Arquivo do mês: setembro 2011

“Deixo-te a minha saudade – a melhor parte de mim.”

Cecília Meireles

Arma de brinquedo, sentimentos em liquidação 

Giordana Medeiros

Lembro-me de coisas estranhas algumas vezes… Não são estranhas na verdade. São coisas que trago comigo. Coisas das quais não me recordava, contudo, com o auxílio de algum fato ou canção, são resgatadas do fundo do meu baú de esquecimento. Hoje, ouvindo uma canção no rádio, lembrei-me que, quando criança, pedi que minha mãe comprasse-me um revólver de brinquedo. Era uma arma de plástico amarelo que vinha num coldre, também de plástico, marrom. Foi uma sensação fantástica, quando recebi o presente que desejava, brinquei o dia inteiro com meu revólver. Era a polícia, o bandido, o xerife, bem como, o cowboy. Trazendo minha arma de plástico amarrada com um barbante na cintura, sentia-me imensamente feliz. E fiquei constrangida pelas lágrimas que me inundaram os olhos, numa saudade infinita de uma época que foi tão especial e da qual não me recordava, porque tinha soterrado sob grandes camadas de rancor e sofrimento. Queria voltar ao passado para poder empunhar meu brinquedo com a mesma ingenuidade e sentir-me feliz com o pouco que tinha, mas que para mim, naquele tempo era o suficiente. E agora? Quando o mundo desaba sobre mim? Vivendo terremotos, maremotos e todos os demais desastres naturais que teimam em acontecer tirando-me da órbita em que meu satélite trafegava? Esperava tanto, e, no fim, quase nada me restou. Perco o pouco que ainda tenho com emoções mesquinhas, acabo por desvencilhar-me da realidade a que outrora estava acostumada. Mas dela nada tinha na verdade, somente pó. A dor macerando a flor de nossa esperança. E se pudesse viver novamente aquela sensação de ter em minhas mãos aquele revólver de brinquedo… E vem-me a certeza que ela já passou e nunca mais retornará. Acho que existem sentimentos que só podem ser gozados uma vez. Nada pode durar muito tempo. Devem ter sido cultivados no nosso espírito como sentimentos perecíveis. Não são descartáveis, pois esta denominação dá a entender que são simplesmente consumíveis. São perecíveis porque, se não vividos no momento certo, aquele êxtase ou felicidade não poderão ser sentidos nunca mais. Agora o momento exige reflexão. Exige que tenha sobre mim um controle que não possuía sobre os oceanos de ressentimentos com que fui abastecendo-me, alimentando minhas dores e somatizando minhas amarguras. E para que? O que ganhei com isso? Apenas fui perdendo, tudo que tinha, o pouco que tinha foi-me subtraído. E me resta apenas uma rosa esquecida, fraca e ressequida, pois oceanos de dores não irrigam flores de felicidade. O jardineiro sou eu. Eu que não fui cuidadosa com meu jardim. Eu que esqueci tudo que fui para ser o que sou. E o que sou? Meu Deus, o que sou? Eu que amargo um exílio auto-imposto do mundo que conhecia, agora que me perco em mim e não me acho. Onde estou? Sei que não há mapas para nos encontrarmos em nossa alma. Sozinhos em nós, tão minúsculos e abandonados. Com todos esses perigos que nos circundam, haveria alguém em quem possamos confiar? Deveríamos andar armados com nossos revólveres amarelos de brinquedo? Pavor de morrer? Na verdade eu já morri centenas, milhares de vezes. E vou me reconstruindo. Um tanto de mim é que morre. Um sonho que foi se consumindo todo, crepitando na fogueira de minhas desilusões. Por que fujo de mim? Sei que me persigo e me fujo. Eu numa corrida em círculos atrás de meu próprio rabo. Isto, como os cães, mas os animais são puros. Os homens não. Somos desleais, somos avaros, somos ruins e amargos. Homens, nós somos o câncer do mundo! E nem mesmo a felicidade de ter um brinquedo que há tempos desejava pode salvar o nosso coração de amadurecer. O tempo corrói a nossa manta de ingenuidade. E sem que consigamos perceber, estamos embrenhados na floresta das emoções adultas. Não podemos ser apenas, é necessário ter e ter muito: dinheiro, amores, relacionamentos bens, contatos, roupas, sapatos, computadores, eletrônicos, o lixo em que nos fomos atolando nesse lamaçal que é a vida de consumo. Tudo é consumível: sentimentos em liquidação.

