Arquivo do mês: julho 2011

    “Fear no more, says the heart.”

Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway

O mundo dos sonhos, o corvo e a realidade

Giordana Medeiros

E agora? O que faço? Agora que acabou esse espetáculo, que não posso mais interpretar meu papel, que a fantasia virou realidade, o que devo fazer? Se não estou mais dentro da zona de segurança que criei para mim, no perigo imediato de estar são, onde estarei seguro? A minha história não ocorreu, foi tudo ilusão e só. Não posso reconhecer-me no espelho: não era esta imagem que me atribuía! O pior é que ainda tento me esconder sob as mentiras que cultivei na minha mente. E delirando nem consigo perceber que, o que finjo ser passado, na verdade, está tão somente no futuro. Procurando botes salva-vida, afogando-me na confusão de minha mente, tento evitar perder-me de mim. O que sou, o que era, o que serei? Confundem-me os tempos verbais: pretérito preterido, presente pressentido, futuro, irremediável? Conto meus passos até em casa, falta pouco, falta pouco… Mas onde me encontro, não me encontro, estou sem norte, navegando pelas correntes, em que tudo tende a ser extremamente ruim. E desconfio que nesse dilúvio de verdades não haja mais lugar algum para minha fantasia. Poder fingir que não existo quando estou aqui. Não sou eu, não sou eu… Quem sou eu? Responda-me nos sonhos que só em sonho é possível me encontrar. Não nesse mundo que é palpável, onde não se pode ser etéreo. No meu universo interno, que a realidade condena, com um sopro aboliu-se o tique-taque dos relógios. Aqui, onde tenho carne e sangro, o tempo a tudo devora. As pessoas perseguiam-me e foi no abrigo de minha mente em que me escondi. Onde ninguém até agora foi capaz de encontrar-me. Meu mais secreto esconderijo, como aqueles que procurávamos na infância. E foi nesse lugar, longe do mundo, que, ironicamente está inserido dentro dele, em que me encontrei quando não me procurava. Tão longe e ainda assim tão perto. Fui erigindo a vida que necessitava, porque o desejo era tão urgente quanto uma necessidade. E, imerso em divagações acabei por revelar meu lugar secreto. As pessoas que me oprimiam puderam ver o que de todos escondia. Não houve quem compreendesse e, tomados de terror, devastaram a terra que era meu lar. Fui lançado violentamente no real. Com os passos trôpegos de quem não sabia como locomover-se, fui aprendendo a ser quando ser é existir, porque o que era não existia. Pode haver vida na imensidão infinita de meu espírito, mesmo que seja inconcebível fisicamente. Não quero saber do que é possível, pois a plausibilidade é a amarra da existência. Eu sou uma página muito escrita, reescrita, rasurada e amarrotada que não tem qualquer serventia. Só eu encontro lógica nos meus borrões. Garranchos que vão traduzindo o que sou. Mas ninguém compreende, ninguém entende, ninguém consegue ver o que vejo. Meus olhos não se adaptam a tecnologia, não enxergo o mundo sob o ângulo que todos vêem, mas não vêem. Estou isolado na minha incapacidade de ser apenas humano. O que sinto é parecido com um sonho, como dormir, mas quando todos estão acordados. E vou nesse presente/passado/futuro que se fundem no meu espírito, navegando pelas ondas sobre a concha que transportava a divindade fruto da espuma do mar. E assim nasço, nesse mundo físico cheio de normas à quais não me adapto, e acho isso, contrariamente ao considerado normal, motivo de pêsames. As pessoas roubaram-me a vida, pois tomaram de mim os sonhos que nutria, e sei que a vida só pode ser vivida no sonho. Viver o real é limitar-se. Há tanto espaço no espaço infinito de nossas mentes. E se nesse universo infinito em que nos sentimos minúsculos, quando nos damos conta do que somos compostos, sentimo-nos imensos. Nossa mente comporta tanto sonho. Minhas revelações são obscuras, vou fechando-me à sociedade, tenho de fugir para mim. Em mim, só em mim, é possível viver. Pois o exterior é agressivo. O mundo me mata a cada segundo. Ainda bem que existem outros dias, outros sonhos, risos e outras coisas. Mesmo que tão somente no meu oásis de fantasias que se encontra no meio desse deserto de realidade. O infinito em mim que não se acaba. O infinito que é nunca ou sempre, ou quase nunca, ou, ainda, quase sempre. Sentindo sem poder sentir, sofrendo sem poder sofrer, abro meu coração, sem saber por que.

