Arquivo do mês: outubro 2011

O dia em que o tempo parou

Giordana Medeiros

Sofrendo as agruras da modernidade nesse admirável mundo novo repleto de carros, prédios, lojas e luminosos. Eis que ali oferecem felicidade numa garrafa de refrigerante e ao lado determinam que compremos um eletrônico sem o qual não podemos mais viver. Eu a perguntar-me: quando o nosso coração transportou-se para nossa carteira? E creio que nossas veias estão tão entupidas de coisas, (algumas que sequer precisamos),que logo sofreremos um infarto fulminante. Há um grande acumulo de produtos em nossa realidade: vídeos-game, computadores, tablets, mp3 players, roupas de grife, sapatos, tudo que impulsiona o comércio nesse mundo de consumo, onde somos o que possuímos. Os ingressos para o futuro enfeitam prateleiras tentando nossos sentidos para que nos enquadremos ao “new way of life”. O novo meio de vida que nasceu no cerne da Revolução Industrial no século XVIII e que vai se aprimorando desde então. É fato que a revolução tecnológica operada em nossas vidas nos últimos anos provocou uma mudança social: tudo se tornou digital, o universo ao alcance de nossos dedos. E, na multidão anônima que corre contra o tempo, (rápido porque o agora tem de ser imediato), estou tentando encontrar a humanidade que perdi em algum lugar. Homem, nós não somos máquinas! Máquinas, ainda somos homens! E confusa entre ser ou não ser, estou também presa nessa rede de bites invisíveis. Posso navegar sem embarcação e velas, posso conversar sem voz, podem me ver quando não estou presente, eis a dádiva que futuro reservou para nós. Pergunto qual o novo passo em nossa escala evolutiva. Para onde vamos agora? Qual direção devemos seguir?  Sei que não sou a única que está aterrorizada com o presente que num minuto se tornou futuro. O relógio que corre apressado, não espera por ninguém. O tempo a todos superará. Em breve também os homens se tornarão obsoletos e o nosso coração baterá no peito do homem de lata. O hoje com ares de amanhã, vai dizendo adeus. Um dia nada mais será tão importante quanto o tempo. Mesmo com todos os aparelhos modernos que nos prometem poupar nossos preciosos segundos, não temos tempo para nada. Não vemos o mundo a nossa volta. Enxergamos apenas a ilusão que a tecnologia nos apresenta. Uma avalanche de felicidade se você a poder comprar. O custo de vida que nos custa a própria vida.  E nem percebemos tudo que tínhamos e perdemos. Os velhos ainda lamentam a realidade de ontem que mudou completamente no correr dos anos. E os que viveram somente o agora pensam que o passado está restrito apenas aos livros de história. Os museus que conservavam a nossa memória também estão sendo destruídos. Quando criança ouvia dizer que um país deve preservar sua história para poder construir seu próprio futuro. E o moderno se desfaz do antigo, nós nos rimos e desprezamos o que é considerado antiquado. O mundo de hoje, destruindo o ontem, para que o homem não tenha saudades do ser que era. Era e não é mais. Era, há muito tempo atrás, algo mais próximo do humano. Vivíamos de sonho, o destino estava no que seríamos e não no que nos determinaria a tela fria do computador. E o tempo foi cruel comigo. Estava tão preocupada em viver que não vivia. Queria tanto ser e não fui. O tempo correu silencioso quando tinha os olhos vendados. E cumpriu o desejo que fiz quando não suportava o sofrimento do presente: desejei o futuro. Ele chegou. Agora não o suporto, mas não posso desejar a volta do passado. Lamento não ter sido feliz quando devia. Agora tento adquirir a alegria que me falta, mas o dinheiro, como todos sabem, não compra felicidade, (contrariando o que tentam fazer acreditar os comerciais de tevê). Mas estou começando a reconstruir dentro de mim o mundo que me escapou. E não obedeço aos desmandos do tempo. Sei que posso não destruir o material das horas, mas posso viajar pelos segundos, saboreando o tempo que me devora.

