“Decifra-me ou devoro-te”

Giordana Medeiros

Sigo ao encontro de destinos incertos. Com cautela, enfrento meus caminhos. Está tudo escuro. No breu da luminosidade do dia, não consigo me encontrar. E há tantas vias, por onde devo ir? Onde estou? Perdida nessas curvas tortuosas, nem sei onde me encontro, porque não me encontro também. Quem sou eu? Se a imagem que me reflete é o sinônimo da covardia?  Eu com medo de mim, eu com medo de todos. Prefiro continuar sozinha… Mesmo que haja a possibilidade de alguma companhia. Por que sou tão difícil? Se é tão fácil compreender aos outros? E se o se é apenas uma possibilidade extremamente remota, porque ainda se preocupar com estas hipóteses? Perco-me também em divagações, tentando recuperar o tempo perdido, nos volumes extensos da obra de Proust. O tempo que gastamos não pode ser jamais novamente amealhado. É como tentar evitar que as ondas resvalem na areia… Podem-se construir barreiras, contudo, nem isto impedirá o mar de seguir o ritmo das marés. O mundo inteiro submetido ao calendário lunar. Estranho saber que a gravidade é que determina a maioria das ações na Terra… Colheitas,  pesca, nascimentos, tudo ao sabor das fases da lua. A distância ou a proximidade deste astro é que nos controla. Estava falando do tempo perdido, dos minutos que esqueci dentro da caixinha de música. E sempre que a abro posso ouvi-los, a bailarina gira e gira, a música que ouço tem uma melancolia que me oprime. A idéia que possuo de felicidade não cabe no armário, nem mesmo no meu quarto. Felicidade tem de ser excessiva, se não for assim, logo é esquecida. As decepções sempre acontecem num volume muito maior, como a cheia dos rios, correntezas de mágoas puxam-me para o fundo. Nado desesperadamente para escapar. E quando, com os braços cansados de lutar, desistimos de nós mesmos? Deixamo-nos levar, para onde?  Não se sabe… Para algum lugar, que não é possível escapar da força das águas, das decepções que nos afogam. Mas podemos nos blindar para receber o choque com menos intensidade, já me disseram ser possível. Entretanto, confesso não saber como fazê-lo. Sempre estou a afundar nos domínios das desilusões. Sei que não podemos esperar dos outros, o que desejamos, principalmente quando se foge à presença destes. Porém, como evitarmos de fazê-lo? Eu não sei muito sobre relacionamentos sociais. Nem sei muito sobre mim. O que sei, somente um pouco, é que queria ser, ao menos, feliz. O dia nasce, alvorecer, a tarde chega; a noite logo a acompanha, enfim, crepúsculo. E meu tempo, que era exíguo, vai se acabando. Segundos que se foram e não voltam. Minutos que cresceram em horas. Horas que se tornaram dias, progressivamente o tempo chegou para o que sou. Estamos no ano em que me perco de mim? Ou será que isso foi no ano passado? Estou tentando encontrar respostas no meu espírito, não se preocupem, todas essas questões se destinam tão somente ao vazio de minha alma. Guimarães Rosa dizia que quando nada acontece existe um milagre que não estamos vendo. Preciso ver a obra-prima de Deus. Tenho de saber o que importa na vida. É uma necessidade que tenho saber a maravilha do mundo. Será que está nestes beija-flores que pulam felizes de flor em flor? Ou na percussão insistente que me bate no peito? Qual o segredo do tempo que foge de mim?  Será que é somente consumi-lo sem percebermos? Mas se quando nos dermos conta, vinte, trinta, quarenta ou cinqüenta anos houverem se passado? Se pudesse voltar recolhendo os restos das horas que se perderam de mim… As migalhas que sobraram ao apetite voraz do tempo. Este carrasco imparcial de quem ninguém escapa. Não é possível corrompê-lo com qualquer riqueza, bem como não se pode enfeitiçá-lo com beleza, nem, mesmo, lográ-lo com esperteza. Não é por menos que Chronos deu origem a todos os demais deuses pagãos. É o tempo, essa coisa fictícia que surgiu de uma convenção matemática, o fator mais importante ao mundo.  Não devemos nos dar o luxo de desperdiçar um mísero minuto sequer. Eu ainda estou aqui pensando no que era, quando tinha o tempo ao meu favor. Hoje o tenho como algoz. Persegue-me no vagar das ondas e também no silêncio luminoso das estrelas.