Ver a vida sem ilusão faz dela uma coisa horrível. Intragável. É um mau hábito escrever. Falseia a vida. Num minuto achamos que estamos a sofrer intensamente, quando não passa de fingimento. Na verdade nem sou triste assim. Mesmo sufocado pelo real, perdendo as lembranças que criei para mim. Coisas que acreditava com todo meu ser. O meu ser imensidão, não esse ridículo corpo de que o mundo se ri. Não sou tão ingênuo quanto pensam, posso ser perigoso, trago em minha manga um luminoso punhal que não hesitarei em usar caso e se for preciso. A vida parece vazia. Eis que uma mosca passa zumbindo por mim. Não criei moscas no meu paraíso interno. Não existem excrementos ou carne podre onde possam se proliferar. A realidade não esconde seus opróbrios. Não sei por que acabei por expurgar do meu mundo o que o macularia. Não há sequer nódoa que manche a superfície alva desse meu eu profundo. Histórias que me perseguem até o quarto, me acompanham no trabalho, sempre comigo, mesmo que ninguém as vejam. Envolto nos lençóis de pensamentos, num mundo frio, baço, como se estivesse com neblina perpétua, verdades mordazes me alcançam. Como curar a loucura que se apossa de mim? Quando por vontade deliberada quero estar sempre nessa cômoda existência? Um mundo de faz de conta que não se pode ignorar. Escondido atrás das cortinas, o inimigo da vida cotidiana. Não posso viver aqui. Não posso viver assim: sem poder me socorrer nas fantasias que trago comigo. Nessa meia noite agreste em que recebo a visita (inesperada?) da morte, ela se apresenta como a única saída…  E agora? Que não posso fugir de mim, que não posso escapar do mundo, que não acho qualquer abrigo nessa realidade hostil, o que farei? Uma visita tardia que pede entrada em meus umbrais. Então, o que resta? Devo abrir a janela para que possa entrar? É possível escapar da derradeira cura que se me apresenta para a vida? Devo dizer a este senhor, ou senhora, que deveria decerto me desculpar, que eu ia até adormecendo, quando ela vinha batendo, tão levemente em minha janela. Dizendo, tentadora, que a acompanhasse até nunca mais. Nunca mais é uma sentença perpétua demais para mim. As trevas das dúvidas me assolando, perdido em meio a possibilidades absurdas. Tais sonhos que fui sonhando aos quais ninguém nunca sonhou iguais. Um corvo que me fura os olhos para que não mais veja o real. Viver somente na fantasia. Ou não viver, o que mais poderia querer? Se amigos todos me fogem, se não há sequer coração em que ache o meu abrigo, se os que viram a minha loucura, não a puderam entender, que resposta ouso receber? Amanhã, amanhã, também me vou. Mas não tenho tempo contado nesse universo insano em que me trancafiei, amanhã pode ser amanhã ou depois ou talvez nunca. Como saber? Conto tão somente a vocês este segredo. Uma ânsia e um medo me tomam. O vento a bater na janela, e em minha frente sem que possa ver a morte que em forma de ave a mim se apresentou. Esbravejo: que apenas minha solidão me reste! Espanto a ave traiçoeira e apenas fica o eco da sentença a que me condenou: -Nunca mais! É esta a resposta a todas as questões que me assaltavam. Eu ainda sofrendo minhas mesmas emoções, coisas que me acontecem costumeiramente. Posso fechar-me aos olhares do mundo. Esconder-me a face do espelho que me mente, mas aos outros se mostra conivente. Ser o que fui, ou o que seria no que acredito real mesmo que seja tão somente fantasia. Ilusão, bem sabe que posso continuar como se nada houvesse acontecido. Esse é meu lado meio diabólico. Sou sincero e simples, ainda que alguns me considerem um tanto complexo. Mais complexo que a vida, respondo, não posso ser, a vida, sinceramente, é a coisa mais complexa que há.  Por isso me escondo no meu interior, no infinito universo dos meus sonhos. Não obstante saiba que nunca estive tão perto do precipício. Perdido nos meus próprios sentimentos, mas a salvo (por quanto tempo?) do mundo real. Não gosto da natureza humana, muito embora me saiba extremamente humano, mas sou um humano um tanto diferente, sou um ser temperado de arte.