Vejo o presente não somente como o agora, mas também como o que determinará o que serei amanhã. E o tempo pára no meu espírito. O real ainda ameaça minhas fantasias, mas já começa a se coadunar com o sonho. Quem se eu gritasse me ouviria nessa multidão? Talvez um membro das ordens de anjos que cobrem os céus e não os vemos. Mas nem a esses seres celestes posso recorrer. Eis que não podem destruir a progressão inevitável das coisas. São advertidos a não influenciar no nosso livre arbítrio, mesmo que a eles recorramos. Fica tudo por nossa conta. O maior problema é que ainda há a morte a assombrar nosso destino. O ponto final de uma história que sempre consideramos curta demais. Tememos o negro anjo que porta a foice implacável. E nem vemos a beleza do tempo porque ele passa por nós e nós não passamos por ele. Estranho perceber cada pequeno sentimento apossar-se de mim, como se todos os momentos passados houvessem parado para mim. E percebo atônita que realmente os ponteiros dos relógios estacaram. Eis que há ainda muito para viver. Não vou me prender no emaranhando de problemas que é existir. Não farei nada além de aproveitar este instante em que o tempo foi suprimido. Vou me ater ao que realmente importa. Sentir um vento cheio de espaços refrescar o calor e marcar-me o rosto, enquanto caminho descalça sobre a grama… Apreciarei o vôo do beija-flor com suas asas ligeiras, paradas como numa fotografia… Desfar-me-ei de velhos hábitos, não realizarei nada do que faria no meu cotidiano normal. Seguirei pelas avenidas silenciosas, em que outrora imperava o som das buzinas, deleitando-me com as coisas que nunca percebera. Eu que sempre estive distraída com as esperas, com a procura de algo que desconhecia, mas que sempre tentei encontrar. O problema é que não sabia o que realmente desejava. Queria o novo, o que não poderia ter, mas que meu egoísmo fazia-me ambicionar. Não caminhava pelas estradas que me indicava o coração. Seguia na direção do lucro, do que fosse extremamente rentável. O capital que comanda o mundo também me guiava. Estava, como todos, sob as ordens do tiquetaquear dos relógios, querendo transformar segundos em moeda, sem me preocupar se estava perdendo o que me resta de vida, o sopro que ainda tenho nos pulmões. E todos estes grandes e estranhos pensamentos entram e saem de mim. Convivo com a expectativa do que o destino me reserva. Mas tomo esse pretexto de estar alheia ao tempo para analisar o que fui, o que o mundo era e no que ambos nos tornamos. Nesse momento despencam sobre mim tempestades de dúvidas. E também um estranho desejo de superar a vida. O corpo físico que pesa a minha alma. Muitas estrelas, nas noites que passei entretida com o trabalho, esperavam por serem vistas. As constelações derramavam-se pelo céu como se quisessem brilhar em minha íris. Contudo me fechei nos templos de concreto que a humanidade construiu para a sua maior divindade: o dinheiro. E sei que possuir era-me mais importante que ser. Estar nesse estado diferente fez-me compreender o que perdia. Essa percepção do mundo provoca-me um enorme sofrimento. Escuto o sibilar da brisa e as dores que trago comigo reaparecem, velhíssimas sensações que um dia pude sustentar agora me fazem desabar, não é possível me reerguer com tanto pesar no coração. E sucumbindo ao mais torturante estado de ser, não posso mais reter o tempo, devolvo-o à humanidade. O silêncio morre no mundo e a balbúrdia citadina ocupa os espaços. Não posso estar em paz nesse lugar frenético de luzes e sons. Quero a paz das estrelas que imploravam que as percebesse. Agora quero a eternidade alheia ao tempo, quero estar fora da existência que reclama a minha atenção. Do passado, ergue-se uma vaga que quebra em meu espírito. Eis que ainda me resta o ontem. E sei que sinto o ar mais pesado nesse instante. Na verdade, queria poder realmente parar o tempo e que tudo que escrevi aqui não passasse de sonho. Sou uma heroína em minhas fantasias, mas na realidade sei que minha força não se conserva. A perversidade das pessoas me assusta. Não tenho qualquer socorro quando me afogo em mim, como se não tivesse força para ser eu por duas vezes seguidas. Eu só posso estar em mim por um átimo, mais que isso implica em questionar a razão do mundo: apago o tempo do universo, destruo as convenções físicas, quebro paradigmas, tudo isso em meros minutos. Imagina o que faria se de fato fosse me dada a faculdade de reformar o universo? Melhor que este poder ainda esteja restrito somente a Deus. Embora creia que em breve o homem também tome para si o direito de mudar a realidade que vive, (se é que já não fazemos isso).

