Arquivo do mês: novembro 2011

Sonhos ao mar

Giordana Medeiros

Sempre sentindo, mesmo quando não cabe sentir. Seguindo, mesmo que não se abram caminhos. Numa utópica procura que não tem sentido algum. (E será que deveria haver significados?) Onde me procuro não me encontro e onde eu me encontro eu não me procuro. Labirintos de mentiras e calabouços de verdades. A vida desmoronando sobre si. Eis que os prédios se desfazem com a força das águas. Meus castelos de areia erigidos com tijolos de solidão e cimento de saudade. Nada mais instável que colunas de melancolia. Por isso ruem nossos sonhos com o contato do mar. Só no oceano sonhos podem ser finalmente infinitos. Água salobra que não mata a sede, mas afoga o espírito. Ondas de desespero vêm e vão. Correntes que levam para longe ou aquelas que nos prendem os corpos?  Carregando-as por toda eternidade,(eis sua pena), ou talvez ser levados por aquelas ao infinito. Universo é mar que não têm água. É na galáxia que se navega. Espaçonaves de desesperança que trazem em si o que queríamos. (O que queríamos mesmo?) Minha mente apaga todo o passado. Afastando para bem longe o que se foi. E agora o que se é? O que somos? O que sou? Procurando significados em dicionários sem verbetes. Está em algum lugar. Mas nem sei se é isso que preciso mesmo. Preciso de som, preciso de luz, preciso de uma alma livre e errante. Cometa que não segue órbitas regulares. Sou assim: um tanto rebelde. Nem sempre é possível entender o que não se pode ver. Mas é nisso que se sustenta a fé. Não me vêem? Não me sentem? Não me escutam? É porque na realidade sequer existo.  Essas coisas que chegam trazidas pelas águas não são garrafas portando mensagens, são sentenças determinando destinos. O oceano espuma violência e mistério. Mesmo assim, iça-se a vela, levanta-se a âncora e segue-se para o mar. Sei que a vida derrama segredos. Mas guarda todos para si. É minha caixa de Pandora particular, em que estão todos meus pesadelos e, ainda, tudo que me desnorteia. Sei que posso deixar solidão debaixo do travesseiro. Uma noite de promessas esquecidas nas luzes das estrelas que não podemos alcançar. Guardo no coração um milagre. É minha fé cega num evento de que todos duvidam. Tenho muitas ilusões quanto ao mundo, acredito que ser não pode ser transformado em ter ou ver. Mesmo que queira que a vida seja crer também. Mas não é que sibila para mim a brisa abençoada de um dia de verão: “só somente ser”. Quero ter nas mãos o coração que imprime ritmo. Sentir bater desesperado, como se a vida pudesse fugir. (E se pudesse mesmo?) Lavando os degraus da escadaria que não se deixa escalar. É verdade que uma confusão de palavras fazem do pensar algo um pouco mais poético. Juro que nem quero fazer poesia. Sou da prosa, longa arrastada, como um papear largado num banco da praça no fim de semana. As lembranças jorram em cascatas, mas deixo tudo escorrer longe de mim, que nem quero lembrar mais. Vou esquecer-me de tudo, desde o tempo em que as estradas eram seguras. Quando não perambulavam sonhos aqui e ali. Sonhos são larápios que nos tiram da rota, furtam-nos dinheiro e tempo. No fim era melhor não tentar correr atrás desses vigaristas. Reagir a um assalto é extremamente arriscado. Sei que quando tentamos alcançar os sonhos eles se tornam mais distantes. Tudo que precisamos é ter uma dose de bom senso. Nem sempre aquilo que queremos verdadeiramente é o sonho que vivemos. A vida tira o sabor das coisas. Quando era sonho, era lindo. Mas tente fazer do fictício um fato real, fica tudo igual a esse texto de emoções jogadas num papel. E como sei que ninguém vai ler mesmo. Tanto faz se eu colocar aqui um tanto de besteiras. (Será que já não o são?) Nem um único olhar correrá por estas linhas. E carente de atenção, o sonho que, de idéia, virou matéria, nem saberá onde ficar. Sem lugar para estar, entra sorrateiramente num clique desprevenido. Imagina que pode ser mais do que é. Pobrezinho. Seja isso: solidão. Seja aquilo, sentimento. Seja tudo, coração. As palavras pulam leves no teclado. Aqui e ali tem um botão de rosa. “Para você que me quer bem.” (Quem?) Sorrisos amarelos, são alegrias inexistentes, desconcerto no momento da ironia. Mente para si. Não para os outros. É bem difícil disfarçar. É gritante a verdade estampada no rosto. Luminosos de sinceridade numa expressão que tenta demonstrar satisfação. (Não é?) Minhas muitas vidas vão ficando na estrada. Vou me desfazendo dos bens materiais e etéreos. Solidão não se pode tocar. (Mas e as garrafas que recolhemos no mar?) Eram sonhos que se misturaram a espuma de imensidão.

Pela janela queria ver o ritmo das aeronaves que ora sobem, ora descem. Com o estrondo das turbinas até me apavoro. (Acidentes que me povoam os sonhos podem guardar em si uma fuga para a realidade?) O problema que nem se vê em mim o que procuro lá fora. (Uma porta na parede sem saída que nos mostra o destino?) Sei que as noites são mais belas aos olhos que ao espírito. O silêncio inquietante da madrugada… (Há algum desejo esquecido numa moeda arremessada na fonte?) Quero ser como o mar que desafia, quero ser como as estrelas que brilham mesmo distantes. (Podem nos ouvir?) Mas não quero ser como a lua. Presa na órbita da Terra, sem brilho próprio, dependendo da caridade dos outros astros para se iluminar. Sempre buscando em mim respostas que não posso dar. Sempre encontrando para as perguntas soluções que não queria sequer receber. Num perigoso jogo de cartas em que as fichas são os nossos sentimentos. “Quatro ases, a casa venceu”. E lá se vai tudo que se sentia. Tudo que um dia foi e se perdeu. Minhas emoções foram confiscadas. Nem tenho como pagar as apostas. É que são tantos a quem deixei um pedaço do meu coração que nada mais tenho dele. Aqui e ali bate um pedaço do que fui. (Ou sou, vai saber…) Procuro nas palavras, essa queda abissal em si, uma razão para as dúvidas que me atocaiam. Sempre serei, mesmo não que não possa ser-rei. Quero estar na plebe e no anonimato dos rostos dos quais não se guardam feições (O que você é? Sou um rosto. E você? Uma promessa. O que você faz? Eu me perco entre as pessoas. E você? Eu engano as pessoas. Elas são meio burrinhas, não é?) Minha jornada é uma viagem sem volta ao mais recôndito lugar de minha mente. Tentando ser impenetrável. Como se, em minha volta, pesadas placas de chumbo me protegessem do mundo. Ninguém pode me tocar. Nem me ver. Mas, se não me vêem, estou sozinha e, aqui abandonada, tenho medo de tudo. A chuva batiza as paredes de lágrimas, o verão não mudou. Tempestades acontecem sempre. Quase nunca se está preparado para elas. (O que se há de fazer?) Nem bem nos reerguemos após o furacão, lá está outro nos espreitando, na esquina. Esqueci de dizer que há ainda um castelo que sobreviveu às ondas.  Está escondido, longe do apelo do mar, (das ondas que quebram violentas na praia). É este aqui que trago comigo. Essa construção que supera qualquer outra. É prédio de colunas de ressentimento (bastante duradouras), tijolos de mágoa e cimento de amargura. Eis um edifício que resiste facilmente às vagas que não deixam de atacar. É deveras mais forte que a força dos oceanos. Lanço promessas no mar. (Quem irá recolher-las?) E minhas dúvidas mantenho-as comigo.  Bem guardadas no castelo indestrutível que não se subjugou ao poder do oceano. Sei que as horas se adiantam, em breve o sono chega, e o que aqui escrevi, o que arranquei do peito, ficará tatuado no ciber-espaço. Ninguém jamais esquecerá. (E se nem quiserem ler? Mais um texto abandonado na confusão de redes e bites. Neste oceano que também não afoga, mas, como o universo, é infinito onde também navegamos. É possível se conceber o eterno?) Até onde vai o que não vemos? E todos esses escritos que não lemos? Histórias sem leitores são como se nem ao menos tivessem sido escritas. Minhas memórias são um pedaço de mim, que não pode ser visto. Um livro aberto que jamais foi lido. É o que apresento nessas breves linhas. Mas não se enganem não são eu. Absolutamente. Sou uma mistura de coisas que jamais compreendi. E nesse emaranhado de eus, vou descobrindo um estado muito diferente do que sentia. (Será uma armadilha?) Sei que as ruas se estendem sob a chuva incessante. Aqui e ali, ainda um último uivo. Um cão que se perdeu. (Só ele?)  Um carro que segue veloz pela estrada. (Será que sabem o caminho?) E, nas mãos, um sentimento perdido que por muitos anos vagou nas águas revoltas do oceano. Quais aventuras não desfrutou no ir e vir das ondas? No vazio absoluto, sem uma mão que abrisse a rolha e libertasse o poema que trazia em si. Salvo das ondas o invólucro de sonhos. Limpei primeiro, para que pudesse ser mais fácil ver-lhe o conteúdo.  Então, com grande emoção saquei a rolha. Não sabem os estranhos pensamentos que me vieram, quando pude resgatar de seu interior, o pergaminho envelhecido. Sem mais me demorar disse num suspiro: “pronto, está livre.”