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De mãos vazias

Giordana Medeiros

Vamos deixar o mundo da mesma forma que nele surgimos: de mãos vazias. O que importa o nosso sucesso, tudo que conquistamos, nossa fortuna e amigos? Se no nosso momento derradeiro, quando vir de nossos pulmões o último suspiro, nada poderemos levar conosco? E haverá uma multidão no nosso enterro, lamentando o que não pode ser alterado. A morte é o termino da vida, como o nascimento é o início. A vida é tudo que conseguimos construir nesse interregno, que por mais longo que seja (talvez vivamos cento e cinqüenta anos), ou curto (todos podemos morrer jovens, no auge da vida, como dizem), jamais nos saciaremos de viver. Parece que gostamos da amarga sobrevivência e imploramos: “mais um dia, mais um dia…” Mas morrer não é nada demais, sejamos francos. Deixamos nossa matéria e libertamos nossa alma da dor. Todavia, quem não prefere viver, na mais tormentosa existência, a morrer? Porque tememos o que porventura possa existir no pós-vida. Será que há um mundo dos mortos governado por Hades? Ou um paraíso em que nossa alma estará finalmente em paz? O que nos espera do outro lado? Sei que quando cerrar meus olhos pela derradeira vez, espero que haja alguma coisa. Afinal, a televisão, os filmes, as religiões e os homens em geral fizeram tanto alarde sobre a morte, que será muito decepcionante morrer e descobrir que é apenas o fim. “A gente morre e fim”. Diria minha sobrinha. E se não há aquela Divina comédia maravilhosa de Dante, o que nos espera afinal? O nada? O vazio de nossa existência refletirá no não existir mais? E se estamos caminhando para o nada, qual o sentido da vida? As coisas que sonhamos, o mundo que imaginamos o que sentimos enfim, tudo que compõe o viver, será que tudo isto não tem qualquer importância? A resposta as nossas dúvidas é que o que somos não interessa, é preterível. A morte nivela todos os homens. O corpo de qualquer homem deteriora-se, sabem como é: “do pó viestes ao pó retornarás”. E é isso. O homem que é enterrado como indigente numa vala comum tem tanto quanto o rico fazendeiro enterrado num jazigo. Carne podre, ossos, pó e fim. Contudo não quero dizer que não há uma dor provocada pela morte. Eis que restamos nós aqui, sobreviventes, lamentando a saudade que nos sacrifica. Aquele que morre leva de nós a sua deliciosa companhia. E, vez em quando, lembramos de como nos agradava a sua presença, de como nos divertíamos e éramos felizes juntos, que uma lágrima, com uma dor que tem o volume de uma cachoeira, desce furtivamente pela nossa face. E queríamos ter apenas mais um dia ao lado de quem nos deixou, um dia para poder dizer o que sentíamos, uma oportunidade de falar: “olha você é importante para nós, não nos deixe.” Porém, nos escapa essa oportunidade. A morte sempre nos surpreende, por mais que saibamos que possa ocorrer, sofremos infinitamente. Porque saudade dói no infinito. E saber que nunca mais poderemos estar com quem amamos é a pior parte. Ficamos rendidos, desnorteados, impossibilitados de fazer qualquer coisa para ajudar. Talvez por isso choremos. Lamentar é o que nos resta. Nunca vai se apagar de nós aquela presença que não sabíamos o quanto era importante. E em vida não demos o valor que merecia. E por mais que tenhamos momentos felizes sempre haverá uma cadeira vazia, aquele sorriso marcante, que não veremos mais. Isso machuca sobremaneira. Mas viver implica em morrer. Sei disso, nós sabemos disso. “Uma ponte entre dois nadas”. Uma explosão em meio ao vazio e assim surgiu o universo. Sabemos como a dor nos corta. E que estaremos sós no fim de nossos atos. Porque a vida de cada homem é apenas um ato da imensa peça que representamos. A morte ocorre no momento em que deixamos cair nossas máscaras. E não podemos representar nossos papéis aos quais nos acostumamos. Ficamos fracos e desprotegidos. “Como a morte é solitária, meu Deus!” E o por mais incrível que pareça, sabendo que o nosso barco está furado, nos flagelamos tentando remar não se sabe para onde. O destino é quando a ceifadora implacável aparece. “Aí, meu bem, nosso barco afunda.” Mas somente o fato de ver quem queremos bem remando, nos dá uma vontade (idiota) de remar também. Com a visão da morte no nosso encalço e a vida dizendo adeus, ainda estamos a implorar: “mais um dia, só mais um dia…”

