Ouvindo o coração

Giordana Medeiros

E, numa noite de chuva, percebi que é bom viver. Mesmo que doa muito, que fira sem punhal, mas com a mesma dor profunda. É doce, porque estamos com quem amamos. É ainda triste, porque sabemos que é temporário. (A vida acaba também). E gostando de estar aqui, posso usufruir melhor as benesses que existir oferece-me. Aqui, assistindo o mundo acontecer, cheguei à conclusão que vim esse tempo todo me desfazendo do que tinha de mais precioso.  E sei que posso não ser aquilo que imaginei que seria, que o destino me pregou uma peça e nada do que sonhei para mim se concretizou. Porém, estou certa que tenho tudo que preciso: o amor de minha família e amigos. E isso não é pouco. Amor é bem tão caro que o dinheiro não pode sequer comprar. Tem de ser ganho com nossas atitudes, não é negociável. Há pessoas que se casam por interesse, mas que não serão jamais felizes. Dinheiro e bens são itens supérfluos. Amor é essencial. E pensando nessas coisas tão bonitas, emociono-me e choro. São lágrimas de alegria, de saber que não preciso ser tudo que projetei para ter felicidade. E nessa noite em que a canção da tempestade ajudou-me a ouvir-me a alma, vou sentindo um mundo de emoções. Sei que estou conformada com os planos de Deus para mim. Até fizemos as pazes. Na verdade, pedi-Lhe perdão por minha arrogância. Estou aprendendo a ser humilde e tolerante também. Sei que acabei por fazer uma imensa confusão. Pensei que somente com sucesso e riquezas poderia ser feliz. E estou começando a entender o que a vida quer de nós. Ela só quer que desfrutemos do que nos oferece. E não é pouco, como outrora imaginei, é uma gama de sonhos que somente quando vivemos podemos tornar realidade. E na chuva a noite não parou. Ainda escuto distante o som de uma televisão. É hora do noticiário.  A humanidade sobrevive a si. Sou apenas uma. Tão pequena comparada ao infinito universo. E tão minúscula para a vida.  É tudo tão perigoso. Tenho medo. O vento sopra assustadoramente. Respiro fundo, engulo meus temores e sigo em frente. O mundo pode desfazer-se de mim com facilidade. Mas eu não quero mais me desfazer do mundo. Vou viver. Podem ouvir-me? Vou viver! E nem todas as tempestades que inevitavelmente ocorrerão poderão destituir-me deste intuito. Quero sentir a vida, drops de hortelã no céu da boca. Por falar em drops de hortelã, disseram-me que se pode adoçar o chá com eles. Nunca tentei fazer isso. Ainda bem que tenho a vida inteira pela frente, só para testar os sabores que ainda desconheço. E eu gosto de provar do absurdo. Também de sentir o sabor da solidão, (o sentimento mais comum em minha vida). Mas sei muito sobre esse último, agora quero provar sabores exóticos. Nada mais do comum medo, do diário desespero de ser. Agora quero saborear novos gostos, como a açucarada felicidade, (a amarga saudade eu já estou afeiçoada), há outros sentimentos dos que jamais provei que quero sentir. Mas são tantos que até nem sei como se denominam. A chuva está diminuindo. As pessoas voltam para as ruas. E na cidade o silêncio volta a imperar. Engraçado que jamais há silêncio realmente. Há um conjunto de sons que vão se dispersando. Um cachorro late para alguém. Lá na frente crianças voltam a correr com suas bicicletas. E alguém escuta música distante, mas só posso ouvir alguns acordes.  A chuva apaga os sons. Agora o mundo desperta do transe, como se a tempestade houvesse hipnotizado as pessoas. Eu aqui a sentir tudo. Mas estou feliz e não triste. Não quero voltar a despencar no abismo em que me encontrava. Depois que me salvaram de mim mesma, do meu frio desespero de ser algo que não queria, de ser árvore quando me queria pássaro, de ser vazio quando me queria multidão. E de todas as metas que possuía que não havia como concretizar. Fui resignando-me que não poderia ser pássaro se não sei como voar, que não posso ser multidão quando sei viver tão somente no vazio. E por tudo isso que aprendi, acabei por entender que não sou eu quem escreve meu próprio destino. Está nas mãos de alguém, das Parcas ou de Deus. Não sei ao certo. Sei somente que não cabe a mim. Faço apenas o que restou como minha responsabilidade: procurar a felicidade. É tudo e apenas isso que tenho em mente: quero ser feliz, mais nada.

Estava no limiar da loucura, em profundo desespero. Não sabia ainda como viver. Quando nascemos nenhum anjo veio a nós e apresentou-nos qualquer manual. Tivemos de aprender com nossos tropeços. A vida é assim. Vamos caindo, ralando os joelhos e nos levantando. Às vezes tem alguém que oferece: “vem, segura a minha mão.” E caminhamos juntos. Porém é somente esporádico. Quase sempre estamos sozinhos. Fica por nossa conta. Quer ser feliz? Segure as pontas. A vida é traiçoeira, o caminho, sinuoso. Na verdade minha alma é cataclismo. Tudo que sou esteve sempre em perigo. Não sei mais se sismo ou sondo. Sei apenas que continuo. A corda bamba pende e balança. Tenho de recuperar o equilíbrio. Tudo na vida é comedido. Nada de exageros, a felicidade é aproveitar o máximo do pouco que se tem. Seria bom se tudo não passasse de um sonho, do qual nos livraríamos no próximo despertar. Tudo que faríamos de tolo e errado seria no outro dia concertado. Abriríamos os olhos, nada mais do que foi, seria. Um mundo novo. E se a morte fosse tão somente acordar do sonho da vida? O outro lado é um novo existir, o paraíso prometido pelas religiões. Lá, está o nosso prêmio. Mas sei que não quero deixar minha vida, mesmo com a promessa da morte.  Impossível deixar quem meu coração aprendeu a amar, esse coração que vive de navegar e navegar. Navio que só se sente bem no mar. Não há porto em que se demore. E nessa noite em que tudo vem no vagar das ondas, aperto o peito. O ruído de minha alma se cala. Nem sei mais o que dizer. Só quero a tudo assistir. Na noite calma em que o sono chega a mim como um beijo. Sinto sempre as mesmas emoções. E deixo meus olhos seguirem o homem, que caminha apressado, trazendo nas mãos um guarda-chuva. Para onde vai? Fique que a noite é linda, que a escuridão é nossa amiga. Vemos muito melhor no cair da madrugada em que sentir se faz mais presente. Bem sei que isto não é nada. Ninguém gosta de estar a pensar em si. Talvez seja mais prazeroso se entreter com o que é alheio. Mas fico melhor em mim do que nos outros. Sou uma estrada, quem por mim caminha não sabe aonde vai. Nem eu mesma. Estou perdida nas curvas de minha vida. Aonde quero chegar? Não sei. Poderia absolver-me de minhas falhas. Se não me considerasse tão culpada. Sou ré, juíza, advogada e promotora no tribunal que construí para me julgar. Então quando me condeno à perpétua solidão, cumpro o cárcere em mim. Pensando sempre pensando. Sem chegar a lugar algum, andando em círculos no vazio. Que sei eu de mim? Quase nada, o pouco que sei vou escrevendo em histórias românticas que quase ninguém lê. Quem quer saber de mim? Não há quem se preocupe com uma sombra do passado que jamais se fez presente. Mesmo assim não me importo mais. Agora tenho amor de amigos, que embora distantes, consigo crer no que leio em seus corações.  O dia vai nascendo e a noite interna continuando. Quando chegará a minha vez? Será que terei meu dia? Quando despertarei deste sonho de estar acordada? E uma brisa leve toca em mim sem respostas. O sol vai nascendo rubro. As nuvens e o céu azulado, tudo é tão belo que é impossível de fitar. A chuva impediu que pudesse contar as estrelas. Um dos meus passatempos favoritos: contar o que compõe o infinito, e o sono, que de mim se aproximava, foi-se embora com o amanhecer.  Meu murmúrio de dor? Impossível de escutar. Vou apenas encenando essa peça, sem teatro e aplausos, esperando acordar. Quero viver, mas não sei fazê-lo. Sem abraços de chegadas ou acenos de partida, vou indo e vindo nas estações. Sabendo que levarei comigo somente tudo quanto eu dei, que saberei apenas aquilo que perdi, e que tudo que fui será meu futuro mesmo que construído apenas no passado.  Mas não quero mais pensar, nem mesmo escrever. Sinto o ar pesado, e estou tentando esquecer tudo que se fez presente nessa noite de vigília. Talvez eu até fosse feliz. Talvez o seja ainda. Não sei como medir a alegria, será que há termômetros em nosso peito, contando a felicidade que conseguimos reter conosco? Provavelmente seja deveras fugaz para ser medida. Talvez seja um esforço vil e vão. Na verdade o que quis nessa noite de incontáveis segredos foi apenas ouvir-me o coração.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | 1 Comentário

Navegação de Posts

Uma opinião sobre “

  1. Mário de Brito

    É…a vida em seus indecifráveis mistérios, a que poucos bebem.
    Gostei, continua escrevendo muito bem, Giordana. Ancorei aqui novamente, havia tempo que não parava nesse porto, prometo aqui mais vezes voltar.
    Um abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: