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A Estrela D’alva

Giordana Medeiros

Estava brilhando, como seria comum a uma estrela. Era inverno e a noite estava linda, quase sem nuvens no céu. Eu estava lá, sozinha e distraída, ouvindo os desejos humanos. Engraçados estes homens não? Eles têm tantos sonhos… No fim do dia posso lhes falar: é até difícil ser estrela e ouvir sempre os mesmos pedidos: quero isto, quero aquilo, ajude-me nisto e também naquilo. Um verdadeiro suplício.  E nós astros do universo infinito sem qualquer poder de fazer ou realizar os quereres dessa gente toda. Fico com pena desses serezinhos. São dotados de uma imaginação absurda. Estão sempre a inventar coisas, construindo e modificando tudo. Lembro que há alguns milênios atrás queriam apenas saúde, amor e felicidade. Hoje, tudo se tornou complexo. Querem com mais afinco todas as coisas materiais. O que é relativo ao espírito fica esquecido num canto qualquer. Mas voltando à questão, estava lá, feliz da vida com minha luz própria – (é muito melhor do que ser como a lua e viver de brilho de aluguel), pensando em questões de estrela… (Sabiam que existe um buraco negro do outro lado da galáxia, roubando a luz das estrelas a sua volta? Onde esse universo vai parar?) Quando, de repente, comecei a me movimentar. Fiquei assustada. Deduzi que possivelmente se tratava de um astro de maior massa que vinha em minha direção. O que seria? Pensei que poderia ser até um cometa, mas, geralmente, eles têm um núcleo minúsculo comparado a sua calda. Logo descartei a possibilidade, então percebi que estava caindo. E, quanto mais caia, menor eu ficava. Para minha surpresa estava sendo puxada para o planetinha minúsculo e azul dos homens.  Levei um susto, porque se eu mantivesse minha normal circunferência, provavelmente criaria um cataclismo naquele mundozinho. Porém, ficava menor à medida que me aproximava da Terra.  E na atmosfera, meu corpo que era de luz mal se lesionou. E percebi que estava sendo deslocada por uma força muito estranha, como se quisessem que eu desse um sinal a alguém ou alguma coisa. Fui caminhando sobre um grande deserto, iluminando tudo. Como se traçasse um caminho. “Eu hein, coisa estranha… Pensei comigo.” Resolvi não me preocupar, afinal, não tinha nada o que fazer realmente.  “Fui na onda,” como se diz. Então percebi que havia uns três homenzinhos montados em camelos que seguiam meu feixe de luz. Foi então que me toquei: “ah, caramba, alguém está me usando como sinal para esses humanos.” E pensei ainda: “se esse alguém deslocou até uma estrela inocente lá dos confins do universo, a coisa deve ser séria!” Pois é, nem sabia que era possível deslocar um astro assim, sem aviso, do nada, logo eu, que nunca fiz nada errado. Ficava na minha, só brilhando, fui escolhida para ser GPS de uns três caras esquisitinhos de turbante. Resolvi concordar com meu dever,(que nem sabia qual era), e continuei a brilhar para esses homenzinhos. Mas não é que os tontos foram perguntar o caminho para um tal de Herodes? E falaram sobre um Rei dos Judeus que nasceria naquela data. “Nossa, se era um rei, pensei comigo, deveria estar nesse castelo suntuoso.” Mas a força continuou me puxando para uma cidadezinha chamada Belém. Ainda bem que os três carinhas deixaram o castelo rapidamente e continuaram a me seguir. Já estava até curiosa para ver esse Rei. Deveria ser o cara! Estava toda ansiosa brilhando com força e alegria. E súbito estava parada sobre um estabulozinho muito mixuruca, onde um casal de aldeões muito pobres adorava um lindo nenezinho. “”Epa, peraí,” disse assustada, “esse é o rei dos Judeus?” Foi então que percebi uma multidão de anjos, animais e alguns pastores todos presenciando o nascimento do menininho. E ouvi dos anjos que esse era realmente o Rei dos Judeus, o Messias que estava para nascer. Pois é, me senti toda importante. Fiquei com pena da criança também. Pois, afinal, se era mesmo um rei deveria estar no mais luxuoso dos berços e não numa manjedoura coberta de feno. Ainda mais naquele frio que estava fazendo. Mas até que ele estava bem protegido com aquele casal que acolhia o bebê com ternura nos olhos e carinho nos gestos.

