De mãos vazias

Giordana Medeiros

Vamos deixar o mundo da mesma forma que nele surgimos: de mãos vazias. O que importa o nosso sucesso, tudo que conquistamos, nossa fortuna e amigos? Se no nosso momento derradeiro, quando vir de nossos pulmões o último suspiro, nada poderemos levar conosco? E haverá uma multidão no nosso enterro, lamentando o que não pode ser alterado. A morte é o termino da vida, como o nascimento é o início. A vida é tudo que conseguimos construir nesse interregno, que por mais longo que seja (talvez vivamos cento e cinqüenta anos), ou curto (todos podemos morrer jovens, no auge da vida, como dizem), jamais nos saciaremos de viver. Parece que gostamos da amarga sobrevivência e imploramos: “mais um dia, mais um dia…” Mas morrer não é nada demais, sejamos francos. Deixamos nossa matéria e libertamos nossa alma da dor. Todavia, quem não prefere viver, na mais tormentosa existência, a morrer? Porque tememos o que porventura possa existir no pós-vida. Será que há um mundo dos mortos governado por Hades? Ou um paraíso em que nossa alma estará finalmente em paz? O que nos espera do outro lado? Sei que quando cerrar meus olhos pela derradeira vez, espero que haja alguma coisa. Afinal, a televisão, os filmes, as religiões e os homens em geral fizeram tanto alarde sobre a morte, que será muito decepcionante morrer e descobrir que é apenas o fim. “A gente morre e fim”. Diria minha sobrinha. E se não há aquela Divina comédia maravilhosa de Dante, o que nos espera afinal? O nada? O vazio de nossa existência refletirá no não existir mais? E se estamos caminhando para o nada, qual o sentido da vida? As coisas que sonhamos, o mundo que imaginamos o que sentimos enfim, tudo que compõe o viver, será que tudo isto não tem qualquer importância? A resposta as nossas dúvidas é que o que somos não interessa, é preterível. A morte nivela todos os homens. O corpo de qualquer homem deteriora-se, sabem como é: “do pó viestes ao pó retornarás”. E é isso. O homem que é enterrado como indigente numa vala comum tem tanto quanto o rico fazendeiro enterrado num jazigo. Carne podre, ossos, pó e fim. Contudo não quero dizer que não há uma dor provocada pela morte. Eis que restamos nós aqui, sobreviventes, lamentando a saudade que nos sacrifica. Aquele que morre leva de nós a sua deliciosa companhia. E, vez em quando, lembramos de como nos agradava a sua presença, de como nos divertíamos e éramos felizes juntos, que uma lágrima, com uma dor que tem o volume de uma cachoeira, desce furtivamente pela nossa face. E queríamos ter apenas mais um dia ao lado de quem nos deixou, um dia para poder dizer o que sentíamos, uma oportunidade de falar: “olha você é importante para nós, não nos deixe.” Porém, nos escapa essa oportunidade. A morte sempre nos surpreende, por mais que saibamos que possa ocorrer, sofremos infinitamente. Porque saudade dói no infinito. E saber que nunca mais poderemos estar com quem amamos é a pior parte. Ficamos rendidos, desnorteados, impossibilitados de fazer qualquer coisa para ajudar. Talvez por isso choremos. Lamentar é o que nos resta. Nunca vai se apagar de nós aquela presença que não sabíamos o quanto era importante. E em vida não demos o valor que merecia. E por mais que tenhamos momentos felizes sempre haverá uma cadeira vazia, aquele sorriso marcante, que não veremos mais. Isso machuca sobremaneira. Mas viver implica em morrer. Sei disso, nós sabemos disso. “Uma ponte entre dois nadas”. Uma explosão em meio ao vazio e assim surgiu o universo. Sabemos como a dor nos corta. E que estaremos sós no fim de nossos atos. Porque a vida de cada homem é apenas um ato da imensa peça que representamos. A morte ocorre no momento em que deixamos cair nossas máscaras. E não podemos representar nossos papéis aos quais nos acostumamos. Ficamos fracos e desprotegidos. “Como a morte é solitária, meu Deus!” E o por mais incrível que pareça, sabendo que o nosso barco está furado, nos flagelamos tentando remar não se sabe para onde. O destino é quando a ceifadora implacável aparece. “Aí, meu bem, nosso barco afunda.” Mas somente o fato de ver quem queremos bem remando, nos dá uma vontade (idiota) de remar também. Com a visão da morte no nosso encalço e a vida dizendo adeus, ainda estamos a implorar: “mais um dia, só mais um dia…”