“Ai, que não suporto mais falar de morte. Parece que ela vai me cercando por toda parte.” Será? Provavelmente a morte vai nos alcançando devagarinho. Vai se aproximando sorrateira. Até o dia que quando estivermos bem distraídos ela cai sobre nós e então, haverá mais um caixão vendido na funerária na esquina. Uma coisa sabemos: cada dia alguém bate a nossa porta e tenta nos convencer a desistir. E o mais engraçado é que persistimos, coisa esquisita não? E chamam essa idiotice de esperança. Coisa maluca! Esperança vem de “espera que cansa” por isso, juntando tudo, resulta nessa palavra verde, com que nomearam um inseto mirrado que de vez em quando entra em nossas casas e não queremos espantá-lo porque dizem trazer sorte. A sociedade em geral nos faz crer em coisas absurdas. Fantasias paranóicas. Coisas que queremos acreditar mesmo sabendo ser mentira. Nossa vida é uma tolice absurda a que conferimos credibilidade por nossa mais terrível vaidade. E a morte é quando o mundo vem nos cobrar nossas dívidas. Sem saldo em nossos espíritos para pagar o que devemos, temos de entregar a única coisa que ainda possuímos. E lá se vai nossa vida, com a cobradora mais inflexível que existe. Imagina se tivéssemos de pagar todas nossas dívidas com nossa vida? Houve um tempo que assim o era. Nos tempos em que Shakespeare escrevia O mercador de Veneza. Mas à morte não há como ludibriar. Ela é tal qual a Esfinge que previa o destino de Édipo muito antes de este ver-se na situação terrível de parricida e incestuoso. Dizem que a morte é meio esfingética também. Qual será a charada que ela prepara para nós? Será que a vida é a nossa resposta? Nós estamos vivos, perdidos em dúvidas e apavorados quanto à possibilidade da morte. E queremos realmente dizer algo, mas quando nos vem à mente algo que valha pena dizer, as palavras fogem. Ficamos mudos como paspalhos frente a frente com o fim e nem conseguimos dizer alguma coisa. Não é como nos filmes que sempre no momento da morte há a possibilidade de se confessar culpado, ou inocente, ou o que quer que seja. “A gente morre e fim.” (Minha sobrinha é uma filósofa). A vida é muito dura conosco, mas ensina muita coisa. Por exemplo, que aquilo que nos fere também nos cura. Saudade corta como navalha, nós sentimos uma falta imensa, mas essa dor é importante, para ocupar o imenso vazio que aquele que se foi deixou. Então, na nossa alma a dor vem em vagas (devemos saber que vai latejar eternamente), um minuto em que a gente pensa ter esquecido, ocorre qualquer coisa que nos faz lembrar. “Era assim, foi daquele jeito…” Coração é coisa engraçada, aperta, mas quem diz para ele o que sentir é o cérebro. E o nosso tem uma memória incrível. E é meio imbecil também. Sabe que dói, mas apresenta a ferida. Nós vamos cutucando para sangrar mais. E nossas almas azuis, como o céu de inverno, ficam cinzas com as chuvas da primavera. Destino é uma palavra forte. É a que o mundo confere o poder de ser inevitável. Se as Moiras, que estão com nossas vidas na mão, sabem bem o que fazer com elas, porque não o sabemos? Será que podemos interferir no nosso futuro? “Olha aqui caras divindades, a partir de agora somos nós que mandamos nessa espelunca, pode deixar que nós sabemos o que fazer da nossa própria vida!”  E uma dúvida me ocorre: será? Se, na nossa existência, vamos nos descuidando de nós, porque são tantas obrigações, tantas urgências que não se resolvem que vamos esquecendo até mesmo de viver… E lembramos que tínhamos uma vida somente no momento da morte, em que arrependidos imploramos: “mais um dia, mais um dia…” Mas a Morte não tem piedade, comiseração não se encontra em seu dicionário. Sozinhos no fim, tentamos lembrar de tudo que fizemos, também de tudo que não fizemos e lamentamos não termos mais tempo. E nos recordamos que a felicidade, que tínhamos, desperdiçamos em coisas que não levaríamos conosco. Poderíamos ter dito mais “eu amo você”, mas estávamos muito preocupados com a fatura do cartão de crédito; poderíamos ter feito nossa família sentir-se mais amparada, entretanto estávamos ocupados em nossos empregos procurando dar mais lucro a nossos patrões. Poderíamos ter feito tantas, mas tantas coisas, porém estávamos muito entretidos em ascender profissionalmente que esquecemos que na morte, saímos do mundo como entramos: de mãos vazias. E só no nosso momento final percebemos que desperdiçamos o bem mais precioso que possuíamos: nossa vida.

