Noite de abandonada melancolia 

Giordana Medeiros

Minhas dúvidas eram mesquinhas, minhas questões eram egoístas. Eu estava centrada somente em mim. Agora posso dizer sem me envergonhar do círculo egocêntrico que criei em torno do que julgava ser eu. Não era eu. Não sou eu. Eu juro que nem sei quem sou ainda, mas creio que não era quem era. Talvez seja algo pior ou um tanto melhor, ainda não pensei a respeito. Fiquei muda por algum tempo, pensando em mim, porém, de uma forma mais generosa. Finalmente fui condescendente quanto meus erros. Nunca havia me visto de forma tão clara, de repente pude dizer a mim: “eis aqui neste espelho o que você era. Feche os olhos e veja o que se tornou.” Criei a mania de fechar os olhos aos espelhos. (Sua sinceridade me fere.) Para ver-me como deveria como talvez jamais ousasse me ver. Tenho medo de mim. Eu sou uma confusão de antíteses. Uma mistura de medos e receios com desejos e sonhos. Junte tudo isso com grandes porções de burrice, então surge esse avesso, um ser tão estranho e ingênuo que ainda consegue crer nas pessoas. O mundo me devora um pouco a cada segundo. Estou perdida nos labirintos de ganância que foram criados pela humanidade. Acabei por ficar reclusa na profundidade de meu ser. É um oceano abissal, não sabia o que encontrar. No fim, terminei por me enxergar na densa neblina de meus pensamentos. Um milagre: uma tênue luz ilumina a minha penumbra. Pesadelos que se convertem em sonhos, porque, antes, tinha pavor de saber o que queria. E agora apenas quero.  Não sou mais tão indefesa. Tenho minhas armas, muito embora evite usá-las.  Estou caminhando por estradas que construí. Ainda sozinha, mas em breve sei que há de existir companhia. Se não houver, não sofrerei, porque me conheço melhor na solidão. E às vezes cercada de pessoas não consigo ver-me claramente. Não sou quem querem que seja. Mesmo que não saiba quem deveria ser ou se posso ser quem desejo. Sigo ainda desemaranhando o fio das dúvidas que trouxe comigo. É difícil, mas agora não me recuso a desfazer-me do que achava essencial. A vida se tornou mais leve ou viver se tornou mais fácil? Acho que evolui com meus erros, estou destruída, mas não de forma que não possa nunca mais me reerguer. Tive de aprender sozinha, o mundo não é um grande professor, como costumam dizer, principalmente quando não se entende sua língua. Este mundo, na realidade, é muito cruel. A humanidade respira o ar envenenado de sua própria cobiça. O homem não nasce bom, ao contrário, a luta pela sobrevivência criou homens selvagens, que disputam todo momento, cada naco de alimento, cada gota d’água, cada pedaço de terra é uma questão de vida e de morte. Tudo resolvido pelo estampido das armas. O sangue que irriga este solo é meu também. Sobre nossos corpos, plantações se estendem a perder de vista. E eu com minha visão centrada somente no urgente hoje. Eis que o amanhã nos espreita cheio de perguntas. Contudo sei que estou cada vez mais próxima das respostas. Eu que sou eu-todos, não mais eu-apenas. Eu com você e com ele. Eu com quase duzentos milhões de brasileiros. Entretanto eu-solitária nesse país de proporções continentais. Vivo porque o presente impele e o futuro exige. Perdoando os erros cometidos no passado. Esperando que haja algum remédio para a dor infinita que trago no peito. Ainda perdida nestas frases e orações, pronomes e conjunções. Advérbios derramam-se a cada frase, sempre caindo ao lado dos verbos, substantivos que não são substanciais, e vejo que quase não uso interjeições. Talvez porque não sou muito de narrar ações. Vou escrevendo assim como quem apenas sente. Quem agüenta o peso do mundo sobre si? Vamos procurar apoio em nações devastadas pela crise? No céu reverbera a indignação da sociedade. Mas os donos do poder fazem-se surdos. Quando serei ouvida? Quem escuta nessa noite de densas nuvens de lamentações? Alcança-me as palavras de um grande poeta: a solidão cai sobre a cidade como uma chuva. Escurece a noite, cobre a lua. E triste dos homens que dormem ao relento, sem o conforto de um abraço, sem a solidariedade de seus irmãos. E ainda existem homens tão sozinhos em si que mesmo donos de imensas posses, não se sentem felizes com o muito que têm e que ainda julgam pouco. Eu era assim, não sei se ainda sou. Tenho tanto ainda para aprender…

