“Deixo-te a minha saudade – a melhor parte de mim.”

Cecília Meireles

Arma de brinquedo, sentimentos em liquidação 

Giordana Medeiros

Lembro-me de coisas estranhas algumas vezes… Não são estranhas na verdade. São coisas que trago comigo. Coisas das quais não me recordava, contudo, com o auxílio de algum fato ou canção, são resgatadas do fundo do meu baú de esquecimento. Hoje, ouvindo uma canção no rádio, lembrei-me que, quando criança, pedi que minha mãe comprasse-me um revólver de brinquedo. Era uma arma de plástico amarelo que vinha num coldre, também de plástico, marrom. Foi uma sensação fantástica, quando recebi o presente que desejava, brinquei o dia inteiro com meu revólver. Era a polícia, o bandido, o xerife, bem como, o cowboy. Trazendo minha arma de plástico amarrada com um barbante na cintura, sentia-me imensamente feliz. E fiquei constrangida pelas lágrimas que me inundaram os olhos, numa saudade infinita de uma época que foi tão especial e da qual não me recordava, porque tinha soterrado sob grandes camadas de rancor e sofrimento. Queria voltar ao passado para poder empunhar meu brinquedo com a mesma ingenuidade e sentir-me feliz com o pouco que tinha, mas que para mim, naquele tempo era o suficiente. E agora? Quando o mundo desaba sobre mim? Vivendo terremotos, maremotos e todos os demais desastres naturais que teimam em acontecer tirando-me da órbita em que meu satélite trafegava? Esperava tanto, e, no fim, quase nada me restou. Perco o pouco que ainda tenho com emoções mesquinhas, acabo por desvencilhar-me da realidade a que outrora estava acostumada. Mas dela nada tinha na verdade, somente pó. A dor macerando a flor de nossa esperança. E se pudesse viver novamente aquela sensação de ter em minhas mãos aquele revólver de brinquedo… E vem-me a certeza que ela já passou e nunca mais retornará. Acho que existem sentimentos que só podem ser gozados uma vez. Nada pode durar muito tempo. Devem ter sido cultivados no nosso espírito como sentimentos perecíveis. Não são descartáveis, pois esta denominação dá a entender que são simplesmente consumíveis. São perecíveis porque, se não vividos no momento certo, aquele êxtase ou felicidade não poderão ser sentidos nunca mais. Agora o momento exige reflexão. Exige que tenha sobre mim um controle que não possuía sobre os oceanos de ressentimentos com que fui abastecendo-me, alimentando minhas dores e somatizando minhas amarguras. E para que? O que ganhei com isso? Apenas fui perdendo, tudo que tinha, o pouco que tinha foi-me subtraído. E me resta apenas uma rosa esquecida, fraca e ressequida, pois oceanos de dores não irrigam flores de felicidade. O jardineiro sou eu. Eu que não fui cuidadosa com meu jardim. Eu que esqueci tudo que fui para ser o que sou. E o que sou? Meu Deus, o que sou? Eu que amargo um exílio auto-imposto do mundo que conhecia, agora que me perco em mim e não me acho. Onde estou? Sei que não há mapas para nos encontrarmos em nossa alma. Sozinhos em nós, tão minúsculos e abandonados. Com todos esses perigos que nos circundam, haveria alguém em quem possamos confiar? Deveríamos andar armados com nossos revólveres amarelos de brinquedo? Pavor de morrer? Na verdade eu já morri centenas, milhares de vezes. E vou me reconstruindo. Um tanto de mim é que morre. Um sonho que foi se consumindo todo, crepitando na fogueira de minhas desilusões. Por que fujo de mim? Sei que me persigo e me fujo. Eu numa corrida em círculos atrás de meu próprio rabo. Isto, como os cães, mas os animais são puros. Os homens não. Somos desleais, somos avaros, somos ruins e amargos. Homens, nós somos o câncer do mundo! E nem mesmo a felicidade de ter um brinquedo que há tempos desejava pode salvar o nosso coração de amadurecer. O tempo corrói a nossa manta de ingenuidade. E sem que consigamos perceber, estamos embrenhados na floresta das emoções adultas. Não podemos ser apenas, é necessário ter e ter muito: dinheiro, amores, relacionamentos bens, contatos, roupas, sapatos, computadores, eletrônicos, o lixo em que nos fomos atolando nesse lamaçal que é a vida de consumo. Tudo é consumível: sentimentos em liquidação.