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Se…

Giordana Medeiros

Se não houvesse faltado energia ontem de madrugada e ela não tivesse acordado atrasada para o trabalho talvez em função disso o chefe não a houvesse demitido, numa ligação áspera e humilhante. Se soubesse da demissão alguns minutos antes, não teria de tomar banho, pois o chuveiro estava queimado e ela foi obrigada a lavar-se na água fria, num dia de inverno, com a água congelando até os ossos. Assim, provavelmente, não teria se resfriado. Se ao preparar o café e a torradeira não estivesse quebrada as torradas não teriam queimado. Se as torradas não queimassem não teria de beber apenas o que restava de leite em casa. Mas, se, também houvesse ensinado o gato a não subir na mesa, ele não haveria derrubado o último copo de leite da casa, e depois de tudo ela ainda tivesse de juntar o que lhe restava de dinheiro para comprar leite no mercado.  Se o ferro de passar roupa não estivesse quebrado desde a semana passada, não seria necessário vestir a mesma roupa de ontem, para ir ao mercado.  Se ela tivesse concertado a campainha, o entregador não teria deixado o jornal na porta e o cachorro do vizinho não teria rasgado as notícias do dia. Se pudesse ler o jornal saberia que o Eixão estaria interditado e teria evitado o engarrafamento do Eixinho. E se tivesse trocado a antena, talvez o rádio do carro sintonizasse melhor as estações e ela não seria forçada a tentar sintonizar-las manualmente. E se não tivesse se distraído com o rádio não teria batido o carro na traseira de outro e fosse levada a ter uma discussão com o motorista do carro da frente que a deixou irritada, principalmente porque ela não tinha seguro e teria de arcar com o concerto sabe-se lá como. E se não fosse o acidente, não teria de perder horas no mecânico para desamassar a frente do carro, de modo que ao chegar ao mercado não haveria filas imensas nos caixas. Se não tivesse de esperar tanto no supermercado, provavelmente não teria dado tempo de roubarem-lhe o carro no estacionamento. E se ela não tivesse corrido atrás dos assaltantes que dirigiam o veículo, talvez as sacolas de compras não houvessem se rasgado e tudo que ela comprou não teria se espalhado na estrada. Se não recolhesse as compras no chão e tentasse levar as coisas que não tinham se quebrado ou estragado com a queda, nas mãos até em casa, possivelmente não teria de andar tanto tempo a pé e o salto do sapato não teria se partido. Se com o salto partido, com o que restava de compras na mão, não tivesse parado num café para comer algo, uma vez que já se aproximava das uma da tarde e ela não havia comido nada até então, não teria pensado nas amarguras