“Fear no more, says the heart.”

Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway

O mundo dos sonhos, o corvo e a realidade

Giordana Medeiros

E agora? O que faço? Agora que acabou esse espetáculo, que não posso mais interpretar meu papel, que a fantasia virou realidade, o que devo fazer? Se não estou mais dentro da zona de segurança que criei para mim, no perigo imediato de estar são, onde estarei seguro? A minha história não ocorreu, foi tudo ilusão e só. Não posso reconhecer-me no espelho: não era esta imagem que me atribuía! O pior é que ainda tento me esconder sob as mentiras que cultivei na minha mente. E delirando nem consigo perceber que, o que finjo ser passado, na verdade, está tão somente no futuro. Procurando botes salva-vida, afogando-me na confusão de minha mente, tento evitar perder-me de mim. O que sou, o que era, o que serei? Confundem-me os tempos verbais: pretérito preterido, presente pressentido, futuro, irremediável? Conto meus passos até em casa, falta pouco, falta pouco… Mas onde me encontro, não me encontro, estou sem norte, navegando pelas correntes, em que tudo tende a ser extremamente ruim. E desconfio que nesse dilúvio de verdades não haja mais lugar algum para minha fantasia. Poder fingir que não existo quando estou aqui. Não sou eu, não sou eu… Quem sou eu? Responda-me nos sonhos que só em sonho é possível me encontrar. Não nesse mundo que é palpável, onde não se pode ser etéreo. No meu universo interno, que a realidade condena, com um sopro aboliu-se o tique-taque dos relógios. Aqui, onde tenho carne e sangro, o tempo a tudo devora. As pessoas perseguiam-me e foi no abrigo de minha mente em que me escondi. Onde ninguém até agora foi capaz de encontrar-me. Meu mais secreto esconderijo, como aqueles que procurávamos na infância. E foi nesse lugar, longe do mundo, que, ironicamente está inserido dentro dele, em que me encontrei quando não me procurava. Tão longe e ainda assim tão perto. Fui erigindo a vida que necessitava, porque o desejo era tão urgente quanto uma necessidade. E, imerso em divagações acabei por revelar meu lugar secreto. As pessoas que me oprimiam puderam ver o que de todos escondia. Não houve quem compreendesse e, tomados de terror, devastaram a terra que era meu lar. Fui lançado violentamente no real. Com os passos trôpegos de quem não sabia como locomover-se, fui aprendendo a ser quando ser é existir, porque o que era não existia. Pode haver vida na imensidão infinita de meu espírito, mesmo que seja inconcebível fisicamente. Não quero saber do que é possível, pois a plausibilidade é a amarra da existência. Eu sou uma página muito escrita, reescrita, rasurada e amarrotada que não tem qualquer serventia. Só eu encontro lógica nos meus borrões. Garranchos que vão traduzindo o que sou. Mas ninguém compreende, ninguém entende, ninguém consegue ver o que vejo. Meus olhos não se adaptam a tecnologia, não enxergo o mundo sob o ângulo que todos vêem, mas não vêem. Estou isolado na minha incapacidade de ser apenas humano. O que sinto é parecido com um sonho, como dormir, mas quando todos estão acordados. E vou nesse presente/passado/futuro que se fundem no meu espírito, navegando pelas ondas sobre a concha que transportava a divindade fruto da espuma do mar. E assim nasço, nesse mundo físico cheio de normas à quais não me adapto, e acho isso, contrariamente ao considerado normal, motivo de pêsames. As pessoas roubaram-me a vida, pois tomaram de mim os sonhos que nutria, e sei que a vida só pode ser vivida no sonho. Viver o real é limitar-se. Há tanto espaço no espaço infinito de nossas mentes. E se nesse universo infinito em que nos sentimos minúsculos, quando nos damos conta do que somos compostos, sentimo-nos imensos. Nossa mente comporta tanto sonho. Minhas revelações são obscuras, vou fechando-me à sociedade, tenho de fugir para mim. Em mim, só em mim, é possível viver. Pois o exterior é agressivo. O mundo me mata a cada segundo. Ainda bem que existem outros dias, outros sonhos, risos e outras coisas. Mesmo que tão somente no meu oásis de fantasias que se encontra no meio desse deserto de realidade. O infinito em mim que não se acaba. O infinito que é nunca ou sempre, ou quase nunca, ou, ainda, quase sempre. Sentindo sem poder sentir, sofrendo sem poder sofrer, abro meu coração, sem saber por que.

