“Where the streets have no name” ou uma canção pela originalidade 

Giordana Medeiros

Aqui nessa prisão sem grades que é a existência, nesse mundo do qual não há escapatória, um desespero louco me assalta: vontade de tentar de novo. “Dessa vez vai ser diferente.” Tento ludibriar-me.  Mesmo sabendo que a vida sempre segue da mesma forma. Há algo que obriga a tudo acontecer do mesmo jeito. Deve ser sina. Ou há algo que não entendo, talvez haja um segredo que não me foi revelado… Sigo sempre nessa procura ingênua que me mortifica. Quero mostrar o valor de meus princípios a uma sociedade na qual estes estão em falta. Ética, respeito, valores que não pertencem mais ao vocabulário cada vez mais exíguo da humanidade.  Não compreendo a língua com que se comunicam. Uma massa de pessoas que se esbarra a todo o momento como se não vissem uns aos outros. Mas eis que me percebem aqui: um ponto divergente no uniforme oceano social, e todos se voltam contra mim. Como escapar a um ataque vindo de todas as direções? Eis-me então me afogando nas águas tortuosas da multidão. Eu que não faço parte dela. E sinto que jamais farei. Sou de uma autenticidade que me fere. Eu não sou membro dessa massificante modernidade. Não posso ser igual, ainda mais quando posso ser sinceramente diferente. Aqui não consigo fazer-me totalmente claro. Por que, como diria Veríssimo “as palavras são as sombras das coisas.” Nunca o que eu disser vai ser mais real do que aquilo que sinto. E sinto-me ferido e sem qualquer esperança. O que esperar, quando tudo ocorre de forma cíclica? Como as crises inevitáveis do capitalismo. Eu, o Sísifo condenado pela eternidade numa cidade onde as ruas não têm nome. “where the streets have no name” entoa o cantor no rádio. (Pode-se chamar um Ipod de rádio?) Logo me vejo contaminado pelo presente. Porque sempre fui um ser do passado, alguém que pega a história que viveu e transforma em poesia ou coisa assim. Mas ando tão bruto. Sem qualquer beleza. Não há mais pureza nos meus versos. Vou cantando tudo de forma seca. Por que melhorar uma paisagem desolada quando não há mais cores na sua palheta de tintas? Por que pintar uma realidade inevitavelmente cinza? É como cobrir de flores a grama ressequida do inverno. Esconder o feio, mas real, com o belo, mas fantasioso. Sei que caminhando nessa cidade enlouquecida vou me percebendo ainda mais humano, ainda mais frágil e suscetível a qualquer coisa. E procuro um bote salva-vidas para me salvar. Sempre o encontro nas páginas acolhedoras de um livro. Assim posso ouvir a canção que sibila a brisa, no silêncio de uma página escrita estou salvo. Vamos sorrir ao mundo que nos tortura. E constatar a miséria da alma do homem, que se esconde no meio da multidão para com ela ferir os inocentes. São minorias, eu sou a minoria das minorias, pois me compreendo como único. Conjunto unitário de milhares de sonhos. Meu sentimento do mundo que não faz parte deste mundo. Inserido numa realidade a qual não pertenço. Onde deveria estar? Não há lugares para mim? Haver-los-ia nessa cidade em que as esquinas inexistem, porque não as quiseram nomear? Tudo preso no rabisco do arquiteto. O urbanista que não imaginava que o mundo “evoluiria”? Para onde? Se estamos presos nos limites delimitados do quadrilátero que nos envolve? E eu aqui, no meio do coração do Brasil que pulsa solidão. Onde há Superquadras que não são “super quadras”… Tesourinhas que não têm fio e cegas não cortam nada. Coisas absurdas que ninguém mesmo compreende caso jamais tenha vivido nesse retângulo cujo centro é uma cruz. Como uma imensa lápide: “aqui jaz um povo que não se reconhecia como tal.” E mesmo sendo povo, discrimina aqueles que não se inserem na uniforme normalidade. Eu mesmo não sou normal. Há sempre algo que me destaca no meio dos demais. Não algo primoroso, pois não tenho qualidades excepcionais, mas o fato de não me adequar ao aceitável. Um romântico na modernidade. Alguém que não consegue sobreviver ao desespero humano. Desespero de ser único, entre muitos bilhões. E a melancolia de saber tudo isso, que ninguém sabe ou, pelo menos, não demonstra saber, me entorpece. “Mas é uma melancolia muito particular, composta por vários elementos simples, extraída de vários objetos.” Nas palavras do gênio Shakespeare.