E agora o silêncio. O que esperar do mundo? Na verdade não deveríamos esperar nada de ninguém para não nos desapontarmos. Não posso estar otimista num mundo em que desde pequenos estamos perdidos. Mas sim, sinto saudade, “saudade eu tenho sempre”, diria Clarice. Tenho saudade do passado, quando o mundo era mais simples. Em que conseguia ler em mim as soluções dos dilemas em que hoje estou emaranhada. Não consigo me libertar desse labirinto de dúvidas em que fui me escondendo. (Primeiro usei-o como abrigo, depois, nele me perdi). E se estou tão protegida, nesse exílio, por que então lamento tanto a minha sorte? É que a solidão é devastadora, como as Tsunamis que nada poupam. E da minha singela flor de felicidade, tão pequena e murcha, pouco restou: tão somente a lembrança que ali havia um sentimento e a recordação que um dia, um dia, fui feliz. Contudo o mundo promete felicidade nas gôndolas dos supermercados, nas vitrines iluminadas das lojas, ali sobre os manequins, nas prateleiras, nos produtos chamativos, eis que o mundo liquida sentimentos. E não é que por alguns segundos conseguimos esquecer sofrimentos e dores que nos perturbam? Todavia é um momento muito curto, depois deságuam sobre nós com mais violência que outrora. Tentamos viver eternamente o que ficou tão somente no passado. Esses momentos não se repetirão. Repito. Estejam certos. Não podemos esperar que o passado volte. Entretanto podemos fazer com que o futuro mude. Recordar o passado: minha arma amarela de brinquedo, que me trouxe tanta alegria. E com essa singela memória regar as sementes de felicidade que ainda trazemos conosco. E, no futuro, impedir que nosso jardim morra novamente. Cultivar os bons sentimentos, arrancar as ervas daninhas dos ressentimentos e desavenças. O meu coração até sorri de novo. E chego a pensar que as manhãs são boas, quando acordamos dentro delas e espiamos por dentro o que somos e nosso jardim onde só brotam bons sentimentos. Daqui para frente a vida me será imediata. Vou viver o hoje, por que viver é inadiável. Eu sou o oposto do que deveria ser. Não serei assim o avesso, ou melhor, um ser avesso a tudo. Serei mais tolerante. Tenho de aprender a ser, até comigo mesma. Sou muito exigente, quero tudo de mim. Mesmo que não possa conceder-me aquilo que necessito. Eu comigo, uma luta eterna. Sei que este texto devia se limitar a falar da minha arma de brinquedo, porém não posso fazer sumir de mim o que sinto. Meu jardim um tanto rústico, onde o húmus de que brota a vida é composto da matéria orgânica dos sonhos. Começo a aprender o sentido das coisas. Um mundo de revelações me bate a porta. A vida é o que é. Não podemos exigir que seja de outra forma. A vida não é extraordinária, como tentam fazer crer. Viver é dolorido, sofrido, penoso, mas há os momentos de luzidia felicidade. Serão poucos, contudo, em razão destes, tudo valerá à pena. “The only exciting life is the imaginary one.Nas palavras de Virgínia Woolf. Completo a citação com um conselho: vivam somente a vida real, que há o perigo de se perder nas ilusões e fantasias. É muito tentador viver só, mas só viver é perigoso. Corremos o risco de estar com o coração cheio de lágrimas e os lábios, de risos. Mentido para o mundo que nos vê e para nós que sentimos. No fim, veremos as horas passarem lerdas e o tempo profundo, cheio de desalentos e desespero persistir. Não haverá armas de brinquedo que nos alegre no mundo adulto. Nesse mundo vencido pelos anos, de onde todos nós sairemos derrotados. Seremos vencidos pela ceifadora implacável que nos levará para as margens do Letes, o rio que devemos cruzar para o mundo inferior. Nessa travessia, de toda nossa vida nos esqueceremos. Quando esse momento chegar, creio que um único pedido farei ao barqueiro: que me deixe lembrar do dia iluminado de uma menina e seu revólver de brinquedo, quando fui muito, muito feliz. Uma ninharia, uma coisa pequena que julgariam sem qualquer importância, mas que creio foi o dia mais importante de minha trajetória. E por muito tempo o esqueci e não quero mais que esse sentimento mágico seja-me subtraído. A felicidade é uma semente muito pequena, que deve ser regada constantemente com sorrisos, e, ao contrário que pensam, não é cara, na verdade ela tem o valor dos nossos sonhos. E sonhar é de graça!

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Mais leve que o ar

Giordana Medeiros

Mais leve que o ar, mais leve que a vida, mais leve que a substância mais leve existente.  Posso até voar e quebrar paradigmas físicos. O que é a gravidade para quem não se contenta em manter os dois pés no chão? Cruzando cordilheiras nevadas, secos desertos e vales ensolarados. Nesse mundo não há grades e paredes que me cerceiem. Voando com os pássaros, cruzando os céus com minhas asas feitas de sonhos. Seguindo pela imensidão azul e, sob meu corpo, abismos infinitos. Buracos negros que não podem sugar a luz de que sou composto. Sou mais denso que eles, muito mais misterioso. Perguntam-me por que e deixo a dúvida flutuar sem respostas. Para que conceituar algo que não pode e não deve ser conceituado? Agora que minha mente soltou-se dos pesados grilhões, nada mais pode aprisioná-la. Somos livres, leves e loucos. Eu, minha mente e minha imaginação. Nós que somos um, santíssima trindade livre de qualquer pecado. Sou tão puro, mais límpido que as nascentes que brotam neste Planalto. Agora viajo sobre a cidade que pulsa modernidade. Veias de asfalto que me levam a todas as partes. Continuo minha insólita viagem, circundo monumentos, a bandeira tremulante e, sob a insígnia da ordem e do progresso, meu corpo se cobre de verde e amarelo. Sou desta terra de palmeiras e sabiás. País ensolarado, eternamente deitado em berço esplêndido. Gigante adormecido que não recorda o momento de despertar. Vejo sob mim um povo que desconhece a força que tem. Gente que peca por uma apatia que nunca lhe foi comum. Mas estes dilemas preocupam-me e pesam sobre mim. Não vou cair nesse mundo, no solo fecundo disputado pelos homens. Minha mente se evade dessa realidade. Só nesse céu de brigadeiro doce de provar, açucarado de solidão, posso estar. Sentindo o inusitado sabor da liberdade, prossigo na minha viagem, em volta do mundo que me ignora. Ninguém me vê. Por isso também não os vejo. Renego o mundo três vezes antes do galo cantar. Não pertenço a esta mesquinha sociedade, avara de sentimentos e seca de memórias. Por que ser tão pobre? Com nossa mente podemos escapar ao mais repugnante cárcere.  Podemos nos deixar viajar nas recordações, num passado que comanda o futuro e num presente que não nos pertence. O destino nos guia, mas foi tecido com a linha de nossa vida pretérita. Os desejos, que nos são negados pela prisão, podem ser vividos no nosso peito. Coração voa alto de modo a cruzar os muros invisíveis dessas masmorras. Aqui onde jaz meu corpo, nesse ambiente em que exala o odor pestilento de fezes e urina, não poderão nunca me encontrar.  Eu que apenas viajo para reviver um passado que me escapou quando estava distraído. Enquanto procuro no presente encontrar meu futuro. Vou colocar esse dilema na boca da Esfinge, obrigando a responder aqueles que se aproximam dos domínios inexpugnáveis de minha alma. Meu único desejo seria partir, ou será, ou é. Tempos verbais que se conjugam no passado, futuro e presente. Meu espírito estação, em que se equilibram as partidas e chegadas. Não duvidem de minhas palavras: a mentira não se encontra no discurso, tão somente nas coisas. Nesse vazio que não pode ser preenchido por sentimentos, sonhos, frases, silêncios ou momentos. Um dia ainda consigo me libertar de meus fantasmas internos. Meu espírito assombrado por um passado que me deixou profundas cicatrizes.  Tudo que aqui pode ser sonhado torna-se real nesse universo absurdo construído por desejos e medos.   O futuro está no presente? Ou o futuro se encontrava no passado?  Tenho pavor de descobrir respostas. Prefiro continuar voando, planando sobre os pântanos de desespero que não ouso desbravar. Nada pode me fazer parar. Ninguém pode alcançar-me nesse abrigo feito do material etéreo dos meus sonhos. Estou escondido dentro de mim.

Os homens querem me prender nas suas prisões abjetas feitas de muros e grades. Desconhecem que não me encontro onde me encontro. A visibilidade só me permite ver o que está bem próximo de mim. Não ouço a voz dos homens. Fico vendo caminharem ora em direções opostas ora para o mesmo ponto. Chegam a se chocarem. O que é preciso evitar é esse sistema que comanda o mundo, uma marionete nas mãos da elite, nas mãos dos poderosos que nunca sumiram e jamais abandonaram os tronos em que criaram raízes. O povo silencia submetido às agruras de uma vida que não escolheram, mas têm de, são obrigados a viver, nesse inferno que é a sociedade, que existe desde sempre, mesmo antes da revolta de Lúcifer. Peço a Deus que também não me subtraia as asas, que me deixe planar livre de todas as amarras que poderiam me prender, mas não o fazem. Na verdade nunca estive em outro lugar. Apenas minha imaginação pode evadir-se deste pútrido ambiente. Homens presos a si mesmos. Não vou me deixar enlouquecer. O louco é o homem livre de si ou encarcerado em si? Como saber se não me misturo a homogeneidade da substância que é a sociedade. Estarei sempre insolúvel, não serei jamais como os outros. Meu espírito cada vez mais largo, cada vez mais profundo, foge de mim, e visualiza imensos horizontes. Vou tentar ser num outro presente, mesmo que ainda não seja o meu. Sem pausas, sem lágrimas, sem dor, sem rancor. Por que guardar absurdos ressentimentos? Perdoo-me. Bato minhas asas de Ícaro, mas desprezo o sol. Tenho luz suficiente dentro de mim. E depois de tantas dúvidas o que mais devo questionar? Tenho de aprender a não fazer tantas perguntas. Não as farei mais. Sei que sigo procurando em mim um caminho que inexiste. Não conheço o Oasis que busco incansavelmente. Mas creio que deva existir. Peço a Deus que exista. Aqui em mim, uma fuga dos muros invisíveis que me cercam e dos homens que me agridem. Liberdade que tarda ao material e apenas se concretizou no espírito. O que me espera fora desse vale encravado em montanhas de esquecimento? Será que é apenas aquilo que vejo em minha alma? Será que sobreviverei ao exílio do corpo com espírito puro? Mas vejam aí mais perguntas, coisa estranha, desconheço-as, muito embora saiam a todo tempo de meus lábios. Vou deixar-me tão somente planar com os condores dos Andes. Voar alto sem destino, apenas viajar em mim. Sem limites, sem medos, sem pecados, sem valores. O mundo sem mundo é muito mais mundo. Fico procurando palavras que escasseiam em meu exíguo vocabulário. O que dizer desse céu risonho e límpido, onde a imagem do cruzeiro resplandece? Sinto terminar a peregrinação a que submeti meu espírito. Sempre fora do meu próprio alcance. Eu no obscuro cenário de minha vida. Voltando à realidade em que meus pés sustentam grilhões que me mantém preso nessa cadeia intransponível da vida humana. O pulso que me embala, que me engana, sempre vedando meus olhos para que não enxergue o imutável. A vida é rocha, mármore que reluz, mas sua beleza só engana. Na verdade todos os caminhos são fétidos, onde persevera a injustiça e a mais perversa realidade. Não poupo minha raiva ao falar, raiva de pensar, de saber quem sou, do que era no sonho perdido, no céu apenas restrito aos deuses. Quero ter acesso ao sonho que me subtraíram quando cobriram meu corpo de correntes. Sei que meu presente é passado e canso de aguardar um futuro que não chega. E não posso nem mais voar. A razão impede que voemos com asas imaginárias. Meu mundo de fantasias que não pode mais perseverar. Tudo sendo destruído pela sensatez que nada mais é que dinamite implodindo sonhos transformando-os em pó de estrelas. Sou aquele que se ignora e se cala, o que ignorando cala, e não podendo ser não se esforça mais. Abro os olhos no abjeto calabouço dos homens. Sou aquele que queria tão somente viver enquanto vivia e que não soube como. Espero que a vida me diga a solução destes dilemas. Muitas esperas me apaziguam o espírito. Com os sonhos esmigalhados, olhos cobertos de fatos e o peso de viver sem saber por que, vou calar meus pensamentos, sobre a sólida decisão de apenas sofrer.