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Encontrando-me em canções, perdendo-me em livros

Giordana Medeiros

Dentes crispados, mãos em punho, trago em mim tanta revolta, mas muito, muito medo. Aqui perdida entre defuntos autores, procurando achar minha face que se perdeu em algum desses livros. “Quem sou eu?” Questiono à Clarice. “Responda-me!” Ordeno a Machado. Porém os livros se calam. Sei que me esqueci em alguma história. Por isso leio tanto: estou tentando me encontrar. Talvez esteja presa no redemoinho da vida. Mas, quando não mais suporto as correntes, sempre recorro à literatura. Sei que as asas que me concede permitem-me fugir da mais terrível masmorra. É, na verdade, a chave de um portal para outra dimensão, de repente sou personagem, e posso viver ou morrer. E nada de mal ocorre comigo, meu corpo físico continua intacto (o mesmo, entretanto, não se pode dizer do meu espírito). Está tudo na fantasia: é um mundo irreal. E a música então? Lanço mão dos clássicos, ouço rock and roll, pedras rolam-me no ouvido, a mente viaja nas histórias. Alanis, minha cara, “você deve saber” o quanto suas canções me inspiram. Seus enlaces amorosos que, sem pudores, você revela fazem-me acreditar que o mundo pode algum dia ser mais que grades e silêncio. Sou um tanto confessional também. Começo a falar tudo que sinto, derramo tudo sobre a mesa. Alguns se assustam, não os culpo. Nem penso antes de falar: “sai tudo na lata!” E nessa solidão em que me transformo em palavras, sinto falta de ser como os outros são: apenas instinto. Sou um tanto recolhida em meus desejos. Na verdade nem sei se ainda quero. É um drama um pouco particular. Uns dias, eu sinto falta de amores, carinhos e ardores, mas em outros estou tão bem sozinha. Aproveitando a companhia sempre agradável de uma boa obra. Se fosse possível teria como parceiro sexual um livro. A gente abre quando quer, fecha quando bem nos apraz e nada de reclamações ou cobranças. Mas um livro não sabe (ainda, olha aí a evolução tecnológica) fazer um bom cafuné. Se pudéssemos sentir com fidelidade a luxúria dos livros de Llosa, nem seria mais necessário o uso de vibradores pelas mulheres. (Um dos melhores amigos das desesperadas solteiras da atualidade).  E nessa mistura de sexo, livros e rock and roll vou ocupando minhas noites. A chuva torrencial lá fora não se cala. Alanis vocifera a insolúvel questão. “Can you feel it?” Nem sei mais o que sinto. Sei apenas que tenho medo. E nem sei do que ao certo. Talvez do mundo em geral que mostra sua feição mais assustadora nas noites insones. Não se enganem: insônia é falta se sono, não de som. Aqui ao meu lado, aquela que se fez Deus, não passa de mais uma humana. E suas palavras musicadas eu posso compreender. Doem em mim também. E nos livros, em que o sexo se torna um ato tão pueril como trocar de roupas, acabo por compreender que os literatos tinham uma visão moderna demais de mundo. (Ou talvez eu que tenha uma idéia por demais conservadora deste). O amor é fonte de inspiração para a arte. De um modo ou de outro, suscita-se o sentimento como razão de tudo ser.  E a cantora que reúne multidões em seus shows, fala de seus malfadados amores. Por isso chego à seguinte conclusão: “o sexo determina o mundo”. (Acho que estou sendo muito Freudiana). “Um minuto, minha cara, não é bem assim”. (Agora vem meu lado Junguiano corrigir-me). Deixo os dois discutindo, enquanto deslizo pelos acordes melódicos da canção. Nem quero mais pensar em nada. Tenho em uma de minhas mãos uma das preciosidades de Rilke. E na cabeça a música, sempre a rolar, a provocar avalanches dentro de mim. Noite de misturas: frases escritas e cantadas a ressoar por todos os lados. Eis que a poesia retira a venda de meus olhos, a música, por sua vez, liberta-me o coração. E tudo isso começa a provocar mudanças em minha tediosa personalidade. Não sou eu que escrevo. Ali está meu sonho que se fez prosa e a prosa que se fez canção. Talvez não esteja realmente fora do meu corpo. Está aqui. Sim, com a percussão que brande em meu peito. Compasso que a bateria faz para as guitarras. E a voz, e a voz? Há ainda algo a se falar do furor da cantora que coloca o rock aos seus pés? Seja dançando ao som das guitarras enfurecidas ou rodopiando enquanto sopra a harmônica, Alanis converte som em sentimento, e sentimento em muito e bom som.

A rock-star parece pegar-me pela mão e levar-me para o epicentro de um terremoto. Clarice faz o mesmo, só que não usa a voz, mas as palavras escritas. Sinto tudo com muito mais intensidade. Sei que, mesmo que não sejam devidamente considerados, os livros trazem para o homem a compreensão de si e da sociedade. Ler não é apenas um bom hábito, é a construção de redes cognitivas sobre o mundo. E a música? É o protesto, a não submissão ao convencional.  Liberta os corpos enlouquecidos num ato sexual que excita pelos ouvidos. E há pessoas que ojerizam o inusitado, o reacionário que é apresentado pela eterna música dos adolescentes. O rock é uma fonte da juventude. Quem não se transforma de novo em menino, num show maravilhoso, entregue ao canto uníssono das pessoas, à força do sentimento que impregna o corpo de quem se dispuser a apenas sentir? Enlouquecidos pela rainha que comanda o seu público sem a ele nada pedir. O rock hoje é também uma máquina de sonhos, faz-nos desejar um mundo mais humano, quando reúne milhares de pessoas em causas beneficentes ou em favor do meio-ambiente.  É isso que faz do estilo musical que nasceu no fim dos anos quarenta, uma vertente do blues, ser sempre atual. Não é tão somente pelo apelo sexual que traz (certamente) em si, mas também por sempre levar consigo belas causas, defendendo e protegendo o mundo de nós mesmos. E quando estou mais confusa, quando nem mesmo a literatura consegue abrir uma porta no beco sem saída da minha vida, recorro ao rock, que me eleva sobre os obstáculos. Estou com medo ainda, mas Alanis faz-me rir dos fatos irônicos da vida. “It isn’t ironic, dont you think?” Sempre digo a todos que música não possui fronteiras, por isso não me permito isolar tão somente na cultura que meu país me apresenta. Afinal, o que seria dos novos ritmos se não fosse a guitarra, símbolo do mais puro rock and roll? Então, livre de nacionalismos baratos, entrego-me às canções em inglês que me atingem em minha própria língua. Quem não se vê insegura com o próprio corpo ao ouvir So unsexy? E, nessa música, a cantora, que suporta o peso de ser símbolo de uma década, mostra seu lado mais sensível. Teme, tememos todos. Queremos alguém que nos apóie, alguém que sente ao nosso lado e nos escute. Um amigo, (talvez até um com grande benefícios), que ouça conosco as canções que tanto amamos e suporte estar ao nosso lado mesmo quando nem nós nos aturemos. É isso que fico pensando nessas noites de tempestade, quando, com o punho ereto, demonstrando força e o coração apertado, escondendo o medo, coloco as canções da Alanis Morissette para tocar. Descabelo-me e danço livre de qualquer trauma, como se Deus estivesse ao meu lado. Acho que posso sentir sim. Não há barreira que a música não suplante. E não me importa mesmo o que pensam de mim, que me considerem perturbada e fora de moda. (Acho que me encontrei no lugar mais inusitado). Sei que leio Rilke e ouço Rock, amo o estilo confessional de Clarice, como também o da compositora das músicas raivosas que me acompanha nesse texto. Estou provocando a desestruturação do lendário lema: sexo, drogas e rock and roll, agora substituo as drogas, pelo meu ato mais puro de rebeldia: ler. Isso, numa nação em que a leitura é subvalorizada é o maior ato de protesto que pode existir. Berro com toda força, sem vergonha, sem medo: Sexo, livros e rock and roll. E Alanis continua cantando como sempre esteve em minha curta existência. “All I really want” com estas palavras é apresentar minha face mais obscura, aquela que deixo em casa com minhas maiores riquezas: os livros e CDs que conservo como jóias em minhas estantes. Eu, que sou muito tranqüila, também tenho meus momentos de loucura. Saio cantando, pulando e dançando ao som de umas das mais influentes figuras de minha vida. E também escrevo com a destreza de uma leitora voraz, sobre os escritores que foram o reflexo de minha história. Repito, por fim, o novo lema que resolvi adotar a partir de agora: Sexo, (sim, porque é bom), livros (não se pode viver sem eles), e rock and roll (que é, também, essencial). Ainda tenho medo, mas sempre conservarei ao meu lado a canção e meus inseparáveis livros; no espelho, a face que sempre tive, mas ninguém a pode ou a quis ver.

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Manifesto contra a corrupção no Brasil

 Giordana Medeiros

Há algum tempo, no Brasil, cantava-se uma só canção: liberdade! Pedia um povo oprimido e injustiçado.  E havia movimentos políticos fundados por jovens que desejavam um futuro melhor para o seu país. As pessoas se mobilizavam contra a ditadura, um governo corrupto que saqueava as riquezas nacionais sem qualquer escrúpulo. Havia consciência política e em todos os seguimentos: musicais, estudantis e jornalísticos, transpirava-se revolta. O povo tinha voz quando queriam emudecer-lo. No meio do turbulento cenário internacional, o Brasil era dominado pelo Imperialismo norte-americano, que julgou ser mais produtivo aos seus interesses a manutenção de ditaduras na periferia para evitar o total domínio dos mercados pela extinta União Soviética. Não que uma metrópole imperialista fosse melhor que outra. Na verdade a última representava um governo totalitarista que suprimiu direitos, impôs à população um governo tão ou mais cruel que a atual potência hegemônica ajudou a implantar aqui. A submissão do país por uma ou por outra seria no máximo “trocar seis por meia dúzia” como se diz. Confesso que tenho saudades de um período de ditadura do qual vivi somente os anos derradeiros, quando aos Estados Unidos não era mais vantajoso sustentar as ditaduras nos países do sul. Claro que não sinto falta do grave desrespeito aos direitos humanos, da tortura e dos assassinatos dos que se colocavam contra ao governo militar, mas do povo com percepção de si e de sua força que se rebelava frente à corrupção e desmando dos militares. Parece que o século XXI trouxe em seu bojo uma mordaça que calou a nossa voz. Alguém ou alguma coisa nos fez fracos ou talvez, desinteressados quanto ao futuro de nosso país. Todos se confessam desapontados com os políticos que saqueiam sem qualquer escrúpulo o erário público, mas ninguém levanta a voz para se fazer escutar. A maioria da população aceita a esmola que lhes oferecem para manter-se silenciosa. As dezenas de bolsas e auxílios que concedem aos miseráveis não chegam a um centésimo do dinheiro que os políticos sugam descaradamente do nosso país. No ano passado, 62 bilhões de reais foram desviados das riquezas nacionais pelos corruptos. Com tal montante seria possível erradicar a miséria no país. Por incrível ironia, o governo atual do Brasil é formado pelos líderes dos antigos movimentos contra a ditadura. Onde foram parar todos os nossos ideais? Será que esquecemos o hino que brandíamos com força e esperança? Levantávamos as bandeiras de igualdade e liberdade, mas não pudemos ensinar aos nossos filhos o que seria ideologia. O jovem de hoje quer distância de qualquer envolvimento político. A marcha contra a corrupção, um leve suspiro de descontentamento, não consegue reunir nem dez por cento da quantidade de membros que somam um milhão de pessoas nas paradas gays. Há alguma coisa realmente errada no país. Não que os movimentos das minorias não sejam importantes. Mas lutar contra a corrupção é dever de todos. Os quase trezentos milhões de brasileiros deveriam sair de seu comodismo e unirem-se àqueles que estão a tentar concertar o que está errado. Creio que anteriormente havia em nós conhecimento de grupo, que sozinhos não somos nada, mas, unidos, somos fortes e podemos sim mudar o país. Nós somos capazes de tirar do governo os traidores da pátria e as elites as quais se aliaram. Os movimentos estudantis que hoje imperam nas universidades se mostram coniventes com a consolidada situação política do Brasil. Não se mobilizam contra o governo que os apóia e nem mesmo se pronunciam sobre a rede de corrupção que se instalou em toda nação e que ocorre desde a reitoria das universidades até a alta cúpula política do país. E com eventos de alto porte como a Copa do Mundo e as Olimpíadas que serão aqui brevemente sediados, não é difícil imaginar quantos milhões estão sendo desviados de forma escusa para contas particulares de políticos nos conhecidos paraísos fiscais.

