Se…

Giordana Medeiros

Se não houvesse faltado energia ontem de madrugada e ela não tivesse acordado atrasada para o trabalho talvez em função disso o chefe não a houvesse demitido, numa ligação áspera e humilhante. Se soubesse da demissão alguns minutos antes, não teria de tomar banho, pois o chuveiro estava queimado e ela foi obrigada a lavar-se na água fria, num dia de inverno, com a água congelando até os ossos. Assim, provavelmente, não teria se resfriado. Se ao preparar o café e a torradeira não estivesse quebrada as torradas não teriam queimado. Se as torradas não queimassem não teria de beber apenas o que restava de leite em casa. Mas, se, também houvesse ensinado o gato a não subir na mesa, ele não haveria derrubado o último copo de leite da casa, e depois de tudo ela ainda tivesse de juntar o que lhe restava de dinheiro para comprar leite no mercado.  Se o ferro de passar roupa não estivesse quebrado desde a semana passada, não seria necessário vestir a mesma roupa de ontem, para ir ao mercado.  Se ela tivesse concertado a campainha, o entregador não teria deixado o jornal na porta e o cachorro do vizinho não teria rasgado as notícias do dia. Se pudesse ler o jornal saberia que o Eixão estaria interditado e teria evitado o engarrafamento do Eixinho. E se tivesse trocado a antena, talvez o rádio do carro sintonizasse melhor as estações e ela não seria forçada a tentar sintonizar-las manualmente. E se não tivesse se distraído com o rádio não teria batido o carro na traseira de outro e fosse levada a ter uma discussão com o motorista do carro da frente que a deixou irritada, principalmente porque ela não tinha seguro e teria de arcar com o concerto sabe-se lá como. E se não fosse o acidente, não teria de perder horas no mecânico para desamassar a frente do carro, de modo que ao chegar ao mercado não haveria filas imensas nos caixas. Se não tivesse de esperar tanto no supermercado, provavelmente não teria dado tempo de roubarem-lhe o carro no estacionamento. E se ela não tivesse corrido atrás dos assaltantes que dirigiam o veículo, talvez as sacolas de compras não houvessem se rasgado e tudo que ela comprou não teria se espalhado na estrada. Se não recolhesse as compras no chão e tentasse levar as coisas que não tinham se quebrado ou estragado com a queda, nas mãos até em casa, possivelmente não teria de andar tanto tempo a pé e o salto do sapato não teria se partido. Se com o salto partido, com o que restava de compras na mão, não tivesse parado num café para comer algo, uma vez que já se aproximava das uma da tarde e ela não havia comido nada até então, não teria pensado nas amarguras deste dia, onde tudo e todos conspiravam contra si. E se não houvesse percebido que fora de si o mundo existia, e se não tomasse o café amargo com um croissant, não conseguiria enxergar a vida externa a si mesma. E ficaria com os olhos vendados pelos reveses que insistem em ocorrer. E se não se perdoasse as próprias faltas, as dores com que se mortifica todos os dias, não conseguiria erguer-se da cadeira, pagar o lanche e encaminhar-se para o metrô onde pegaria o trem para casa. E se no caminho do metrô, com o salto quebrado, com as compras nas mãos, não pudesse compreender que a vida é mais complexa que parece e também que as dificuldades aparecem, mas sempre há a possibilidade de um milagre ocorrer, não teria secado a lágrima que lhe escorria pela face e ensaiado um sorriso. E se nesse sorriso que era quase uma afronta ao destino, um desafio ao mundo, não conseguisse expressar todo o sentimento que a assaltava, talvez não conseguisse enfrentar a terrível batalha de ser, cujos rounds estava perdendo até então.  E se no trem não pudesse perceber que a sua volta há toda uma sociedade, pessoas que lutam contra e pela vida, não enxergaria em si uma possibilidade de tudo mudar. E se não conseguisse encontrar em si a saída do intricado labirinto que é ser, não teria forças para descer na estação, e, no mar de pessoas em que se inseria, continuar vivendo. E se não conseguisse encontrar caminhos, atalhos para o destino que lhe sorri inalcançável, talvez não pensaria em tudo que implica viver, que não é apenas existir. Pois se pode existir sem usufruir das benesses que lhe concede o universo. Mas e quando o infinito que lhe é externo também lhe nega aquilo que pretende?  E se a vida segue uma ordem natural, o que lhe concede a natureza quando tudo parece estar tão distante? Ela queria muito mais. E se não desejasse receber mais do que o mundo poderia dar? E se não quisesse, e se pudesse e se fosse possível enfim? E se tudo se resumisse a imagem que ela enxergava pela janela do trem, antes de entrar no túnel, tudo sendo, mesmo quando ser é existir? Mas se fosse possível saber todas as respostas para o enigma da vida, ser seria viver, mas viver mesmo, com esperança e sonhos, sonhos que lhe escapam tão logo ela desperta, pois os deuses negam aos homens a possibilidade de viver o sonho em vida. A fantasia está restrita ao irrealizável. E se percebesse que deixara as chaves de casa no carro, que fora roubado, e se desejasse iniciar o dia de outra forma? E se uma nova existência fosse possível? Se lhe fosse concedida uma segunda chance? E sentada no batente com as compras na mão perdia-se em divagações e ses que não eram mais que uma possibilidade muito remota.