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“Where the streets have no name” ou uma canção pela originalidade 

Giordana Medeiros

Aqui nessa prisão sem grades que é a existência, nesse mundo do qual não há escapatória, um desespero louco me assalta: vontade de tentar de novo. “Dessa vez vai ser diferente.” Tento ludibriar-me.  Mesmo sabendo que a vida sempre segue da mesma forma. Há algo que obriga a tudo acontecer do mesmo jeito. Deve ser sina. Ou há algo que não entendo, talvez haja um segredo que não me foi revelado… Sigo sempre nessa procura ingênua que me mortifica. Quero mostrar o valor de meus princípios a uma sociedade na qual estes estão em falta. Ética, respeito, valores que não pertencem mais ao vocabulário cada vez mais exíguo da humanidade.  Não compreendo a língua com que se comunicam. Uma massa de pessoas que se esbarra a todo o momento como se não vissem uns aos outros. Mas eis que me percebem aqui: um ponto divergente no uniforme oceano social, e todos se voltam contra mim. Como escapar a um ataque vindo de todas as direções? Eis-me então me afogando nas águas tortuosas da multidão. Eu que não faço parte dela. E sinto que jamais farei. Sou de uma autenticidade que me fere. Eu não sou membro dessa massificante modernidade. Não posso ser igual, ainda mais quando posso ser sinceramente diferente. Aqui não consigo fazer-me totalmente claro. Por que, como diria Veríssimo “as palavras são as sombras das coisas.” Nunca o que eu disser vai ser mais real do que aquilo que sinto. E sinto-me ferido e sem qualquer esperança. O que esperar, quando tudo ocorre de forma cíclica? Como as crises inevitáveis do capitalismo. Eu, o Sísifo condenado pela eternidade numa cidade onde as ruas não têm nome. “where the streets have no name” entoa o cantor no rádio. (Pode-se chamar um Ipod de rádio?) Logo me vejo contaminado pelo presente. Porque sempre fui um ser do passado, alguém que pega a história que viveu e transforma em poesia ou coisa assim. Mas ando tão bruto. Sem qualquer beleza. Não há mais pureza nos meus versos. Vou cantando tudo de forma seca. Por que melhorar uma paisagem desolada quando não há mais cores na sua palheta de tintas? Por que pintar uma realidade inevitavelmente cinza? É como cobrir de flores a grama ressequida do inverno. Esconder o feio, mas real, com o belo, mas fantasioso. Sei que caminhando nessa cidade enlouquecida vou me percebendo ainda mais humano, ainda mais frágil e suscetível a qualquer coisa. E procuro um bote salva-vidas para me salvar. Sempre o encontro nas páginas acolhedoras de um livro. Assim posso ouvir a canção que sibila a brisa, no silêncio de uma página escrita estou salvo. Vamos sorrir ao mundo que nos tortura. E constatar a miséria da alma do homem, que se esconde no meio da multidão para com ela ferir os inocentes. São minorias, eu sou a minoria das minorias, pois me compreendo como único. Conjunto unitário de milhares de sonhos. Meu sentimento do mundo que não faz parte deste mundo. Inserido numa realidade a qual não pertenço. Onde deveria estar? Não há lugares para mim? Haver-los-ia nessa cidade em que as esquinas inexistem, porque não as quiseram nomear? Tudo preso no rabisco do arquiteto. O urbanista que não imaginava que o mundo “evoluiria”? Para onde? Se estamos presos nos limites delimitados do quadrilátero que nos envolve? E eu aqui, no meio do coração do Brasil que pulsa solidão. Onde há Superquadras que não são “super quadras”… Tesourinhas que não têm fio e cegas não cortam nada. Coisas absurdas que ninguém mesmo compreende caso jamais tenha vivido nesse retângulo cujo centro é uma cruz. Como uma imensa lápide: “aqui jaz um povo que não se reconhecia como tal.” E mesmo sendo povo, discrimina aqueles que não se inserem na uniforme normalidade. Eu mesmo não sou normal. Há sempre algo que me destaca no meio dos demais. Não algo primoroso, pois não tenho qualidades excepcionais, mas o fato de não me adequar ao aceitável. Um romântico na modernidade. Alguém que não consegue sobreviver ao desespero humano. Desespero de ser único, entre muitos bilhões. E a melancolia de saber tudo isso, que ninguém sabe ou, pelo menos, não demonstra saber, me entorpece. “Mas é uma melancolia muito particular, composta por vários elementos simples, extraída de vários objetos.” Nas palavras do gênio Shakespeare.