Ver a vida sem ilusão faz dela uma coisa horrível. Intragável. É um mau hábito escrever. Falseia a vida. Num minuto achamos que estamos a sofrer intensamente, quando não passa de fingimento. Na verdade nem sou triste assim. Mesmo sufocado pelo real, perdendo as lembranças que criei para mim. Coisas que acreditava com todo meu ser. O meu ser imensidão, não esse ridículo corpo de que o mundo se ri. Não sou tão ingênuo quanto pensam, posso ser perigoso, trago em minha manga um luminoso punhal que não hesitarei em usar caso e se for preciso. A vida parece vazia. Eis que uma mosca passa zumbindo por mim. Não criei moscas no meu paraíso interno. Não existem excrementos ou carne podre onde possam se proliferar. A realidade não esconde seus opróbrios. Não sei por que acabei por expurgar do meu mundo o que o macularia. Não há sequer nódoa que manche a superfície alva desse meu eu profundo. Histórias que me perseguem até o quarto, me acompanham no trabalho, sempre comigo, mesmo que ninguém as vejam. Envolto nos lençóis de pensamentos, num mundo frio, baço, como se estivesse com neblina perpétua, verdades mordazes me alcançam. Como curar a loucura que se apossa de mim? Quando por vontade deliberada quero estar sempre nessa cômoda existência? Um mundo de faz de conta que não se pode ignorar. Escondido atrás das cortinas, o inimigo da vida cotidiana. Não posso viver aqui. Não posso viver assim: sem poder me socorrer nas fantasias que trago comigo. Nessa meia noite agreste em que recebo a visita (inesperada?) da morte, ela se apresenta como a única saída…  E agora? Que não posso fugir de mim, que não posso escapar do mundo, que não acho qualquer abrigo nessa realidade hostil, o que farei? Uma visita tardia que pede entrada em meus umbrais. Então, o que resta? Devo abrir a janela para que possa entrar? É possível escapar da derradeira cura que se me apresenta para a vida? Devo dizer a este senhor, ou senhora, que deveria decerto me desculpar, que eu ia até adormecendo, quando ela vinha batendo, tão levemente em minha janela. Dizendo, tentadora, que a acompanhasse até nunca mais. Nunca mais é uma sentença perpétua demais para mim. As trevas das dúvidas me assolando, perdido em meio a possibilidades absurdas. Tais sonhos que fui sonhando aos quais ninguém nunca sonhou iguais. Um corvo que me fura os olhos para que não mais veja o real. Viver somente na fantasia. Ou não viver, o que mais poderia querer? Se amigos todos me fogem, se não há sequer coração em que ache o meu abrigo, se os que viram a minha loucura, não a puderam entender, que resposta ouso receber? Amanhã, amanhã, também me vou. Mas não tenho tempo contado nesse universo insano em que me trancafiei, amanhã pode ser amanhã ou depois ou talvez nunca. Como saber? Conto tão somente a vocês este segredo. Uma ânsia e um medo me tomam. O vento a bater na janela, e em minha frente sem que possa ver a morte que em forma de ave a mim se apresentou. Esbravejo: que apenas minha solidão me reste! Espanto a ave traiçoeira e apenas fica o eco da sentença a que me condenou: -Nunca mais! É esta a resposta a todas as questões que me assaltavam. Eu ainda sofrendo minhas mesmas emoções, coisas que me acontecem costumeiramente. Posso fechar-me aos olhares do mundo. Esconder-me a face do espelho que me mente, mas aos outros se mostra conivente. Ser o que fui, ou o que seria no que acredito real mesmo que seja tão somente fantasia. Ilusão, bem sabe que posso continuar como se nada houvesse acontecido. Esse é meu lado meio diabólico. Sou sincero e simples, ainda que alguns me considerem um tanto complexo. Mais complexo que a vida, respondo, não posso ser, a vida, sinceramente, é a coisa mais complexa que há.  Por isso me escondo no meu interior, no infinito universo dos meus sonhos. Não obstante saiba que nunca estive tão perto do precipício. Perdido nos meus próprios sentimentos, mas a salvo (por quanto tempo?) do mundo real. Não gosto da natureza humana, muito embora me saiba extremamente humano, mas sou um humano um tanto diferente, sou um ser temperado de arte.

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