Mais leve que o ar

Giordana Medeiros

Mais leve que o ar, mais leve que a vida, mais leve que a substância mais leve existente.  Posso até voar e quebrar paradigmas físicos. O que é a gravidade para quem não se contenta em manter os dois pés no chão? Cruzando cordilheiras nevadas, secos desertos e vales ensolarados. Nesse mundo não há grades e paredes que me cerceiem. Voando com os pássaros, cruzando os céus com minhas asas feitas de sonhos. Seguindo pela imensidão azul e, sob meu corpo, abismos infinitos. Buracos negros que não podem sugar a luz de que sou composto. Sou mais denso que eles, muito mais misterioso. Perguntam-me por que e deixo a dúvida flutuar sem respostas. Para que conceituar algo que não pode e não deve ser conceituado? Agora que minha mente soltou-se dos pesados grilhões, nada mais pode aprisioná-la. Somos livres, leves e loucos. Eu, minha mente e minha imaginação. Nós que somos um, santíssima trindade livre de qualquer pecado. Sou tão puro, mais límpido que as nascentes que brotam neste Planalto. Agora viajo sobre a cidade que pulsa modernidade. Veias de asfalto que me levam a todas as partes. Continuo minha insólita viagem, circundo monumentos, a bandeira tremulante e, sob a insígnia da ordem e do progresso, meu corpo se cobre de verde e amarelo. Sou desta terra de palmeiras e sabiás. País ensolarado, eternamente deitado em berço esplêndido. Gigante adormecido que não recorda o momento de despertar. Vejo sob mim um povo que desconhece a força que tem. Gente que peca por uma apatia que nunca lhe foi comum. Mas estes dilemas preocupam-me e pesam sobre mim. Não vou cair nesse mundo, no solo fecundo disputado pelos homens. Minha mente se evade dessa realidade. Só nesse céu de brigadeiro doce de provar, açucarado de solidão, posso estar. Sentindo o inusitado sabor da liberdade, prossigo na minha viagem, em volta do mundo que me ignora. Ninguém me vê. Por isso também não os vejo. Renego o mundo três vezes antes do galo cantar. Não pertenço a esta mesquinha sociedade, avara de sentimentos e seca de memórias. Por que ser tão pobre? Com nossa mente podemos escapar ao mais repugnante cárcere.  Podemos nos deixar viajar nas recordações, num passado que comanda o futuro e num presente que não nos pertence. O destino nos guia, mas foi tecido com a linha de nossa vida pretérita. Os desejos, que nos são negados pela prisão, podem ser vividos no nosso peito. Coração voa alto de modo a cruzar os muros invisíveis dessas masmorras. Aqui onde jaz meu corpo, nesse ambiente em que exala o odor pestilento de fezes e urina, não poderão nunca me encontrar.  Eu que apenas viajo para reviver um passado que me escapou quando estava distraído. Enquanto procuro no presente encontrar meu futuro. Vou colocar esse dilema na boca da Esfinge, obrigando a responder aqueles que se aproximam dos domínios inexpugnáveis de minha alma. Meu único desejo seria partir, ou será, ou é. Tempos verbais que se conjugam no passado, futuro e presente. Meu espírito estação, em que se equilibram as partidas e chegadas. Não duvidem de minhas palavras: a mentira não se encontra no discurso, tão somente nas coisas. Nesse vazio que não pode ser preenchido por sentimentos, sonhos, frases, silêncios ou momentos. Um dia ainda consigo me libertar de meus fantasmas internos. Meu espírito assombrado por um passado que me deixou profundas cicatrizes.  Tudo que aqui pode ser sonhado torna-se real nesse universo absurdo construído por desejos e medos.   O futuro está no presente? Ou o futuro se encontrava no passado?  Tenho pavor de descobrir respostas. Prefiro continuar voando, planando sobre os pântanos de desespero que não ouso desbravar. Nada pode me fazer parar. Ninguém pode alcançar-me nesse abrigo feito do material etéreo dos meus sonhos. Estou escondido dentro de mim.

Os homens querem me prender nas suas prisões abjetas feitas de muros e grades. Desconhecem que não me encontro onde me encontro. A visibilidade só me permite ver o que está bem próximo de mim. Não ouço a voz dos homens. Fico vendo caminharem ora em direções opostas ora para o mesmo ponto. Chegam a se chocarem. O que é preciso evitar é esse sistema que comanda o mundo, uma marionete nas mãos da elite, nas mãos dos poderosos que nunca sumiram e jamais abandonaram os tronos em que criaram raízes. O povo silencia submetido às agruras de uma vida que não escolheram, mas têm de, são obrigados a viver, nesse inferno que é a sociedade, que existe desde sempre, mesmo antes da revolta de Lúcifer. Peço a Deus que também não me subtraia as asas, que me deixe planar livre de todas as amarras que poderiam me prender, mas não o fazem. Na verdade nunca estive em outro lugar. Apenas minha imaginação pode evadir-se deste pútrido ambiente. Homens presos a si mesmos. Não vou me deixar enlouquecer. O louco é o homem livre de si ou encarcerado em si? Como saber se não me misturo a homogeneidade da substância que é a sociedade. Estarei sempre insolúvel, não serei jamais como os outros. Meu espírito cada vez mais largo, cada vez mais profundo, foge de mim, e visualiza imensos horizontes. Vou tentar ser num outro presente, mesmo que ainda não seja o meu. Sem pausas, sem lágrimas, sem dor, sem rancor. Por que guardar absurdos ressentimentos? Perdoo-me. Bato minhas asas de Ícaro, mas desprezo o sol. Tenho luz suficiente dentro de mim. E depois de tantas dúvidas o que mais devo questionar? Tenho de aprender a não fazer tantas perguntas. Não as farei mais. Sei que sigo procurando em mim um caminho que inexiste. Não conheço o Oasis que busco incansavelmente. Mas creio que deva existir. Peço a Deus que exista. Aqui em mim, uma fuga dos muros invisíveis que me cercam e dos homens que me agridem. Liberdade que tarda ao material e apenas se concretizou no espírito. O que me espera fora desse vale encravado em montanhas de esquecimento? Será que é apenas aquilo que vejo em minha alma? Será que sobreviverei ao exílio do corpo com espírito puro? Mas vejam aí mais perguntas, coisa estranha, desconheço-as, muito embora saiam a todo tempo de meus lábios. Vou deixar-me tão somente planar com os condores dos Andes. Voar alto sem destino, apenas viajar em mim. Sem limites, sem medos, sem pecados, sem valores. O mundo sem mundo é muito mais mundo. Fico procurando palavras que escasseiam em meu exíguo vocabulário. O que dizer desse céu risonho e límpido, onde a imagem do cruzeiro resplandece? Sinto terminar a peregrinação a que submeti meu espírito. Sempre fora do meu próprio alcance. Eu no obscuro cenário de minha vida. Voltando à realidade em que meus pés sustentam grilhões que me mantém preso nessa cadeia intransponível da vida humana. O pulso que me embala, que me engana, sempre vedando meus olhos para que não enxergue o imutável. A vida é rocha, mármore que reluz, mas sua beleza só engana. Na verdade todos os caminhos são fétidos, onde persevera a injustiça e a mais perversa realidade. Não poupo minha raiva ao falar, raiva de pensar, de saber quem sou, do que era no sonho perdido, no céu apenas restrito aos deuses. Quero ter acesso ao sonho que me subtraíram quando cobriram meu corpo de correntes. Sei que meu presente é passado e canso de aguardar um futuro que não chega. E não posso nem mais voar. A razão impede que voemos com asas imaginárias. Meu mundo de fantasias que não pode mais perseverar. Tudo sendo destruído pela sensatez que nada mais é que dinamite implodindo sonhos transformando-os em pó de estrelas. Sou aquele que se ignora e se cala, o que ignorando cala, e não podendo ser não se esforça mais. Abro os olhos no abjeto calabouço dos homens. Sou aquele que queria tão somente viver enquanto vivia e que não soube como. Espero que a vida me diga a solução destes dilemas. Muitas esperas me apaziguam o espírito. Com os sonhos esmigalhados, olhos cobertos de fatos e o peso de viver sem saber por que, vou calar meus pensamentos, sobre a sólida decisão de apenas sofrer.

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Uma opinião sobre “

  1. Seus textos me deixam com vontade de voar. =)
    Saudades de você Jojô!
    Beijos!

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