Fiquei lá a brilhar sobre aquele grupo até os três caras de turbante chegarem. Quando finalmente conseguiram encontrar o caminho. (Nem com um GPS cem por cento como eu, eles conseguiram estar presentes no nascimento, ai, ai!). E quando localizaram o estábulo, descobri que também eram reis. Não desconfiei em momento algum. Eles deixaram seus reinos com intuito de vir ao nascimento do Messias, cujo destino era salvar a humanidade. Eram magos e com suas medições astrológicas conseguiram antever o nascimento do menino. Um deles era negro, se chamava Baltazar e era mouro. Outro era velho, com cabelos e barbas brancas, vinha das terras dos Caldeus e se nomeou Melquior. O último, jovem e robusto, partira das montanhas do mar Cáspio, era apelidado Gaspar.  Trouxeram três presentes: ouro, incenso e mirra. Acho que o bebezinho não entendia nada do que estava se passando. Nem da difícil missão que o aguardava. Era um garotinho muito gracioso. Tive pena de seu destino. Os homens são seres tão mesquinhos, egoístas e gananciosos. Só que ouvi um anjo dizer que ele veio pelos maus e não pelos bons. Para salvar as ovelhas desgarradas do rebanho. Achei bonita essa frase e fiquei tão contente por ter sido escolhida para anunciar o nascimento do salvador. E soube que Deus era pai de todos e tinha poderes ilimitados. Tinha conhecimento e poder sobre todas as coisas no universo. E a criança na manjedoura era Seu filho. Achei legal essa coisa de oferecer o próprio filho para ajudar os homens. Fazê-lo fraco e mortal. Um ser tão perfeito que recebeu sobre si a unção do Pai. Os aldeões que acolhiam o menino eram José e Maria. E tinham tanto amor pela criança que fiquei comovida. Até chorei. Um pequenino menino com toda essa carga de responsabilidade sobre si. Fiquei imaginando porque cargas d’água, Deus não fez o Messias um cara forte, cheio de poderes, tipo um super-herói para essa difícil missão. Entregou seu filho à humanidade num humilde corpo de homem. Carne e sangue. Dá para conceber algo do tipo? Os anjos diziam que Deus escreve certo por linhas tortas. Tudo tem seu lugar nos planos do Pai. E fiquei assustada quando um anjo veio dar a notícia que Herodes estava matando todos os recém-nascidos em Belém. Queria evitar que o Rei dos Judeus tomasse-lhe o trono. Os reis magos, que ficaram de voltar e dar conhecimento do nascimento para o maldoso Herodes, foram alertados pelos anjos do terrível plano do tirano, partiram sem dar-lhe a localização do menino. Fiquei temendo que matassem o reizinho dos judeus, tão desprotegido, naquela manjedoura. Mas Deus protegeu a fuga da família. E eles partiram em paz para Nazaré. Porém, muitas crianças inocentes morreram naquela noite. E sei que o Pai previu tudo isso, mas fico tão triste quando impera a maldade e a injustiça entre os homens. Um anjo disse-me que fui a escolhida para anunciar o nascimento de nosso Senhor por meu coração de gelatina. Desde então, eu que era uma simples estrelinha na imensidão do espaço, fui promovida a Estrela D’alva. Todos os anos sou eu quem brilha no fim de dezembro sobre a Terra, lembrando aos homens do nascimento de seu Salvador. Podem crer, essa história é totalmente verídica. Eu estive lá e convido-os para se juntarem a mim e à multidão de anjos e santos que celebram o dia em que Deus se fez homem entre os homens. Um pequeno bebê, cuja vinda foi o fato mais importante vivido pelo mundo. Quando estiverem com suas famílias neste dia 25 de dezembro, comendo a ceia, trocando presentes e felizes por tudo que possuem; rezem, lembrem-se que Natal não é apenas Papai Noel e presentes. É a celebração do maior milagre já ocorrido. É o aniversário de Jesus, o Messias,o Rei dos Judeus que trouxe consigo desde o nascimento o dever de salvar a Terra. Deus, em sua infinita bondade, conspirou para que o mundo fosse habitado e transformado pelos homens. Sabendo de todo o mal que a sua criatura causou e causa ao próximo, entregou a estes seu filho unigênito. Aquele que se sacrificou pelo bem de todos. Pode haver amor maior? Olhem pela janela este Natal, estarei no céu a piscar para lembrar-lhes desta história. E para indicar o caminho que vocês devem seguir.

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