Estou escrevendo este manifesto como um último apelo. Não é possível que somente eu perceba a inflação galopante, que ninguém consiga desvendar os métodos vis do governo de medir o índice inflacionário. Será que somente eu percebo que a quantidade dos produtos que comprávamos tempos atrás com o mesmo montante de dinheiro era muito maior? Os empresários diminuem a massa dos antigos pacotes, a metragem do papel higiênico e de todo e qualquer produto para continuar vendendo-os pelo mesmo preço. Assim, somos obrigados a comprar muito mais do que antes comprávamos. Brasileiro, você está sendo enganado! E quando, nosso país que se diz auto-suficiente em petróleo aumenta o preço dos combustíveis “forçado” por uma alta internacional e em conseqüência todos os demais itens de consumo também têm seu preço reajustado, como essa alta, que chega a dobrar o valor de tudo, não tem reflexos no índice de inflação? O que está acontecendo? Como um país com tantas pessoas vivendo dentro da faixa percentual de extrema pobreza pode emprestar dinheiro à Europa em crise?  Por que não aplicar estes valores na educação, saúde e segurança que estão em estado de calamidade pública? Se os políticos não sabem onde investir o dinheiro de nossos impostos, é melhor assinalarmos onde há necessidade desses fundos. Um Estado que se dizia social, obriga as pessoas pagarem duas vezes pelos serviços que deveriam ser prestados pelo governo com presteza e eficiência. Pagamos com os altos tributos e também quando somos obrigados a procurar o serviço particular de saúde, educação e segurança. O Brasil foi elogiado pelo presidente Obama em função de nossa pesada carga tributária. Ele somente se esqueceu de pontuar que o dinheiro que pagamos todos os anos não é investido no povo, acaba indo parar nos bancos internacionais e nos bolsos de políticos corruptos. E o pior, aqui em Brasília, o antigo governador foi deposto por suas falcatruas. Foram gravados vídeos que nos deixaram profundamente envergonhados pela verdadeira “cara-de-pau” da quadrilha que chegava mesmo a rezar antes de embolsar nosso dinheiro. E, aqueles que assumiram o governo do Distrito Federal, com a promessa de mudarem tudo, também se mostraram tanto ou mais corruptos que os primeiros. A corrupção parece uma doença que vai contaminando toda a máquina pública do Brasil. A população, em dívida com os desavergonhados ladrões (do orçamento, dos mensalões e etc), pois tem seu voto comprado com pequenas benesses, acaba por eleger a mesma quadrilha para novamente comandar nosso país. E o esquema publicitário que se mostrou um novo canal de desvio de grandes somas de dinheiro? Com propagandas enganosas e denúncias forjadas, (dossiês montados para queimar esse ou aquele candidato), os partidos de sempre acabam por convencer a população a confiar o voto mais uma vez a seus inescrupulosos membros. Nesse esquema já se foram quase duzentos anos de república com as mesmas carimbadas figuras a comandar o país. E agora, com a lei da ficha limpa, quer-se evitar que os corruptos retornem ao poder. E, como se era de esperar, eles conseguiram uma brecha na legislação para esta norma ser considerada inconstitucional. Impossível escapar a esta terrível ciranda em que colocaram o nosso país. A impunidade é uma das razões mais prováveis de tanta improbidade. Não se condena o político que incorreu no crime de corrupção e todos os demais crimes contra o erário público, e, porque não dizer, a nação, à devolução dos valores desviados. Continuam desfrutar de todos os bens que amealharam as nossas custas. É em função disso que tenho saudades de um tempo em que não podíamos gritar, mas gritávamos, ao contrário do presente em que temos ao nosso dispor o direito de se rebelar e não o fazemos. Brasileiro, o seu futuro está em sua voz, use-a, proteste, revolte-se. O país é o que fazemos dele. Os políticos são nossos representantes, devemos colocar-los a serviço do povo e não o povo a serviço deles. Não se esqueça: o dinheiro, que sustenta o luxo desses inimigos da nação, sai do nosso bolso.

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Ouvindo o coração

Giordana Medeiros

E, numa noite de chuva, percebi que é bom viver. Mesmo que doa muito, que fira sem punhal, mas com a mesma dor profunda. É doce, porque estamos com quem amamos. É ainda triste, porque sabemos que é temporário. (A vida acaba também). E gostando de estar aqui, posso usufruir melhor as benesses que existir oferece-me. Aqui, assistindo o mundo acontecer, cheguei à conclusão que vim esse tempo todo me desfazendo do que tinha de mais precioso.  E sei que posso não ser aquilo que imaginei que seria, que o destino me pregou uma peça e nada do que sonhei para mim se concretizou. Porém, estou certa que tenho tudo que preciso: o amor de minha família e amigos. E isso não é pouco. Amor é bem tão caro que o dinheiro não pode sequer comprar. Tem de ser ganho com nossas atitudes, não é negociável. Há pessoas que se casam por interesse, mas que não serão jamais felizes. Dinheiro e bens são itens supérfluos. Amor é essencial. E pensando nessas coisas tão bonitas, emociono-me e choro. São lágrimas de alegria, de saber que não preciso ser tudo que projetei para ter felicidade. E nessa noite em que a canção da tempestade ajudou-me a ouvir-me a alma, vou sentindo um mundo de emoções. Sei que estou conformada com os planos de Deus para mim. Até fizemos as pazes. Na verdade, pedi-Lhe perdão por minha arrogância. Estou aprendendo a ser humilde e tolerante também. Sei que acabei por fazer uma imensa confusão. Pensei que somente com sucesso e riquezas poderia ser feliz. E estou começando a entender o que a vida quer de nós. Ela só quer que desfrutemos do que nos oferece. E não é pouco, como outrora imaginei, é uma gama de sonhos que somente quando vivemos podemos tornar realidade. E na chuva a noite não parou. Ainda escuto distante o som de uma televisão. É hora do noticiário.  A humanidade sobrevive a si. Sou apenas uma. Tão pequena comparada ao infinito universo. E tão minúscula para a vida.  É tudo tão perigoso. Tenho medo. O vento sopra assustadoramente. Respiro fundo, engulo meus temores e sigo em frente. O mundo pode desfazer-se de mim com facilidade. Mas eu não quero mais me desfazer do mundo. Vou viver. Podem ouvir-me? Vou viver! E nem todas as tempestades que inevitavelmente ocorrerão poderão destituir-me deste intuito. Quero sentir a vida, drops de hortelã no céu da boca. Por falar em drops de hortelã, disseram-me que se pode adoçar o chá com eles. Nunca tentei fazer isso. Ainda bem que tenho a vida inteira pela frente, só para testar os sabores que ainda desconheço. E eu gosto de provar do absurdo. Também de sentir o sabor da solidão, (o sentimento mais comum em minha vida). Mas sei muito sobre esse último, agora quero provar sabores exóticos. Nada mais do comum medo, do diário desespero de ser. Agora quero saborear novos gostos, como a açucarada felicidade, (a amarga saudade eu já estou afeiçoada), há outros sentimentos dos que jamais provei que quero sentir. Mas são tantos que até nem sei como se denominam. A chuva está diminuindo. As pessoas voltam para as ruas. E na cidade o silêncio volta a imperar. Engraçado que jamais há silêncio realmente. Há um conjunto de sons que vão se dispersando. Um cachorro late para alguém. Lá na frente crianças voltam a correr com suas bicicletas. E alguém escuta música distante, mas só posso ouvir alguns acordes.  A chuva apaga os sons. Agora o mundo desperta do transe, como se a tempestade houvesse hipnotizado as pessoas. Eu aqui a sentir tudo. Mas estou feliz e não triste. Não quero voltar a despencar no abismo em que me encontrava. Depois que me salvaram de mim mesma, do meu frio desespero de ser algo que não queria, de ser árvore quando me queria pássaro, de ser vazio quando me queria multidão. E de todas as metas que possuía que não havia como concretizar. Fui resignando-me que não poderia ser pássaro se não sei como voar, que não posso ser multidão quando sei viver tão somente no vazio. E por tudo isso que aprendi, acabei por entender que não sou eu quem escreve meu próprio destino. Está nas mãos de alguém, das Parcas ou de Deus. Não sei ao certo. Sei somente que não cabe a mim. Faço apenas o que restou como minha responsabilidade: procurar a felicidade. É tudo e apenas isso que tenho em mente: quero ser feliz, mais nada.

Estava no limiar da loucura, em profundo desespero. Não sabia ainda como viver. Quando nascemos nenhum anjo veio a nós e apresentou-nos qualquer manual. Tivemos de aprender com nossos tropeços. A vida é assim. Vamos caindo, ralando os joelhos e nos levantando. Às vezes tem alguém que oferece: “vem, segura a minha mão.” E caminhamos juntos. Porém é somente esporádico. Quase sempre estamos sozinhos. Fica por nossa conta. Quer ser feliz? Segure as pontas. A vida é traiçoeira, o caminho, sinuoso. Na verdade minha alma é cataclismo. Tudo que sou esteve sempre em perigo. Não sei mais se sismo ou sondo. Sei apenas que continuo. A corda bamba pende e balança. Tenho de recuperar o equilíbrio. Tudo na vida é comedido. Nada de exageros, a felicidade é aproveitar o máximo do pouco que se tem. Seria bom se tudo não passasse de um sonho, do qual nos livraríamos no próximo despertar. Tudo que faríamos de tolo e errado seria no outro dia concertado. Abriríamos os olhos, nada mais do que foi, seria. Um mundo novo. E se a morte fosse tão somente acordar do sonho da vida? O outro lado é um novo existir, o paraíso prometido pelas religiões. Lá, está o nosso prêmio. Mas sei que não quero deixar minha vida, mesmo com a promessa da morte.  Impossível deixar quem meu coração aprendeu a amar, esse coração que vive de navegar e navegar. Navio que só se sente bem no mar. Não há porto em que se demore. E nessa noite em que tudo vem no vagar das ondas, aperto o peito. O ruído de minha alma se cala. Nem sei mais o que dizer. Só quero a tudo assistir. Na noite calma em que o sono chega a mim como um beijo. Sinto sempre as mesmas emoções. E deixo meus olhos seguirem o homem, que caminha apressado, trazendo nas mãos um guarda-chuva. Para onde vai? Fique que a noite é linda, que a escuridão é nossa amiga. Vemos muito melhor no cair da madrugada em que sentir se faz mais presente. Bem sei que isto não é nada. Ninguém gosta de estar a pensar em si. Talvez seja mais prazeroso se entreter com o que é alheio. Mas fico melhor em mim do que nos outros. Sou uma estrada, quem por mim caminha não sabe aonde vai. Nem eu mesma. Estou perdida nas curvas de minha vida. Aonde quero chegar? Não sei. Poderia absolver-me de minhas falhas. Se não me considerasse tão culpada. Sou ré, juíza, advogada e promotora no tribunal que construí para me julgar. Então quando me condeno à perpétua solidão, cumpro o cárcere em mim. Pensando sempre pensando. Sem chegar a lugar algum, andando em círculos no vazio. Que sei eu de mim? Quase nada, o pouco que sei vou escrevendo em histórias românticas que quase ninguém lê. Quem quer saber de mim? Não há quem se preocupe com uma sombra do passado que jamais se fez presente. Mesmo assim não me importo mais. Agora tenho amor de amigos, que embora distantes, consigo crer no que leio em seus corações.  O dia vai nascendo e a noite interna continuando. Quando chegará a minha vez? Será que terei meu dia? Quando despertarei deste sonho de estar acordada? E uma brisa leve toca em mim sem respostas. O sol vai nascendo rubro. As nuvens e o céu azulado, tudo é tão belo que é impossível de fitar. A chuva impediu que pudesse contar as estrelas. Um dos meus passatempos favoritos: contar o que compõe o infinito, e o sono, que de mim se aproximava, foi-se embora com o amanhecer.  Meu murmúrio de dor? Impossível de escutar. Vou apenas encenando essa peça, sem teatro e aplausos, esperando acordar. Quero viver, mas não sei fazê-lo. Sem abraços de chegadas ou acenos de partida, vou indo e vindo nas estações. Sabendo que levarei comigo somente tudo quanto eu dei, que saberei apenas aquilo que perdi, e que tudo que fui será meu futuro mesmo que construído apenas no passado.  Mas não quero mais pensar, nem mesmo escrever. Sinto o ar pesado, e estou tentando esquecer tudo que se fez presente nessa noite de vigília. Talvez eu até fosse feliz. Talvez o seja ainda. Não sei como medir a alegria, será que há termômetros em nosso peito, contando a felicidade que conseguimos reter conosco? Provavelmente seja deveras fugaz para ser medida. Talvez seja um esforço vil e vão. Na verdade o que quis nessa noite de incontáveis segredos foi apenas ouvir-me o coração.

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A Estrela D’alva

Giordana Medeiros

Estava brilhando, como seria comum a uma estrela. Era inverno e a noite estava linda, quase sem nuvens no céu. Eu estava lá, sozinha e distraída, ouvindo os desejos humanos. Engraçados estes homens não? Eles têm tantos sonhos… No fim do dia posso lhes falar: é até difícil ser estrela e ouvir sempre os mesmos pedidos: quero isto, quero aquilo, ajude-me nisto e também naquilo. Um verdadeiro suplício.  E nós astros do universo infinito sem qualquer poder de fazer ou realizar os quereres dessa gente toda. Fico com pena desses serezinhos. São dotados de uma imaginação absurda. Estão sempre a inventar coisas, construindo e modificando tudo. Lembro que há alguns milênios atrás queriam apenas saúde, amor e felicidade. Hoje, tudo se tornou complexo. Querem com mais afinco todas as coisas materiais. O que é relativo ao espírito fica esquecido num canto qualquer. Mas voltando à questão, estava lá, feliz da vida com minha luz própria – (é muito melhor do que ser como a lua e viver de brilho de aluguel), pensando em questões de estrela… (Sabiam que existe um buraco negro do outro lado da galáxia, roubando a luz das estrelas a sua volta? Onde esse universo vai parar?) Quando, de repente, comecei a me movimentar. Fiquei assustada. Deduzi que possivelmente se tratava de um astro de maior massa que vinha em minha direção. O que seria? Pensei que poderia ser até um cometa, mas, geralmente, eles têm um núcleo minúsculo comparado a sua calda. Logo descartei a possibilidade, então percebi que estava caindo. E, quanto mais caia, menor eu ficava. Para minha surpresa estava sendo puxada para o planetinha minúsculo e azul dos homens.  Levei um susto, porque se eu mantivesse minha normal circunferência, provavelmente criaria um cataclismo naquele mundozinho. Porém, ficava menor à medida que me aproximava da Terra.  E na atmosfera, meu corpo que era de luz mal se lesionou. E percebi que estava sendo deslocada por uma força muito estranha, como se quisessem que eu desse um sinal a alguém ou alguma coisa. Fui caminhando sobre um grande deserto, iluminando tudo. Como se traçasse um caminho. “Eu hein, coisa estranha… Pensei comigo.” Resolvi não me preocupar, afinal, não tinha nada o que fazer realmente.  “Fui na onda,” como se diz. Então percebi que havia uns três homenzinhos montados em camelos que seguiam meu feixe de luz. Foi então que me toquei: “ah, caramba, alguém está me usando como sinal para esses humanos.” E pensei ainda: “se esse alguém deslocou até uma estrela inocente lá dos confins do universo, a coisa deve ser séria!” Pois é, nem sabia que era possível deslocar um astro assim, sem aviso, do nada, logo eu, que nunca fiz nada errado. Ficava na minha, só brilhando, fui escolhida para ser GPS de uns três caras esquisitinhos de turbante. Resolvi concordar com meu dever,(que nem sabia qual era), e continuei a brilhar para esses homenzinhos. Mas não é que os tontos foram perguntar o caminho para um tal de Herodes? E falaram sobre um Rei dos Judeus que nasceria naquela data. “Nossa, se era um rei, pensei comigo, deveria estar nesse castelo suntuoso.” Mas a força continuou me puxando para uma cidadezinha chamada Belém. Ainda bem que os três carinhas deixaram o castelo rapidamente e continuaram a me seguir. Já estava até curiosa para ver esse Rei. Deveria ser o cara! Estava toda ansiosa brilhando com força e alegria. E súbito estava parada sobre um estabulozinho muito mixuruca, onde um casal de aldeões muito pobres adorava um lindo nenezinho. “”Epa, peraí,” disse assustada, “esse é o rei dos Judeus?” Foi então que percebi uma multidão de anjos, animais e alguns pastores todos presenciando o nascimento do menininho. E ouvi dos anjos que esse era realmente o Rei dos Judeus, o Messias que estava para nascer. Pois é, me senti toda importante. Fiquei com pena da criança também. Pois, afinal, se era mesmo um rei deveria estar no mais luxuoso dos berços e não numa manjedoura coberta de feno. Ainda mais naquele frio que estava fazendo. Mas até que ele estava bem protegido com aquele casal que acolhia o bebê com ternura nos olhos e carinho nos gestos.