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A Quimera

Giordana Medeiros

Uma dúvida nesses dias veio me roubando o sono. Uma questão que nem suscitaria tanta discussão, nem mesmo a insone controvérsia que se estabeleceu em meu cérebro. Mas eis ela aqui em mim, quebrando paradigmas que tinha como verdadeiros. Tudo em que um dia acreditei se tornou dúvida. Ses, que agora profiro sem respostas, ficam quicando em minha mente. Seguem-se inúmeras horas, que passam arrastadas, repletas de interrogações e, mesmo que agora transmita a outrem o que me perturba, não será possível a essa pessoa ajudar-me de algum modo. Sabem quando existem enigmas destinados a alguém somente, ou seja, intransferíveis? Existe uma Esfinge dentro de nós que vive nos causando problemas. E nem adianta reclamar: o fabricante diz que veio junto com o livre arbítrio. (É tipo um brinde, compre um, leve dois.) Era melhor a vida antes daquela maldita maçã… Agora estou a transferir a culpa de minhas questões a um personagem bíblico que cometeu uma falta a que Deus já previa. Esse Deus que sabe de cada passo do homem bem antes de por em prova sua honestidade e justiça. Mas Ele não tem culpa do que somos. Somos o produto de nossas escolhas. E eu queria não ter de escolher. Cada passo que dou na corda bamba deixa-me mais temerosa. Não há rede para aparar-me a queda. Se cair, tombo no infinito. Para sempre. E posso afirmar que nem sei o que é o sempre, tendo em vista que minha vida tem sido feita de nuncas. Fico falando para o infinito também e creio que este não me ouve. Berro minha dor ao céu. Clamo misericórdia a Deus. Mas acabo por me resignar ao fato d’Este ser divino ter me abandonado. Estou sozinha cheia de dúvidas nessa noite sem estrelas e luar. Nuvens pesadas de dor cobrem o céu. Sei que há algo a minha espera, mas não sei se espero por isso realmente. Nem sei bem se estou certa em tentar construir o futuro, porque é demasiado o trabalho no presente. E o passado, que não ficou para trás, volta a todo instante para assombrar-me. Há como crescer sem deixar fantasmas em nossos armários? Sem cultivar traumas que não se curam e permanecem em nós como feridas purulentas que se estendem por todo nosso espírito? Tenho medo de mim e não dos outros. Sou eu quem mais atrapalha o bom andamento de minha história. E tudo fica assim pela metade, remendado e gasto. Estou levando a vida nas costas, curvando ante ao peso do que sou.  Quisera ser mais leve… Mas as dúvidas irresolúveis são a parte mais pesada de mim. Nem sei bem o que quero. Um tanto assim de amor, talvez, outro tanto de reconhecimento, se fosse possível, e, claro, uma migalhazinha de sinceridade. Nem quero muito, contento-me com o pouco que me é destinado. Sei viver de sonhos. Sei viver de ilusões. Sei viver sem viver em absoluto. Um pouco de melancolia nessa frase deixa transparecer uma imagem equivocada de mim. Acreditem ou não, não sou apenas lágrimas. Tenho dias alegres. Tenho sorrisos guardados e empoeirados no meu baú. E estão tão esquecidos que não me atrevo a usá-los. Tenho medo de quebrar a felicidade, pois esta é feita de frágil e luminoso cristal. Venho tentando compor a canção da alegria. Seria uma ode parecida com a de Schiller. Poderia também ser musicada. Muito embora, não creia existir outro Beethoven por aí. Há rouxinóis nas manhãs ensolaradas da minha imaginação. E nuvens carregadas na realidade da existência. Fico divagando em densos pensamentos. Nem me atrevo a chorar. Não me é dada a possibilidade de prantear meus dilemas. Sei que podemos encontrar respostas onde menos se espera, mas não me ocorrem estas surpresas. Aliás, surpreendente é que ainda esteja a lamentar a falta de sorte que me acompanha desde o nascimento. Eu era um bebê prematuro e fraco a quem um anjo torto não se atreveu nem mesmo a conceder um destino, nem que fosse a leste ou oeste, gauche ou droit, só queria uma pista do que me aguarda ou do que devo procurar. Mas ele não me concedeu nada, nadinha, só mesmo uma tarefa: viva! Anjo piadista, cada peça que ele me prega… Deixe estar, algum dia, nós dois acertamos nossas contas. Acho que Deus deveria escolher melhor os membros de suas milícias celestes. E esse anjo que me acompanha então? Deixa-me enfurecida com seus desmandos. Toda vez que encontro uma saída, lá vem ele com outro labirinto. É a isso que denominam anjo da guarda? Com intuito de me ajudar ele está sempre me colocando em enrascadas… Não posso deixar de dizer que em alguns fatos ele até me protegeu de verdade. (Se não foi assim, não sei como ainda posso estar viva.) Tenho de confessar que ele até que cumpre sua função de guarda-costas com algum louvor. O problema é que, nos demais quesitos, ele deixa sempre muito a desejar. Um dia nos encontraremos para discutirmos nossas funções. Antes tarde do que nunca, como dizem.

Seguindo por campos minados, vou à procura de um futuro que não me pertence. Eis que nada no meu destino ficou acertado. Eu queria que desde cedo soubesse quem seria ou quem sou. Fico desnorteada ao me procurar. Não me encontro. Quem sou eu? Quem é esta pessoa que o espelho me mostra? Serei eu a gananciosa garota que tinha ojeriza ao humilde destino que as Parcas lhe fiavam? Serei eu aquela que resolveu virar o leme e seguir contra as correntezas que lhe puxavam a nau para longe? Serei eu aquela que covardemente tentou afundar o navio, desistindo de tudo?  Serei eu todas as três, mas com uma carga maior de sabedoria, um tanto mais “escaldada” pela vida? Não sei, às vezes, olho minha imagem no espelho e vejo uma quarta e até uma quinta pessoa. É como se fosse sempre conhecendo uma nova faceta de mim mesma. E ainda pensam que tudo que escrevo surge fácil. Não imaginam como é difícil falar sobre o que sou. Já disse que não tenho identidade. Ainda caminho sem um nome, sem profissão, sem destino. Eu sou aquela que cruzou um oceano para ter certeza que chegaria a um lugar aonde não queria ir, puxei as velas, dei a volta no leme, e agora tenho de retornar ao zero e recomeçar a viagem do início. Depois, terei de criar uma nova rota. Porém me dou ao luxo de ainda estar indecisa. Há tantos lugares a conhecer, nesse mundo imenso que é, também, minúsculo se comparado aos demais. Membro de uma galáxia branca como leite, este planetinha azul crê guardar toda vida existente no universo.  Um dia nos saberemos errados. Mesmo que leve muito, muito tempo. Sei que provavelmente não estarei aqui quando nos dermos conta que vivemos em apenas mais um e não no único. Mas não é esta a questão que se faz mais urgente.  No varal de minhas dúvidas, estendido para secar ao sol, o meu mais difícil dilema. Não é saber se sou ou não sou. (Ser ou não ser era a famosa questão que atormentava Hamlet.) O problema é saber o que sou. Quando pequena o futuro se mostrava tão simples. Era algo que aconteceria inevitavelmente. Se queria ser qualquer coisa: escritora, arqueóloga ou cientista, qualquer coisa mesmo, só pelo fato de apenas desejar, tinha certeza que o seria. Mas os anos passaram e me deparei com uma Quimera. Eis o futuro: um monstro mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão com quem estamos constantemente em embate. E para vencê-lo nem podemos recorrer a Pégaso, o cavalo alado. Temos de “matar o bicho na unha”! Em nossa luta também não poderemos contar com a proteção de Minerva para sermos vencedores como o era Belerofonte. E dizem que a besta a qual me refiro é na verdade uma criação ilusória de nossa perigosa imaginação. Estranho como se descobrir é tão fácil para algumas pessoas. Para mim, isto se mostrou tão, mas tão difícil que acho que jamais terei certeza do que sou na realidade. Sou um tanto sonhadora, ingênua e bobinha como me dizem os amigos. E tenho a esperança de que a solução desse dilema ainda acontecerá. Não será uma aparição ensurdecedora, não me assaltará quando estiver distraída. Creio que chegará de mansinho, como uma simples idéia e crescerá tal qual uma planta, fora do alcance de meus olhos. Um dia dar-me-ei conta que ela estava ali, próxima de mim o tempo todo e nunca a tinha percebido. Então terei encontrado a lâmpada mágica e nesse momento terei direito a três desejos. Agora outra questão me assalta: o que devo desejar ao gênio da lâmpada? Não quero riquezas, não desejo alguém que me ame em função de mágica e não por um atributo que eu possua, nem mesmo sonho em ter poder algum. Nenhum dos prazeres terrenos me atrai na verdade. A única coisa que sempre quis é um sonho que trago comigo desde a infância. Quando criança desejava imensamente que meus pais se orgulhassem do que eu era. Ainda tenho comigo esta meta: quero que meus pais se orgulhem do que sou e do que serei. E, para obter isso, não posso pedir a nenhum gênio encantado. Não é com um passe de mágica que ganhamos o reconhecimento das pessoas. É com um trabalho árduo feito todos os dias. Acho que descobri a resposta da questão que tanto procurava: a vida acontece aos poucos. O que sou ainda está acontecendo e vai se desenvolver como os sonhos. E para isso tenho de ter paciência e viver, cada dia de cada vez. Acho que agora acabei de matar a terrível Quimera.