Se com a expressão desolada, não aguardasse sabe Deus o que, na soleira da porta, o vizinho não a haveria auxiliado. Se ele não arcasse com os custos do chaveiro, ela provavelmente não poderia dormir em casa aquela noite. Mas se o vizinho não fosse tão solícito, de modo que, compadecido de sua dor a reconfortasse com um abraço, provavelmente ela não o enxergaria de outra forma com a qual não o via até então. E se ele não a auxiliasse telefonando para o chefe dela, é bem provável que ela não tivesse reconquistado o emprego, prometendo jamais se atrasar novamente. Se ele não a lembrasse da comida do gato, é possível que se esquecesse de alimentar seu bichano.  Se a lata não caísse no chão e ambos fossem resgatá-la não teriam tocado as mãos e os olhares não haveriam se cruzado. Então se o destino não houvesse seguido da forma como seguiu, se os reveses não houvessem ocorrido, se não perdesse tanto nesta luta diária que é sobreviver, talvez nada do que ocorria agora seria real.  O real que não é apenas sonho, pois vivendo a fantasia na realidade, temos de ter cuidado para não fazer do sonho nosso mestre, como diria Kipling. Eis que quando cerramos os olhos no sono abrimos a mente para o impossível. O sono nos desperta para o irreal.  Tudo que se passa no sono, é o que na verdade desejamos. Mas não temos sequer coragem de realizar. E se tudo que desejamos fosse real e alcançável? E se nos perdêssemos nas divagações que implicam o entendimento? E se tentássemos entender a lógica do destino? Se não aceitássemos que há uma razão para este que não compreendemos e contra a qual é inútil lutar?  Se a personagem desse conto sofreu todo este dia como uma pena que era necessária para poder, finalmente, encontrar a cura dos dissabores da existência, porque também não o podemos? Se pudermos nos encontrar com o Triunfo e a Derrota e a estes dois impostores tratarmos da mesma maneira, como escreveria Kipling, se está ao nosso alcance sermos mais que a quimera do Triunfo e a hydra da Derrota, considerarmos a ambos os monstros que são e usarmos nossas espadas da razão para enfrentar-los, teremos a certeza que somos muito mais que o produto de nossas escolhas.  “Se conseguimos suportar escutar as verdades que dizemos distorcidas pelos que nos querem ver cair em armadilhas ou encarar tudo aquilo pelo qual lutamos na vida ficar destruído e reconstruirmos tudo de novo com instrumentos gastos pelo tempo”¹, nos saberemos enfim homens.  E que necessitamos de muito pouco para sermos felizes. Devemos preencher cada minuto dando valor aos segundos que passam, sem nos deixarmos abater pelas ofensas de amigos ou inimigos, nem pelos imprevistos que insistem em ocorrer. Se tudo parece estar contra nós, se a solidão nos encarcera, eis que temos as chaves de nossas masmorras internas. Só precisamos confiar em nós mesmos mesmo quando todos desconfiam de nossas idéias e duvidam de nós.  Mas aceitemos nossas dúvidas, que o se, seja tão somente uma possibilidade e não uma barreira. Para que possamos contorná-lo tornando-o real. E se tudo fosse apenas um se, e não fosse mais que um sonho, e se nada que se escrevesse aqui fosse muito mais que sementes de ilusão lançadas no espaço, no infinito das almas humanas?  E se fosse perdido o real sentido desta história no cyber espaço, no qual se sonha em códigos binários? Se o se fosse compreendido de maneiras diversas do pretendido, se o se de possibilidade, se tornasse sentença?  Se num único e derradeiro passo se arriscasse tudo por uma ninharia, coisas da qual nem mesmo precisamos, mas se tem força de refazer tudo que foi estupidamente perdido, se fosse possível terminar este conto numa certeza e não apenas numa feia possibilidade, haveria se encontrado a solução dos dilemas aqui expostos? Mas não há sequer idéias para continuar. A história vai se desfazendo em dúvidas. Mas se num último arroubo de inspiração pudermos trazer a tona, uma esperança tênue, que preencha estas últimas linhas de algo mais que desilusões, talvez não critiquem sobremaneira os que tiverem paciência de dedicar à leitura deste conto alguns minutos. Não se condenem afinal, não temos culpa, não fomos nós que fizemos as coisas ficarem desse modo que não compreendemos, e que não entenderíamos nunca. As coisas vão dar certo. Tenhamos fé. O se que nomeia este conto é muito mais que uma expectativa, é uma certeza, mesmo quando tudo parece seguir por densas neblinas, há ainda o acaso que nos socorre. Se a vida se limita ao se faça dessa contingência as bases de uma evidência.

  1. Se, Rudyard Kipling
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Uma opinião sobre “

  1. Se não tivesse lido esse texto, talvez não pensaria em como o destino nos conquista, mesmo que de maneiras tortas.
    Fazia um tempo que não passava por aqui. Adoro seus textos, adoro vc!

    Beijo beijo querida! Espero te ver mais.
    ^.^

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