Fiquei lá a brilhar sobre aquele grupo até os três caras de turbante chegarem. Quando finalmente conseguiram encontrar o caminho. (Nem com um GPS cem por cento como eu, eles conseguiram estar presentes no nascimento, ai, ai!). E quando localizaram o estábulo, descobri que também eram reis. Não desconfiei em momento algum. Eles deixaram seus reinos com intuito de vir ao nascimento do Messias, cujo destino era salvar a humanidade. Eram magos e com suas medições astrológicas conseguiram antever o nascimento do menino. Um deles era negro, se chamava Baltazar e era mouro. Outro era velho, com cabelos e barbas brancas, vinha das terras dos Caldeus e se nomeou Melquior. O último, jovem e robusto, partira das montanhas do mar Cáspio, era apelidado Gaspar.  Trouxeram três presentes: ouro, incenso e mirra. Acho que o bebezinho não entendia nada do que estava se passando. Nem da difícil missão que o aguardava. Era um garotinho muito gracioso. Tive pena de seu destino. Os homens são seres tão mesquinhos, egoístas e gananciosos. Só que ouvi um anjo dizer que ele veio pelos maus e não pelos bons. Para salvar as ovelhas desgarradas do rebanho. Achei bonita essa frase e fiquei tão contente por ter sido escolhida para anunciar o nascimento do salvador. E soube que Deus era pai de todos e tinha poderes ilimitados. Tinha conhecimento e poder sobre todas as coisas no universo. E a criança na manjedoura era Seu filho. Achei legal essa coisa de oferecer o próprio filho para ajudar os homens. Fazê-lo fraco e mortal. Um ser tão perfeito que recebeu sobre si a unção do Pai. Os aldeões que acolhiam o menino eram José e Maria. E tinham tanto amor pela criança que fiquei comovida. Até chorei. Um pequenino menino com toda essa carga de responsabilidade sobre si. Fiquei imaginando porque cargas d’água, Deus não fez o Messias um cara forte, cheio de poderes, tipo um super-herói para essa difícil missão. Entregou seu filho à humanidade num humilde corpo de homem. Carne e sangue. Dá para conceber algo do tipo? Os anjos diziam que Deus escreve certo por linhas tortas. Tudo tem seu lugar nos planos do Pai. E fiquei assustada quando um anjo veio dar a notícia que Herodes estava matando todos os recém-nascidos em Belém. Queria evitar que o Rei dos Judeus tomasse-lhe o trono. Os reis magos, que ficaram de voltar e dar conhecimento do nascimento para o maldoso Herodes, foram alertados pelos anjos do terrível plano do tirano, partiram sem dar-lhe a localização do menino. Fiquei temendo que matassem o reizinho dos judeus, tão desprotegido, naquela manjedoura. Mas Deus protegeu a fuga da família. E eles partiram em paz para Nazaré. Porém, muitas crianças inocentes morreram naquela noite. E sei que o Pai previu tudo isso, mas fico tão triste quando impera a maldade e a injustiça entre os homens. Um anjo disse-me que fui a escolhida para anunciar o nascimento de nosso Senhor por meu coração de gelatina. Desde então, eu que era uma simples estrelinha na imensidão do espaço, fui promovida a Estrela D’alva. Todos os anos sou eu quem brilha no fim de dezembro sobre a Terra, lembrando aos homens do nascimento de seu Salvador. Podem crer, essa história é totalmente verídica. Eu estive lá e convido-os para se juntarem a mim e à multidão de anjos e santos que celebram o dia em que Deus se fez homem entre os homens. Um pequeno bebê, cuja vinda foi o fato mais importante vivido pelo mundo. Quando estiverem com suas famílias neste dia 25 de dezembro, comendo a ceia, trocando presentes e felizes por tudo que possuem; rezem, lembrem-se que Natal não é apenas Papai Noel e presentes. É a celebração do maior milagre já ocorrido. É o aniversário de Jesus, o Messias,o Rei dos Judeus que trouxe consigo desde o nascimento o dever de salvar a Terra. Deus, em sua infinita bondade, conspirou para que o mundo fosse habitado e transformado pelos homens. Sabendo de todo o mal que a sua criatura causou e causa ao próximo, entregou a estes seu filho unigênito. Aquele que se sacrificou pelo bem de todos. Pode haver amor maior? Olhem pela janela este Natal, estarei no céu a piscar para lembrar-lhes desta história. E para indicar o caminho que vocês devem seguir.

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Reflexões de uma jovem escritora 

Giordana Medeiros

Não sou bem uma “jovem”, já somo três décadas de sucessos e fracassos. Fui batendo contra os muros, dando as minhas “cabeçadas” como se costuma dizer.  Não sei também se sou uma escritora. Alguns concursos ganhos e livros publicados talvez não sejam suficientes para receber essa alcunha. Entretanto, por falta de uma denominação apropriada, vou intitular esse conto (ou seria crônica?) assim mesmo. Então, vocês devem estar se perguntando, o que teria esta “jovem” (obrigada por assim me apelidarem) a dizer de tão importante? Na verdade não estou aqui para escrever cartas a um jovem poeta, nem mesmo para um jovem novelista. Rilke e Llosa já fizeram isso. (Com estupenda maestria, diga-se de passagem). Estou aqui no papel de uma entre os perdidos escritores iniciantes querendo uma saída do labirinto que a literatura construiu em suas vidas.  Estamos eternamente em busca de leitores e condecorações. Assim cremos que talvez conquistemos um espaçozinho na mídia. (E há quem diga que concursos literários são somente fontes muito rentáveis de lucros apenas para as editoras). Consideramos cada texto publicado em antologia uma grande vitória. Os custos com registro da obra na Biblioteca Nacional? Uma pequena fortuna! E nesse emaranhado de possibilidades, vemos alguns que se destacaram. É necessário perseverar. Os fracassos ocorrerão. Bloqueios artísticos? Lógico! Tudo isto fará parte de nossa difícil e penosa rotina. O computador vai encarar-nos com a face fria do Word e não teremos nada para escrever na folha em branco que ele nos apresenta, ou é possível que cada frase que escrevamos seja rapidamente apagada pelo backspace. O mundo não tem sequer idéia de nossa rotina sacrificada. E nem da luta com as palavras que enfrentamos no dia-a-dia. Sem idéias para uma história? Escreva um texto metalingüístico como este. Fale sobre a penosa vida do escritor. A verdade é que ninguém (a não ser, os muitíssimos famosos autores de Best-sellers) sobrevive mais apenas de literatura. E há ainda a questão: o que nós queremos criar é realmente literatura? Ou tão somente historinhas para entreterem adolescentes? Quando descobrimos o nosso caminho, eis que se mostra sempre o mais difícil. Best-sellers não se criam sozinhos. É necessária uma ponta de talento e outra de sorte. Muitas vezes, tocamos nos assuntos mais explorados pela mídia. Outras, acusam-nos de herméticos e elitizados. (Estranho que, como escritor, no Brasil, fazer parte da elite é algo um tanto improvável). O mais bizarro é que, após nossa rotina (via crucis) no trabalho que nos sustenta realmente, sentamos frente ao computador e escrevemos. Talvez, para criar um novo sucesso de público ou mesmo um post num blog que quase ninguém lê. E mesmo assim continuamos. É amor ao trabalho? Provavelmente consideramos que temos algo importante para falar. Apesar de ser um grito no vazio. Na internet existem milhões de blogs, no mundo, centenas de milhões de escritores, iniciantes ou não. E todos esperam por um clique em sua página, um comentário, uma simples palavra de aprovação do que fizeram e ainda fazem.  Não que estejamos à espera de louvores, mas um pouco de reconhecimento é algo maravilhoso.  Por tal motivo inscrevemos nossos trabalhos nos concursos literários cujos julgamentos, na maioria das vezes, são extremamente duvidosos. E mesmo quando somos premiados, nem por tal motivo somos aclamados pelo grande público. Um dia desses soube da morte de Moacir Scliar e que pouca ou nenhuma repercussão obteve na mídia. Contudo, as fofocas dos “artistas” e “músicos” (que nem deveriam ser misturados aos verdadeiros músicos e artistas que penam para ver seu trabalho levado ao conhecimento do povo), ocupam quase todo o noticiário e as capas das revistas de qualidade duvidosa. O mais torturante é ver que tais “artistas” (como sofro em tratá-los por este substantivo!) conseguem com muita facilidade lugares nas editoras mais conceituadas, para publicarem biografias e livros que vendem apenas pela fama do indivíduo (nem que tenha sido arrebatada de forma apelativa e sem qualquer escrúpulo artístico).