deste dia, onde tudo e todos conspiravam contra si. E se não houvesse percebido que fora de si o mundo existia, e se não tomasse o café amargo com um croissant, não conseguiria enxergar a vida externa a si mesma. E ficaria com os olhos vendados pelos reveses que insistem em ocorrer. E se não se perdoasse as próprias faltas, as dores com que se mortifica todos os dias, não conseguiria erguer-se da cadeira, pagar o lanche e encaminhar-se para o metrô onde pegaria o trem para casa. E se no caminho do metrô, com o salto quebrado, com as compras nas mãos, não pudesse compreender que a vida é mais complexa que parece e também que as dificuldades aparecem, mas sempre há a possibilidade de um milagre ocorrer, não teria secado a lágrima que lhe escorria pela face e ensaiado um sorriso. E se nesse sorriso que era quase uma afronta ao destino, um desafio ao mundo, não conseguisse expressar todo o sentimento que a assaltava, talvez não conseguisse enfrentar a terrível batalha de ser, cujos rounds estava perdendo até então.  E se no trem não pudesse perceber que a sua volta há toda uma sociedade, pessoas que lutam contra e pela vida, não enxergaria em si uma possibilidade de tudo mudar. E se não conseguisse encontrar em si a saída do intricado labirinto que é ser, não teria forças para descer na estação, e, no mar de pessoas em que se inseria, continuar vivendo. E se não conseguisse encontrar caminhos, atalhos para o destino que lhe sorri inalcançável, talvez não pensaria em tudo que implica viver, que não é apenas existir. Pois se pode existir sem usufruir das benesses que lhe concede o universo. Mas e quando o infinito que lhe é externo também lhe nega aquilo que pretende?  E se a vida segue uma ordem natural, o que lhe concede a natureza quando tudo parece estar tão distante? Ela queria muito mais. E se não desejasse receber mais do que o mundo poderia dar? E se não quisesse, e se pudesse e se fosse possível enfim? E se tudo se resumisse a imagem que ela enxergava pela janela do trem, antes de entrar no túnel, tudo sendo, mesmo quando ser é existir? Mas se fosse possível saber todas as respostas para o enigma da vida, ser seria viver, mas viver mesmo, com esperança e sonhos, sonhos que lhe escapam tão logo ela desperta, pois os deuses negam aos homens a possibilidade de viver o sonho em vida. A fantasia está restrita ao irrealizável. E se percebesse que deixara as chaves de casa no carro, que fora roubado, e se desejasse iniciar o dia de outra forma? E se uma nova existência fosse possível? Se lhe fosse concedida uma segunda chance? E sentada no batente com as compras na mão perdia-se em divagações e ses que não eram mais que uma possibilidade muito remota.