Minha tristeza é feita de mágoas passadas que se somam às presentes. E isso tudo me acompanhará pelo futuro. Uma cicatriz que trago gravada na pele e pela qual podem me identificar. Como a vergonhosa tatuagem gravada na pele dos judeus que os distinguiam da raça ariana. Ninguém parece compreender que a raça do homem é o homem. As características físicas que nos discernem também nos identificam. Quão diferente é um negro de um branco se a carga genética que os diferem é extremamente diminuta? Quando apenas um por cento de genes que possuímos nos diferem dos chimpanzés? Somos todos únicos e o mundo moderno nos quer fazer uma sociedade uniforme. O individualismo do capitalismo fez-nos todos iguais. Uma multidão que é manipulada facilmente pelas promessas de uma nação soberana. Mas esse gigante tem pés de barro, e sua hegemonia está se desestruturando aos poucos. E a cidade que se divide em asas norte e sul, está no eixo destas transformações. O país de desenvolvimento tardio, mas não impossível, ainda consegue respirar em meio à crise que assola o mundo. As potências agonizam enquanto as segregadas nações de terceiro mundo (que não aceitam mais esta alcunha) estão se mostrando mais sólidas em suas economias. Mas por que falar do externo quando o interno agoniza? Eu aqui dentro de mim, querendo olhar para fora para fugir do que sou. Mas o que sou me acompanha. E é isso que não posso abandonar. Porque não posso desfazer-me do que reconheço como eu.  Minhas idiossincrasias que me acompanham nessa vida que Virgínia Woolf dizia não ser nada mais que um sonho. E acentuava acertadamente a escritora: “É o despertar que nos mata. Quem nos rouba o sonho, rouba-nos a vida.” E vou pontuando estas confissões de palavras etéreas: sonho, vida, melancolia, tristeza… Será que me faço compreender? Quero fazer-me leve… Mesmo que tudo isto pese mil toneladas sobre mim. Há quem se importe? Será que alguém lê realmente o que escrevo? Parece-me que falo para ninguém, do meio deste deserto completamente repleto de pessoas que se denomina Brasília. E minhas lágrimas mesmo abundantes não são suficientes para umidificar o ar seco desses meses quase insuportáveis de inverno. E ainda aguardo choverem fantasias sobre mim. Para assim, matar minha sede de vida. Estou sedento de ilusões, tendo em vista que a existência é absurdamente sólida. Ou somos, ou não somos. Será que não há espaço para um talvez? Por que não pode ser-nos dado o privilégio imenso da dúvida?  Há pontos cruciais em nossa história que podem decidir nosso futuro. Em cada um deles, cometi erros imperdoáveis. Acabei retardando meu futuro, vivo um eterno presente. E o presente é muito mesquinho. O passado se mostra uma saída que na verdade é uma fuga.  Ainda posso dizer que nessa noite assombrada de verdades, vou engolindo a mentira que me repito como a um café amargo, esperando que tudo termine nas derradeiras páginas de um livro. O Brasil que se esconde de si quer viver o “american way of life”. Brasília não faz por menos, se alimenta do que vem de fora, como se fosse necessário banhar-se da cultura dos mais ricos para fazer-se menos pobre. Eu novamente a viajar no problema geopolítico. Não tenho nada a ver com isso. Vou calçar meu all-star, vestir o meu jeans e sair por aí tomando minha coca-cola. Acreditando não ser como os demais, pois, posso escapar dessa massificação cultural. (Será?) Vou pensar ainda algum tempo sobre isso. Talvez estejamos todos presos pela cultura dominante. Temos de falar inglês como, na época do Império Romano, todos deveriam falar latim. Será que haverá sempre sobre o mundo a cultura opressora do mais rico? Por que não podemos ser autênticos? Será que pensar diferente é crime? Eu sei muito bem sobre isso. Por que sempre fui um no meio de muitos. Mas um com uma voz tão tênue que jamais se fez ouvir. Mesmo assim persisto, tentando escapar das prisões invisíveis do normal. Uma débil força original no meio de uma massa ensandecida de convencionais. Mas não sou tão radical assim. (Eu acho). Sou um transgressor mudo das regras. Sei que sou, tenho de saber. E no Ipod ainda escuto a mesma canção, em inglês.

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