Minha tristeza é feita de mágoas passadas que se somam às presentes. E isso tudo me acompanhará pelo futuro. Uma cicatriz que trago gravada na pele e pela qual podem me identificar. Como a vergonhosa tatuagem gravada na pele dos judeus que os distinguiam da raça ariana. Ninguém parece compreender que a raça do homem é o homem. As características físicas que nos discernem também nos identificam. Quão diferente é um negro de um branco se a carga genética que os diferem é extremamente diminuta? Quando apenas um por cento de genes que possuímos nos diferem dos chimpanzés? Somos todos únicos e o mundo moderno nos quer fazer uma sociedade uniforme. O individualismo do capitalismo fez-nos todos iguais. Uma multidão que é manipulada facilmente pelas promessas de uma nação soberana. Mas esse gigante tem pés de barro, e sua hegemonia está se desestruturando aos poucos. E a cidade que se divide em asas norte e sul, está no eixo destas transformações. O país de desenvolvimento tardio, mas não impossível, ainda consegue respirar em meio à crise que assola o mundo. As potências agonizam enquanto as segregadas nações de terceiro mundo (que não aceitam mais esta alcunha) estão se mostrando mais sólidas em suas economias. Mas por que falar do externo quando o interno agoniza? Eu aqui dentro de mim, querendo olhar para fora para fugir do que sou. Mas o que sou me acompanha. E é isso que não posso abandonar. Porque não posso desfazer-me do que reconheço como eu.  Minhas idiossincrasias que me acompanham nessa vida que Virgínia Woolf dizia não ser nada mais que um sonho. E acentuava acertadamente a escritora: “É o despertar que nos mata. Quem nos rouba o sonho, rouba-nos a vida.” E vou pontuando estas confissões de palavras etéreas: sonho, vida, melancolia, tristeza… Será que me faço compreender? Quero fazer-me leve… Mesmo que tudo isto pese mil toneladas sobre mim. Há quem se importe? Será que alguém lê realmente o que escrevo? Parece-me que falo para ninguém, do meio deste deserto completamente repleto de pessoas que se denomina Brasília. E minhas lágrimas mesmo abundantes não são suficientes para umidificar o ar seco desses meses quase insuportáveis de inverno. E ainda aguardo choverem fantasias sobre mim. Para assim, matar minha sede de vida. Estou sedento de ilusões, tendo em vista que a existência é absurdamente sólida. Ou somos, ou não somos. Será que não há espaço para um talvez? Por que não pode ser-nos dado o privilégio imenso da dúvida?  Há pontos cruciais em nossa história que podem decidir nosso futuro. Em cada um deles, cometi erros imperdoáveis. Acabei retardando meu futuro, vivo um eterno presente. E o presente é muito mesquinho. O passado se mostra uma saída que na verdade é uma fuga.  Ainda posso dizer que nessa noite assombrada de verdades, vou engolindo a mentira que me repito como a um café amargo, esperando que tudo termine nas derradeiras páginas de um livro. O Brasil que se esconde de si quer viver o “american way of life”. Brasília não faz por menos, se alimenta do que vem de fora, como se fosse necessário banhar-se da cultura dos mais ricos para fazer-se menos pobre. Eu novamente a viajar no problema geopolítico. Não tenho nada a ver com isso. Vou calçar meu all-star, vestir o meu jeans e sair por aí tomando minha coca-cola. Acreditando não ser como os demais, pois, posso escapar dessa massificação cultural. (Será?) Vou pensar ainda algum tempo sobre isso. Talvez estejamos todos presos pela cultura dominante. Temos de falar inglês como, na época do Império Romano, todos deveriam falar latim. Será que haverá sempre sobre o mundo a cultura opressora do mais rico? Por que não podemos ser autênticos? Será que pensar diferente é crime? Eu sei muito bem sobre isso. Por que sempre fui um no meio de muitos. Mas um com uma voz tão tênue que jamais se fez ouvir. Mesmo assim persisto, tentando escapar das prisões invisíveis do normal. Uma débil força original no meio de uma massa ensandecida de convencionais. Mas não sou tão radical assim. (Eu acho). Sou um transgressor mudo das regras. Sei que sou, tenho de saber. E no Ipod ainda escuto a mesma canção, em inglês.

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