Então, aqui nesse momento, quero dizer que compreendo você escritor. Você mesmo que escreve milhares de poesias, contos e romances e deixa-os escondidos ou mesmo perdidos nas gavetas. Sei que se considera muito aquém de suas próprias expectativas. Aconselho-o a ter coragem, coloque a “cara” à mostra, ofereça seu trabalho ao mundo! Talvez você seja o novo talento de nossa nova literatura! Eu também comecei “aos trancos e barrancos”. Muitas vezes considerava um trabalho eivado de nobre poesia que arrancou risos dos que o leram. É assim mesmo. “Keep walking”, nos dizeres da propaganda de whisky. (Não sei como é possível continuar a andar quando ébrios, mas é muito genial relacionar um produto de consumo com algo que não tem qualquer relação, ponto para os publicitários!) Meu início foi com a nobre arte da poesia. Escrevia sob pseudônimo porque me considerava escandalosamente ruim. E dentro de um grupo de poetas que participava, descobri que tenho até jeito com a prosa! Comecei a escrever contos (foi um começo desastroso devo dizer, quando leio minhas primeiras histórias, tenho vergonha de mim mesma), então, num desses famigerados concursos, dos quais tanto falei, fui selecionada para publicação. Felicidade geral: “A moça do piano” (meu conto de estréia) ganhou muitos fãs. Depois continuei escrevendo, tive textos meus plagiados, alguns até mesmo roubados (simplesmente se apoderaram da autoria de um de meus contos), e mesmo assim prossegui. Ainda na novela dos concursos, fui premiada numa seleção de âmbito internacional. A partir de então, adotei a alcunha de escritora (não sem alguns protestos, quando vejo meus pais contarem aos amigos sobre minhas aventuras literárias, não deixo de perceber o olhar de pena dos nossos conhecidos). Ainda fui premiada e tive textos publicados outras vezes, (confesso que espero que ocorra com mais frequência). Não deixo de arriscar. Como o alcoólatra pede: “mais uma dose, mais uma dose” eu imploro: “mais uma frase, mais uma frase”. E então nessa aventura de escrever, vou escalando minhas montanhas. E estou aqui para dizer a vocês: o caminho não é seguro, tem tempestades, o mar é sempre agitado, mas tem sim suas compensações. Um dia, quero ser lembrada pelo que escrevi e não pelo o que sou. Nenhum escritor é um anjo, um santo que será assunto aos céus. Somos homens e mulheres normais, com os problemas e loucuras que são comuns a todas as pessoas. Engraçado que quando um escritor alcança o sucesso é quase beatificado. Chegam até mesmo a fazerem bustos de sua pessoa. Incrível! (Algo que devo deixar claro: não quero ser transformada em busto para enfeitar a estante de ninguém, que coisa mórbida!) Ou ao contrário, proclamam aos sete ventos sua vida boêmia, seus problemas psiquiátricos, sua arrogância e idiossincrasias. Por que não podemos ser o simples cidadão que vai à padaria todos os dias? Aquele que faz suas compras no shopping e tem dezenas de carnês para pagar todo mês? Isso é normalidade demais! Não faria qualquer sucesso na mídia apelativa. Imaginem a notícia: “a escritora Maria da Silva, mãe carinhosa, esposa fiel, cidadã honesta e trabalhadora, apresenta hoje sua mais nova novela.” Digam-me, faria sucesso? Seria algo que impulsionaria a venda de livros? Mas a seguinte chamada: “a turbulenta escritora Maria da Silva, de vida boêmia e polêmica, apresenta mais uma conturbada obra para a literatura mundial!” Claro que a segunda e mais sensacionalista reportagem seria muito mais aceita pelo público em geral. Ninguém consegue conceber um artista sem problemas sociais, sem quaisquer vícios. E se não for atormentado por nenhum desses reveses deverá mudar de ramo literário: terá de migrar para a auto-ajuda para ensinar à sociedade como solucionar os seus próprios males. Não escrevo um manual para ser seguido ao pé da letra pelos jovens escritores. Nada disso, quero apenas reconfortá-los e dizer: nós todos singramos pelos mesmos caminhos. Não é fácil. Provavelmente não será nem mesmo lucrativo. Porém, se você sente no fundo da alma que é isto que procura, que deseja todos esses percalços na sua vida, então continue. Siga em frente. Tenha certeza que o sucesso não é imediato, mas fruto de muita persistência e fé. Boa sorte, jovem escritor!

