Sonhos ao mar

Giordana Medeiros

Sempre sentindo, mesmo quando não cabe sentir. Seguindo, mesmo que não se abram caminhos. Numa utópica procura que não tem sentido algum. (E será que deveria haver significados?) Onde me procuro não me encontro e onde eu me encontro eu não me procuro. Labirintos de mentiras e calabouços de verdades. A vida desmoronando sobre si. Eis que os prédios se desfazem com a força das águas. Meus castelos de areia erigidos com tijolos de solidão e cimento de saudade. Nada mais instável que colunas de melancolia. Por isso ruem nossos sonhos com o contato do mar. Só no oceano sonhos podem ser finalmente infinitos. Água salobra que não mata a sede, mas afoga o espírito. Ondas de desespero vêm e vão. Correntes que levam para longe ou aquelas que nos prendem os corpos?  Carregando-as por toda eternidade,(eis sua pena), ou talvez ser levados por aquelas ao infinito. Universo é mar que não têm água. É na galáxia que se navega. Espaçonaves de desesperança que trazem em si o que queríamos. (O que queríamos mesmo?) Minha mente apaga todo o passado. Afastando para bem longe o que se foi. E agora o que se é? O que somos? O que sou? Procurando significados em dicionários sem verbetes. Está em algum lugar. Mas nem sei se é isso que preciso mesmo. Preciso de som, preciso de luz, preciso de uma alma livre e errante. Cometa que não segue órbitas regulares. Sou assim: um tanto rebelde. Nem sempre é possível entender o que não se pode ver. Mas é nisso que se sustenta a fé. Não me vêem? Não me sentem? Não me escutam? É porque na realidade sequer existo.  Essas coisas que chegam trazidas pelas águas não são garrafas portando mensagens, são sentenças determinando destinos. O oceano espuma violência e mistério. Mesmo assim, iça-se a vela, levanta-se a âncora e segue-se para o mar. Sei que a vida derrama segredos. Mas guarda todos para si. É minha caixa de Pandora particular, em que estão todos meus pesadelos e, ainda, tudo que me desnorteia. Sei que posso deixar solidão debaixo do travesseiro. Uma noite de promessas esquecidas nas luzes das estrelas que não podemos alcançar. Guardo no coração um milagre. É minha fé cega num evento de que todos duvidam. Tenho muitas ilusões quanto ao mundo, acredito que ser não pode ser transformado em ter ou ver. Mesmo que queira que a vida seja crer também. Mas não é que sibila para mim a brisa abençoada de um dia de verão: “só somente ser”. Quero ter nas mãos o coração que imprime ritmo. Sentir bater desesperado, como se a vida pudesse fugir. (E se pudesse mesmo?) Lavando os degraus da escadaria que não se deixa escalar. É verdade que uma confusão de palavras fazem do pensar algo um pouco mais poético. Juro que nem quero fazer poesia. Sou da prosa, longa arrastada, como um papear largado num banco da praça no fim de semana. As lembranças jorram em cascatas, mas deixo tudo escorrer longe de mim, que nem quero lembrar mais. Vou esquecer-me de tudo, desde o tempo em que as estradas eram seguras. Quando não perambulavam sonhos aqui e ali. Sonhos são larápios que nos tiram da rota, furtam-nos dinheiro e tempo. No fim era melhor não tentar correr atrás desses vigaristas. Reagir a um assalto é extremamente arriscado. Sei que quando tentamos alcançar os sonhos eles se tornam mais distantes. Tudo que precisamos é ter uma dose de bom senso. Nem sempre aquilo que queremos verdadeiramente é o sonho que vivemos. A vida tira o sabor das coisas. Quando era sonho, era lindo. Mas tente fazer do fictício um fato real, fica tudo igual a esse texto de emoções jogadas num papel. E como sei que ninguém vai ler mesmo. Tanto faz se eu colocar aqui um tanto de besteiras. (Será que já não o são?) Nem um único olhar correrá por estas linhas. E carente de atenção, o sonho que, de idéia, virou matéria, nem saberá onde ficar. Sem lugar para estar, entra sorrateiramente num clique desprevenido. Imagina que pode ser mais do que é. Pobrezinho. Seja isso: solidão. Seja aquilo, sentimento. Seja tudo, coração. As palavras pulam leves no teclado. Aqui e ali tem um botão de rosa. “Para você que me quer bem.” (Quem?) Sorrisos amarelos, são alegrias inexistentes, desconcerto no momento da ironia. Mente para si. Não para os outros. É bem difícil disfarçar. É gritante a verdade estampada no rosto. Luminosos de sinceridade numa expressão que tenta demonstrar satisfação. (Não é?) Minhas muitas vidas vão ficando na estrada. Vou me desfazendo dos bens materiais e etéreos. Solidão não se pode tocar. (Mas e as garrafas que recolhemos no mar?) Eram sonhos que se misturaram a espuma de imensidão.

Pela janela queria ver o ritmo das aeronaves que ora sobem, ora descem. Com o estrondo das turbinas até me apavoro. (Acidentes que me povoam os sonhos podem guardar em si uma fuga para a realidade?) O problema que nem se vê em mim o que procuro lá fora. (Uma porta na parede sem saída que nos mostra o destino?) Sei que as noites são mais belas aos olhos que ao espírito. O silêncio inquietante da madrugada… (Há algum desejo esquecido numa moeda arremessada na fonte?) Quero ser como o mar que desafia, quero ser como as estrelas que brilham mesmo distantes. (Podem nos ouvir?) Mas não quero ser como a lua. Presa na órbita da Terra, sem brilho próprio, dependendo da caridade dos outros astros para se iluminar. Sempre buscando em mim respostas que não posso dar. Sempre encontrando para as perguntas soluções que não queria sequer receber. Num perigoso jogo de cartas em que as fichas são os nossos sentimentos. “Quatro ases, a casa venceu”. E lá se vai tudo que se sentia. Tudo que um dia foi e se perdeu. Minhas emoções foram confiscadas. Nem tenho como pagar as apostas. É que são tantos a quem deixei um pedaço do meu coração que nada mais tenho dele. Aqui e ali bate um pedaço do que fui. (Ou sou, vai saber…) Procuro nas palavras, essa queda abissal em si, uma razão para as dúvidas que me atocaiam. Sempre serei, mesmo não que não possa ser-rei. Quero estar na plebe e no anonimato dos rostos dos quais não se guardam feições (O que você é? Sou um rosto. E você? Uma promessa. O que você faz? Eu me perco entre as pessoas. E você? Eu engano as pessoas. Elas são meio burrinhas, não é?) Minha jornada é uma viagem sem volta ao mais recôndito lugar de minha mente. Tentando ser impenetrável. Como se, em minha volta, pesadas placas de chumbo me protegessem do mundo. Ninguém pode me tocar. Nem me ver. Mas, se não me vêem, estou sozinha e, aqui abandonada, tenho medo de tudo. A chuva batiza as paredes de lágrimas, o verão não mudou. Tempestades acontecem sempre. Quase nunca se está preparado para elas. (O que se há de fazer?) Nem bem nos reerguemos após o furacão, lá está outro nos espreitando, na esquina. Esqueci de dizer que há ainda um castelo que sobreviveu às ondas.  Está escondido, longe do apelo do mar, (das ondas que quebram violentas na praia). É este aqui que trago comigo. Essa construção que supera qualquer outra. É prédio de colunas de ressentimento (bastante duradouras), tijolos de mágoa e cimento de amargura. Eis um edifício que resiste facilmente às vagas que não deixam de atacar. É deveras mais forte que a força dos oceanos. Lanço promessas no mar. (Quem irá recolher-las?) E minhas dúvidas mantenho-as comigo.  Bem guardadas no castelo indestrutível que não se subjugou ao poder do oceano. Sei que as horas se adiantam, em breve o sono chega, e o que aqui escrevi, o que arranquei do peito, ficará tatuado no ciber-espaço. Ninguém jamais esquecerá. (E se nem quiserem ler? Mais um texto abandonado na confusão de redes e bites. Neste oceano que também não afoga, mas, como o universo, é infinito onde também navegamos. É possível se conceber o eterno?) Até onde vai o que não vemos? E todos esses escritos que não lemos? Histórias sem leitores são como se nem ao menos tivessem sido escritas. Minhas memórias são um pedaço de mim, que não pode ser visto. Um livro aberto que jamais foi lido. É o que apresento nessas breves linhas. Mas não se enganem não são eu. Absolutamente. Sou uma mistura de coisas que jamais compreendi. E nesse emaranhado de eus, vou descobrindo um estado muito diferente do que sentia. (Será uma armadilha?) Sei que as ruas se estendem sob a chuva incessante. Aqui e ali, ainda um último uivo. Um cão que se perdeu. (Só ele?)  Um carro que segue veloz pela estrada. (Será que sabem o caminho?) E, nas mãos, um sentimento perdido que por muitos anos vagou nas águas revoltas do oceano. Quais aventuras não desfrutou no ir e vir das ondas? No vazio absoluto, sem uma mão que abrisse a rolha e libertasse o poema que trazia em si. Salvo das ondas o invólucro de sonhos. Limpei primeiro, para que pudesse ser mais fácil ver-lhe o conteúdo.  Então, com grande emoção saquei a rolha. Não sabem os estranhos pensamentos que me vieram, quando pude resgatar de seu interior, o pergaminho envelhecido. Sem mais me demorar disse num suspiro: “pronto, está livre.”

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