Minhas palavras, soltas de mim, dançam na tela do computador. Como contê-las? Um universo nas pontas dos dedos. Mesmo assim, sei que não digo tudo. Há coisas indizíveis. Outras que devem ser mantidas em segredo: “do you cross your heart?” O silêncio atravessa a noite. O meu pensamento segue ao som de sua música. Meu coração bate rápido. Sentindo o imediato sentido de ser que se esconde em cada pessoa, em cada espaço, em cada coisa… Esse texto não possui feição própria. É na verdade uma soma de sentimentos, que acaba por tomar a face de muitas pessoas. Não sinto por mim apenas. Sinto muito por todos. Eu acredito que as dores se acumulam e não somem. Não se pode simplesmente apagar as feridas que se imprimiram em nós. Eu procuro sempre entrar em mim mesma para achar a solução dos dilemas do mundo. Investigo a fundo as pistas que se me apresentam. Mesmo assim viver ainda se constitui um mistério. Caio nos enigmas mais simples, de modo que não posso resolver também os mais intricados. Não sou Édipo que acreditava tudo ver, quando era apenas mais um cego. Admito que nada sei, que ignoro as razões que me trouxeram aqui. O que conspirou para que tudo fosse do jeito que é. Desconheço tudo, porém não me canso de procurar. Estou na missão de resgate de mim, nessa vida efêmera em que tão somente minhas palavras perdurarão. O que seria eu desprega de mim e voa com as aves migratórias. Cruzando oceanos, um pedaço do que sou, mas não sou. Essa é apenas uma faceta de mim. Acena discretamente para o infinito e resta indestrutível no pensamento dos homens. Sinto-me insuficiente para a vida, como algo que tentou ser e não foi. Alguém que tentou partir e foi impedido de ir. Não posso me definir explicitamente. Sei que há uma parte em mim que fica adormecida. Uma feição que não compreendo e que duvido que alguém venha a compreender. Por isso não chego a determinar o que sou. Sei que estou tão distante que meus olhos míopes não me alcançam. Não posso olhar para fora. Tenho de me ver por dentro. Estou seguindo meu instinto. Nem sei se posso confiar em algo tão primitivo, depois de tantos anos de inegável evolução. Minhas raízes de sonho vão cavando meu espírito. Sei que nos sonhos vou encontrar a resposta, só que agora já não sei mais qual questão me assalta. Eu que era eu, sou um pouco nós. Ego ou super ego? Deixe-me ver por milhões para desvendar a charada que se constitui viver. Vamos dividir as razões? Sobrepujar preconceitos em função do afeto desmotivado que se cultiva pelos outros? Eu sou uma mulher que vê, que vive, que sente, que ama e que pede: só mais um instante, apenas mais uma palavra, um único apelo. É tudo que me basta! O destino é uma criança travessa que prega peças nos homens. Ironias que se vão construindo. Sentimentos que se esgotam. Num instante tudo desaba sob a força de mil terremotos. Mesmo devastada, sigo contra a força dos elementos. Segurando firme no leme, enfrento tempestades e maremotos. Com mãos fortes escrevo minha história. Apago o eu, substituo por nós. Acuso-me das faltas que nem sei se cometi. Desse modo acho que posso chegar ao fim de minha história. E o fim é também um começo. Um ponto termina uma frase, mas a essa logo se segue uma nova. Uma história dá ensejo a outras milhares. Só se lembre de não ser somente você. Um sozinho é muito pouco para abrir as janelas dos sonhos. É necessário ser um plural, um que se possa ouvir e sentir por todos. Um coração que bate percussão não é suficiente, precisa-se de muitos corações batendo bateria. Olhe na avenida o desfile das escolas campeãs. Um ruído invade a noite: sinto frio. É que a chuva chora abandono nesta noite solitária. O âmago deste texto é apenas um. Um que tenta desesperadamente ser muito quando tudo é muito pouco. Sei que estou superando as questões mais complexas, sem nem mesmo solucioná-las. Procuro, por fim, a resposta em um livro e sinto cheiro de jasmins. A noite é serena e triste. Em lágrimas doloridas a chuva cai solenemente sobre a cidade.  Desisto de olhar distante. Fecho as janelas e vou dormir.

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