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Noite de abandonada melancolia 

Giordana Medeiros

Minhas dúvidas eram mesquinhas, minhas questões eram egoístas. Eu estava centrada somente em mim. Agora posso dizer sem me envergonhar do círculo egocêntrico que criei em torno do que julgava ser eu. Não era eu. Não sou eu. Eu juro que nem sei quem sou ainda, mas creio que não era quem era. Talvez seja algo pior ou um tanto melhor, ainda não pensei a respeito. Fiquei muda por algum tempo, pensando em mim, porém, de uma forma mais generosa. Finalmente fui condescendente quanto meus erros. Nunca havia me visto de forma tão clara, de repente pude dizer a mim: “eis aqui neste espelho o que você era. Feche os olhos e veja o que se tornou.” Criei a mania de fechar os olhos aos espelhos. (Sua sinceridade me fere.) Para ver-me como deveria como talvez jamais ousasse me ver. Tenho medo de mim. Eu sou uma confusão de antíteses. Uma mistura de medos e receios com desejos e sonhos. Junte tudo isso com grandes porções de burrice, então surge esse avesso, um ser tão estranho e ingênuo que ainda consegue crer nas pessoas. O mundo me devora um pouco a cada segundo. Estou perdida nos labirintos de ganância que foram criados pela humanidade. Acabei por ficar reclusa na profundidade de meu ser. É um oceano abissal, não sabia o que encontrar. No fim, terminei por me enxergar na densa neblina de meus pensamentos. Um milagre: uma tênue luz ilumina a minha penumbra. Pesadelos que se convertem em sonhos, porque, antes, tinha pavor de saber o que queria. E agora apenas quero.  Não sou mais tão indefesa. Tenho minhas armas, muito embora evite usá-las.  Estou caminhando por estradas que construí. Ainda sozinha, mas em breve sei que há de existir companhia. Se não houver, não sofrerei, porque me conheço melhor na solidão. E às vezes cercada de pessoas não consigo ver-me claramente. Não sou quem querem que seja. Mesmo que não saiba quem deveria ser ou se posso ser quem desejo. Sigo ainda desemaranhando o fio das dúvidas que trouxe comigo. É difícil, mas agora não me recuso a desfazer-me do que achava essencial. A vida se tornou mais leve ou viver se tornou mais fácil? Acho que evolui com meus erros, estou destruída, mas não de forma que não possa nunca mais me reerguer. Tive de aprender sozinha, o mundo não é um grande professor, como costumam dizer, principalmente quando não se entende sua língua. Este mundo, na realidade, é muito cruel. A humanidade respira o ar envenenado de sua própria cobiça. O homem não nasce bom, ao contrário, a luta pela sobrevivência criou homens selvagens, que disputam todo momento, cada naco de alimento, cada gota d’água, cada pedaço de terra é uma questão de vida e de morte. Tudo resolvido pelo estampido das armas. O sangue que irriga este solo é meu também. Sobre nossos corpos, plantações se estendem a perder de vista. E eu com minha visão centrada somente no urgente hoje. Eis que o amanhã nos espreita cheio de perguntas. Contudo sei que estou cada vez mais próxima das respostas. Eu que sou eu-todos, não mais eu-apenas. Eu com você e com ele. Eu com quase duzentos milhões de brasileiros. Entretanto eu-solitária nesse país de proporções continentais. Vivo porque o presente impele e o futuro exige. Perdoando os erros cometidos no passado. Esperando que haja algum remédio para a dor infinita que trago no peito. Ainda perdida nestas frases e orações, pronomes e conjunções. Advérbios derramam-se a cada frase, sempre caindo ao lado dos verbos, substantivos que não são substanciais, e vejo que quase não uso interjeições. Talvez porque não sou muito de narrar ações. Vou escrevendo assim como quem apenas sente. Quem agüenta o peso do mundo sobre si? Vamos procurar apoio em nações devastadas pela crise? No céu reverbera a indignação da sociedade. Mas os donos do poder fazem-se surdos. Quando serei ouvida? Quem escuta nessa noite de densas nuvens de lamentações? Alcança-me as palavras de um grande poeta: a solidão cai sobre a cidade como uma chuva. Escurece a noite, cobre a lua. E triste dos homens que dormem ao relento, sem o conforto de um abraço, sem a solidariedade de seus irmãos. E ainda existem homens tão sozinhos em si que mesmo donos de imensas posses, não se sentem felizes com o muito que têm e que ainda julgam pouco. Eu era assim, não sei se ainda sou. Tenho tanto ainda para aprender…