Fiquei tanto tempo perdida, tentando encontrar respostas para o enigma das horas, que esqueci os meus próprios dilemas (não que meu confronto com Chronos não seja uma das minhas mais terríveis questões, mas devo falar sobre outras coisas). Talvez o fato de estar confusa, (pois há tantos caminhos a seguir, que não consigo discernir aquele em que devo navegar) seja o problema mais urgente. Surfando nesses mares de bites invisíveis, vou tentando encontrar mapas que me guiem, mas não sei onde quero chegar. E se quero, porventura, chegar. O que farei caso consiga alcançar meus objetivos? Mas nem sei se quero respostas… “Em algum lugar”, diria Julio Cortázar, “deve haver uma lixeira onde estão amontoadas as explicações. Uma só coisa inquieta neste justo panorama: que possa ocorrer o dia em que alguém consiga explicar também a lixeira.” Por isso quero permanecer na dúvida. É até bom não saber. A ignorância é uma dádiva que nos poupa de inúmeras preocupações. É tudo tão irrelevante quando não sabemos sua real importância… Não sobram memórias doloridas, porque nem sabemos o quanto doeu. O coração não vê seus ferimentos. A ignorância é uma venda que nos poupa de vermos nosso próprio sofrimento. Provamos a maçã da sabedoria quando, com nossa própria inteligência, produzimos a primeira ferramenta com pedra lascada. Após, seguiu-se toda evolução tecnológica humana. Vivo consumida por uma doença eterna da qual espero um dia melhorar. Talvez, assim, seja possível abafar esta dor que lateja no peito, provocada por memórias antigas que o tempo já corroeu. Da mesma forma, espero encontrar pessoas sinceras, mas sei que o que desejo é tão somente uma quimera. Eu sou apenas um pequeno universo perdido no mundo. O vazio me preenche, o oco me anestesia. O vácuo recheia o meu interior. Vejo o escuro nascer do dia, sem perspectiva alguma de encontrar o mapa com o qual encontre a saída desse jogo insano que é existir. (Há alguma saída?) A luz que brilha nessa madrugada estranha não me ilumina. Sem idéias para descrever o torpor que me assalta, conto histórias de um jeito meio amargurado de falar, sem saber sobre o que se fala. Tudo isso toma o meu ser esvaziando-o de emoções. Não sei se um dia fui feliz, como não sei se amei verdadeiramente. Sou um tanto insensível. Não sei se posso amar. Não sei se estou triste. Minha melancolia é tão habitual que é impossível saber o que realmente sinto. E nessa confusão de definições, vou me sujando na lama da alma humana. Impregnando uma pura existência da podridão dos valores terrenos. E quando procurei me encontrar não me encontrei em mapas astrais, astrológicos, numéricos, rodoviários, ferroviários, mundi ou qualquer espécie de mapa que indique o lugar em que poderia estar. Porque não estou onde estou. O que está aqui não sou eu. É um protótipo do que seria caso fosse eu realmente. Mas o que sou, não está aqui. Está na confusão de minha mente. No mundo que erigi quando não havia ninguém olhando. Por isso não me encontro, não há mapas que possam prever minha existência no vazio pleno de imagens de minha imaginação. Fantasias que somente a mim pertencem. Irradiando luz na escuridão do dia. Quando o sol ilumina os corpos, todavia escurece os espíritos. É possível haver esperança?(Não me respondam ainda…) Na ilusão sou mais humana do que quando sou matéria. O etéreo faz-me muito melhor. Dentro de mim há milhares de mensagens engarrafadas. Não são mensagens encorajadoras, mas tão somente duras leituras. Nem sempre proveitosas, às vezes, o que se lê, serve apenas a mim. Vou abrindo as garrafas e lendo as mensagens, muitas vezes, escrevo aqui, nesse espaço infinito da rede mundial de computadores, o que li. (Escrevo com vitalidade? Desenho alguma alegria?) Outras, guardo como um segredo (correndo em busca de mim?). Somente eu o sei. Não vou revelar a ninguém esse mistério que somente eu consigo solucionar. No meio do coração, uma ferida. Uma charada cuja resposta ninguém jamais ousou dizer. Uma pergunta muda, uma interrogação que uso como máscara. Veem em mim a feroz Esfinge. E sempre que ousam cruzar meus domínios repito: “decifra-me ou devoro-te”.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: