A Quimera

Giordana Medeiros

Uma dúvida nesses dias veio me roubando o sono. Uma questão que nem suscitaria tanta discussão, nem mesmo a insone controvérsia que se estabeleceu em meu cérebro. Mas eis ela aqui em mim, quebrando paradigmas que tinha como verdadeiros. Tudo em que um dia acreditei se tornou dúvida. Ses, que agora profiro sem respostas, ficam quicando em minha mente. Seguem-se inúmeras horas, que passam arrastadas, repletas de interrogações e, mesmo que agora transmita a outrem o que me perturba, não será possível a essa pessoa ajudar-me de algum modo. Sabem quando existem enigmas destinados a alguém somente, ou seja, intransferíveis? Existe uma Esfinge dentro de nós que vive nos causando problemas. E nem adianta reclamar: o fabricante diz que veio junto com o livre arbítrio. (É tipo um brinde, compre um, leve dois.) Era melhor a vida antes daquela maldita maçã… Agora estou a transferir a culpa de minhas questões a um personagem bíblico que cometeu uma falta a que Deus já previa. Esse Deus que sabe de cada passo do homem bem antes de por em prova sua honestidade e justiça. Mas Ele não tem culpa do que somos. Somos o produto de nossas escolhas. E eu queria não ter de escolher. Cada passo que dou na corda bamba deixa-me mais temerosa. Não há rede para aparar-me a queda. Se cair, tombo no infinito. Para sempre. E posso afirmar que nem sei o que é o sempre, tendo em vista que minha vida tem sido feita de nuncas. Fico falando para o infinito também e creio que este não me ouve. Berro minha dor ao céu. Clamo misericórdia a Deus. Mas acabo por me resignar ao fato d’Este ser divino ter me abandonado. Estou sozinha cheia de dúvidas nessa noite sem estrelas e luar. Nuvens pesadas de dor cobrem o céu. Sei que há algo a minha espera, mas não sei se espero por isso realmente. Nem sei bem se estou certa em tentar construir o futuro, porque é demasiado o trabalho no presente. E o passado, que não ficou para trás, volta a todo instante para assombrar-me. Há como crescer sem deixar fantasmas em nossos armários? Sem cultivar traumas que não se curam e permanecem em nós como feridas purulentas que se estendem por todo nosso espírito? Tenho medo de mim e não dos outros. Sou eu quem mais atrapalha o bom andamento de minha história. E tudo fica assim pela metade, remendado e gasto. Estou levando a vida nas costas, curvando ante ao peso do que sou.  Quisera ser mais leve… Mas as dúvidas irresolúveis são a parte mais pesada de mim. Nem sei bem o que quero. Um tanto assim de amor, talvez, outro tanto de reconhecimento, se fosse possível, e, claro, uma migalhazinha de sinceridade. Nem quero muito, contento-me com o pouco que me é destinado. Sei viver de sonhos. Sei viver de ilusões. Sei viver sem viver em absoluto. Um pouco de melancolia nessa frase deixa transparecer uma imagem equivocada de mim. Acreditem ou não, não sou apenas lágrimas. Tenho dias alegres. Tenho sorrisos guardados e empoeirados no meu baú. E estão tão esquecidos que não me atrevo a usá-los. Tenho medo de quebrar a felicidade, pois esta é feita de frágil e luminoso cristal. Venho tentando compor a canção da alegria. Seria uma ode parecida com a de Schiller. Poderia também ser musicada. Muito embora, não creia existir outro Beethoven por aí. Há rouxinóis nas manhãs ensolaradas da minha imaginação. E nuvens carregadas na realidade da existência. Fico divagando em densos pensamentos. Nem me atrevo a chorar. Não me é dada a possibilidade de prantear meus dilemas. Sei que podemos encontrar respostas onde menos se espera, mas não me ocorrem estas surpresas. Aliás, surpreendente é que ainda esteja a lamentar a falta de sorte que me acompanha desde o nascimento. Eu era um bebê prematuro e fraco a quem um anjo torto não se atreveu nem mesmo a conceder um destino, nem que fosse a leste ou oeste, gauche ou droit, só queria uma pista do que me aguarda ou do que devo procurar. Mas ele não me concedeu nada, nadinha, só mesmo uma tarefa: viva! Anjo piadista, cada peça que ele me prega… Deixe estar, algum dia, nós dois acertamos nossas contas. Acho que Deus deveria escolher melhor os membros de suas milícias celestes. E esse anjo que me acompanha então? Deixa-me enfurecida com seus desmandos. Toda vez que encontro uma saída, lá vem ele com outro labirinto. É a isso que denominam anjo da guarda? Com intuito de me ajudar ele está sempre me colocando em enrascadas… Não posso deixar de dizer que em alguns fatos ele até me protegeu de verdade. (Se não foi assim, não sei como ainda posso estar viva.) Tenho de confessar que ele até que cumpre sua função de guarda-costas com algum louvor. O problema é que, nos demais quesitos, ele deixa sempre muito a desejar. Um dia nos encontraremos para discutirmos nossas funções. Antes tarde do que nunca, como dizem.

Seguindo por campos minados, vou à procura de um futuro que não me pertence. Eis que nada no meu destino ficou acertado. Eu queria que desde cedo soubesse quem seria ou quem sou. Fico desnorteada ao me procurar. Não me encontro. Quem sou eu? Quem é esta pessoa que o espelho me mostra? Serei eu a gananciosa garota que tinha ojeriza ao humilde destino que as Parcas lhe fiavam? Serei eu aquela que resolveu virar o leme e seguir contra as correntezas que lhe puxavam a nau para longe? Serei eu aquela que covardemente tentou afundar o navio, desistindo de tudo?  Serei eu todas as três, mas com uma carga maior de sabedoria, um tanto mais “escaldada” pela vida? Não sei, às vezes, olho minha imagem no espelho e vejo uma quarta e até uma quinta pessoa. É como se fosse sempre conhecendo uma nova faceta de mim mesma. E ainda pensam que tudo que escrevo surge fácil. Não imaginam como é difícil falar sobre o que sou. Já disse que não tenho identidade. Ainda caminho sem um nome, sem profissão, sem destino. Eu sou aquela que cruzou um oceano para ter certeza que chegaria a um lugar aonde não queria ir, puxei as velas, dei a volta no leme, e agora tenho de retornar ao zero e recomeçar a viagem do início. Depois, terei de criar uma nova rota. Porém me dou ao luxo de ainda estar indecisa. Há tantos lugares a conhecer, nesse mundo imenso que é, também, minúsculo se comparado aos demais. Membro de uma galáxia branca como leite, este planetinha azul crê guardar toda vida existente no universo.  Um dia nos saberemos errados. Mesmo que leve muito, muito tempo. Sei que provavelmente não estarei aqui quando nos dermos conta que vivemos em apenas mais um e não no único. Mas não é esta a questão que se faz mais urgente.  No varal de minhas dúvidas, estendido para secar ao sol, o meu mais difícil dilema. Não é saber se sou ou não sou. (Ser ou não ser era a famosa questão que atormentava Hamlet.) O problema é saber o que sou. Quando pequena o futuro se mostrava tão simples. Era algo que aconteceria inevitavelmente. Se queria ser qualquer coisa: escritora, arqueóloga ou cientista, qualquer coisa mesmo, só pelo fato de apenas desejar, tinha certeza que o seria. Mas os anos passaram e me deparei com uma Quimera. Eis o futuro: um monstro mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão com quem estamos constantemente em embate. E para vencê-lo nem podemos recorrer a Pégaso, o cavalo alado. Temos de “matar o bicho na unha”! Em nossa luta também não poderemos contar com a proteção de Minerva para sermos vencedores como o era Belerofonte. E dizem que a besta a qual me refiro é na verdade uma criação ilusória de nossa perigosa imaginação. Estranho como se descobrir é tão fácil para algumas pessoas. Para mim, isto se mostrou tão, mas tão difícil que acho que jamais terei certeza do que sou na realidade. Sou um tanto sonhadora, ingênua e bobinha como me dizem os amigos. E tenho a esperança de que a solução desse dilema ainda acontecerá. Não será uma aparição ensurdecedora, não me assaltará quando estiver distraída. Creio que chegará de mansinho, como uma simples idéia e crescerá tal qual uma planta, fora do alcance de meus olhos. Um dia dar-me-ei conta que ela estava ali, próxima de mim o tempo todo e nunca a tinha percebido. Então terei encontrado a lâmpada mágica e nesse momento terei direito a três desejos. Agora outra questão me assalta: o que devo desejar ao gênio da lâmpada? Não quero riquezas, não desejo alguém que me ame em função de mágica e não por um atributo que eu possua, nem mesmo sonho em ter poder algum. Nenhum dos prazeres terrenos me atrai na verdade. A única coisa que sempre quis é um sonho que trago comigo desde a infância. Quando criança desejava imensamente que meus pais se orgulhassem do que eu era. Ainda tenho comigo esta meta: quero que meus pais se orgulhem do que sou e do que serei. E, para obter isso, não posso pedir a nenhum gênio encantado. Não é com um passe de mágica que ganhamos o reconhecimento das pessoas. É com um trabalho árduo feito todos os dias. Acho que descobri a resposta da questão que tanto procurava: a vida acontece aos poucos. O que sou ainda está acontecendo e vai se desenvolver como os sonhos. E para isso tenho de ter paciência e viver, cada dia de cada vez. Acho que agora acabei de matar a terrível Quimera.

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