Minhas palavras, soltas de mim, dançam na tela do computador. Como contê-las? Um universo nas pontas dos dedos. Mesmo assim, sei que não digo tudo. Há coisas indizíveis. Outras que devem ser mantidas em segredo: “do you cross your heart?” O silêncio atravessa a noite. O meu pensamento segue ao som de sua música. Meu coração bate rápido. Sentindo o imediato sentido de ser que se esconde em cada pessoa, em cada espaço, em cada coisa… Esse texto não possui feição própria. É na verdade uma soma de sentimentos, que acaba por tomar a face de muitas pessoas. Não sinto por mim apenas. Sinto muito por todos. Eu acredito que as dores se acumulam e não somem. Não se pode simplesmente apagar as feridas que se imprimiram em nós. Eu procuro sempre entrar em mim mesma para achar a solução dos dilemas do mundo. Investigo a fundo as pistas que se me apresentam. Mesmo assim viver ainda se constitui um mistério. Caio nos enigmas mais simples, de modo que não posso resolver também os mais intricados. Não sou Édipo que acreditava tudo ver, quando era apenas mais um cego. Admito que nada sei, que ignoro as razões que me trouxeram aqui. O que conspirou para que tudo fosse do jeito que é. Desconheço tudo, porém não me canso de procurar. Estou na missão de resgate de mim, nessa vida efêmera em que tão somente minhas palavras perdurarão. O que seria eu desprega de mim e voa com as aves migratórias. Cruzando oceanos, um pedaço do que sou, mas não sou. Essa é apenas uma faceta de mim. Acena discretamente para o infinito e resta indestrutível no pensamento dos homens. Sinto-me insuficiente para a vida, como algo que tentou ser e não foi. Alguém que tentou partir e foi impedido de ir. Não posso me definir explicitamente. Sei que há uma parte em mim que fica adormecida. Uma feição que não compreendo e que duvido que alguém venha a compreender. Por isso não chego a determinar o que sou. Sei que estou tão distante que meus olhos míopes não me alcançam. Não posso olhar para fora. Tenho de me ver por dentro. Estou seguindo meu instinto. Nem sei se posso confiar em algo tão primitivo, depois de tantos anos de inegável evolução. Minhas raízes de sonho vão cavando meu espírito. Sei que nos sonhos vou encontrar a resposta, só que agora já não sei mais qual questão me assalta. Eu que era eu, sou um pouco nós. Ego ou super ego? Deixe-me ver por milhões para desvendar a charada que se constitui viver. Vamos dividir as razões? Sobrepujar preconceitos em função do afeto desmotivado que se cultiva pelos outros? Eu sou uma mulher que vê, que vive, que sente, que ama e que pede: só mais um instante, apenas mais uma palavra, um único apelo. É tudo que me basta! O destino é uma criança travessa que prega peças nos homens. Ironias que se vão construindo. Sentimentos que se esgotam. Num instante tudo desaba sob a força de mil terremotos. Mesmo devastada, sigo contra a força dos elementos. Segurando firme no leme, enfrento tempestades e maremotos. Com mãos fortes escrevo minha história. Apago o eu, substituo por nós. Acuso-me das faltas que nem sei se cometi. Desse modo acho que posso chegar ao fim de minha história. E o fim é também um começo. Um ponto termina uma frase, mas a essa logo se segue uma nova. Uma história dá ensejo a outras milhares. Só se lembre de não ser somente você. Um sozinho é muito pouco para abrir as janelas dos sonhos. É necessário ser um plural, um que se possa ouvir e sentir por todos. Um coração que bate percussão não é suficiente, precisa-se de muitos corações batendo bateria. Olhe na avenida o desfile das escolas campeãs. Um ruído invade a noite: sinto frio. É que a chuva chora abandono nesta noite solitária. O âmago deste texto é apenas um. Um que tenta desesperadamente ser muito quando tudo é muito pouco. Sei que estou superando as questões mais complexas, sem nem mesmo solucioná-las. Procuro, por fim, a resposta em um livro e sinto cheiro de jasmins. A noite é serena e triste. Em lágrimas doloridas a chuva cai solenemente sobre a cidade.  Desisto de olhar distante. Fecho as janelas e vou dormir.

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