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Poesia de amor sem versos

Giordana Medeiros

Sei que você sabe. Ainda sabe. Só que evita falar a respeito. Estou aí, nesse coração que bate solitário em seu peito. Pode sentir? Pode escutar? Sou eu dizendo que sinto saudade. E você? Posso assistir seus sonhos em que continuo presente. Sabe que não pode se livrar de mim tão simples e facilmente. Pode esconder meu nome em sua pele, mas apagá-lo, jamais. Olhando bem, é possível me encontrar. Meu futuro ainda caminha pareado com o seu. Seguimos por estradas diversas, porém que findam no mesmo ponto. Encontraremos-nos inevitavelmente. Eu sou o seu destino.  Quando juntos, somamos, divididos, subtraímos nosso amor. É pura matemática. A raiz de nossos problemas eram nossos medos, o ciúme doentio de sermos dois quando queríamos ser apenas um. Não posso prender-lhe junto a mim. Não compreendia o seu silêncio e você, minhas palavras. Então nos desfizemos do que éramos para sermos seres incompletos. É tudo tão vazio sem você. Eu sou a poetiza dos versos sem rima, a cantora da solidão em prosa, bruxa das palavras que não lançam qualquer feitiço, imperfeição das noites insones, o som das horas silenciosas e tristes. E essa incongruência de ser o que não posso ser, a confusão de antíteses que sou, a isso, você não conseguia compreender. Então o sol do nosso amor se escondeu no poente. As luzes de felicidade, que um dia vislumbramos, apagaram-se na noite. Agora estou perdida, na escuridão de meus pensamentos, sem você. Eu ainda não sei ver-me sem sua voz para acalmar-me ou sem seu peito para reconfortar-me. E mesmo que sofra as dores mais agudas, não venço meu orgulho e saio ao seu encontro. Estou presa no que sou. Nós dois estamos. Emaranhados na teia de nossa arrogância, ficamos procurando culpados, mergulhados em dúvidas e ressentimentos. Houve deslizes, confesso, admito minhas falhas, mas nem por um instante fui tão fraca a ponto de dizer que era o fim. E a porta ficou entreaberta, não sabemos se terminou realmente. Quero ouvir de seus lábios que não me ama, quero ver em seus olhos o ódio que revelou ter por mim. E se teme que veja a verdade, porque não se dá por vencido? Recolha as armas, levante a bandeira branca e selemos a paz em nossa cama. Ouço as vagas quebrarem no mar, é como o som de nossos corpos, somos imensidão, tempestades cuja força é insondável. O amor quando acontece, estremece tudo. Terremoto de sentimentos. Não se sabe se é ódio, pode muito bem ser loucura, outros dizem que é doença. É um mal que dói e adoramos. Ora machuca, ora anestesia. E choramos absurdamente sem qualquer razão. Um penar infindável que termina nos lábios de quem amamos. Sentindo esvair-me as forças, debilitarem-me as defesas, pego o celular, até disco seu número, mas então desligo. Não sei como lhe falar. Foi minha culpa eu sei… O que farei?  Se não posso estar consigo, se não posso viver sem você, se sofrer é o verbo que mais conjugo atualmente, qual resposta, nessa confusão de soluções que o mundo despeja sobre mim, que devo seguir? Na minha vida em que você era presente, tudo se tornou passado. E não posso enxergar meu futuro sozinha, impossível imaginar-lo sem sua adorável companhia. Sei que minhas palavras parecem mentira. Sei que ainda pesa o rancor no seu peito. Contudo olhe agora: a dor passou.  E as nuvens escuras foram varridas pelo vento. O sol um dia há de brilhar, estrela majestosa no céu que é anil. Não reclamo desculpas, nem mesmo explicações. Posso apenas lhe ouvir o olhar. E o meu clama pela luz de seus olhos. Sei que quem sente muito, se cala. No fundo ama, mas não confessa. Sente, então mente e em sua dor sofre perdidamente. Essa história sem sentido que agora escrevo apela para os sentimentos. Nada diz e nem ao menos ambiciona falar. São verdades que não ouso lhe contar. Não lerá minhas palavras derramando arrependimento sobre o papel. Logo tudo se apagará de minha memória e ninguém saberá a razão de meu tormento. O backspace correrá sobre a tela: o segredo tornar-se-á inviolável. Sem pistas. Tudo será vazio. No computador, um papel em branco em que o amor jazerá eternamente. Não vou correr em seu encalço, não vou clamar ao infinito que não me abandone. Não vou fazer nada que possa parecer um tanto insano, e, em razão disso, também muito romântico. Sei que não aprecia demonstrações de sentimentos tão efusivas. Éramos tão contidos no que sentíamos… O amor secará no solo infértil de nossas culpas. Em breve, nada mais brotará em nós. Condenados à solidão na pena perpétua de nossas prisões internas.

E com você via melhor o mundo. A beleza que se esconde dos homens e se revela apenas nos corações tolos dos que amam. Você trouxe ao pé de mim todas as emoções mais suaves. Passei a sorrir sem motivo algum. Porque você me amou (algum dia, e creio que ainda o faça) também lhe amei do mesmo e estúpido modo. Agora me demoro sobre as palavras sem saber o que dizer. Não que importe realmente, já que posso “deletar” esse arquivo. (Mesmo que o guarde no peito por toda vida, sem coragem para dizê-lo.) Penso em você e até murmuro o seu nome. E escuto, no vento sibilante nos arvoredos, o som de sua voz. Será que estou enlouquecendo? Procurando no vento uivante a confissão que queria ouvir de seus lábios? Sei que me aguarda mesmo que não me procure. Sei que sente minha falta ainda que não demonstre. E nessas semanas em que se abriu um abismo entre nós, fui aprendendo a sentir. Tanto e tão profundamente que acredito que esse hiato seja apenas um curto intervalo. Podemos recuperar os corações partidos. Juntar os pedaços de nós estilhaçados pela mágoa. E num instante, com velhos e coloridos retalhos, reformamos nosso sentimento. Um curioso invento, corações de retalhos, como os curiosos “fuxicos” dos nordeste. Até que ficariam bonitinhos. Seria algo bem artesanal, que esse órgão é bastante frágil . Nada de máquinas frias destruindo tudo com sua brutalidade. Tenho pena de mim que ainda sonho. E essas idéias bobas, que tenho sempre, até lhe divertiam. Onde ficaram nossos sorrisos? Não sei o que fazer comigo e dessas minhas sensações. Estou em transe, como se estivesse hipnotizada por seu amor. Quero que fale algo para acordar-me. Diga que era sonho e só. Diga que era imaginação, uma de minhas loucas idéias que me surpreendeu numa fria madrugada. (Era setembro, lembra?) Uma recordação que de tão visível é quase real e se apossa de mim. Sabia dos cantos das sereias, sabia que um coração marinheiro está sempre a navegar no mundo, procurando ilhas para aportar. E sabendo disso não devia estranhar que amasse a mim e também a muitas. E ao perceber isso, toda eu sou qualquer força que me abandona. Estou apavorada com a súbita consciência que se apossou de mim. Eu gosto tanto de você que mesmo sua ausência é algo que está comigo. E por isso desconheço os meios de lhe desejar. Não posso falar abertamente o que sinto, por isso falo por meio de símbolos que somente nós dois entendemos. Passando as noites sem saber dormir. Vendo-lhe de formas diferentes a todo o momento. O amor é um constante pensamento. Inevitavelmente lhe acho no vazio das horas e recordações continuam a chover nos telhados em lágrimas sofridas que antes eram represadas pelo meu orgulho. Dói muito, na verdade, continua a doer, sabe, tenho ainda em mim tanta tristeza.  Não sei bem falar porque estou a sentir. Não sei nem como explicar esse texto. Assim como, não sei bem porque estou a escrever estas revelações. A única resolução que tenho comigo é desfazer-me dele no momento exato em que o terminar. Quero ser feliz. E para isso valho-me da força do perdão. Tenho esperança que me reencontre na saudade que sinto. Vou enfrentando as duras batalhas da solidão. Serei eu a única derrotada? Há ainda amor nos nossos constantes desencontros? Por que estávamos tão cegos? Por que nos perdemos de nós? Muitas perguntas faço à escuridão e ela não consegue ou não pode me responder. Só sei que quero tudo de volta, mas sem medo. Quero tudo do mesmo jeito, mas sem ciúme. Quero entregar-me, mas sem a inevitável queda. Quero as férias na praia, mas sem os olhos distraídos no horizonte. Quero ver mais filmes em sua companhia, mas sem o silêncio impregnado de dúvidas. Quero amar mais, mas somente a você. Quero os banhos de chuva da primavera, mas sempre ao seu lado. Já não me importo se ainda sofro. Vê? Já nem choro mais. Nada me resta do que tive, nem mesmo do sentimento que um dia achei. Solitária nessa noite de tormentas, a paisagem desolada me conforta. Não serei apenas eu. Seremos dois, se algum dia você voltar. Sou um navio ancorado na praia, com a simples resolução de ali ficar. Estarei a sua espera. Nem que seja para sempre. E caso nunca mais lhe veja, tenha certeza que sua imagem em meu selvagem coração eternamente vai estar. Uma colorida lembrança, um retrato de um momento fugaz, o sonho que, delicado, na areia com as ondas se desfaz.

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