Se com a expressão desolada, não aguardasse sabe Deus o que, na soleira da porta, o vizinho não a haveria auxiliado. Se ele não arcasse com os custos do chaveiro, ela provavelmente não poderia dormir em casa aquela noite. Mas se o vizinho não fosse tão solícito, de modo que, compadecido de sua dor a reconfortasse com um abraço, provavelmente ela não o enxergaria de outra forma com a qual não o via até então. E se ele não a auxiliasse telefonando para o chefe dela, é bem provável que ela não tivesse reconquistado o emprego, prometendo jamais se atrasar novamente. Se ele não a lembrasse da comida do gato, é possível que se esquecesse de alimentar seu bichano.  Se a lata não caísse no chão e ambos fossem resgatá-la não teriam tocado as mãos e os olhares não haveriam se cruzado. Então se o destino não houvesse seguido da forma como seguiu, se os reveses não houvessem ocorrido, se não perdesse tanto nesta luta diária que é sobreviver, talvez nada do que ocorria agora seria real.  O real que não é apenas sonho, pois vivendo a fantasia na realidade, temos de ter cuidado para não fazer do sonho nosso mestre, como diria Kipling. Eis que quando cerramos os olhos no sono abrimos a mente para o impossível. O sono nos desperta para o irreal.  Tudo que se passa no sono, é o que na verdade desejamos. Mas não temos sequer coragem de realizar. E se tudo que desejamos fosse real e alcançável? E se nos perdêssemos nas divagações que implicam o entendimento? E se tentássemos entender a lógica do destino? Se não aceitássemos que há uma razão para este que não compreendemos e contra a qual é inútil lutar?  Se a personagem desse conto sofreu todo este dia como uma pena que era necessária para poder, finalmente, encontrar a cura dos dissabores da existência, porque também não o podemos? Se pudermos nos encontrar com o Triunfo e a Derrota e a estes dois impostores tratarmos da mesma maneira, como escreveria Kipling, se está ao nosso alcance sermos mais que a quimera do Triunfo e a hydra da Derrota, considerarmos a ambos os monstros que são e usarmos nossas espadas da razão para enfrentar-los, teremos a certeza que somos muito mais que o produto de nossas escolhas.  “Se conseguimos suportar escutar as verdades que dizemos distorcidas pelos que nos querem ver cair em armadilhas ou encarar tudo aquilo pelo qual lutamos na vida ficar destruído e reconstruirmos tudo de novo com instrumentos gastos pelo tempo”¹, nos saberemos enfim homens.  E que necessitamos de muito pouco para sermos felizes. Devemos preencher cada minuto dando valor aos segundos que passam, sem nos deixarmos abater pelas ofensas de amigos ou inimigos, nem pelos imprevistos que insistem em ocorrer. Se tudo parece estar contra nós, se a solidão nos encarcera, eis que temos as chaves de nossas masmorras internas. Só precisamos confiar em nós mesmos mesmo quando todos desconfiam de nossas idéias e duvidam de nós.  Mas aceitemos nossas dúvidas, que o se, seja tão somente uma possibilidade e não uma barreira. Para que possamos contorná-lo tornando-o real. E se tudo fosse apenas um se, e não fosse mais que um sonho, e se nada que se escrevesse aqui fosse muito mais que sementes de ilusão lançadas no espaço, no infinito das almas humanas?  E se fosse perdido o real sentido desta história no cyber espaço, no qual se sonha em códigos binários? Se o se fosse compreendido de maneiras diversas do pretendido, se o se de possibilidade, se tornasse sentença?  Se num único e derradeiro passo se arriscasse tudo por uma ninharia, coisas da qual nem mesmo precisamos, mas se tem força de refazer tudo que foi estupidamente perdido, se fosse possível terminar este conto numa certeza e não apenas numa feia possibilidade, haveria se encontrado a solução dos dilemas aqui expostos? Mas não há sequer idéias para continuar. A história vai se desfazendo em dúvidas. Mas se num último arroubo de inspiração pudermos trazer a tona, uma esperança tênue, que preencha estas últimas linhas de algo mais que desilusões, talvez não critiquem sobremaneira os que tiverem paciência de dedicar à leitura deste conto alguns minutos. Não se condenem afinal, não temos culpa, não fomos nós que fizemos as coisas ficarem desse modo que não compreendemos, e que não entenderíamos nunca. As coisas vão dar certo. Tenhamos fé. O se que nomeia este conto é muito mais que uma expectativa, é uma certeza, mesmo quando tudo parece seguir por densas neblinas, há ainda o acaso que nos socorre. Se a vida se limita ao se faça dessa contingência as bases de uma evidência.

  1. Se, Rudyard Kipling
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