“Ai, que não suporto mais falar de morte. Parece que ela vai me cercando por toda parte.” Será? Provavelmente a morte vai nos alcançando devagarinho. Vai se aproximando sorrateira. Até o dia que quando estivermos bem distraídos ela cai sobre nós e então, haverá mais um caixão vendido na funerária na esquina. Uma coisa sabemos: cada dia alguém bate a nossa porta e tenta nos convencer a desistir. E o mais engraçado é que persistimos, coisa esquisita não? E chamam essa idiotice de esperança. Coisa maluca! Esperança vem de “espera que cansa” por isso, juntando tudo, resulta nessa palavra verde, com que nomearam um inseto mirrado que de vez em quando entra em nossas casas e não queremos espantá-lo porque dizem trazer sorte. A sociedade em geral nos faz crer em coisas absurdas. Fantasias paranóicas. Coisas que queremos acreditar mesmo sabendo ser mentira. Nossa vida é uma tolice absurda a que conferimos credibilidade por nossa mais terrível vaidade. E a morte é quando o mundo vem nos cobrar nossas dívidas. Sem saldo em nossos espíritos para pagar o que devemos, temos de entregar a única coisa que ainda possuímos. E lá se vai nossa vida, com a cobradora mais inflexível que existe. Imagina se tivéssemos de pagar todas nossas dívidas com nossa vida? Houve um tempo que assim o era. Nos tempos em que Shakespeare escrevia O mercador de Veneza. Mas à morte não há como ludibriar. Ela é tal qual a Esfinge que previa o destino de Édipo muito antes de este ver-se na situação terrível de parricida e incestuoso. Dizem que a morte é meio esfingética também. Qual será a charada que ela prepara para nós? Será que a vida é a nossa resposta? Nós estamos vivos, perdidos em dúvidas e apavorados quanto à possibilidade da morte. E queremos realmente dizer algo, mas quando nos vem à mente algo que valha pena dizer, as palavras fogem. Ficamos mudos como paspalhos frente a frente com o fim e nem conseguimos dizer alguma coisa. Não é como nos filmes que sempre no momento da morte há a possibilidade de se confessar culpado, ou inocente, ou o que quer que seja. “A gente morre e fim.” (Minha sobrinha é uma filósofa). A vida é muito dura conosco, mas ensina muita coisa. Por exemplo, que aquilo que nos fere também nos cura. Saudade corta como navalha, nós sentimos uma falta imensa, mas essa dor é importante, para ocupar o imenso vazio que aquele que se foi deixou. Então, na nossa alma a dor vem em vagas (devemos saber que vai latejar eternamente), um minuto em que a gente pensa ter esquecido, ocorre qualquer coisa que nos faz lembrar. “Era assim, foi daquele jeito…” Coração é coisa engraçada, aperta, mas quem diz para ele o que sentir é o cérebro. E o nosso tem uma memória incrível. E é meio imbecil também. Sabe que dói, mas apresenta a ferida. Nós vamos cutucando para sangrar mais. E nossas almas azuis, como o céu de inverno, ficam cinzas com as chuvas da primavera. Destino é uma palavra forte. É a que o mundo confere o poder de ser inevitável. Se as Moiras, que estão com nossas vidas na mão, sabem bem o que fazer com elas, porque não o sabemos? Será que podemos interferir no nosso futuro? “Olha aqui caras divindades, a partir de agora somos nós que mandamos nessa espelunca, pode deixar que nós sabemos o que fazer da nossa própria vida!”  E uma dúvida me ocorre: será? Se, na nossa existência, vamos nos descuidando de nós, porque são tantas obrigações, tantas urgências que não se resolvem que vamos esquecendo até mesmo de viver… E lembramos que tínhamos uma vida somente no momento da morte, em que arrependidos imploramos: “mais um dia, mais um dia…” Mas a Morte não tem piedade, comiseração não se encontra em seu dicionário. Sozinhos no fim, tentamos lembrar de tudo que fizemos, também de tudo que não fizemos e lamentamos não termos mais tempo. E nos recordamos que a felicidade, que tínhamos, desperdiçamos em coisas que não levaríamos conosco. Poderíamos ter dito mais “eu amo você”, mas estávamos muito preocupados com a fatura do cartão de crédito; poderíamos ter feito nossa família sentir-se mais amparada, entretanto estávamos ocupados em nossos empregos procurando dar mais lucro a nossos patrões. Poderíamos ter feito tantas, mas tantas coisas, porém estávamos muito entretidos em ascender profissionalmente que esquecemos que na morte, saímos do mundo como entramos: de mãos vazias. E só no nosso momento final percebemos que desperdiçamos o bem mais precioso que possuíamos: nossa vida.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: