhei. Pedia para papai-noel, porém creio que não era a boa menina que vislumbrava, pois sob a árvore encontrava tão somente sapatos, roupas e meias. Há também o fato do ursão que pedi à minha mãe, que devido às poucas posses que tínhamos na época, foi-me dado um tão pequeno quanto minha mão. E minha mãe vendo-me triste, disse-me para dar comidinha a ele que logo cresceria. Não tive estes e muitos outros brinquedos que muito queria. E agora que tenho como adquiri-los, não posso mais me divertir com eles. “Faz de conta é coisa de criança!” Dizem-me. Eu que sempre achei graça em fazer de conta que mundo existia, fiquei perplexa com o fato de ele ser realidade. E fui perdendo o jeito com as coisas. Sabia empinar pipa, jogar futebol, jogar bolinha de gude, e tantas outras coisas com as quais não tenho mais qualquer habilidade. E minha solidão foi crescendo progressivamente. A cada ano a via maior em mim. Assustada com a diminuição de meus sonhos, tive de encontrar um meio de redescobrir em meu espírito tudo que perdi. (Ou achava que havia perdido.) Escavei sob densas camadas de desilusão, dor e ressentimentos por anos a fio, sem pausas, num trabalho árduo de garimpagem. Porque tinha a resolução de buscar os sonhos que não mais sonhava. Os desejos que tinha e não satisfiz. Tanta coisa transformada em derrota e que queria converter em vitória. Meus sonhos, que apareciam brilhando como estrelas pequeninas encravadas no negro material da desesperança, fui os resgatando um a um. E agora quero ensinar a todos como buscar em nós mesmos sentimentos que julgávamos haver sido excluídos de nossa história.

Sigam direitinho a receita:  munam-se de picaretas, carrinhos de mão e pás. Escavadeiras não, que máquinas pesadas podem destruir estes sentimentos que são demasiadamente frágeis. Comecem o trabalho e não se desiludam com as primeiras camadas de rocha dura que encontrarem. Já os advirto com antecedência, não é, de maneira nenhuma, um trabalho fácil e prazeroso. Ao contrário disso: no caminho encontram-se muitos sonhos caducos. Histórias inconclusas, medos esquecidos. Um material enorme que os podem fazer desistir. Mas tão logo passem por isso, encontrarão a perseverança que há muito julgavam sumida. E não é que estava simplesmente escondida em vocês? Com o reencontro da perseverança, continuem cavando, mais forte e mais profundo. E então, redescobrirão a fé, que surge como a crença de que logo se encontrará tudo que perderam. Seguindo por dentro da mina que construíram em si, a luz começa a rarear e o ar a ficar escasso. O trabalho torna-se insalubre e perigoso. Mas já munidos de fé e perseverança nem esses percalços são suficientes para fazê-los desistir. Vão descendo, cada vez mais, para o lugar mais recôndito em seu espírito. Nas paredes da memória vocês encontrarão veios dourados de sentimentos, entre eles, a coragem e a felicidade que sempre souberam possuir, mas que não sabiam onde encontrar. E também os antigos sonhos como diamantes piscando nas rochas em que foram retidos. E somando-os com os sonhos que possuem agora, o faz de conta vira realidade. Os desejos de hoje concluem os de ontem. Os medos são vencidos, as histórias, terminadas e dá-se início a outras. Só cuidem para que, no caminho, não ocorram deslizamentos. A substância escavada é muito instável. Pode ocorrer de lhes prender eternamente no passado que guardam dentro de si mesmos. Então, lá se vão anos de trabalho incansável. Porque sem poder fugir dessa mina, jamais poderão usufruir do hoje. Verão tudo pelas lentes douradas do passado. Sem se darem conta que a vida é o aqui e agora. Por isso, não se detenham muito tempo dentro dessa mina. Procurem, tão logo redescubram tudo que julgavam perdido, fugir dela antes que desabe. Assim, de posse dos sentimentos velhos, procurem não conflitarem estes com os novos. Nem sempre o passado é compatível com o presente. E, portanto, muitos sonhos velhos deverão ser recauchutados, mesclados com os novos, para que assumam um novo aspecto.  Porque fantasias de super-herói não são recomendadas a adultos de trinta anos de idade. (Caso vocês não sejam atores de Hollywood, podem pensar que estão loucos.) Então converta esse sonho em algo novo. Por exemplo, tornem-se os heróis de sua própria história. Pode não haver lutas com vilões de collant, mas há outras batalhas, como lutar para formar-se na faculdade. Vencer num trabalho, mesmo que este não seja o mais desafiador. Ou escrever um livro, mesmo que não venha a ser o mais lido de todos os tempos. (Nem todos escrevem sobre magos mirins, bruxos e bruxas). Os presentes, que não vieram pelo Papai Noel para vocês, conceda-os aos seus filhos. É uma ótima maneira de resgatar um sorriso que se mostrava perdido. E tem ainda a vantagem, de você poder brincar com as crianças para lhes apresentar um brinquedo que sempre quis ter. Desilusões podem ser vencidas! “Quando tudo está perdido sempre existe um caminho.” Cantava Renato Russo. As ilusões não estão todas perdidas. Contradizendo Cazuza. Nessa luta que travamos com o destino, podemos sair vitoriosos. (Como não acreditávamos que pudéssemos). E mesmo que não tenha recebido o ursão que sempre quis. Posso alimentar minha alma de bons sentimentos para fazer-la crescer. Muito falei nesse texto sobre meus sonhos, sentimentos, desejos e as maneiras que criei para buscá-los. Advirto-os que tentem também criar sua própria receita. Mesmo que não venham vendê-las por aí em livros de auto-ajuda que somente ajudam aqueles que os escrevem. Nem sempre é fácil ter uma receita de sucesso. É tudo feito através de erros e tentativas, testando caminhos, batendo com a porta na cara muitas, inúmeras, vezes. (Quem disse que viver é fácil?) Frustrações ocorrerão. É inevitável.  Mas o essencial é saber começar de novo. Vai valer à pena. Acreditem. Quando, no fim de tudo puderem olhar para trás, terão certeza de jamais houveram desistido. O sucesso é um caminho, não um fim. Creiam no que lhes digo. Tudo que construíram e mesmo o que ruiu é uma pequena parte de vocês. Seguindo essa receita de sucesso garantido, não há como falhar, e se falharem, não há problema, o essencial é, levantar após a queda, bater a poeira e seguir por outra direção. A vida, no fim, não é feita de fórmulas mágicas, tão somente de sonhos, sentimentos, fé e perseverança.

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E se você nunca voltar?

Giordana Medeiros 

Venho pensando em algo nestes dias nos quais a solidão se tornou normal para mim: e se você nunca voltar? Será que ainda poderei ver nas nuvens o que não tenho em vida? Quando observo o sol entre os galhos das árvores, acredito que o passado ainda persiste no hoje, mesmo que de outra forma. Saudade é lembrança que permanece. A dor diminui, mas jamais se ausenta. É assim. Ainda fico horas olhando pela janela, acreditando que sua imagem vai aparecer na esquina. (Um dia, quem sabe?) Seu sorriso ainda me assombra os sonhos. No início, chorava desesperadamente, agora as lágrimas são calmas e perenes. Sei que ainda sinto. Sentir é verbo permanente. Pode se conjugado no pretérito ou futuro. Mas sempre estará presente. Quero, como alguém que tenta vencer os fatos, esquecer. Mas sei que amor marca feito tatuagem. E você está aqui gravado em letras garrafais em meu coração. Sei que há algo em mim que ainda acredita em seu retorno. “É impossível”, minha mente me diz. Porém meu coração tenta me fazer crer do contrário. (Tonto…) Eu sigo alimentando as memórias que você deixou. São sementes, não vê? Em breve será uma bela e frondosa árvore.  Descansarei sob a sombra da solidão, em que jaz toda saudade. Ainda há tanto a se falar. Deveria ter dito o que sentia antes de você ter me deixado. (Para sempre?) Por que falhei tanto com você? Queria que pudesse responder-me se foi realmente um engano. (Foi?) E se tivesse sido, se pudesse, se houvesse e se fosse, em fim? E se você não voltar mais? O que devo fazer? Meu coração não se acostumou com sua ausência. Minhas lágrimas não são suficientes para vencer o destino que nos separou. (Como reescrever uma vida?) Quero ter em mãos a caneta que determina o amanhã. A mesma que também transforma o que foi.  E com o poder de mudar o que foi e o que será, posso trazer você para perto de mim. Posso descansar a cabeça sobre o travesseiro, mas invariavelmente é sua imagem que habita em meus pensamentos. Estou aqui, perdida sem suas palavras. Subitamente, viver se tornou tão mais difícil. Sei que há enigmas pendentes de resolução, que tenho muitos afazeres e, como se diz, “missões a cumprir”, todavia, sem seu auxílio, a palavra amiga que me confortava sempre, fica quase impossível continuar. Estou, aos poucos, cedendo à lógica. Talvez nos vejamos somente daqui a vários anos. As águas passarão incessantemente sob a ponte. O relógio vai correr veloz, muitos poentes se seguirão. Mas nem mesmo o tempo, (que se julga cura para tudo), poderá apagar o que você foi para mim. E, quando me faltarem palavras, ainda me restará o silêncio de minha dor. Você era o mais forte. Era o que sempre superava tudo. E que vivia alegre apesar de todas as circunstâncias, por que se foi tão rápido? Sem nem ao menos se despedir? Ficou no espírito uma ferida bem profunda, que vez ou outra sangra, como agora, que penso ouvir sua voz dizendo-me, com tanto amor, como eu era importante. Nunca mais me senti assim. Fico inconsolável, nego os fatos. Não foi assim. Não pode ter sido. Você era invencível! E vem a realidade desmitificar todas as nossas crenças. E se você não voltar mais? Deverei ser eu a ir procurá-lo? E, se eu for, nos encontraremos? Há possibilidade de tudo em que acreditei a vida inteira existir verdadeiramente? Queria desmontar todas as mentiras que nos contaram desde a infância, coisas que nos conferem falsas esperanças, como a possibilidade de ganhar um presente de Natal porque um “bom velhinho nunca esquece ninguém”, (mas acreditem: ele jamais se recorda). E o pior, quase sempre fui abandonada em minha fé. Minhas tolas expectativas foram transformadas em desilusões rápido demais. “Viver é melhor que sonhar.” Todavia tenho vivido de sonhos por tempo demais. Vida e morte são palavras desconhecidas para mim. Não sei nada sobre elas. A morte não me quis e a vida me abandonou. Estou um tanto perdida nesse universo. Nem sei por onde devo seguir. Fico caminhando às cegas, no breu da existência, procurando um atalho para o destino em que quero estar. Mas sempre acho que errei na última curva. (Deveria ter seguido em frente?) E com tanto medo de voltar e começar de novo, vou aceitando o que me ditam as pessoas. (Por quanto tempo?) Só queria que estivesse aqui. Ver-lhe uma única vez apenas, para ter a certeza que está bem. Gostaria de saber se pode ouvir-me.  Pode entender a falta que me faz? A minha mente volta alguns anos, para provar que era feliz. (Eu era?) O que é ser feliz? Será que poderia retornar para dizer-me? Será que fecho os olhos para a alegria? Que me desfaço dos doces momentos para alimentar os desastrosos? Queria chorar como criança, para ter aquilo que desejo. Mas quando crescemos descobrimos que nem mesmo nossas lágrimas mais sentidas podem nos conferir o que precisamos. (Sonhos são construídos de ações, não de lágrimas).

Minhas palavras se perdem na folha em branco. Ora aqui, ora ali, estou me tornando mais clara. Não quero que me compreendam. Sou uma confusão permanente. Dúvidas são como nossas sombras, sempre nos acompanham. Ao meio dia pisamos sobre elas e, próximo ao poente, elas nos precedem. Na realidade, tudo é assim também. Estamos sobre as mais intricadas questões no meio de nossas vidas, perto do fim, elas estarão à nossa frente.  E será que chegamos a resolvê-las? Será que pode responder-me? Chegaremos a terminar esse quebra-cabeça que nos desafia? Um jogo de milhares de peças, que levamos toda a nossa existência tentando montar. E se simplesmente nos desfizéssemos de tudo? Não levássemos a vida tão a sério… (Como você fazia, não é mesmo?) Tenho medo de abandonar todo este lixo que vim acumulando… Sabe, é nesse interregno entre os nadas que ocorre tudo.  Saímos do nada para lugar algum. Mas sempre queremos fazer do que se dá no caminho algo que valha a pena se ver quando chegarmos ao final. Queremos acumular dinheiro e bens que na morte não poderemos levar conosco. Queremos aproveitar a vida ao máximo, (porque a achamos muito curta), para que nos sintamos realizados. Será que o essencial não seria apenas sermos felizes? E, mais uma vez, me pergunto, de onde vem a felicidade? Quando você se foi, não tive tempo de questionar onde a havia deixado. E, nesse momento, não me culpe se não a encontrar. Sei que, perdida no meio deste oceano de possibilidades, sempre acho que sigo por rotas erradas, ou deixo levar-me pelas correntezas. E se você nunca voltar? Será que conseguirei seguir sozinha? Minhas pernas doem, depois de tanto caminhar, sinto-me ainda muito distante. (De quê? De onde?) Será que pode sibilar no meu ouvido as respostas mais difíceis? Prometo tentar encontrar as mais fáceis. (Há alguma solução fácil?) Sempre me pergunto se teve tudo que quis. Será que se sentia feliz com aquilo que conquistou? Deixou muitos sonhos para trás? Ficaram aquelas histórias que tanto nos divertiam. Ainda me ocorre de pensar nelas. Nunca esquecerei, não é mesmo?  Estou aqui, nessa estação, com as malas aos meus pés, pensando se devo realmente fazer esta viagem. Você me acompanharia? Tenho medo de estar sendo fraca em abandonar os antigos sonhos para acolher novos. Será que isto seria covardia ou coragem? Sei que sempre me apoiou em todas as minhas escolhas. Acho que amor é, antes de tudo, apoio e amizade.  Eu não posso esconder a dor. Quero realmente que esteja comigo. Porém, creio que, nesse momento, tenho de prosseguir sozinha. (Mesmo que não possa pegar minha mão agora). Serei forte como você ensinou-me a ser. Minha mala pesa. (É muita bagagem para uma vida só). Mesmo assim, creio que me esqueci de algumas coisas. São pequenas palavras que faltaram, gestos que não se concluíram. (Eu nunca tenho tempo de fazer tudo que planejo). O trem apita, tenho de embarcar. Agora sou eu que vou. (Mas não para a terceira margem do rio que lhe levou, não ainda). Creio que tenho muita coisa para fazer. (Não sei se valerá à pena, se poderá ser uma história a se contar no futuro…) Não quero rever meu passado ainda. Deixe-me construir o futuro, que o prédio ainda está pela metade.  Minha mágoa é que seu sorriso não premiará meus feitos. Eu perdi tanta coisa. Acho que a vida é feita de grandes derrotas e pequenas vitórias.  Devemos valorizar tudo o que obtivemos. Mesmo que seja muito, muito pouco. Não são baixas expectativas. É que, aprendendo a sorrir para as vitórias, as derrotas não ferirão tanto. Por que ainda olho em volta a procura de seu rosto? (É o fim?) Mas, e todas as coisas que deixei para trás? Será que é seguro abrir novas estradas nessa selva inexplorada? Sinto o coração aos saltos. (Tem mesmo de ser desse jeito?) Por que sempre vacilamos no momento derradeiro? Por que não sou tão forte quanto você? Sou frágil, tenho medo. É difícil abandonar um sonho, ainda mais quando se lutou tanto por ele. Entretanto, é o que faço neste instante. Com um aperto no coração. Sem saber se é o certo a fazer (nunca  é). Vou embarcar nessa nova viagem para lugar nenhum. (O importante é a viagem, não o destino). Tenho bilhetes só de ida. Não voltarei, ninguém voltará. Isso é o mágico da vida. Não há retorno, somente despedidas. Sei que ainda espero por você. Sabe onde me encontrar, não é? E, mesmo que ocorra de você nunca voltar, aguardarei o momento certo para ir ao seu encontro. Porque sei exatamente onde você está.  E numa ilusão mágica, (será loucura?), vejo-lhe acenar para mim de longe. “Um dia, um dia”, repito baixinho. Observando sua imagem que está tão somente em meus sonhos. E, neles, você ainda está comigo. (Você sempre esteve, não é?).

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