E agora o silêncio. O que esperar do mundo? Na verdade não deveríamos esperar nada de ninguém para não nos desapontarmos. Não posso estar otimista num mundo em que desde pequenos estamos perdidos. Mas sim, sinto saudade, “saudade eu tenho sempre”, diria Clarice. Tenho saudade do passado, quando o mundo era mais simples. Em que conseguia ler em mim as soluções dos dilemas em que hoje estou emaranhada. Não consigo me libertar desse labirinto de dúvidas em que fui me escondendo. (Primeiro usei-o como abrigo, depois, nele me perdi). E se estou tão protegida, nesse exílio, por que então lamento tanto a minha sorte? É que a solidão é devastadora, como as Tsunamis que nada poupam. E da minha singela flor de felicidade, tão pequena e murcha, pouco restou: tão somente a lembrança que ali havia um sentimento e a recordação que um dia, um dia, fui feliz. Contudo o mundo promete felicidade nas gôndolas dos supermercados, nas vitrines iluminadas das lojas, ali sobre os manequins, nas prateleiras, nos produtos chamativos, eis que o mundo liquida sentimentos. E não é que por alguns segundos conseguimos esquecer sofrimentos e dores que nos perturbam? Todavia é um momento muito curto, depois deságuam sobre nós com mais violência que outrora. Tentamos viver eternamente o que ficou tão somente no passado. Esses momentos não se repetirão. Repito. Estejam certos. Não podemos esperar que o passado volte. Entretanto podemos fazer com que o futuro mude. Recordar o passado: minha arma amarela de brinquedo, que me trouxe tanta alegria. E com essa singela memória regar as sementes de felicidade que ainda trazemos conosco. E, no futuro, impedir que nosso jardim morra novamente. Cultivar os bons sentimentos, arrancar as ervas daninhas dos ressentimentos e desavenças. O meu coração até sorri de novo. E chego a pensar que as manhãs são boas, quando acordamos dentro delas e espiamos por dentro o que somos e nosso jardim onde só brotam bons sentimentos. Daqui para frente a vida me será imediata. Vou viver o hoje, por que viver é inadiável. Eu sou o oposto do que deveria ser. Não serei assim o avesso, ou melhor, um ser avesso a tudo. Serei mais tolerante. Tenho de aprender a ser, até comigo mesma. Sou muito exigente, quero tudo de mim. Mesmo que não possa conceder-me aquilo que necessito. Eu comigo, uma luta eterna. Sei que este texto devia se limitar a falar da minha arma de brinquedo, porém não posso fazer sumir de mim o que sinto. Meu jardim um tanto rústico, onde o húmus de que brota a vida é composto da matéria orgânica dos sonhos. Começo a aprender o sentido das coisas. Um mundo de revelações me bate a porta. A vida é o que é. Não podemos exigir que seja de outra forma. A vida não é extraordinária, como tentam fazer crer. Viver é dolorido, sofrido, penoso, mas há os momentos de luzidia felicidade. Serão poucos, contudo, em razão destes, tudo valerá à pena. “The only exciting life is the imaginary one.Nas palavras de Virgínia Woolf. Completo a citação com um conselho: vivam somente a vida real, que há o perigo de se perder nas ilusões e fantasias. É muito tentador viver só, mas só viver é perigoso. Corremos o risco de estar com o coração cheio de lágrimas e os lábios, de risos. Mentido para o mundo que nos vê e para nós que sentimos. No fim, veremos as horas passarem lerdas e o tempo profundo, cheio de desalentos e desespero persistir. Não haverá armas de brinquedo que nos alegre no mundo adulto. Nesse mundo vencido pelos anos, de onde todos nós sairemos derrotados. Seremos vencidos pela ceifadora implacável que nos levará para as margens do Letes, o rio que devemos cruzar para o mundo inferior. Nessa travessia, de toda nossa vida nos esqueceremos. Quando esse momento chegar, creio que um único pedido farei ao barqueiro: que me deixe lembrar do dia iluminado de uma menina e seu revólver de brinquedo, quando fui muito, muito feliz. Uma ninharia, uma coisa pequena que julgariam sem qualquer importância, mas que creio foi o dia mais importante de minha trajetória. E por muito tempo o esqueci e não quero mais que esse sentimento mágico seja-me subtraído. A felicidade é uma semente muito pequena, que deve ser regada constantemente com sorrisos, e, ao contrário que pensam, não é cara, na verdade ela tem o valor dos nossos sonhos. E sonhar é de graça!

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